Trovadores em Ordem Alfabética

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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Marisa Vieira Olivaes


1
A Lua, cantada em verso,
o Sol, ardente e fecundo,
são luzeiros do universo,
clareando os pagos do mundo!
2
A paisagem se ilumina
ante a cena sem igual:
- O rio beijando a Usina
num lindo cartão postal!
3
A paixão, com seus enredos,
quando em "êxtase" se inflama,
queima tabus, rompe os medos
do coração de quem ama!
4
Assombração ou fantasma,
nada disso me malogra...
Mas tenho até crise de asma
quando avisto... a minha sogra!
5
À tardinha, mansamente,
ofuscando a luz da rua
se encontram furtivamente
dois amantes... Sol e Lua...!
6
A vida que a gente leva...
que sempre amena ela fosse;
p'ra cada dia de treva,
um bem claro e outro, bem doce!
7
Bendigo a tecnologia
se usada for para o bem...
E que não "mate" a poesia
que todo "feito-a-mão" tem!
8
Carências... são desventuras...
qualquer coisa-de-sofrer...
Sou carente... de almas puras
que amenizem meu viver.
9
Certeiro, de mira boa,
é o que nos fala a razão;
toda mentira ressoa
com ecos de imprecisão...
10
Coração... não foste apenas
um figurante qualquer...
- Roubaste todas as cenas
da vida "desta" mulher!...
11
Dançar foi tudo que eu quis...
meu sonho desfeito em dor...
Mas finjo que sou feliz
compondo versos de amor.
12
Depois que desce a cortina,
quando o amor desata os laços,
não é um show que termina...
é a vida feita em pedaços.
13
De esperas fiz meu passado...
e compondo a vida assim,
tornei-me um barco ancorado
no cais do porto de mim...
14
De lembranças vou vivendo,
abraçada à solidão...
- E a saudade... vou moendo
na usina do coração!…
15
Desejei ser bailarina...
e foi meu sonho dourado...
Mas meu sonho de menina
permaneceu encantado...
16
Em cada verso que fiz,
pedaços de mim deixei...
o sonho de ser feliz...
o pranto que derramei...
17
Eu já me perdi no horário...
nas palavras, no caminho...
Mas, no meu imaginário,
só não perdi teu carinho!
18
Eu sempre estou na fronteira
do que é certo e o que é errado...
- Limítrofe verdadeira
entre a virtude... e o pecado...
19
Felicidade... esqueci
que jeito tem e onde mora...
Se tive um dia, a perdi
no instante em que foste embora.
20
Feliz é quem só procura,
rompendo os nós do caminho,
criar elos de ternura,
pondo algemas de carinho!!!
21
Magia é o instante - perfeito -
em que nós dois somos um,
quando, entre o seu e o meu peito,
não sobra espaço... nenhum!
22
Meu coração, ao relento,
qual mendigo, no abandono,
já não tem mais sentimento...
-bicho perdido sem dono...!
23
Meu mundo... é um mundo perdido
entre regras sem valor...
E eu só quis - sonho vencido -
viver um mundo de amor.
24
Minha alma às vezes se agita
e este mundo eu sinto avesso...
Passada a dor - fé bendita -
em Deus, vejo o recomeço.
25
Nas tantas voltas da vida
aprendi, do sofrimento,
que para toda ferida,
existe sempre um alento. ...
26
No cais da ilusão, deixei
meu coração sonhador...
E jamais desatraquei
meus lindos sonhos de amor...
27
Nos momentos de emoção,
quebro as regras que me imponho
e deixo que o coração
viaje ao mundo do sonho.
28
Nós somos dois mascarados...
você ator, e eu atriz...
dois bobos, apaixonados,
com medo de ser feliz!....
29
Nosso retrato... nós dois...
quanto amor havia então...
Agora - tempos depois -
só lembrança e solidão...
30
Os meus sonhos de menina,
réstias de luz se apagando,
são coriscos na neblina
que em silêncio vão passando...
31
... Palavras nem sempre são
só palavras, como é dito;
quando vêm do coração,
parecem vir do Infinito!
32
Para mim, nem mais nem menos;
o equilíbrio leva à paz.
Gestos grandes ou pequenos?
- Importa é o Bem que se faz!
33
Pensando a vida me ponho,
mas conclusões não alcanço...
Então, dou asa ao meu sonho,
pois de sonhar não me canso!
34
Procurei em todo canto,
um lugar para pousar...
-Ave, perdida de encanto,
fiz meu pouso em teu olhar!
35
Quando as luzes se apagarem
e a Terra, em fendas, se abrir,
se dois corações restarem,
a vida há de ressurgir!
36
Quando o “Minuano” assobia,
rasgando o espaço, imponente,
é um vendaval de poesia
soprando na alma da gente!
37
Se navegar é preciso...
Se é necessário sonhar...
eu sonho no teu sorriso,
navegando em teu olhar!...
38
Se pudesse, eu abriria
as portas do coração,
mas a chave - que ironia -
se perdeu numa ilusão...
39
Só lembrança é o que restou
do adeus que te fez distante...
Foste um vento que passou,
levando tudo por diante!...
40
Somente um beijo... quem dera
pudesse eu de ti roubar...
mas teu beijo é uma quimera
com que só posso sonhar...
41
Tem mais graça de viver
quem dá asa ao coração;
ter um simples bem-querer
é melhor... que ter razão! ...
42
Ternura... palavra doce
que o mundo esquece e não diz...
- Quem dera que o Homem fosse
só de ternura aprendiz!...
43
Toda vez que a nostalgia
invade o meu pensamento,
é nos braços da poesia
que eu sempre encontro um alento!
44
Um cenário de magia
surge aos versos que componho:
- Um reator de poesia
na imensa usina do sonho!
45
Um contraste indisfarçável,
entre nós dois, tão estranho,
é o nosso amor, indomável,
onde me enlevo e... me arranho...! ...
46
Um coração, sem amor,
um amor, sem se entregar,
são como... um vaso sem flor
e um barco... longe do mar...

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Onildo Barbosa de Campos (1924 - 2002)


