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domingo, 13 de setembro de 2026

Aventuras de Pedro Malasartes * 2 *


MALASARTES FAZ O URUBU FALAR

Quando o pai de Pedro Malasartes entregou a alma a Deus, fez-se a partilha dos bens -uma casinha velha entre os filhos; e tocou a Pedro uma das bandeiras da porta da casa, com o que ele ficou muito contente.

Pôs a porta no ombro e saiu pelo mundo. Em caminho viu um bando de urubus sobre um burro morto. Atirou a porta sobre eles e caçou um urubu que ficou com a perna quebrada. Apanhou-o, pôs a porta às costas e continuou viagem. Obra de uma légua ou mais, avistou uma casa de onde sala fumaça, o que queria dizer que se estava preparando o jantar.

Pedro Malasartes, que sentia fome, bateu à porta e pediu de comer. Veio atendê-lo uma preta lambisgóia que foi logo dizer à patroa que ali estava um vagabundo, com um urubu e uma porta, a pedir de jantar.

A mulher mandou que o despachasse, que sua casa não era coito de malandros. O marido estava de viagem e a mulher no seu bem bom a preparar um banquete para quem ela muito bem o destinava. Neste mundo há coisas!

Pedro Malasartes, tão mal recebido que foi, resolveu subir para o telhado, valendo-se da porta que trazia e lhe serviria de escada. Subiu e ficou espreitando o que se passava naquela casa, tanto mais que sentia o cheiro dos bons petiscos.

Espiando pelos vãos das telhas viu os preparativos e tomou nota das iguarias, e ouviu as conversas e confidências da patroa e da negra.

Justamente na hora do jantar chegou o dono da casa que resolvera voltar inesperado da viagem que fazia. Quando a mulher percebeu que ele se aproximava, mandou esconder os pratos do banquete e veio recebê-lo e abraçá-lo, muito fingida, muito risonha, mas por dentro queimando de raiva. Vai dai mandou pôr na mesa a janta que constava de feijão aguado, paçoca de carne seca, dizendo:

-Por que não me avisou, marido? Sempre se havia de aprontar mais alguma coisa...

Sentaram-se à mesa.

Pedro Malasartes desceu de seu posto e bateu na porta, trazendo o urubu.

O dono da casa levantou-se e foi ver quem era. O rapaz pediu-lhe um prato de comida e ele chamou-o para a mesa a servir-se do pouco que havia. A mulher estava desesperada, desconfiando com a volta do Malasartes.

Pedro tomou assento, puxou o urubu para debaixo da mesa, preso pelo pé num pedaço de corda. Estavam os dois homens conversando, quando de repente o Malasartes pisou no pé quebrado do bicho e este se pôs a gritar:
Uh! uh! uh!

O dono da casa levou um susto e perguntou que diabo teria o bicho. Pedro respondeu muito sério:
-Nada! São coisas. Está falando comigo.

-Falando! Pois o seu bicho fala?!

-Sim senhor, nós nos entendemos. Não vê como o trago sempre comigo? É um bicho mágico, mas muito intrometido.

-Como assim?

-Agora, por exemplo, está dizendo que a patroa teve aviso oculto da volta do senhor e por isso lhe preparou uma boa surpresa.

-Uma surpresa! Conte lá isso como é.

-É deveras! Uma excelente leitoa assada que está ali naquele armário...

-Pois é possível! Ó mulher, é verdade o que diz o urubu deste moço?

Ela com receio de ser apanhada com todo o banquete e certa já de que Pedro sabia da marosca, apressou-se em responder:

-Pois então? Pura verdade! O bicho adivinhou. Queria fazer-te a surpresa no fim do jantar.

E gritou pela preta:

-Maria, traz a leitoa.

A negra veio logo correndo, mas de má cara, com a leitoa assada na travessa.

Daí a pouco Pedro Malasartes pisou outra vez no urubu que soltou novo grito. O dono da casa perguntou:

-O que é que ele está dizendo?

-Bicho intrometido! Está candongando outra boca, bicho!

-O que é?

-Outras surpresas...

-Outras!

-Sim senhor: um peru recheado...

-É verdade, mulher?

-Uma surpresa, maridinho do coração! Maria, traz o peru recheado que preparei para teu amo.

Veio o peru. E pelo mesmo expediente conseguiu Pedro Malasartes que viessem para a mesa todas as iguarias, doces e bebidas que havia em casa.

Ao fim do jantar, o dono da casa, encantado com as proezas do urubu, propôs comprá-lo a Pedro Malasartes que o vendeu muito bem vendido, enquanto a mulher e a preta bufavam de raiva, crentes também no poder mágico do bicho, que assim seria um constante espião de tudo quanto fizessem.

