São José dos Campos/SP
AMOR À ROÇA
Idoso, já comendo de alpisteiro,
Sem condição alguma de voltar
À minha antiga faina de vaqueiro,
Eu passo o dia todo a meditar...
Mas não lamento estar o tempo inteiro
Deitado, sem poder me levantar,
Pois aproveito bem ainda o cheiro
Gostoso do curral que vem no ar...
Vem-me à lembrança o verde da campina
Bastante esbranquiçada de nelore,
Mal dissipava o sol toda a neblina...
E vou compondo versos, quanto possa...
Não quero que a saudade me estupore,
Com tanto amor que tenho pela roça!
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Cidinha Frigeri
Londrina/PR
Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina
minha sede então saciou.
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Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis/RJ
RUMO DA VIDA
Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada...
Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema...
Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!
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Nemésio Prata
Fortaleza/CE
Perdido em pleno deserto,
procurei, com muito prumo,
encontrar o rumo certo;
achei..., e mudei de rumo!
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José Antonio Jacob
Juiz de Fora/MG
ALMINHA
Desperto, pois que o sol já está lá fora,
E ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.
Que corre alegre, rodopia e trança
Entre o florado que a manhã decora,
Depois, como uma folha, vai embora
Seguindo a brisa que na tarde avança.
Não se descuide minha alminha boa
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina e o tempo voa!...
E, antes que o dia, ao alto, se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve,
E acomoda-se, no meu colo, e dorme...
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Miguel Malty
Brasília/DF
Clarão de cristais:
Das brumas emerge a terra
Na luz da alvorada.
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Cora Coralina
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás/GO, 1889 – 1985, Goiânia/GO
VELHO
Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.
Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.
A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.
Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.
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Ana Maria do Nascimento
Araçoiaba/CE
Ao surgir um trovador,
na minha estrada sem fim
o néctar de um pleno amor
pude descobrir em mim!
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Carlos Drummond de Andrade
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
LAGOA
Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.
Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
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Esmeraldo Siqueira
Pedro Velho/RN
Crer no amor é crer na vida,
saber amar é viver.
Quem descrê do amor duvida
da própria razão de ser.
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Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
SE UM DIA...
- Se um dia me disseres... se o disseres!
“Amo-te! Apesar dos teus defeitos!”
Serás a maior, mais falsa das mulheres,
dentre outras tantas. Sem quaisquer conceitos!
Dirás apenas que ... ”Por que me queres,
pois nenhuma de nós pensa em “direitos”?
Eis que somos apenas teus talheres,
das tuas refeições e teus confeitos!
Tenho o direito de dizer: Sou tua!
Enquanto vives tu, vives na rua,
e te queres achar seres meu dono!
Que mãe eu tive – se algum dia a tive?
Não a conheço e se tampouco vive.
...A quem pertenço – enfim - neste abandono?
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Guilherme de Almeida
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP
CARIDADE
Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.
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Miguel Russowsky
Santa Maria/RS ,1923 – 2009, Joaçaba/SC
SOLIDÃO
Depois que o amor passou... fez-se o vazio
e o desespero armou a sua tenda,
num leito triste abandonado e frio,
que nem a própria insônia recomenda.
Ficaram três promessas em contenda,
semi murchas e tortas , num desvio.
As ilusões gentis, em minha agenda,
entraram em completo desvario.
Sobrou a solidão que está comigo.
Sou bom anfitrião e dei-lhe abrigo,
pois prefere pessoas com idade.
A solidão é muito inteligente,
vive plantando, a sós, uma semente,
que nasce sob a forma de saudade.
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Fabrício Avelino
Barbacena/MG
linha
reta
rotas
tortas
letras
alteradas
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Professor Garcia
Caicó/RN
SENTIMENTOS
Quando o dia se apressa e vai embora,
num silêncio que fere e que angustia,
a tristeza me invade e me devora,
nas horas sepulcrais, do fim do dia.
Como quem diz adeus e triste chora,
vai-se o sol delirando de agonia,
e a cortina da noite, Deus decora,
com luz tênue, de vã melancolia.
Distante, bem distante, muito além,
a tristeza me acena, como quem
se despede de alguém, que já morreu,
foi apenas a luz de um dia lindo,
que cansada, acenou quase dormindo
e nos braços da noite adormeceu!
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Ari de Santos Campos
Balneário Camboriú/SC
Areias soltas no chão,
rolam pra lá e pra cá...
Eu sou apenas um grão
que só vive a Deus dará.
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Fernando Pessoa
Lisboa/ Portugal, 1888 - 1935
DORME
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
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