1
A santa que mais incenso,
minha mãe, já bem velhinha,
sem que eu lhe diga o que penso,
meu pensamento adivinha...
2
A saudade, pensativa,
e alheia ao tempo que avança,
é uma cadeira cativa
onde a velhice descansa...
3
A tristeza aqui não mora!
Meu lar, à luz do Senhor,
feito de pedra – por fora,
por dentro é feito de Amor!
4
A vassoura do bom vento
é aquela que varre, enfim,
das ruas do pensamento,
o pensamento ruim...
5
Castigo é ter, apertado
entre as mãos, na despedida,
um lenço todo molhado
no cais-do-porto da Vida!
6
Cegos de amor, desprezados...
por este mundo de Deus,
meus olhos vivem fechados
depois da fuga dos teus!
7
Correndo, de sorte em sorte,
num desespero crescente,
a gente foge da Morte...
e a Vida foge da gente!...
8
Deus, trovador que se espelha
na inspiração mais ditosa,
compôs a trova vermelha
e deu-lhe o nome de rosa.
9
Dona Saudade, velhinha,
bordadeira paciente,
não tem agulha nem linha,
mas borda os sonhos da gente!
10
É libertando a saudade,
quando me encontro contigo,
que estendo a mão da amizade
para prender um amigo!
11
Fui vaqueiro!... Hoje, sou monge...
Minha saudade, depois,
ficou mugindo, lá longe...
na voz dolente dos bois!...
12
“Jeca Tatu” se consome
na eterna queixa de um ai:
– “Meu Deus, eu morro de fome!”
Responde a Terra: – “Plantai!”
13
Mantendo a alegria acesa,
o teu olhar, tão profundo,
criança, apaga a tristeza
dos olhos tristes do mundo!
14
Na dança e na contra-dança
desta vida, que se evade,
o sol nascente é esperança,
o por-do-sol é saudade!
15
Na fogueira abandonada,
vejo esta imagem, tristonho:
- saudade é a lenha queimada
no fogo azul do meu sonho.
16
Não há mais doce alegria
do que lembrar, ao sol-posto,
de mamãe quando fazia
trovas de beijo em meu rosto.
17
Na vida, que nos consome,
quem tiver coração nobre,
não mata o pobre de fome,
matando a fome do pobre!
18
Numa alcova abandonada,
a saudade, penitente,
a noite inteira acordada,
orvalha os olhos da gente.
19
Nunca se apresse à conquista
de alguém de muita promessa...
que o amor, à primeira vista,
foge da vista, depressa!...
20
O Morro vive cansado!…
Sem pão, sem lar, sem escolas,
é um chapéu velho emborcado,
de tanto pedir esmolas!
21
Para o céu te levaria,
em troca do teu carinho,
se me ensinasses, Maria,
onde começa o caminho...
22
– Por que a Deus, a alma volvida,
agradeço o que me deu?!
– Porque me deu tanta vida,
que a Morte já me esqueceu!
23
- Por que a gente engana o tédio
quando a lembrança é ternura?!...
- Porque a saudade é o remédio
de um mal que não tem mais cura!
24
- Por que dormir docemente,
num travesseiro sem fronha?!
- Porque a humildade da gente,
quanto mais dorme... mais sonha!
25
- Por que matar um Poeta,
se é irmão de Deus, quer viver?!
- Porque a Morte, analfabeta,
seus versos não sabe ler!
26
- Por que não se firma em pé
a alma descrente... abatida?!
- Porque, em se perdendo a Fé,
perde-se a vida da vida!
27
– Por que o Mal não tem segredo
e seu castigo está perto?!
– Porque, mais tarde ou mais cedo,
o Mal sempre é descoberto!
28
Por que o olhar de mãe, se ingrato
é o filho, nunca o magoa?!
- Porque revela o retrato
do coração que perdoa!
29
Por sobre as ondas serenas,
a gaivota, em seu compasso,
é uma tesoura de penas,
cortando o pano do espaço.
30
- Quem é Deus?! Ninguém, no mundo,
ao certo dirá! Por quê?
- Porque é o Mistério profundo
que a gente vê... mas não vê!
31
Quem vive cego de amor
– frase que trago de cor -
embora de olhos fechados,
enxerga a vida melhor.
32
Sábio é toda criatura
que vive da inteligência,
colhendo a espiga madura
do milho da experiência!
33
Saudade, vida da vida
de um sonho que se desfez.
É uma vontade incontida
de sonhar tudo outra vez!
34
Sem te esperar, desespero
se te procuro esquecer..
Pois quanto menos te quero,
mais te quero, sem querer!
35
Sou trevas!... Mas, se, a contento,
bebo luzes... ao bebê-las,
no luminoso momento,
eu viro noite de estrelas!
36
Teu amor não tem segredo,
criança. Teu coração
até parece um brinquedo
que passa de mão em mão…
37
Teus olhos, cor de esperanças,
fogem... Teimoso, os persigo!...
- Parecem duas crianças
brincando de amor comigo.
38
Três Marias, três amores
passaram pelos meus dias..
Ficou Maria das Dores,
- a dor maior das Marias!
39
Tu vives andando a esmo
por distâncias… e eu, aqui,
quando me abraço a mim mesmo,
é com saudades de ti.
40
Venho de longe… e pressinto
que para longe prossigo…
– Sem dizer tudo o que sinto,
eu sinto tudo o que digo.

sábado, 12 de agosto de 2017

Myrthes Mazza Masiero


1
Alerta: Grande perigo!
A água está em extinção;
e o nosso grande inimigo
é o ser humano, oh, irmão!
2
Amizade é sol que aquece
aonde quer que se vá.
Nem sempre o sol aparece,
mas se sabe que está lá...
3
Araras azuis, voando,
vão singrando a imensidão;
parecem fugir em bando
da ameaça da extinção!...
4
Crianças são primaveras
que enchem o mundo de cores;
as primaveras são eras
em que só colhemos flores!
5
Depois de uma tempestade
e a paz volta a florescer,
eu sinto a felicidade
de um cego que volta a ver.
6
Equilíbrio é harmonia,
prudência e moderação;
mantê-lo é manter em dia
mente sã em corpo são.
7
Eu sempre fiz ”macaquice”,
mas “mico” não pago não.
Existe coisa mais triste
que dar “topada” no chão?
8
Felicidade é uma estrela
que nasce na alma da gente . . .
Precisas reconhecê-la
para plantar a semente!
9
Franqueza, um belo costume,
de quem é franco e leal,
é faca que tem dois gumes,
pode, às vezes, ser fatal!
10
Fumo escuro, céu cinzento,
todo o ar contaminado...
e o ser humano- avarento-
mata e morre sufocado!
11
Jamais fui fiel devoto
mas tenho cá meu santuário,
cultuo ali cada foto
como se fosse um sacrário!
12
Linda turista elegante,
belo jovem refinado,
fazem do baile brilhante
um brilhante "Ano Dourado"!
13
Mãos que sustentam o mundo,
mãos recheadas de amor...
plantam o saber fecundo
são as mãos do professor!
14
Melhor seria que os versos,
com as asas da verdade,
voassem pelo universo
a espalhar sinceridade.
15
Minha paixão malograda,
sufocada entre segredos,
é como nau destroçada
batendo contra os rochedos!
16
Muita gente desvalida,
que labuta como mouro,
vive a escutar na vida
que o trabalho vale ouro.
17
Nesta vida a mocidade,
tal qual roseiras viçosas,
dá botões na flor da idade
antes de encher-se de rosas!
18
Nós somos todos um trem
carregado de ancestrais...
Temos que seguir além
mesmo entre flores e ais!...
19
O sábio é um degustador,
degusta a sabedoria,
“carpe diem” com fervor,
bebe a luz que ele irradia.
20
Quando a cabrocha aparece
descendo o morro sambando,
o povaréu enlouquece,
cai no samba rebolando!
21
Quem semeia entendimento,
jamais colhe tempestade,
esparrama aos quatro ventos
flores de fraternidade.
22
Quem tem prudência na vida
não pensa em “olho por olho”;
as ofensas não revida…
mas põe “a barba de molho”!
23
Quem sozinho se constrói
lapidando cada aresta,
se lasca, se corta e mói
mas tem sempre a alma em festa!
24
Rompamos com todo elo
dos grilhões da escravidão!
A escravidão é flagelo
que mutila o cidadão!...
25
Saudade é como cebola
que se descasca a chorar.
Mas toda mulher que é tola,
vive a cebola a cortar
26
Se, após longa tempestade,
a paz vem a florescer,
recobro a felicidade
do cego que volta a ver...
27
Sobreviver é uma arte.
É driblar a natureza,
tendo a fé como estandarte
e Deus como fortaleza.
28
Toda a noite, quando saio,
vendo o céu luminescente,
sinto a paz que é como um raio
de luar dentro da gente.
29
Um dia paguei um “mico”,
escorreguei no salão.
Não sei se encolho ou se fico
estatelada no chão.
30
Vendo este mundo violento,
irmão a matar o irmão,
pergunto: - Será que há tempo
de Deus nos dar seu perdão?...