Fechado o negócio, Pedro Malasartes partiu satisfeito e vingado.
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OUTRA DE MALASARTES

Andando Malasartes por uma estrada, encontrou-se com um pobre, que lhe pediu esmola. Deu um vintém ao pobre, e este que não era outro senão Nosso Senhor fez-lhe presente de um gorro vermelho, declarando-lhe que só ele Malasartes e ninguém mais poderia pôr a mão naquele objeto.

Tempos depois, cansado de vaguear pelo mundo, entendeu Malasartes de dar um passeio ao céu. Para lá se encaminhou, e depois de três dias de viagem batia no portão de São Pedro.

O santo porteiro perguntou lá de dentro quem era, e ele respondeu; perguntou o que desejava, e respondeu. O santo negou-lhe a permissão pedida; mas o viajante tanto rogou, tanto chorou que ele sempre consentiu em entreabrir a porta para que espiasse um pouco. Mal vê a fresta, Malasartes atira o gorro pra dentro e começa a gritar:

-Quero o meu gorro, quero o meu gorro!

São Pedro prontifica-se a ir buscá-lo, mas o burlão protesta:

-Não pode ser, só eu posso pegar no meu gorro. Ninguém mais, só eu. São ordens de Nosso Senhor.

São Pedro tratou de certificar-se da verdade, e veio a saber que Malasartes não mentia. Não havia outro remédio: deixou-o entrar para apanhar o gorro.

Assim Malasartes conseguiu entrar no céu. Mas não se demorou lá muito tempo...
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MALASARTES NO CÉU E NO INFERNO

Um dia chegou para Malasartes a hora de ir para o outro mundo, e de nada lhe valeu a esperteza; teve que marchar.

Quando se viu no estradão da eternidade, pensou no que faria e resolveu, em primeiro lugar, ir bater à porta do céu.

Lá foi; mas São Pedro, assim que o enxergou, deu-lhe com a porta na cara. Então deliberou ir ao inferno; foi, bateu, mas o porteiro, dando com o homem que surrava até os diabos, tratou de fechar o portão com quantas trancas havia e foi correndo avisar o seu rei.

Houve um rebuliço dos diabos no inferno: pavor e correrias por todos os cantos. O próprio Satanás tremeu; mas, recuperando o sangue frio, pensou, pensou e ordenou que se deixasse entrar o hóspede. E disse-lhe:

-Eu não quero você no inferno, Malasartes; você, além do que já fez, ainda é capaz de vir aqui revolucionar a minha gente.

– Tenha paciência, seu Satanás, mas aqui estou e aqui fico.

– Então vou fazer uma proposta: que se decida o seu destino pela sorte do jogo. Aceita?

-Feito!

-Se você perder, irá diretinho para o caldeirão.

– Está dito. E se eu ganhar, você me paga com uma das almas que lá estão fervendo.

Começaram o jogo, e cada qual fazia o possível para passar a perna no outro. Mas Pedro Malasartes era mais esperto e ganhou a primeira partida, depois a segunda e assim outras.

Satanás, vendo que não podia derrotar o parceiro e que ia perdendo almas sobre almas, postas em liberdade por Malasartes, mandou botar o insuportável para fora do inferno.

Malasartes andou vagando como alma penada, muito tempo, sem saber onde havia de se aboletar.. Até que um dia teve uma idéia e tocou de novo para o céu. Chegando à porta do céu, tomou uns ares muito humildes, e bateu devagarinho. São Pedro abriu um postigo, enfiou a cabeça e perguntou:

-Quem bate a estas horas?

-Sou eu, meu santo…

-Eu, quem? Diga o que quer, e toca!

-Será possível que o meu santo padroeiro não me reconheça… Pois eu sou o Pedro Malasartes.

– Malasartes?! Outra vez?! Já não lhe disse que o seu lugar não é aqui?

-Não se zangue, meu santo, meu grande santo… Sei muito bem que nunca entrarei neste lugar de glória…

-Então vamos ver, o que quer?

Malasartes, com muita brandura e muita lábia, pediu ao santo que entreabrisse ao menos a porta, um bocadinho, só para que pudesse espiar por um momento a beleza do céu. Tanto pediu e tanto fez que São Pedro o atendeu. Então, mais que depressa Malasartes atirou o chapéu pela fresta.

São Pedro bufou e descompôs o patife, e tanto barulho fez que começaram a ajuntar-se magotes de anjos e de justos ali junto da porta.

Acontece que o chapéu era um objeto terreno, além de estar muito sujo, e ninguém no céu lhe podia tocar. Mas Pedro Malasartes reclamava o chapéu, não abria mão, e enfim, para encurtar, não houve jeito senão, permitir-lhe que entrasse.

