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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Alberto Figueiredo Pimentel (O Pássaro Mavioso)


Sebastião nascera de pais opulentos. Desde a mais terra infância vivia no meio de grande esplendor, só vestindo seda, gorgorão, veludo, rendas finas; deitava-se em berços riquíssimos e luxuosos; tinha à sua disposição toda a sorte de brinquedos. No entanto, a natureza fê-lo cretino, pateta, tatibitate.

Aos oito anos começou a frequentar bons colégios, e a aprender com professores célebres. Contudo, nunca perdia o ar de tolo que tinha desde criança.

O sr. Leocádio, seu pai, resolveu um dia mandá-lo viajar, para ver se ele assim conseguia melhorar.

Uma manhã Sebastião saiu com bastante dinheiro nas algibeiras, e começou a correr terras.

Depois de viajar algum tempo, foi ter a uma cidade onde estavam fazendo leilão de um pássaro que todo o mundo porfiava para ver se o arrematava.

Indagando Sebastião porque motivo naquela terra um passarinho custava tão caro, disseram-lhe que todo o mundo desejava possuir aquele, porque, quando ele cantava, todos que o ouviam adormeciam no mesmo instante.

Em vista disso o moço lançou elevada quantia e ficou com o pássaro. Prosseguindo na viagem foi ter a outra cidade, onde se estava vendendo um besouro que já estava por elevadíssimo preço.

Sebastião, aproximou-se de um dos homens que estavam no leilão e perguntou:

– Qual é a preciosidade desse besouro para se pedir tão caro por ele?!...

– É que ele invisivelmente faz tudo quanto a gente mandar, e é capaz de arrombar uma porta por mais forte que seja.

O moço arrematou o besouro e seguiu adiante.

Chegando a outro país, viu outro leilão, onde toda a gente oferecia grandes somas para ver se arrematava um ratinho.

Inquirindo da vantagem de semelhante animal, disseram-lhe que aquele rato tinha a particularidade de fazer tudo o que se lhe mandava, e, além disso, era capaz de furar paredes sobre paredes, sem ser pressentido.

Achando que esta terceira preciosidade poderia convir-lhe mais tarde o rapaz arrematou o ratinho e levou-o consigo.

Ao cabo de muitas semanas de jornada chegou por fim a um reino, onde viu imensa multidão fazendo caretas em frente à janela onde estava a princesa Carlota, filha do rei.

Perguntando o que significava aquele povo parado a fazer caretas, responderam-lhe que intentavam ver se conseguiam fazer a princesa rir, e explicaram-lhe que ela, desde que nascera, nunca rira, e que se casaria com ela aquele que o conseguisse, segundo a promessa do rei.

Sem se importar com aquela gente, Sebastião dirigiu-se para baixo das árvores, que ficavam em frente ao palácio, apeou-se do cavalo, e pendurou a gaiola do pássaro num galho.

Ia sentar-se, para descansar, quando se dirigiu para os animais, dizendo:

– Agora, mestre rato, vá buscar água para o cavalo, e tu, besouro, traze capim.

Os dois bichinhos foram fazer o que lhes mandava seu amo. Assim que a princesa viu o besouro trazendo capim para o cavalo, desandou em gostosa gargalhada.

As pessoas que se achavam debaixo da janela, começaram a dizer:

– Fui eu quem fez a princesa rir.

– Fui eu, dizia outro.

E cada qual se julgava ser o único causador de tão grande acontecimento, esperando em vista disso casar-se com a interessante Carlota, e vir a reinar por morte do velho monarca.

O rei, admirado, e ao mesmo tempo para não ter dúvidas, perguntou à filha quem tinha sido o autor daquele assombro.

– Foi aquele homem, disse a princesinha, que está sentado embaixo da árvore, com uma gaiola e outros bichos mais.

Sua majestade imediatamente ordenou que Sebastião viesse à sua presença e comunicou-lhe que tinha de casar com a princesa.

O moço ficou espantado, por não esperar por aquilo, e como sabia que a vontade do rei havia de ser cumprida, teve de se casar.

Na noite do casamento mostrou-se ele muito acanhado. A princesa desconfiando ser pouco caso que o rapaz lhe mostrava, no dia seguinte foi dizer ao rei que estava enganada que não fora aquele, e sim outro, o homem que a fizera rir.

Anulou-se o casamento com Sebastião, e fez-se com outro.

Na noite do casamento, o moço que tinha voltado para debaixo da árvore, calculando a hora em que os noivos deviam ir para o quarto, falou para o passarinho:

– Canta, rouxinol!...

O pássaro abriu o bico e todos no palácio caíram no sono.

O rapaz dirigiu-se ao besouro:

– Agora, entra tu no quarto dos noivos, desarruma tudo, e faze lá dentro uma mixórdia.