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Aurolina Araújo de Castro (1933 - 2004)


1
A beleza em nossa vida
não vem só dos bons eventos,
mas da luta enriquecida
pelos nobres sentimentos.
2
A glória de um jangadeiro
não vem de saber pescar
mas de sair sobranceiro
das tempestades do mar.
3
Além de dar alegria,
a música é solução,
quando se quer companhia
nas horas de solidão.
4
A luz da felicidade
não tem destino qualquer.
Daí a dificuldade
de encontrá-la onde se quer.
5
A nossa felicidade
é fruto deste segredo:
- Honrar a fidelidade
sem aliança no dedo!
6
Aquele que é justiceiro
não faz julgamento vão;
sempre procura primeiro
ouvir a voz da razão.
7
A rosa, pela beleza.
alegra quaisquer caminhos
e dá prova de grandeza,
convivendo com espinhos.
8
A trova, como um veleiro,
transporta minha emoção,
e vai pelo mundo inteiro,
pondo à mostra o coração.
9
Com o evangelho do amor,
sem palmatória na mão,
Anchieta educador
foi grande em sua missão.
10
Cultura é força motriz.
que tem por meta o progresso.
no que a gente pensa e diz
e labora com sucesso.
11
Da saudade a teimosia
só consigo me livrar,
se recorro à valentia
de no pranto a sufocar,
12
Da vida belos segredos
narra o vento todo dia,
nas harpas dos arvoredos,
em forma de melodia.
13
Desfrutam de eternidade
os santos que estão no altar,
cuja ação de santidade
estão sempre a nos mostrar.
14
Dos prêmios que a vida oferta
este nos faz mais cristão:
– Ter sempre nossa alma aberta
pra dar amor e perdão.
15
Enquanto o perdão comprova
a grande força do amor,
o revide nos dá prova
da mesquinhez do rancor.
16
Estrelas em traquinadas,
à noite, brincam nos campos,
quando descem disfarçadas
com a luz dos pirilampos.
17
É tão bela a poesia
que a jangada põe no mar.
que até em hora sombria,
ela nos leva a sonhar.
18
Graças ao sonho e ousadia
de um genial brasileiro,
os aviões noite e dia
cruzam céus do mundo inteiro.
19
Harmonia refulgente,
o sol aquecendo a flor,
unindo tão docemente,
mensagem de luz e cor.
20
Lutando contra a opressão
que exterminava seu povo,
fez Zumbi, com sua ação,
surgir horizonte novo.
21
Mãe, da grandeza singela
do caminho que trilhaste,
guardo hoje, grande parcela
do exemplo que nos deixaste.
22
O brilho da lua cheia
cai suave nos caminhos,
dando a impressão que receia
acordar os passarinhos.
23
O pranto, que a dor revela,
muitas vezes vem provar
que, numa função mais bela,
pode alegria mostrar.
24
Os corruptos e tiranos,
vencendo as suas torpezas,
tornam caminhos profanos
em catedrais de nobreza.
25
O segredo do sucesso
não é querer e esperar.
Sua escalada de acesso
só perfaz quem trabalhar.
26
Posso andar no mundo inteiro,
vendo beleza e pujança,
mas é no chão brasileiro,
onde está minha esperança.
27
Quando o sucesso do irmão
em ti vem causar tristeza,
anula em teu coração
tudo que tem de grandeza.
28
Retenha e nunca distorça
o teor desta verdade:
– Quando a união faz a força.
se extingue a dificuldade.
29
Tem pauta azul infinita
a melodia do mar,
que soa bem mais bonita,
com ajuda do luar.
30
Uirapuru, quando canta,
mostra feitiço invulgar.
A passarada se encanta
e o cerca para escutar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Durval Mendonça (1906 - 2001)


1
A garoa é ouro fino
das arcas celestiais
que desce em fluido divino
na terra dos cafezais ...
2
A gente vê a poesia
mais natural e mais pura,
quando a rês, lambendo a cria,
dá-lhe um banho de ternura.
3
Ah, como são transitórias
minhas raras alegrias!
Elas me vêm de vitórias
num mundo de fantasias.
4
A lágrima, companheiro,
que reflete minha mágoa,
parece mais um braseiro
que uma simples gota dágua.
5
Aleijadinho, com traços
que o teu cinzel pôs na História,
a Via Sacra dos Passos
levou teus passos à glória.
6
Alta noite... Um sino plange...
No espaço, a lua silente
traz a arrogância do alfange
no lirismo do crescente.
7
Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu...
8
Ao fim de instantes felizes,
quando me dizes adeus,
parece, amor, quando o dizes,
que o céu vai ficar sem Deus.
9
Ao ver crianças em bando
que passam rindo, por mim,
fico feliz relembrando
os bandos que tive assim.
10
Após cruentas batalhas,
quantas lágrimas fluíram,
umedecendo medalhas
de bravos que nunca as viram.
11
A praia é cama estendida,
onde o mar e a lua cheia...
- Cala-te, boca atrevida,
não fales da vida alheia!
12
As vitórias que eu consigo
neste mundo de ilusões
vêm, por certo, dos perigos
que transponho aos trambolhões
13
A vida é roda de fogo,
gira em franco desatino...
Cartas sem naipe de um jogo
em que o parceiro é o Destino.
14
A vida... Que vale a vida?
Ela talvez nem me importe...
Pobre ampulheta invertida
nas mãos do Tempo e da Morte.
15
A vida tem seus volteios:
ora sobe, ora é descida
e arrasta nos seus rodeios
os sem-destino da vida.
16
Bateram, fui ver. À toa...
Ninguém bateu... Ilusão!
Deve ter sido a garoa
fugindo da solidão.
17
Bebo, sim!... Quanto puder!
Pois vejo, ao fundo da taça,
tua graça de mulher
fazendo minha desgraça...
18
Cachaça sempre dá jeito,
quando a saudade me abafa:
ponho a cachaça no peito
e a saudade na garrafa
19
Cai a noite e neste quarto
que há muito você não vê,
meu coração anda farto
desta escassez de você.
20
Caminhos da minha infância
que a saudade inda percorre...
Tudo morreu na distância
e esta saudade não morre...
21
Com humildade e paciência,
como juncos eu me inclino
para abrandar a inclemência
dos vendavais do destino.
22
Como a lua é lisonjeira,
quando eu canto em serenata!
Ela aplaude a noite inteira,
batendo palmas de prata.
23
Como é belo, à luz mortiça
do dia, quando desmaia,
ver o mar, que se espreguiça,
rolando, em ondas na praia
24
Como é triste o olhar parado
que, das grades da prisão,
pensativo, o encarcerado
deixa livre na amplidão...
25
Como um sino em hora morta,
após tantos dissabores,
meu coração bate à porta
de um cemitério de amores.
26
Com teu jeito assim brejeiro
de sinfonia concreta,
és o melhor travesseiro
para os sonhos de um poeta.
27
Coração, eu já lhe disse:
Tome cuidado, porque
eu faço muita tolice
depois... quem paga é você.
28
Criança brava, e atrevida
faz da vassoura um corcel
e enfrenta os mares da vida
num barquinho de papel.
29
Dai, Senhor, à criatura
deste mundo, enquanto é cedo,
um pouco mais de ternura,
um pouco menos de medo!...
30
Dos beijos, o mais terrível,
que assombrou povos inteiros,
por mais que pareça incrível,
custou só trinta dinheiros.
31
Dos teus olhos eu me esquivo,
para vencer a inquietude;
são pedras de fogo vivo
no caminho da virtude.
32
Eis o fim, penoso... amargo...
que eu tanto e tanto temia.
indiferença... letargo...
nosso amor em agonia.
33
Em desforra merecida,
porque me dá muitas sovas,
atiro pedras na vida
e minhas pedras são trovas.
34
Em meu barraco de zinco,
sem ninguém, sem afeição,
eu deixo a porta sem trinco,
mas só entra a solidão.
35
Em meu caminho sem luz,
sem pousada, sem roteiro,
eu não carrego uma cruz,
eu sofro um calvário inteiro.
36
Em nossa casa singela
do meu tempo de criança,
minha mãe vinha à janela
esperar sua esperança.
37
Emocionado e feliz,
ao vê-la altiva e formosa,
tenho pena da raiz
que não pode ver a rosa.
38
Engraçado, mas profundo,
não sei se já percebeste:
hoje, as almas do outro mundo
têm medo das almas deste.
39
Entra o sol pela vidraça
e em teu leito empalidece,
deslumbrado pela graça
que teu corpo lhe oferece.
40
Entrei nas lojas da vida,
quis comprar felicidade;
fui lesado na medida,
no preço e na qualidade.
41
Essa lágrima, luzindo
em teus olhinhos, meu bem,
é o sofrimento mais lindo
que vi no rosto de alguém
42
Essas vitórias compradas,
que a gente vê a granel,
são farsas mal disfarçadas,
desses heróis de papel.
43
Esta lágrima indiscreta,
que vês, agora, em meu rosto,
é o lamento de um poeta
na agonia do sol-posto.
44
Estas lágrimas que choro,
e você faz que não vê.
são tudo o que mais deploro,
porque as choro por você.
45
Este amor que me ofertaste
e, comovido, eu aceito
é pedra de luz no engaste
da jóia que tens no peito.
46
Este mar de cara feia,
de adamastores e lendas,
é o mesmo que, à lua cheia,
recobre as praias de rendas.
47
Este olhar perdido e triste,
na curva, longe, da estrada,
é tudo que ainda existe
de uma promessa quebrada...
48
Este sorriso em meu rosto
é, por estranha ironia,
mais filho do meu desgosto
do que de minha alegria.
49
Eu conto por sete dedos,
sete sonos que me tiras,
porque tens sete segredos
por trás de sete mentiras.
50
Eu fiquei penalizado,
ao ver-te passar, depois,
sem viço, de olhar cansado,
com saudade de nós dois.
51
Eu luto desde menino,
com bravura redobrada,
neste jogo em que o Destino
joga de carta marcada.
52
Eu não pude ver ainda
a razão desse teu pranto;
uma lágrima tão linda
não a tem quem sofre tanto.
53
Eu penso, quando tu passas,
alegre, de manhãzinha,
Nossa Senhora das Graças
deve ser tua madrinha.
54
Eu rolo desde menino,
feito pedra sem parar...
Só Deus sabe que destino
meu destino há de me dar.
55
Eu vejo, de minha rede,
nas noites quentes de estio,
a lua matando a sede
nas águas frescas do rio.
56
Eu vi a Felicidade,
toquei-a até com meus dedos...
Vi, sim, mamãe, é verdade,
numa loja de brinquedos!...
57
Exausta de solidões
de um céu escuro e vazio,
a lua busca emoções
no leito alegre do rio.
58
Felicidade - mosaico
de pedrinhas coloridas,
que, em meu destino prosaico,
não consigo ver unidas.
59
Fui ao forró distraído...
Filomena me sorriu.
Eu não lhe vi o marido...
Mas o marido me viu!
60
Lágrima a lágrima faço
de amarguras meu rosário...
Vou levando, passo a passo,
minha cruz ao meu calvário.
61
Minhas trovas são lampejos
em minha alma entristecida;
risonhos ou tristes beijos
que dou na face da vida.
62
Naqueles tempos de antanho,
de escribas e fariseus,
um homem do meu tamanho
tinha o tamanho de Deus.
63
Nenhum barco... o mar parado.
Noite... silêncio... abandono...
E o velho farol, cansado,
parece piscar de sono...
64
Noite escura!... De repente,
dois faróis surgem na estrada...
E a escuridão sai da frente
como quem foge, assustada.
65
Poças que o mar faz na areia...
Ao vê-las, paro e medito
nessa humildade tão cheia
das estrelas do Infinito.
66
Quando a noite vem descendo
e o mundo parece em calma,
existe um mundo fervendo
na inquietação de minha alma.
67
Vai o rio em cantochão...
Suas águas se lamentam.
Parecem pedir perdão
às pedras que as atormentam.
68
Vai-se o trem.. - Deixa a estação.
O silvo agudo é o sinal...
E uma lágrima no chão,
marcando um ponto final...
69
Vejo os espaços profundos
contraditando os ateus.
Há, no mistério dos mundos,
toda a evidência de um deus...
70
Vejo, perdido de amores,
por entre incertos meandros,
encantos enganadores
em teus olhinhos malandros.
71
Vejo-te sempre rolando,
indo e vindo... Que aflição!
Responde, mar, até quando
viverás na indecisão?
72
Vem, lua, pela vidraça
ver minhas noites vazias...
Um quarto frio, sem graça,
de um pobre joão sem marias.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

