Trovadores em Ordem Alfabética

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

José Feldman ( Um dia daqueles)


Amanheceu como se fosse um dia comum, mas o universo tinha outros planos para o Sr. Otávio. Ele abriu os olhos, esticou o braço para o despertador e… caiu da cama. Não com a elegância de um galã de novela, mas com a graciosidade de um saci: rodopiou, bateu o joelho no chão e ficou lá, olhando o teto como quem pensa: “bom, aí não era o plano.”

Determinando que era hora de levantar, Otávio se pôs de pé — e a lei das mobílias traiçoeiras entrou em vigor. Ao levantar a cabeça, encontrou com o móvel ao lado do travesseiro numa pancada que o fez ver estrelinhas, com direito a bico de papelão. “Ótimo”, murmurou, esfregando a testa, quando decidiu checar o estrago com a mão. Exatamente: pôs a mão na cabeça e, como se fosse combinado com o cosmos, seu cotovelo encontrou o criado-mudo num encontro amoroso e fulminante.

— Aiii! — berrara ele, num som que alarmou até o gato do vizinho. O cotovelo e o criado-mudo trocaram impressões. O criado-mudo, claro, saiu-se melhor: rígido, imponente, sem sequer um arranhão. O cotovelo, porém, passou a temporada seguinte pedindo aposentadoria por invalidez.

Respirando fundo (ou tentando), Otávio achou que já tinha completado as tragédias do amanhecer. Errou. Ao tentar caminhar até a cozinha em busca de um remédio, o pé escorregou num canto traiçoeiro do tapete — aquele tapete que sempre fica com cara de suspeito. Em câmera lenta, ele descreveu um arco digno de circo, tentou um passo de dança moderna, mas terminou batendo o joelho bem no pé da cama. Foi um concerto de sons: rangido da madeira, gemido do joelho e, no fundo, um “cloque-cloque” como se o destino risse.

Quando finalmente ficou sentado no chão, parecendo um personagem de desenho animado que levou um episódio inteiro de pancadas, os vizinhos (atraídos pelo berreiro) começaram a aparecer. Dona Marlene do 3ºB trouxe um pano quente; o João, que trabalha na oficina, veio com uma caixa de ferramentas “só por precaução”; até a vendedora de pão bateu na porta com uma sacola de biscoitos e olhares preocupados.

— O que aconteceu? — perguntou Dona Marlene, já disposta a aplicar uma compressa e um sermão de mãe.

Otávio, meio atordoado, contou a ópera das injúrias domésticas numa sequência de gemidos e gestos dramáticos. Mas, ao se ver de pé (com a ajuda do João), observou o conjunto: cortinhos, hematomas e uma mistura de sujeira no joelho que lembrava um mapa de batalha. As pessoas trocaram olhares rápidos e, sem querer, começaram a montar uma versão alternativa dos fatos.

— Ele estava numa briga, não foi? — sussurrou a vendedora de pão, com o instinto jornalístico aflorado.

— Ou então tentou parar um assalto! — afirmou João, triunfante, ajustando o avental como quem inspeciona um troféu.

Dona Marlene não ficou atrás: já inventou uma história de defesa heroica da honra de uma senhora que (talvez) tivesse sido empurrada, ou algo assim. Em questão de minutos, o pobre Otávio havia passado de vítima de seus próprios móveis a protagonista de uma luta épica contra bandidos invisíveis e capangas do destino.

As redes sociais do prédio não precisaram esperar: a notícia circulou pelo corredor como pólvora. O zelador, com a credencial de repórter amador, trouxe um pedaço de jornal com o título: “MORADOR DO 2º ANDAR ENFRENTA BANDIDOS”. O porteiro, tentando acalmar a situação, ofereceu-lhe chá. Otávio olhou os rostos arregalados à sua volta e, por um segundo, quase acreditou na própria lenda.

— Não… gente, eu só… — tentou explicar, apontando para a mesa, para o tapete, para a cama e para o cotovelo traidor. Mas as palavras soaram tão improváveis quanto “fui atacado por um polvo de almofadas”.

A vizinhança, porém, já havia decidido: se houve briga, havia herói — e heróis merecem história, e histórias merecem bolos. Em poucos minutos, Dona Marlene voltou com um pedaço generoso de bolo de cenoura e um buquê improvisado de guardanapos.

Otávio, com o bolo na mão e vários curativos imaginários, sorriu meio sem jeito. No fim das contas, a manhã que começou com uma queda boba terminou com elogios, biscoitos, e uma fama instantânea que nenhum aplicativo poderia comprar. Ele ganhou um apelido novo: “O Lutador do 2º” e, claro, o respeito incondicional do corredor.

À noite, enquanto curava os hematomas e pensava na epopeia doméstica, Otávio fez um pacto silencioso: reposicionar o criado-mudo, ensinar o tapete a não conspirar e, sobretudo, tomar cuidado com o cotovelo traquinador. Mas ficou com o ego leve e aquecido — afinal, onde mais ele poderia ganhar um bolo e um título de herói por simplesmente levantar da cama?

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