Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (21)
  • D (11)
  • E (13)
  • F (12)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (27)
  • L (29)
  • M (31)
  • N (8)
  • O (11)
  • P (4)
  • R (17)
  • S (12)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (3)
  • Z (2)

domingo, 13 de setembro de 2026

Carolina Ramos (Santinha)


Faminto de asfalto o carro engolia quilômetros com voracidade insaciável. A vontade de chegar levava a moça a pisar firme, incentivando a gula da máquina. Sentiu a boca seca.

O último povoado ficara para trás, não muito longe. Arrependia-se de ter seguido as determinações da pressa, não parando sequer para um refrigerante. Partira para um fim de semana campestre, ameno e repousante, flecha disparada em rumo certo, sem direito a desvios, nem interrupções.

Com alívio, vislumbrou, à beira da estrada, a tabuleta convidativa. Sugestão, alentadora: - "Água potável". Diminuiu a marcha ao cruzar a ponte.

Deixou o carro no acostamento e embrenhou-se pela trilha estreita, em declive, chegando até a grota gorgolejante descoberta ao fundo, sob o frescor da ramagem. Dois ipês floridos denunciavam a chegada da primavera, atapetando o pequeno oásis com flores macias vestidas de ouro.

Perdida a pressa após matar a sede, a jovem deixou, deliciada, que a água fresca escorresse, por algum tempo, por entre os dedos, "inodora e sem sabor", como aprendera na escola, e, também, insubstituível! Que bebida, por mais saborosa e perfumada, pode substituir um gole dessa linfa pura, quando o demônio da sede ateia fogo aos sentidos?!

Ajoelhou-se novamente junto à fonte, mergulhando o rosto na concha das mãos, deleitada com a ablução refrescante. Voltou-se sem urgência e sem enxugar a face.

Foi quando descobriu a pequena cruz, adornada de flores, escondida sob a ponte. A curiosidade levou-a até lá.

Em letras rústicas, o nome - Rosalinda - atravessava os braços de madeira pintados de branco.

Uma figura agachada sob a ponte, até o momento não pressentida, movimentou-se na penumbra. Sobressaltada, a jovem recuou.

- Num carece tê medo, dona. Ninguém vai lhe molesta. Reze uma prece préla ...e num dexe de rezá uma prece prêle, tamém.

Encorajada pelo tom pacífico daquela estranha e soturna voz, a moça arriscou:

- Mas... quem é ela?… E ele, quem é?!

Um instante de silêncio, um suspiro... e a voz roufenha fez-se ouvir de novo:

- Ela é Rosalinda. Ele... é o disgraçado qui matô ela...aqui mesmo, nesse lugá onde tá a cruz! A história é cumprida... mas si a dona tivé tempo, eu posso contá.

Arrepiada até a alma, a moça levou a mão à boca, arrependida de ter feito as perguntas. Teve ímpetos de fugir, mas a curiosidade, maior que os temores, fez com que ali ficasse. Assentiu:

- Conte... Conte logo... Tenho um tempinho de sobra...

A voz do homem fez-se mais grave.. Sob o peso da emoção... ele sussurrou, como se falasse consigo mesmo:

- Rosalinda era uma rosa! Uma rosa linda de morrê...! E pur causa disso memo, é qui ela morreu! Tinha só quinze ano! Era um botão cumeçando a se abri! Os cabelo era longo... dessa cô aí dos da moça. Bem talhadinha! Pura que nem a água dessa grota! Tudo o mundo amava Rosalinda! Mas, tinha um disgraçado que amava ela mais qui tudo esse mundo junto! Era o Tião! Cabôco sacudido, já cuns trinta e pocos ano de idade.

Home feito, Tião sabia o qui quiria! Num era mau sujeito, não... mai era grossêro... i num sabia perdê!