José Messias Braz (Juiz de Fora/MG)


1
A esperança no horizonte
do estéril chão da viagem
reflete ao moço uma fonte,
que para o velho é miragem!
2
A minha casa é um cantinho,
mas, na humildade do espaço,
tem a ternura de um ninho
e a proteção de um abraço!
3
Ante a dor que me espezinha,
a esperança se evapora…
Até a saudade que eu tinha
não quis ficar… foi embora!
4
As folhas secas parecem,
sobre a poeira no chão,
ilusões quando fenecem
no fundo do coração.
5
Até mesmo a companheira,
minha sombra magricela,
sente falta da parceira
que caminhava com ela!...
6
Até na igreja, meu Deus,
quando ela passa ante os santos,
em rondas os olhos meus
vão bebendo os seus encantos!...
7
A trova, quando termina
em perfeita construção,
é uma casa pequenina,
com requintes de mansão!
8
Cai a noite... e uma ansiedade,
no olhar materno e sombrio,
ronda um leito de saudade
que a guerra deixou vazio
9
Com seu drama, a pobre infância,
abandonada e sem lar,
é uma aurora que a ganância
jamais permite raiar.
10
Contemplo mamãe rezando...
e em seu olhar, tão bonito,
vejo a saudade buscando
uma ausência no infinito!...
11
Cruzando céus escarlates,
ferido por estilhaços,
sou gigante nos combates
e criança nos teus braços!
12
De antigos mares eu venho,
vencendo fúrias e abrolhos,
buscar a paz que só tenho
na meiguice de teus olhos!
13
Deixa o sorriso fluir,
rolar pela vida incerta...
para quem sabe sorrir,
há sempre uma porta aberta.
14
Em meu quarto, hoje sombrio,
na solidão que me invade,
brotam versos do vazio,
com requintes de saudade!
15
Em rondas, meu coração,
tropeçando, aqui e ali,
bate em busca da ilusão
que nem sei onde perdi !
16
Essa ternura, Mãezinha,
com que acalentas o filho,
parece chuva mansinha...
regando a roça de milho!
17
Eu sou pequeno, seu moço,
mas quando tiro o chapéu,
minha alma estica o pescoço
e enxerga Deus lá no Céu!
18
Meu coração é sol-posto,
mas, nos campos da quimera,
vira na flor do teu rosto,
um luar de primavera!
19
No aeroporto, o adeus, o abraço...
e no olhar... rastros de dor!
– Lá se foi, rasgando o espaço,
uma promessa de amor!...
20
No inverno longo e silente
que atinge a terceira idade
há um fenômeno envolvente:
não cai neve... cai saudade.
21
O sonho que idealizo
tem, na sua imensidade,
o tamanho do sorriso
de quem mata uma saudade!
22
Parece até uma ironia!...
Mas o medo é o meu escudo...
e, ao ver tanta covardia,
eu tenho medo de tudo!
23
Passarinhando ilusão,
pisei pomares tristonhos,
e trouxe da solidão
a renúncia dos meus sonhos.
24
Pouso Alegre, esse teu brilho
pôs-me a seguir os teus passos;
mesmo não sendo teu filho
quero morrer em teus braços.
25
Quando o inverno esfria o zinco
do meu barraco e me invade,
uma ausência puxa o trinco
e me cobre de saudade!…
26
Velha cabeça, onde os dedos
da ilusão tocam de leve,
és o outono dos segredos
que o inverno cobriu de neve!
27
Vinde, andorinhas, no estio,
festivas, em tarde mansa,
pousar no último fio
que me resta de esperança.

