— Mas eu não sei...
— Não faz mal, toque assim mesmo, não se faça de rogada. Aquela valsinha...
A pálida menina geme novos luxinhos faceiros, torce os pingentes da almofada e por fim levanta-se, toda dengues, a desculpar-se.
— Vou errar tudo, não tenho estudado há muitos dias, estou esquecida...
— Não faz mal, toque!...
Sinhazinha senta-se ao piano, folheia a maçaroca de músicas e preguiçosamente abre diante de si uma valsa de Aurélio Cavalcanti. E toca: blem, blem, belelém...
A sala então, que só por aquilo esperava, afunda na conversa. O barulho do piano, abafando o tom geral da palestra, dá azo à delícia dos duos, em que cada um pega de cochicho com quem mais o atende. As matronas, donas de casa, caem no assunto dileto — os criados!
— Ai, os criados! Que gente, prima! Que pestes! Não fazem “isto” sem uma pessoa estar em cima; se vão a compras, roubam no troco... E não se lhes diga uma palavrinha! Pedem a conta e dizem desaforos, os demônios...
As meninas rodeiam o moço, que impa como um galo e desdobra o farnel da banalidade tão cara às mulheres; todas ouvem-no atentas, bebem-lhe os ditos, riem das suas pilhérias, acham-no “levado”.
Titinha diz, sorvendo-o com os olhos:
— Este seu Raul é mesmo da pele!
Num desvão da janela cochicha-se um namoro; a das Dores conta à do Carmo que não gosta mais do Luisinho por umas certas coisas que viu no último baile. Do Carmo comenta, sentenciosa:
— Os homens! Os homens!...
Duas em outro canto riem perdidamente, em casquinadas argentinas. Nisto Sinhazinha acaba a valsa. A sala dá pela coisa, interrompe a tagarelice e pede mais:
— Muito bem, Sinhazinha, muito bem! Toque outra!...
Sinhazinha ataca uma scottish.
A sala retoma os temas interrompidos.
— Mas... como eu ia contando...
Impossível negar as vantagens sociais da música.
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JOSÉ BENTO RENATO MONTEIRO LOBATO (ao longo da infância, alterou seu nome para José Bento Monteiro Lobato para poder usar uma bengala de seu falecido pai que continha as iniciais "JBML" gravadas). foi um dos mais influentes, polêmicos e visionários intelectuais do Brasil. Ele revolucionou o mercado editorial do país e consagrou-se universalmente como o pai da literatura infantil brasileira. Nasceu em Taubaté/SP em 1882. e faleceu aos 66 anos, na cidade de São Paulo/SP, em 1948, vítima de um derrame. Cresceu em Taubaté. Estudou e morou na capital de São Paulo durante a faculdade. Viveu no interior paulista em Areias (como promotor) e depois na fazenda Buquira (em Tremembé). Na maturidade, fixou residência na cidade de São Paulo. Também morou no exterior como adido comercial em Nova Iorque/EUA entre 1927 e 1931, e passou um curto período de exílio voluntário em Buenos Aires/Argentina nos anos 1940.
Lobato foi um homem hiperativo, multifacetado e de perfil empreendedor. Formou-se em Direito e atuou como promotor público. Foi também fazendeiro, jornalista, crítico de arte e empresário. Teve papel histórico e pioneiro na campanha nacionalista pelo petróleo brasileiro ("O petróleo é nosso") e fundou indústrias de perfuração de poços. Na área gráfica, revolucionou o mercado nacional ao criar as primeiras grandes editoras do país (como a Monteiro Lobato & Cia. e a Companhia Editora Nacional), permitindo que livros passassem a ser fabricados e amplamente distribuídos no Brasil, e não mais importados da Europa. Nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele tentou candidatar-se nas décadas de 1920 (desistindo em uma ocasião e perdendo em outra). Em 1944, a instituição tentou indicá-lo, mas Lobato recusou formalmente devido a divergências políticas e ao seu desprezo por formalidades acadêmicas, preferindo manter-se independente das instituições tradicionais.
Sua literatura divide-se nitidamente em duas frentes: a produção adulta (filiada ao Pré-Modernismo, com forte denúncia social e nacionalismo) e a produção voltada para as crianças, que inaugurou uma nova era no país. Em vida, não recebeu grandes premiações institucionais oficiais, pois sua postura combativa e suas críticas ácidas à cultura acadêmica o afastavam de tais círculos. No entanto, sua maior recompensa foi o sucesso comercial absoluto (seus livros foram os primeiros best-sellers do Brasil). Hoje, seu nome batiza a maior honraria da literatura infantojuvenil brasileira outorgada pela Biblioteca Nacional: o Prêmio Monteiro Lobato. O dia do seu nascimento (18 de abril) foi instituído por lei como o Dia Nacional do Livro Infantil.
Principais livros publicados:
Para Adultos: Urupês (1918 — livro de contos onde criou o famoso personagem Jeca Tatu, o caipira abandonado pelo Estado); Cidades Mortas (1919); O Presidente Negro (1926 — seu único romance de ficção científica); e ensaios como O Escândalo do Petróleo (1936).
Para Crianças (Série Sítio do Picapau Amarelo): Reinações de Narizinho (1931); Caçadas de Pedrinho (1933); Emília no País da Gramática (1934); O Picapau Amarelo (1939); e A Chave do Tamanho (1942).
A relevância de Monteiro Lobato é gigantesca e, ao mesmo tempo, alvo de intensos debates contemporâneos. Por um lado, ele fundou a literatura infantil no Brasil. Antes dele, os livros para crianças eram meras traduções de fábulas europeias com tom excessivamente moralista e punitivo. Lobato trouxe o folclore nacional (como o Saci), misturou a mitologia grega, a ciência e a geografia em narrativas profundamente lúdicas, dando voz e autonomia às crianças através de personagens irreverentes como a boneca Emília. Ele alfabetizou e moldou o hábito de leitura de gerações de brasileiros. Por outro lado, estudos literários contemporâneos apontam e criticam de forma severa a presença de conteúdos de cunho racista e preconceitos de época em suas obras adultas e em trechos de seus livros infantis (notadamente na forma como a personagem Tia Nastácia é descrita ou tratada em certas passagens). Mesmo diante de suas contradições históricas, Lobato permanece como um pilar fundamental da cultura brasileira: um homem que tirou o livro da exclusividade das elites, criou a indústria editorial do país e ensinou o Brasil a ler a partir de sua própria realidade.
Fontes:
Monteiro Lobato. Cidades mortas. publicado em 1919.
Biografia = Wikipedia, Catálogo das Artes, Educa Mais Brasil, Clube do Português, Enciclopedia Britannica, Ebiografia, Editora Unesp, Brasil Escola, Almanaque O Voo da Gralha Azul, Enciclopedia Itau Cultural, Academia Brasileira de Letras, etc,

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