Pra mor dos seus pecado, Tião garrô de querê Rosalinda! Querê cum locura... e de quarqué jeito! Ele sabia e seguia tudos passo que a minina dava! Chego inté a propô casamento préla. I ela se riu dele... de gargaiada! Isso doeu dimais no coração do coitado!

Tudos dia, Rosalinda, cada vez mais linda, vinha, muntada num burrico, buscá um garrafão de água nesse memo corguinho. Tião sabia disso! Naquele dia, ele chegô bem in antes dela... i ficô amoitado bem aí, onde ocê tá agora.

Presa da emoção, a moça ouvia sem coragem de interromper o narrador, que prosseguia, em voz arrastada:

– Daquela veiz, a minina chegô alegrinha!... Vinha cantando baxinho... sem suspeitá o que ia acuntecê. I aí mêmo, onde tá fincada essa cruiz, Tião matô ela! Matô in disispêro pruquê ela nun quis sê dele! Matô... i fugiu, cubrindo a cara cô' as mão! Adispois, foi preso... mó di pagá... i amargá seu pecado entre as grade!

Trêmula, a moça conscientizou-se de que estava bem no meio do palco onde uma tragédia, há algum tempo, se consumara entre dois protagonistas - um homem e uma mulher... E que essa tragédia poderia bem ser repetida, a qualquer momento!

Tentou amenizar a gravidade da situação, simulando calma:

- O senhor conhecia Rosalinda?

- Mai é craro que sim! Tudo o mundo cunhecia ela! Rosalinda era uma santinha! Pur isso, dona, é qui eu sempre trago frô aqui onde ela drumiu pra sempre!

O adeus apressado não deixava dúvidas quanto à urgência da moça em se retirar de cena. Assim mesmo, apesar da penumbra, pôde notar que o maltrapilho tinha aspecto desagradável, possuindo apenas um olho, o que lhe tomava a aparência ainda menos atrativa.

De volta à rodovia, a amena temperatura do ocaso devolveu-lhe parte da tranquilidade. Baixou a janela do carro, deixando que as mãos finas da brisa penteassem para trás seus cabelos castanhos... da cor dos de Rosalinda - estremeceu com a lembrança!

Pouco depois, chegava à fazenda, onde era esperada. Só então, entre perplexa e estarrecida, tomou conhecimento da história completa.

A tragédia acontecera há quase vinte anos, Rosalinda fora morta exatamente como lhe contara o homem amoitado sob a ponte. Era mesmo, Tião, o nome do assassino - Tião Caolho! Preso porque, na mão fechada da vítima, fora encontrado o seu olho, arrancado na luta pelas unhas e pelo desespero da moça!

Dizia-se que, depois de muitos anos de confinamento, Tião, há pouco, fora posto em liberdade. Todos os dias levava flores para a menina morta! Um pobre coitado roído pelo remorso! Espécie de alma penada, que nem mais chegava a assustar!