sábado, 29 de julho de 2017

Marina Gomes Valente


1
A flor da fraternidade
floresce no coração
de quem ama de verdade
o próximo como irmão.
2
A mulher traduz ternura,
doação, vida e amor;
colabora com doçura
com a obra do Criador.
3
As árvores são sagradas,
são um milagre da vida;
no entanto, são derrubadas
pela ambição desmedida.
4
As paixões desenfreadas,
excessos de comilança,
mostram vidas desregradas
onde falta temperança.
5
Camélia é flor delicada,
tal qual um floco de neve.
Sentida, fica queimada,
mesmo com um toque leve.
6
Capricho da natureza?!...
Mão humana em gesto arteiro?!...
Cenário de tal beleza,
só se Deus for brasileiro...
7
Com roupagens só de amor
vistamos o coração,
sem ódio e nenhum rancor
para abrigar um irmão.
8
Contemplar o mar infindo,
entender sua poesia,
ver o sol se despedindo
é sentir paz e alegria.
9
Dama da noite, de branco,
com as vestes de cetim,
enfeita à noite o barranco
transformando-o num jardim.
10
De nada vale o rancor
que só deixa cicatrizes;
tecendo laços de amor
seremos bem mais felizes.
11
Engrinaldada de flores,
surge a mais bela estação,
e a alegria chega a cores
a cantar no coração.
12
Família ideal é aquela
onde há paz, docilidade;
por mais que seja singela,
tem um quê de majestade.
13
Gorjeiam os passarinhos
na ramaria orvalhada.
Primavera, nos caminhos,
vai despertando a florada.
14
Não adianta modelar
o corpo com perfeição,
se não soubermos moldar
com amor o coração.
15
Não importa a cor da pele,
o que importa é a inspiração
de uma trova, que revele
o que sente o coração.
16
Nesta era da informática,
computadores de mão,
sugam da família, a prática
da confraternização.
17
Nesta vida o tempo ensina:
quem partilhar seu amor
a paz também dissemina,
exterminando o rancor.
18
O esforço de uma formiga,
mais que exemplo é uma lição:
seu objetivo persiga
com fé e determinação.
19
Ó geração gananciosa,
desperta, presta atenção!
A arara azul, tão graciosa,
corre o risco da extinção!
20
O sonho de uma criança
pode a nós ser aplicado:
à luz da perseverança
poderá ser realizado...
21
Para encantar a velhice,
ser tranquilo, sonhador,
há que, desde a meninice
plantar sementes de amor…
22
Paz nasce do coração
de quem aprendeu a amar
a todos, sem distinção,
porque soube perdoar.
23
Pelas ruas, no passado,
nos realejos risonhos,
um periquito amestrado
passava vendendo sonhos.
24
Plante uma árvore, amigo,
que ela é sinal de esperança.
Se não lhe servir de abrigo,
servirá a uma criança.
25
Porque a “Fé move a montanha”,
não posso deixar de crer
que esta saudade (tamanha!)
vai um dia perecer.
26
Primavera e juventude,
presentes da Providência:
cores, vida em plenitude
que alegram nossa existência!
27
Protegida, a natureza
dará frutos a granel,
flores de rara beleza
e favos prenhes de mel.
28
Quando o amor fala mais alto
o mais prudente é calar;
coração em sobressalto
dá o recado pelo olhar.
29
Quem espalha em seu caminho
a paz, o amor e a alegria,
não caminhará sozinho,
terá Deus por companhia.
30
Rosa é a rainha das flores,
outra mais bela não há;
nem mesmo, com seus primores,
a flor do maracujá.
31
Seja em estrada de ferro,
seja em estrada florida,
posso dizer e não erro:
-assim vai o trem da vida!
32
Será livre de verdade
quem fizer a diferença,
quebrando o elo da maldade
e abraçando a benquerença.
33
Sob os tons crepusculares,
sem ninguém que nos impeça,
nosso barco cruza os mares
sem destino, sem ter pressa...
34
Sobre as vagas do oceano,
voando num céu de anil,
sinto alegria e me ufano
de estar voltando ao Brasil!
35
Sonha o menino acordado
com a bola e pé no chão,
ser um craque consagrado
e integrar a seleção...
36
Sonho um mundo colorido,
flores perfumando a estrada,
sem um ai, sem um gemido
de criança abandonada.
37
Tão humilde, a margarida,
sem perfume, sem magia,
para não ser esquecida,
por entre os ramos, espia.
38
Um casal alicerçado
no amor e na compreensão
deixará grande legado
à futura geração.
39
Um desafio na vida
é vencer tribulações
e a paciência nos convida
a refrear emoções.
40
Um trevo de quatro folhas
nascido no meu jardim,
trouxe entre tantas escolhas,
muita sorte para mim.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Josafá Sobreira da Silva


1
A deturpação dos fatos
é tão comum entre a gente,
que a corrente de boatos
passou a ser voz corrente!
2
Anote e depois confira,
visando seu próprio bem:
meia-verdade é mentira,
verdade-e-meia também!
3
Ao despedir-me de ti,
sujeito a carências novas,
compenso a paz que eu perdi,
buscando alento nas trovas!
4
Ao homem muito ciumento
há um dilema que aperreia:
ou esquece o casamento,
ou casa com mulher feia!
5
A saudade é uma corrente!
Só agora percebi,
livre de ti, finalmente,
e, afinal, mais preso a ti!...
6
Casamento de verdade,
pouca gente ainda procura:
querem ter a propriedade
sem pagar pela escritura!
7
Como trabalha o rapaz!
Mas não invejo esse estilo:
- na cama, tudo o que faz
é só tirar um cochilo…
8
Da chuva não corro mais!
Não pago esse mico, ó gente:
correr dos pingos de trás
pra me molhar nos da frente?
9
Deixaste a casa vazia,
mas há um retrato na sala;
e é dessa fotografia
que o teu silêncio me fala!
10
Deus construiu, no horizonte,
onde ninguém pode ver,
uma belíssima ponte
que a gente cruza... ao morrer.
11
Dúvida é sempre clareza!
E aqui vai a explicação:
- quem duvida tem certeza
de que está em confusão!
12
Essa azul coloração
das araras a voar
coloriu meu coração
e não sei como apagar!...
13
Há um piano na cabana
que espera, de tampo aberto,
expor, à perícia humana,
seu recital encoberto!
14
Meu consolo, na tristeza,
quando, no peito, a agasalho,
é o pranto da natureza,
nas gotas tristes do orvalho.
15
Minha máscara de austero,
que eu usei com tanto gosto,
sabe o quanto eu não a quero,
mas passou a ser meu rosto!
16
Namorar em rua clara?
Nunca fiz essa loucura!
Quem tem vergonha na cara
só namora em rua escura.
17
Numa euforia tremenda,
além de qualquer limite,
ouvi o riso da agenda
ao registrar teu convite!
18
Nunca consigo a proeza
de uma bola no buraco!
Será defeito da mesa
ou defeito do meu taco?
19
O comilão não se esquenta
na fila pra ver seu peso:
ou diz que a balança aumenta,
ou fica atrás de um obeso...
20
O meu prêmio, ao fim do dia,
é um sorriso na janela
de onde os lábios da alegria
beijam os meus, antes dela!
21
Quando vovó faz faxina,
vovô teme o seu capricho,
pois ela tudo examina:
Não tem uso? Vai pro lixo!
22
Quem entra ali pra jogar
ingressa um tanto cabreiro...
Há uma placa no lugar:
“Buraco? Só a dinheiro!”
23
Se, aos gritos, me manifesto,
já perdi a discussão,
pois quem grita num protesto
já mostra não ter razão!
24
Se há barragens no percurso,
aprende a lição do rio
que, em paz, retoma o seu curso
após saudável desvio!
25
Só agora eu percebi
a ganância do coveiro:
tem buraco por aí
que é uma mina de dinheiro!
26
Sobre as águas refletidos,
nuvens...matas...céu de anil...
tudo evoca aos meus sentidos
a bandeira do Brasil!
27
Sou velho metido a moço
e ainda levo à loucura!
Se me diz: 'morda o pescoço!",
cravo nela a dentadura!
28
Surpreso por teu aceno,
com timidez e apetite,
eu, tolo, me achei pequeno
para aceitar teu convite!
29
Traz a injustiça a discórdia,
mas a justiça me assusta:
À luz da misericórdia,
nunca vi justiça justa!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Ozório Porto


