um passa os dias
chutando postes para ver se acendem
o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco
todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também
* * * * * * * * * * * * * * * *
bate o vento eu movo
volta a bater de novo
a me mover eu volto
sempre em volta deste
meu amor ao vento
* * * * * * * * * * * * * * * *
hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher linguiça
entre um triunfo e um waterloo
* * * * * * * * * * * * * * * *
você
que a gente chama
quando gama
quando está com medo
e mágua
quando está com sede
e não tem água
você
só você
que a gente segue
até que acaba
em cheque
ou em chamas
qualquer som
qualquer um
pode ser tua voz
teu zum-zum-zum
todo susto
sob a forma
de um súbito arbusto
seixo solto
céu revolto
pode ser teu vulto
ou tua volta
* * * * * * * * * * * * * * * *
esperas frustras
vésperas frutas
matérias brutas
quantas estrelas
custas?
* * * * * * * * * * * * * * * *
oração de pajé
que eu seja erva raio
no coração de meus amigos
árvore força
na beira do riacho
pedra na fonte
estrela
na borda
do abismo
* * * * * * * * * * * * * * * *
dia
dai-me
a sabedoria de caetano
nunca ler jornais
a loucura de glauber
ter sempre uma cabeça cortada a mais
a fúria de décio
nunca fazer versinhos normais
* * * * * * * * * * * * * * * *
ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor
só doer
não é dor
delícia
de experimentador
* * * * * * * * * * * * * * * *
lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
* * * * * * * * * * * * * * * *
como um coto caro ao roto
incrédulo tiago
toco as chagas
que me chegam
do passado
mutilado
toco o nada
aquele nada que não para
aquele agora nada
que tinha
a minha
cara
nada não
que nada nenhum
declara tamanha danação
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
O poeta, escritor e intelectual PAULO LEMINSKI FILHO foi uma das mentes mais inovadoras, irreverentes e originais do cenário cultural brasileiro do século XX. Nasceu em Curitiba/PR, em 1944, filho de um militar de origem polonesa e de uma mãe de ascendência afro-brasileira. Faleceu precocemente aos 44 anos, também em Curitiba em 1989, decorrência de complicações de uma cirrose hepática. Passou a maior parte da sua vida em Curitiba. Aos 12 anos, mudou-se temporariamente para São Paulo/SP para estudar no Mosteiro de São Bento. Entre 1969 e 1970, residiu brevemente no Rio de Janeiro, retornando logo depois à capital paranaense, onde sua casa no bairro Cruz do Pilarzinho tornou-se um famoso ponto de encontro de artistas.
Leminski foi o que ele mesmo chamava de um "polivivente". Atuou intensamente como professor de história e redação em cursinhos pré-vestibulares, jornalista, crítico literário e tradutor (dominava e traduzia cerca de sete idiomas, incluindo latim, japonês e grego). Além disso, trabalhou com grande destaque no mercado publicitário como diretor de criação e redator e na música como compositor, firmando parcerias com nomes como Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Moraes Moreira. Fiel ao seu espírito vanguardista, boêmio e contestador, Leminski nunca pertenceu formalmente a nenhuma academia de letras tradicional em vida, pois sua postura artística rejeitava o formalismo e as instituições tradicionais da literatura. O reconhecimento dessas instituições veio de forma póstuma através de homenagens e estudos sobre seu legado.
Sua estreia literária formal aconteceu em 1964 na revista Invenção, dirigida pelos poetas concretistas de São Paulo (os irmãos Haroldo e Augusto de Campos). Leminski mesclou o rigor estético da Poesia Concreta, a velocidade do texto publicitário, a síntese milenar do haicai japonês e a rebeldia da Geração Mimeógrafo (poesia marginal). Ganhou notoriedade em premiações populares de poesia de vanguarda no início de sua trajetória. O grande triunfo de premiação literária de sua obra ocorreu postumamente, quando a antologia Toda Poesia conquistou o prestigiado Prêmio Jabuti em 2014, além de figurar de forma inédita para um livro de poesia no topo dos mais vendidos do país.
Principais livros publicados: Catatau (1975) – Romance experimental e sua obra em prosa mais famosa; Caprichos e Relaxos (1983) – Coletânea poética que consolidou sua voz no país; Distraídos Venceremos (1987) – Último livro de poesia publicado em vida; Agora é que são elas (1984) – Romance; Toda Poesia (2013) – Coletânea póstuma que transformou sua obra em um fenômeno pop.
A relevância de Paulo Leminski para a literatura reside na sua capacidade única de democratizar a poesia sem esvaziá-la de profundidade intelectual. Ele derrubou as barreiras entre a alta cultura erudita e a cultura pop de massa. Ao unir o rigor formal ao humor corrente, ao trocadilho cotidiano e ao lirismo afiado, ele retirou a poesia do ambiente acadêmico rígido e a levou para as ruas, as canções e os cartazes de publicidade. Leminski provou que a poesia poderia ser concisa, ágil, sutil e, acima de tudo, intensamente viva. Seu impacto permanece pulsante, servindo como uma das maiores influências para as novas gerações de escritores e poetas contemporâneos no Brasil.
Fontes:
Paulo Leminski. Distraídos venceremos. Publicado em 1987.
Biografia = Wikipedia, Estadão, Ebiografia, Almanaque O Voo da Gralha Azul, Sesc PR, Bem Paraná, Brasil Escola, Mundo Educação, etc.

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