E o malandro, entrou, muito contente, com ar vitorioso.

Mas o atrevimento não ficou sem castigo. Levaram o tal para junto de um monte enorme de milho e mandaram-no contar os grãos um por um. Malasartes, que remédio! Começou a contar, a contar, a contar, e levou um mundo de tempo a amontoar os grãozinhos para um lado. Quando já estava acabando a contagem, veio um anjo e misturou tudo. E Malasartes teve de contar de novo… E até hoje lá está contando e recontando os grãos de milho, sem acabar nunca.
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Pedro Malasartes 
PEDRO MALASARTES é um dos personagens mais ricos e duradouros do folclore nacional, representando a figura clássica do malandro camponês, astuto e bem-humorado, que usa a inteligência e o logro para sobreviver, dar lições em avarentos e se vingar da opressão dos poderosos. Apesar de ser uma figura central do imaginário caipira e sertanejo brasileiro, Malasartes não nasceu no Brasil. Ele tem origem medieval na Península Ibérica (Portugal e Espanha). O nome "Malasartes" deriva diretamente da expressão em espanhol malas artes (artes más), que no contexto medieval significava "travessuras", "artimanhas" ou "trapaças".
A menção literária mais antiga ao personagem data dos séculos XIII e XIV, aparecendo na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana sob a alcunha de "Payo de Maas Artes". O personagem chegou ao Brasil na bagagem cultural dos colonizadores portugueses através dos contos populares transmitidos pela tradição oral. Ao cruzar o oceano, o personagem se adaptou perfeitamente à realidade da colônia e, posteriormente, do Brasil imperial e republicano. O "burlão" ibérico transformou-se no matuto, caipira e sertanejo sem posses. No cenário agrícola brasileiro, marcado por profundas desigualdades estruturais entre grandes coronéis (donos de terras) e trabalhadores humildes, as histórias de Malasartes ganharam um forte contorno de justiça social. Ele virou o herói dos desfavorecidos que vencia a força dos ricos usando apenas a astúcia.
A transição de Pedro Malasartes da tradição oral para a cultura letrada e de massa foi impulsionada por grandes nomes da literatura e das artes no Brasil: Luís da Câmara Cascudo: O maior folclorista brasileiro catalogou e analisou o personagem em obras fundamentais como o Dicionário do Folclore Brasileiro e Contos Tradicionais do Brasil, definindo-o como o exemplo do "burlão invencível". Monteiro Lobato: Em suas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o personagem é citado e suas artimanhas (como a famosa história da "Sopa de Pedra") são recontadas para o público infantil; 
O escritor modernista Mário de Andrade escreveu o libreto da ópera cômica "Pedro Malazarte" (composta por Camargo Guarnieri e estreada em 1952), elevando o personagem à música erudita nacional; 
Pedro Bandeira: Um dos maiores autores de literatura infantojuvenil do Brasil adaptou as peripécias do personagem em formato de cordel e rimas, como no livro Malasartes: Histórias de Malasartes em Versos de Cordel; 
Mazzaropi: No cinema, o comediante imortalizou o herói no clássico filme "As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), consolidando sua imagem visual como o típico caipira brasileiro.
Em 2017, o diretor Paulo Morelli lançou o longa-metragem de fantasia comercializado como "Malasartes e o Duelo com a Morte"
A figura do trickster (o trapaceiro esperto que subverte as regras sociais) é um arquétipo universal, existindo em quase todas as culturas com roupagens locais:
América Hispânica = Pedro Urdemales: É exatamente o mesmo personagem de origem ibérica (usando a variação Urdemales, que significa "tecedor de males/artimanhas").  Famosíssimo no Chile, na Argentina, no Peru e na Guatemala.
Alemanha e Flandres = Till Eulenspiegel: Personagem do folclore medieval germânico. Um camponês que viaja pregando peças e expondo a hipocrisia, a ganância e a burrice da elite e do clero de sua época. 
Oriente Médio e Turquia = Nasreddin Hodja: Um sábio e filósofo popular de tom cômico e satírico. Ele usa histórias engraçadas, paradoxos e aparente "tolice" para dar lições morais na corte, em juízes corrompidos e nos orgulhosos. 
África Ocidental e Caribe = Anansi: A famosa aranha astuta da mitologia Ashanti. Como não tem força física diante de animais grandes (como o leopardo ou a cobra), Anansi usa puramente a lábia e a inteligência para enganá-los e conseguir o que quer. 

Fontes:
Aumanack, Wikipedia, Bloguirapuru Brainly, Museu Mazzaropi, Malasartes.com.br, etc.

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