1
A fonte, assim cristalina,
nascente à margem da estrada,
é obra de mão divina
ao sedento em caminhada.
2
A lua fria, indiscreta,
invadiu meu barracão;
veio confortar o poeta
que curtia a solidão.
3
Creio que a felicidade
não convive em poluição;
por isso deixa a cidade
pra viver lá no sertão.
4
De pintor vou dar-te a prova
– e sem gastar muita tinta -
revelando nesta trova
que tens oculta essa pinta.
5
Deus fez tudo tão correto,
tão medido, tão certinho…
Que é feliz o humilde teto
do mais humilde ranchinho.
6
Dormindo sonho contigo.
Acordado penso em ti.
E por isso eu não consigo
esquecer quem já perdi.
7
Essa quadrinha que eu faço,
tão simples, tão inocente,
leva da alma um pedaço,
leva um pedaço da mente.
8
Esse mal que me tortura,
que me aflige e me consome;
esse mal, assim, sem cura,
só eu sei… Tem o teu nome.
9
Eu andei sempre correndo
por este mundo sem fim;
acabei envelhecendo
sem sequer lembrar de mim.
10
Foi-me dado um dia, em sonho,
minha infância reviver:
Brinquei, corri, fui risonho
e fui feliz a valer.
11
Já vi rio em chama ardente,
já senti calor da lua,
mas não vi, até o presente,
falsidade como a tua.
12
Maior que essa deficiência
que limita o que produz,
é o amor, na sua essência,
que compreende e que conduz
13
Meu coração, esse tolo,
que hoje inda espera por ti,
tem tão só, como consolo,
a esperança que eu perdi.
14
Meu coração silenciou
ao estetoscópio, com medo,
e ao doutor não revelou
um nada do seu segredo.
15
Meu pensamento se expande
e o trovador põe à prova:
Criança... Um tema tão grande
nos quatro versos da trova...
16
Minhas trovas têm um quê
que as outras trovas não têm:
Falam sempre de você,
e falam de mim também.
17
Miscigenação bendita,
és a grande responsável
pela beleza infinita
dessa mulata adorável!…
18
Na exiguidade do espaço
que me resta a percorrer,
cada trova é como um passo
no caminho do viver.
19
Nas entrelinhas da trova,
às vezes, paira um lamento
que facilmente comprova
uma dor, um sofrimento.
20
Nas noites de lua-cheia,
contemplo ao longe a cascata;
parece que ela se enleia
num manto feito de prata.
21
Nos rodopios da valsa,
fazendo juras de amor,
não supus que fosse falsa
quem me causa tanta dor.
22
Numa trova eu digo tudo,
tudo, tudo o que eu quiser;
desde que tudo que eu diga
seja tudo da mulher.
23
Percorri árduos caminhos
pra chegar onde cheguei;
guarda marcas, lembro espinhos
das trilhas por onde errei.
24
Pra manter minha alegria
um quase nada é o bastante;
fazer trovas cada dia
e abraçar-te a cada instante.
25
Quando criança eu queria
ser homem, sábio, talvez…
Hoje bem que gostaria
de ser criança outra vez!…
26
Quando eu era pequenino
contava o tempo a cantar…
Hoje lembro do menino
e conto o tempo a chorar.
27
Quem sofre do mal de amor,
sofre, sofre até morrer!…
Não há remédio ou doutor
que possa o mal desfazer.
28
Se à noite a lua opalina
envolve em luz a palhoça;
transforma em tela divina
um quadro humilde da roça.
29
Sem a fonte luminosa
e a retreta domingueira,
ficou triste e até saudosa
nossa Praça da Bandeira.
30
Se você não vai cumprir
o quanto me prometeu;
proponho lhe devolver
os beijos que já me deu.
31
Sonhei que estavas casando
numa igreja da roça,
que ouvia o padre abençoando
essa união que era nossa.
32
Só transportando criança,
velha KOMBI ao trafegar,
guarda um mundo de esperança,
rotulada de ESCOLAR.
33
Talvez, riacho cantante
que se despenha em cascata,
sejas tu um poeta errante
dizendo trovas à mata.
34
Teu beijo tem a doçura
de um doce favo de mel;
mas esperá-lo é tortura
que amarga mais do que o fel.

domingo, 16 de julho de 2017

Rita Marciano Mourão


1
Bilhetes de amor... saudade
que a lembrança hoje cultua
onde a tal felicidade
era o carteiro da rua!...
2
Cansado, frágil, tristonho,
quando a fé lhe pede um preço,
o escritor faz de um bom sonho
outro livro, outro começo…
3
Com máscara da ilusão
minha altivez nem percebe
quando a porta da emoção
ergue a tranca e te recebe.
4
De minissaia, a coroa
tenta a sorte... lá na praça.
De longe alguém diz: - É boa...
Mas de perto... assusta a caça.
5
Depois de tantos verões,
talento pouco me importa.
No jardim das ilusões
já sou como folha morta.
6
Deriva meu corpo, enquanto
contra os reveses reluto.
Hoje o tempo usa meu pranto
para cobrar seu tributo.
7
Desato o nó da lembrança
e um facho de luz sem fim
me traz de volta a criança
que o tempo levou de mim!
8
Diz o velho, em maus trejeitos:
- Como o carnaval é ingrato:
com produtos tão perfeitos,
a distância nega o prato!
9
Entre cristais, vinhos nobres,
com saudade, hoje lamento
do campo as canecas pobres
mas tão ricas de alimento!
10
Ergo o cristal, já vencida,
mas a razão me renega,
quando a emoção, iludida,
bebe o vinho e a ti me entrega!
11
Escrevo, reluto... E assim
da tristeza eu vou fugindo.
O escritor que habita em mim
me ensina a sofrer sorrindo.
12
Este espinho que me atira
aos braços da dor sem fim,
é o fruto desta mentira
que você plantou em mim.
13
Faço versos da incerteza,
com talento a dor suplanto.
É bem mais leve a tristeza
dissimulada em meu canto.
14
Lembrança da mocidade,
de um som de lira em seresta...
Ah! como fere a saudade
quando lembrança é o que resta…
15
Levada por fantasia
de um desejo inconsciente,
eu beijo na cama fria
as formas de um corpo ausente!
16
Mesmo ante o furor medonho
de um mar que raivoso freme,
solto a jangada de um sonho
e o sonho conduz meu leme!
17
- Meu filho, veja onde está
o seu querido paizão!...
- Ah! Mamãe, não sejas má,
da outra vez levei "sabão"!
18
Meu salário é duvidoso
qual moça de minissaia.
De longe, acena maldoso,
mas, na mão, foge da raia!
19
Minha jangada à distância,
(velha tábua na enxurrada)
remada por mãos da infância
foi bem mais do que jangada!
20
Na fonte antiga da praça,
que em lembranças recomponho,
a minha ilusão te abraça,
movida por este sonho!…
21
No céu a espalhar magia
com frases mudas, a lua
nas pautas da noite fria
faz versos à minha rua…
22
Nos limites da demência
entre o delírio e a razão
eu beijo um rosto que a ausência
desenha na solidão!
23
Nosso amor meio sem jeito
mas, talentoso e insistente,
vai vencendo o preconceito
que a idade lança entre a gente.
24
No vazio do meu peito,
meu destino de escritor
vai preenchendo, a seu jeito,
velhas lacunas de amor…
25
Perfumada e porte nobre,
na incerteza que a consome,
testou com sabão de pobre
e da rival soube o nome.
26
Pondero... Mas, atrevida,
minha ilusão enche a taça
desta fonte proibida
que à razão condena e embaça!
27
Quando a lua me abre as frestas
das lembranças que são tuas,
de uma lira ouço as serestas
feitas à luz de outras luas!...
28
Quando esta lua indiscreta
me traz lembranças sem fim,
eu choro o velho poeta
que morreu dentro de mim.
29
Relembrando os sons dispersos
das liras da mocidade,
meu sonho acompanha os versos
nas cordas desta saudade!...
30
Ribeirão, cidade nobre,
mas de alma humilde e serena,
és mãe do rico e do pobre,
da pele clara e morena!
31
Ribeirão é terra quente
de clima e de coração.
Qualquer raça, aqui se sente
bem mais gente, mais irmão!
32
Rondando marco após marco,
a minha sorte à deriva,
a ventura é sempre o barco
que do meu porto se esquiva.
33
Sem dinheiro, a pobre Aninha
se refaz em volta e meia:
depois de rodar bolsinha,
tem sempre a panela cheia!
34
Sem lamentar, eu suponho,
ao ver um sonho à deriva:
- mais importante que um sonho
é eu sentir que estou viva!
35
Se o verão tudo arrefece,
talento é inovar quimera;
onde um novo sonho cresce,
sempre existe primavera.
36
Sobras desta trajetória,
os espinhos do desgosto
vão escrevendo outra história
sobre as linhas do meu rosto!
37
Talentoso no passado
mas depois um tanto frio...
e desse amor mal cuidado
restou-me um lar tão vazio!
38
Tiro a máscara... - ouço aflita
de um mar de farsas sem fim
um outro Eu que ainda grita
por vida, dentro de mim!
39
Usou truques à vontade,
tentando a sorte a coroa...
Mas alguém diz: - "Nessa idade,
só gasta cartucho à toa!”
40
Vencendo marco após marco,
alcancei um mar deserto
onde à deriva, meu barco
já não tem mais rumo certo.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sarah Mariani Kanter


