Com o pensamento, talvez, de aperfeiçoar a raça, já de si tão robusta e formosa, votou o Parlamento uruguaio um projeto de lei determinando às autoridades que não realizem mais casamentos sem que os noivos se tenham submetido, com resultado negativo, à reação de Wasserman. Acham os legisladores de Montevidéu que a mulher constitui para os homens uma cruz, e foi com pena deles, provavelmente, que se tomou a providência. Que seria, em verdade, do mortal que tomasse aos ombros a cruz da família depois de ter duas, ou três, constatadas num paciente exame de sangue?
Vindo de uma época excessivamente escrupulosa, em que os pais dos namorados sindicavam das condições sanitárias dos antepassados até à quinta geração, e em que os próprios noivos tomavam um purgativo de óleo de rícino oito dias antes do casamento, - eu não podia ser contrário à humanitária medida promulgada pelo governo do Uruguai. O meu espírito faltaria, entretanto, ao seu dever de sinceridade, aos hábitos de franqueza incondicional, se não confessasse o temor, que tenho, de que essa exigência venha reduzir, ali, o número de casamentos.
O casamento é, realmente, hoje, encarado por um prisma original, que degrada, é certo, a mulher, mas reintegra a espécie na natureza, permitindo-lhe a realização do seu verdadeiro destino. Dessa teoria, dava-me, ontem, uma perfeita imagem industrial o Sr. Roberto de Aguiar, agente de pneumáticos americanos, ao explicar-me, sem constrangimento nem entraves na língua:
- O casamento só pode ser julgado com segurança, Sr. conselheiro, por pessoa que já teve automóvel. A esposa ou o esposo definitivo é, para o homem ou para a mulher, uma espécie de automóvel particular. E nada há no mundo, como o senhor sabe, que, como um automóvel particular, dê tanto trabalho: um dia, é uma peça que falta; no outro, é a gasolina; mais tarde, é a capota, que está estragada. O dono de um automóvel vive a fazer despesas todos os dias, a incomodar-se a todo instante, e, quando mais precisa do carro, tem a noticia de que ele não pode funcionar!
Eu encarei o homenzinho, disposto a deixá-lo, àquela hora da madrugada, na primeira esquina da Avenida, e ele continuou:
- Com a amante, ou o amante, não; o amante, qualquer que seja o sexo, é o "taxi" do coração: a gente toma-o, paga-o, e salta onde entende, sem perguntar, sequer, o nome da "garage". Marido ou amante, auto particular ou "taxi", que importa à mulher, ou ao homem, a espécie do veículo, se ele faz a viagem da mesma maneira? E isso com a vantagem de, ao abandonar o carro, não ter passageiro que se incomodar com o estado do motor, nem com a qualidade dos lubrificantes.
Nesse momento, soavam, monótonas, em uma torre da Avenida, três badaladas metálicas, quebrando o silêncio da noite, quase acabada:
- Três horas! - espantou-se o major Afonso Gomide, que ia conosco. - Vamo-nos?
O agente americano estendeu os olhos pela Avenida deserta, e lamentou:
- Sim, senhor! Nem um "taxi"!... E agora?
- Vamos no meu automóvel, - convidou o major, fazendo sinal ao seu "chauffeur".
Desabituado desses luxos, eu continuei o meu caminho, a pé…
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HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.
Sua importância para as letras nacionais combina o sucesso comercial de massa à ocupação de um espaço central na cultura oficial da época. Humberto de Campos alcançou um feito raro para a sua época: viver exclusivamente de seus direitos autorais. Seus livros alcançavam tiragens impressionantes e esgotavam rapidamente. Ele conseguiu aproximar o grande público da literatura por meio de uma escrita acessível, fluida e cativante, tornando-se o cronista mais lido do Brasil nos anos 1920 e 1930. Como jornalista e escritor, ele refinou e popularizou a crônica urbana e humorística. Sob o pseudônimo de Conselheiro XX, publicava textos repletos de ironia, sátira política e observações do cotidiano. Ele dominava a arte de contar anedotas históricas e fofocas dos bastidores da corte e da República, humanizando figuras históricas e tornando o passado atraente para o leitor comum. Sua presença ajudou a consolidar o prestígio da ABL perante a sociedade civil, usando sua enorme projeção nos jornais para aproximar a Academia do público e valorizar a carreira do escritor profissional no Brasil. Suas obras autobiográficas, em especial Memórias (1933) e Os Olhos Comidos pelo Peixe, são consideradas primores do memorialismo brasileiro. Nestes livros, ele registrou com sensibilidade e crueza a sua infância pobre no Maranhão e as dificuldades da juventude, deixando um retrato sociológico e histórico valioso sobre a vida nas províncias e na capital federal no início da República. Mesmo após a sua morte em 1934, o nome de Humberto de Campos continuou no centro de um dos episódios mais singulares da história literária e jurídica do Brasil. O médium Chico Xavier começou a psicografar livros de crônicas e mensagens atribuídas ao espírito do escritor (assinando como Humberto de Campos e, posteriormente, Irmão X). O estilo literário dessas obras psicografadas (como Crônicas de Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho) era tão fiel ao estilo irônico e refinado do autor vivo que a família de Humberto de Campos moveu um famoso processo judicial nos anos 1940 para reivindicar os direitos autorais. Esse fenômeno estendeu a influência do seu estilo literário por mais várias décadas, integrando o seu nome de forma definitiva à cultura popular e religiosa do país.
Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. 1925.

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