O besouro fez a sua obrigação melhor do que se pode imaginar.

Ao outro dia, quando a princesa viu aquela desordem, ficou muito contrariada, e foi-se queixar ao rei que aquele não era o homem que ela supunha, e que queria desmanchar o casamento.

O rei ficou aborrecido, e disse-lhe que esperasse mais algum dias para ver.

Na noite seguinte, depois de todos novamente dormirem com o canto do pássaro mavioso, Sebastião, mandou o rato desmanchar tudo quanto houvesse no quarto da princesa.

O rato ainda melhor que o besouro, pôs tudo numa desordem impossível.

Carlota, a princesa, ao acordar, vendo tudo aquilo foi dizer ao pai que não havia mais dúvida, que o seu primeiro marido era o verdadeiro.

Sebastião foi chamado, e ficaram os dois casados, tornando-se ele um moço desembaraçado, bem falante, conversador, espirituoso e inteligente. Desde esse dia, ambos viveram felicíssimos, e nunca mais se queixou a formosa princesa do pouco caso que lhe ligava seu marido.
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        ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL (conhecido no meio literário apenas como Figueiredo Pimentel) foi um dos autores e jornalistas mais prolíficos e polivalentes do Brasil na virada do século XIX para o século XX. Ele alcançou imensa notoriedade tanto por suas crônicas urbanas da Belle Époque carioca quanto por ser o grande pioneiro e consolidador da literatura infantil no país. Nasceu em 1869, em Macaé/RJ, e faleceu precocemente aos 44 anos, em 1914, na cidade do Rio de Janeiro. Embora tenha nascido em Macaé, viveu e construiu toda a sua efervescente trajetória profissional e pessoal na capital federal da época, o Rio de Janeiro. Iniciou-se na imprensa muito jovem, aos 17 anos. Teve uma carreira marcante no jornalismo carioca, trabalhando em importantes periódicos da Primeira República. A partir de 1907, manteve a badalada coluna diária "O Binóculo" no jornal Gazeta de Notícias. Sob o pseudônimo "Fif", ele ditava a moda, os costumes e o comportamento da sociedade carioca. Tornou-se célebre por cunhar e popularizar o famoso slogan "O Rio civiliza-se". Também atuou brevemente no corpo diplomático brasileiro. 
Foi um autêntico polígrafo: escreveu romances naturalistas chocantes, poesias decadentes e parnasianas, peças de teatro, folhetins, crônicas e contos. No exterior, redigiu seções sobre as letras brasileiras na prestigiada revista francesa Mercure de France. Embora tenha sido contemporâneo e colega de grandes nomes que fundaram a Academia Brasileira de Letras (como Olavo Bilac e Coelho Neto), Pimentel não fez parte da ABL e focou sua atuação no mercado editorial de massa, na imprensa cotidiana e em revistas do movimento Simbolista. Na época, sua atuação era voltada ao público leitor direto, sem registros expressivos de premiações institucionais oficiais, mas com enorme sucesso de vendas.
Sua produção literária dividiu-se nitidamente em duas vertentes: a ficção adulta (marcada por polêmicas) e as obras infantis de imenso sucesso popular: 
Literatura Adulta e Poesia: Fototipias (1893) – Seu livro de estreia na poesia, com fortes traços parnasianos; O Aborto (1893) – Romance naturalista de teor ousado e polêmico para a época; Livro Mau (1895) – Livro de poesias com caráter pessimista e decadentista. 
Literatura Infantil: Contos da Carochinha (1894/1896) – Sua obra mais famosa, que adaptou histórias clássicas e populares; Histórias da Avozinha (1896); Contos da Baratinha (1896); Histórias do Arco-da-Velha.
A relevância de Figueiredo Pimentel é gigantesca por dois motivos principais: 1) Muito antes de Monteiro Lobato, Pimentel foi o primeiro intelectual a se preocupar sistematicamente em criar um mercado de livros acessível para crianças no Brasil. Ele compilou, traduziu, adaptou e aclimatou ao contexto nacional as fábulas e os contos europeus (de autores como os Irmãos Grimm, Andersen e Perrault) e contos do folclore local recolhidos da tradição oral. 2) Como cronista, moldou a identidade cultural e a transição urbana do Rio de Janeiro no início do século XX. Suas colunas funcionavam como um espelho e um manual de civilidade para a nova sociedade republicana que buscava se modernizar e se espelhar em Paris.

Fontes:
Alberto Figueiredo Pimentel. Histórias da Avozinha. Publicado em 1896.
Biografia = Wikipedia, Foco Publicações, UFSC (Literatura Brasileira), Antonio Miranda. Escritas.org, UNICAMP, Atena Editora, etc.

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A cozinha da maloca é tão baixinha e apertada, que, na panela, a pipoca, não pula... fica sentada!!! = = = = = = = = = = = A mini saia amare...