1
A pandorga colorida,
recriando encantamentos,
toca a sonata da vida
na partitura dos ventos.
2
A saudade é luz de vela
iluminando o que eu sou:
descolorida aquarela
que uma renúncia pintou.
3
Cada rio poluído
é uma mensagem de morte,
onde o mundo sem sentido
vai selando a própria sorte!
4
Cada vez o dia-a-dia
faz os dias mais tristonhos,
quando a gente silencia
e sufoca os próprios sonhos…
5
Dos exílios, um existe,
que é pior pois não desterra,
mas faz do exilado um triste
vivendo na própria terra…
6
Eu confesso, estou cansada,
cansada deste brinquedo:
- ser espuma apaixonada
pela sombra de um rochedo...
7
Eu perdi meu coração
entre fantasmas e medos,
no exílio da solidão
de uma infância sem brinquedos..
8
Foste um sonho em meu passado,
e o meu erro mais tristonho
foi deixar de ter lutado
para arrancar-te do sonho…
9
Há nos chás de caridade
muito fausto e ostentação,
e nas ruas da cidade,
crianças sem proteção.
10
Há sempre um circo vazio
e um vazio de esperança,
no coração triste e frio
de quem nunca foi criança…
11
Leva contigo, menino,
este amor dos teus brinquedos,
onde és "rei" e o teu destino
é vencer todos os medos…
12
Mãe preta, meu doce encanto,
que saudade sinto agora,
da tua voz no acalanto
que mandava o medo embora!
13
Meu palhacinho de pano,
quantas vezes te surrei!
Hoje a vida e o desengano
dão-me as surras que eu te dei!
14
Meus ideais em pedaços,
pela vida, destruídos,
foram tristonhos palhaços
de sorrisos não sorridos.
15
Meus sonhos foram ingratos
e sou, de tudo o que resta,
Cinderela sem sapatos,
sem fantasia, sem festa…
16
Minha infância recomponho
nos passos de meu filhinho,
que, refazendo o meu sonho,
também refaz meu caminho!…
17
Na solidão do meu peito,
velho jardim sem amor,
a saudade tem um jeito
de renúncia que deu flor…
18
No infinito o sol flutua
qual rubro barco pirata,
tentando roubar da lua
a sua carga de prata!
19
Nos barquinhos de papel
fui "marinheiro-esperança";
hoje, corsário infiel,
roubo os barcos da lembrança…
20
Nossas ruas de criança
a tão longe nos levavam,
que nem o infinito alcança
o infinito que alcançavam...
21
Numa estranha semelhança
com a caixa de Pandora,
vivo apenas de Esperança,
porque o Sonho foi embora.
22
Olho o mundo... me envergonho
e me tortura dizê-lo:
- hoje a liberdade é um sonho
transformado em pesadelo…
23
O mensageiro fiel
dos sonhos da meninada
é um barquinho de papel
correndo junto à calçada…
24
O meu amor sobrevive
nesta saudade sentida:
o "quase nada' que eu tive
foi "quase tudo" na vida!
25
O que sobra do meu dia,
mal cabe num prato raso:
migalhas de fantasia
que me alimentam no ocaso!
26
Papai Noel, não entendo
o teu serviço postal:
tantas cartas se perdendo!...
Tantos pobres sem Natal!...
27
Pelos caminhos, cansada,
minha esperança perdida,
encontra a porta fechada
no fim da Rua da Vida…
28
Por ser poeta acredito
em dias menos sombrios...
Meu sonho quase infinito
cabe em meus bolsos vazios.
29
Por todo lado cercada
de gente que nem me vê,
eu sou a sombra do nada
que me restou de você.
30
Quando a luz que enche os espaços
espanta a noite do adeus,
vejo a sombra dos meus passos
seguindo a sombra dos teus…
31
Quando às vezes abro a porta
que a renúncia traz fechada,
tua ausência se recorta
na silhueta do nada...
32
Retratando o que hoje somos,
vejo agora que restou
do quase dois que nós fomos
o quase nada que eu sou.
33
Saudade, circo às escuras,
onde um palhaço, a ilusão,
faz trejeitos e mesuras
para o nada e a solidão…
34
Se a vida foi mal vivida,
ao chegar ao fim da estrada
quem foi um 'quase" na vida
é, na morte, um "quase nada"!
35
Separadas as metades,
a realidade provou
que somos as “inverdades”
que uma esperança inventou...
36
Sobre a mesa, a lamparina.
No bercinho, uma criança.
E a luz suave ilumina
a mensagem de esperança!
37
Tão pertinho do infinito
mas, prisioneira do morro,
a favela é quase um grito,
que pede ao mundo: - Socorro!
38
Vão desfilando os Farrapos
ante o Pacificador;
por fora, as roupas em trapos,
por dentro, inteiro, o valor!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Adélia Victória Ferreira