Ninguém sabia dizer onde... e nem do quê o pobre vivia! O mais certo é que morasse lá mesmo, debaixo daquela ponte. Ninguém o via pedir esmolas... ou qualquer ajuda. Tião só pedia flores e rezas! Flores para enfeitar a cruz de Rosalinda. Rezas para aguentar a consciência pesada... na esperança de um dia (quem sabe?) conseguir o perdão de Deus... e o da sua Santinha!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Carolina Ramos (1924)
CAROLINA RAMOS DE OLIVEIRA, popularmente conhecida no meio literário como Carolina Ramos, é a “Primeira-Dama da Trova Brasileira” ou “Princesa da Trova”. Nascida em Santos/SP, em 1924, é um dos maiores nomes da literatura de quadras rimadas (trovas) no país e completou seu centenário em 2024 mantendo-se ativa na cultura.
Carolina Ramos nasceu, cresceu e reside até hoje na cidade de Santos (SP). Sua infância foi vivida em um lar singelo na Vila dos Andradas, área que atualmente abriga a Rodoviária de Santos. Ela possui um vínculo afetivo profundo e histórico com a baixada santista. Sua formação é múltipla e abrange diversas vertentes da educação e da arte. Formou-se professora pela Escola Normal do tradicional Colégio São José, onde também estudou Secretariado. Atuou lecionando e compondo hinos para instituições educacionais e culturais. Formou-se em piano, teoria, pedagogia e história da música no Instituto Musical Santa Cecília. Estudou também folclore no Instituto Musical Carlos Gomes. Atuou como artista plástica autodidata, conquistando reconhecimento e premiações em exposições nacionais e internacionais. Além disso, realizou curso de enfermagem socorrista pela Cruz Vermelha. Serviu como administradora cultural de destaque, tendo inclusive presidido o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) entre os anos de 2001 e 2007.
O despertar literário definitivo de Carolina ocorreu durante suas noites de insônia após o nascimento de sua segunda filha. Ela começou a compor versos tradicionais e, rapidamente, o seu domínio técnico da trova chamou a atenção dos grandes nomes da época. Em um episódio célebre, o lendário poeta Luiz Otávio (fundador da União Brasileira de Trovadores) apresentou-a publicamente sacramentando seu talento. Carolina Ramos é considerada uma verdadeira guardiã da trova no Brasil. Ela dedicou décadas a ensinar, divulgar e estruturar o movimento trovadoresco, aproximando a poesia clássica e popular do leitor comum e influenciando gerações de novos escritores. Ocupa cadeiras de prestígio em importantes sodalícios culturais do país, como União Brasileira de Trovadores: Presidiu a seção municipal de Santos e alcançou o topo da liderança institucional ao presidir o Conselho Nacional em 2011; Academia Santista de Letras; Academia Cristã de Letras (ACL), com sede em São Paulo; Academia Feminina de Letras; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), onde ocupa a cadeira número 46.
Acumulou incontáveis premiações nos gêneros de poesia, conto, crônica e trova ao redor do mundo. No universo da trova, recebeu as maiores honrarias possíveis do movimento nacional: Título máximo de Magnífica Trovadora nos renomados Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ), conquistado em 1973; Menção e título de Notável Trovadora concedido pelas cidades de Divinópolis e Pouso Alegre, em Minas Gerais.
Com uma vasta produção literária, a autora publicou 16 livros transitando com maestria entre a prosa e a poesia. Entre alguns de seus títulos estão: Cantigas Feitas de Sonho;  Peregrinação; ‘O Príncipe da Trova — livro biográfico e afetivo no qual narra a vida, a morte e o convívio poético com Luiz Otávio, o fundador do movimento trovadoresco nacional.
Carolina Ramos é considerada uma das maiores instituições vivas da literatura popular e clássica brasileira, exercendo um papel fundamental na preservação da memória literária nacional. A sua importância para a literatura se resume em que atuou na linha de frente para que a trova, vinda da Idade Média, ganhasse temáticas modernas, urbanas e cotidianas, mantendo o gênero atraente para as novas gerações. Ao publicar obras como O Príncipe da Trova, Carolina Ramos registrou a história viva e os bastidores da era de ouro da poesia nacional. Ela documentou o legado de Luiz Otávio e de outros grandes intelectuais do século XX, servindo como uma fonte histórica essencial para pesquisadores da literatura brasileira. Em uma época em que o ambiente acadêmico e literário era predominantemente dominado por homens, Carolina Ramos conquistou os títulos máximos da poesia brasileira por mérito técnico incontestável. Ela abriu portas para que mulheres escritoras ocupassem cadeiras de prestígio nas academias de letras e assumissem cargos de liderança cultural e intelectual.

Fonte:
Carolina Ramos. Canta… Sabiá! (folclore). Santos/SP, 2021. conto integrante do capítulo 5: Contos rústicos, telúricos e outros mais. p. 253. Livro enviado pela autora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Versos Esparsos * 15 *