Trovadores em Ordem Alfabética

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A. A. de Assis (Era um tempo e tanto) Parte 1


01.
Ouço ainda o canto
de um velho carro de boi.
Era um tempo e tanto.

02.
Memórias, memórias.
Volta e meia volta a minha
me contando histórias.

03.
Passeio ao passado.
Passe livre pra quem curte
recurtir saudade.

04.
Suave chegava
o som de uma serenata.
O luar luava.

05.
Ouvi gramofone,
ouvi discos de vinil.
Ouvi sabiás.

06.
Bem-traçadas linhas,
acanhadas confissões.
As cartas de amor.

07.
Eram tão mamães
as cantigas de ninar.
Tão mamães os colos.

08.
Jipe, jardineira,
teco-teco, DC-3.
Pioneiros chegando.

09.
Semente na mão.
O pai plantando o futuro
do filho doutor.

10.
O pilão de milho,
o moinho de café.
Chuveiro de balde.

11.
Prosa na cozinha.
Requentando a canja,
recontando casos.

12.
A Páscoa, o Natal,
a festa do Padroeiro.
Famílias à mesa.

13.
Tardes de verão.
Vizinhança na calçada
pondo o assunto em dia.

14.
Será que ainda contam
histórias de era uma vez?
Conta mais, Dindinha.

15.
Hoje o hoje é hoje,
amanhã já será ontem.
Tudo assim, num zás.

16.
Do vapor ao jato.
Súbito o mundo virou
de ponta-cabeça.

17.
Voar era o sonho,
até que o sonho voou.
O céu é das asas.

18.
Chaplin, Pavarotti,
Gandhi, Churchill, Luther King.
Riquíssimo século.

19.
Garrincha e Pelé.
Depois deles nunca mais
houve igual olé.

20.
Faz tempo houve um tempo
em que a gente olhava o céu.
Via e ouvia estrelas.

21.
Repicam os sinos.
Os mesmos que os meus ouvidos
de menino ouviram.

22.
Ele na primeira,
eu na derradeira infância.
O bisneto e o biso.

23.
Dedão destroncado,
braço preso na tipoia.
Garoto levado.

24.
Mindim, seu-vizim,
pai-de-todos, fura-bolo.
Ao sobrante, o piolho.

25.
Tão longe, tão ontem.
Era uma vez eu menino
ensaiando a vida.

26.
Salgados, refrescos.
Lá ia alegre a moçada
para o piquenique.

27.
Baile na penumbra.
Pares de rostos colados
e um bolero ao fundo.

28.
Moradas sem muros,
simbólicas taramelas.
Cidade sem medo.

29.
Bença mãe, bom dia,
por favor, me dá licença.
Os belos bons modos.

30.
A pasta da escola.
Cartilha, papel manilha,
e o mata-borrão.
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Continua...
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         ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiro

Fonte:
A. A. de Assis. Era um tempo e tanto. (triversos). Ed. Do Autor, 2021. Ebook enviado pelo autor.

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