1
A fantasia é um brinquedo
para instantes enfadonhos:
nos porões - varrendo o medo,
na torre - embalando os sonhos...
2
Ao sofrer uma agressão
a terra não choraminga
nem esboça reação,
mas... cedo ou tarde, se vinga…
3
Circo de lona... de estacas,
pobre, no mundo a vagar...
E nessas bases tão fracas
o riso escolheu morar...
4
Com a lembrança marcada
por sofrimentos de outrora,
igual à pomba assustada
eu fujo aos sonhos de agora.
5
Esperança é a caminhante
que, ora animada, ora triste,
vai, teimosa, mais adiante,
quando a Certeza desiste. 
6
Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
o sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.
7
Meu olhar é um girassol,
avidamente a buscar
entre a aurora e o arrebol
o astro-rei do teu olhar!
8
Minha vizinha é tão feia
que, aparecendo à janela,
o furacão a rodeia
com medo de tocar nela! 
9
Na pinga e de pito aceso,
pega a bela, o Serafim,
que no outro dia vai preso
nos braços de... um manequim,..
10
Na sala, a rica exibida
mostra o vaso e a amiga exclama:
- Mas... esse vaso, querida,
se usava... embaixo da cama!…
11
No amor não raro acontece
estranha feitiçaria:
quando a vontade aparece
desaparece a energia…
12
No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?...
13
No mistério de seus planos
vai, o futuro inclemente,
burilando os desenganos
que irá nos dar de presente!
14
0 grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso. 
15
O pato, à pata, zangado:
- Qualquer um pode notá-lo!
Aumentas teu rebolado
quando passas pelo galo!
16
O Sábio avança e recua
sobre um mistério esquisito,
onde um termo continua
termo sem termo... Infinito!…
17
O sol, filetando o olhar,
pelo arvoredo introduz
agulhas para bordar
bailados de sombra e luz.
18
Para a saudade que anela
voltar à ventura morta,
o passado abre a janela,
mas nunca destranca a porta...
19
Pelos gênios fascinado,
me indago, com inquietude,
se a inveja será pecado;
se o que se inveja é... virtude..
20
Por nosso irmão não se conta
quem apenas nos exalta
e, sim, quem também aponta,
censurando a nossa falta.
21
“Pra que rouge?” – indaga a Tita,
à mãe vaidosa que o aplica.
“Pra que eu fique mais bonita!”
E a filha: “Por que não fica?...” 
22
Quando, mãe, o tempo ingrato
em bruma a lembrança envolve,
bendigo o velho retrato
que teu rosto me devolve!
23
Quem só conhece negrume
por onde os passos conduz,
no piscar de um vagalume
pode aprender o que é luz.
24
- Raio de bicho malandro! -
o astronauta geme e sua
e a pulga, em seu escafandro,
vai de carona pra lua…
25
Recorre ao bom-senso e ordena
teu viver, pelo vivido.
O que o passado condena
não deve ser repetido.
26
Se era às crianças que um vulto
no escuro punha assustadas,
hoje o temor é do adulto
que anda à noite nas calçadas…
27
Sem o amor, que é fantasia,
a vida, que é realidade,
transporta mala vazia
no rumo da eternidade.
28
Se os meus juízes confundo
com falsa argumentação,
recebo o perdão do mundo,
mas não meu próprio perdão.
29
- Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar!
Não me roubes a certeza
de que logo irás voltar!
30
Silencioso, palmo a palmo,
irreversível, tirano,
o tempo devora, calmo,
todo e qualquer sonho humano... 
31
Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.
32
Torna um sonho em realidade
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,
foi mais bela a fantasia.
33
Vivo a sonhar: Quem me dera
que eu, no amor sempre frustrado,
em vez de ficar à espera,
um dia fosse o esperado.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Judith Cocarelli

1
A conduzir o ceguinho
andava tranquilamente.
Ignora, o rapazinho
quanto vale, como é gente!
2
A gíria já é um fato
que nós temos que aceitar:
o bonito é um barato
e curtir, apreciar…
3
Ainda tenho esperança
se torne realidade
ver nosso mundo-criança
atingir maioridade.
4
A programação assumo
da vida que desejei,
hoje arrumo e desarrumo
este rumo que tomei.
5
Capricórnio, em que nasci,
deu-me esta teimosia:
Não creio em mal que não vi,
creio no bem, todavia.
6
Com fervor bem verdadeiro
eu rogo hoje ao Senhor
que o meu povo, o brasileiro,
ensine ao mundo o amor!
7
Com “meu” caracol brincava,
num mundo de fantasia;
quantas vezes invejava
a concha em que se escondia!
8
Como o poeta julguei
poder estrelas contar
mas, sem querer, misturei
com elas o teu olhar…
9
Como último carinho,
quisera sentir na face
o calor de um raiozinho
de sol, que assim, me afagasse…
10
Corremos, com esperança,
atrás da felicidade.
No final da nossa andança,
restam cansaço e saudade…
11
Cultivo uma aspiração
neste caro mundo meu:
Que ao parar meu coração
eu fiquei a ouvir o teu…
12
Deixe embora, em minha andança
de ver, ouvir, caminhar,
se me restar a esperança
continuarei a sonhar!
13
Dispensando-lhe carinho
damos-lhe alguma esperança:
lembremo-nos que o velhinho
já foi, um dia, criança…
14
Disseram-me que “a esperança
é a última a morrer”.
Às vezes, em nossa andança,
ela nem chega a nascer!
15
Durante o mês de dezembro,
quando o Natal se aproxima,
todos os dias relembro
o meu tempo de menina…
16
Ela não é tua filha
mas dá-lhe alguma atenção;
a criança maltrapilha
é filha de teu irmão!
17
Gostaria que a esperança
retornasse à minha vida
para ser, como em criança,
na boneca prometida…
18
Muita gente, nesta vida,
desejaria voltar
ao seu ponto de partida
e novo rumo tomar…
19
Nós não temos, na cidade,
luar como o do sertão,
mas dá-nos felicidade
a pequenina fração…
20
Numa oração muito minha
eu peço, a todo momento,
poupe Deus minha mãezinha
de ter qualquer sofrimento.
21
O luar, meu aliado,
o quarto dele invadiu
levando-lhe meu recado…
Mas dormia, nem sentiu!
22
O sol se esvai, no horizonte,
oferecendo ao olhar
uma inesgotável fonte
para o nosso versejar.
23
Passei minha vida inteira
num rumo só, trabalhar.
Parece que foi asneira,
porque eu gosto é de rimar!
24
Peço a Deus, com esperança,
num fervoroso rogado,
note-se em toda criança
um sorriso ensolarado!
25
Pedimos com devoção,
tudo que nos dá prazer
e esquecemos, na oração,
de, no entanto, agradecer!
26
Pelo sol vivo ansiando!
Quando chove ou anoitece
quisera estar habitando
o país em que aparece.
27
Pleno dia, plena estrada,
quero o sol apreciar
mas à noite, extasiada,
que não me falte o luar!
28
Por quem não tem agasalho
por quem num leito padece…
Acredito que mais valho
se os incluo em minha prece.
29
Preces feitas, decoradas,
repetidas todo tempo
não valem as inventadas
na hora do sofrimento.
30
Procurando no Universo
algo como o teu olhar
para rimar o meu verso,
eu encontrei o luar!
31
“Quem espera sempre alcança”.
Crê no provérbio com fé
e aguarda, na tua andança,
sapato para o teu pé…
32
Queremos todos: Você,
ele, o judeu, o batista
ter razão. Como se vê,
questão de ponto de vista…
33
Quero estrelas, o luar,
o sol, as flores, o vento,
as águas verdes do mar
que são meu deslumbramento!
34
Recebeste a tua herança
porém, não cruzes os braços;
é bom que da tua andança
possa deixar alguns traços.
35
Se percebes que essa estrada
causou-te decepção,
faz uma pausa e, calada,
ruma em outra direção.
36
Se quisermos um limão
bravo, galego ou de cheiro,
há que escolher, de antemão,
o tipo de limoeiro…
37
Se tu queres te inspirar
em algo muito pungente,
procura mentalizar
uma criança doente.
38
Vou te ensinar, com carinho,
lição que já sei de cor:
Quase em silêncio, baixinho,
é que se ama melhor.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...