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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Stanislaw Ponte Preta (O menino que chupou a bala errada)


Ele que era um menininho que adorava bala e isto não lhe dava qualquer condição de originalidade, é ou não é? Tudo que é menininho gosta de bala. Mas o garoto desta história era tarado por bala. Ele tinha assim uma espécie de ideia fixa, uma coisa assim... assim, como direi? Ah... creio que arranjei um bom exemplo comparativo: o garoto tinha por bala a mesma loucura que o Sr. Lacerda tem pelo poder.

Vai daí um dia o pai do menininho estava limpando o revólver e, para que a arma não lhe fizesse uma falseta, descarregou-a, colocando as balas em cima da mesa. O menininho veio lá do quintal, viu aquilo ali e perguntou pro pai o que era:

— É bala — respondeu o pai, distraído.

Imediatamente o menininho pegou diversas, botou na boca e engoliu, para desespero do pai, que não medira as consequências de uma informação que seria razoável a um filho comum, mas não a um filho que não podia ouvir falar em bala que ficava tarado para chupá-las.

Chamou a mãe (do menino), explicou o que ocorrera e a pobre senhora saiu desvairada para o telefone, para comunicar a desgraça ao médico.

Esse tranquilizou a senhora e disse que iria até lá, em seguida.

Era um velho clínico, desses gordos e bonachões, acostumados aos pequenos dramas domésticos. Deu um laxante para o menininho e esclareceu que nada de mais iria ocorrer. Mas a mãe estava ainda aflita e insistiu:

— Mas não há perigo de vida, doutor?

— Não — garantiu o médico: — Para o menino não há o menor perigo de vida. Para os outros talvez.

— Para os outros? — estranhou a senhora.

— Bem. . . — ponderou o doutor: — O que eu quero dizer é que, pelo menos durante o período de recuperação, talvez fosse prudente não apontar o menino para ninguém.
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        STANISLAW PONTE PRETA é o célebre pseudônimo e heterônimo literário de Sérgio Marcus Rangel  Porto. Foi um dos maiores jornalistas, cronistas, humoristas e críticos de costumes da história do Brasil. Nascido no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro/RJ, em 1923, faleceu precocemente na mesma cidade em 1968, aos 45 anos, vítima de um infarto. Sérgio Porto foi a própria personificação do espírito carioca da zona sul. Ele nasceu, cresceu e morou a vida inteira em Copacabana. Primeiro, viveu em uma casa construída por seu avô e, após a demolição desta, passou a morar no edifício erguido no mesmo terreno. Quando o presidente Jânio Quadros o convidou para ser adido cultural na Iugoslávia, o escritor recusou com uma de suas célebres frases: "Muito obrigado, Presidente, mas daqui não saio nem para Ipanema". Sua rotina de trabalho era intensa e multifacetada, dividida entre o funcionalismo e a efervescência dos meios de comunicação da época. Antes de viver exclusivamente da escrita, trabalhou por 15 anos como funcionário concursado do Banco do Brasil. Chegou a cursar até o terceiro ano de Arquitetura, mas abandonou a faculdade. Atuou intensamente como jornalista político e esportivo, crítico de cinema, teatro, jazz e música popular. Foi também redator de programas humorísticos para rádio e televisão, roteirista de chanchadas e organizador de shows musicais de boate.
Em 1951, enquanto escrevia para o Diário Carioca, Sérgio Porto criou o personagem Stanislaw Ponte Preta. O nome foi uma paródia inspirada em Serafim Ponte Grande, obra de Oswald de Andrade. Sob o codinome de Stanislaw, o autor escrevia com a linguagem das ruas cariocas e criou um universo de personagens hilários que caricaturavam a sociedade brasileira, como a Tia Zulmira (uma idosa culta e avançada), o Primo Altamirando (o arquétipo do aproveitador) e as "Certinhas do Lalau" (uma lista anual de mulheres deslumbrantes do teatro de revista). Fiel ao seu espírito boêmio, anárquico e altamente crítico, Stanislaw Ponte Preta nunca pertenceu a academias de letras formais ou tradicionais. Ele preferia as mesas de bar e as redações de jornais ao lado de nomes como Millôr Fernandes, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Não buscou premiações institucionais em vida. O seu grande prêmio foi a consagração popular imediata: suas colunas em jornais como Última Hora vendiam milhares de exemplares e suas expressões eram adotadas instantaneamente pelo povo.
Entre ficção assinada como Sérgio Porto e as antologias satíricas de Stanislaw, seus livros que destacam-se: Tia Zulmira e Eu (1961); Primo Altamirando e Elas (1962); A Casa Demolida (1963) – Escrito sob o nome de Sérgio Porto, um livro com tom mais lírico e nostálgico sobre a destruição de sua antiga casa e a verticalização de Copacabana; FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País (Volumes 1, 2 e 3, publicados entre 1964 e 1968) – Sua obra máxima de cunho político; O Garoto Linha-Dura (1967).
A relevância de Stanislaw Ponte Preta para a literatura e para a história do Brasil baseia-se em dois pilares fundamentais:
1. Resistência Humorística contra a Ditadura Militar: Com o golpe de 1964, a censura e o autoritarismo tomaram conta do país. Stanislaw usou a ironia como arma política ao criar o FEBEAPÁ. Nessas crônicas, ele apenas colecionava as notícias e os atos reais, absurdos e ignorantes cometidos por autoridades, militares e falsos moralistas da época. Ao ridicularizar o regime com base nos próprios discursos provincianos dos generais, ele conseguiu driblar os censores e documentou a estupidez da ditadura com uma precisão histórica inigualável.
‘2. Cronista da Identidade Urbana Carioca: Ao lado de Rubem Braga, ele moldou a crônica brasileira moderna. Ele capturou como ninguém a transição de um Rio de Janeiro romântico para a metrópole dos edifícios de apartamentos pequenos, inventando neologismos, gírias e expressões (como o famoso musical Samba do Crioulo Doido, termo usado até hoje para definir confusões generalizadas).

Fontes:
Stanislaw Ponte Preta. Dois amigos e um chato. Ed. Moderna, 1996
Biografia = Ebiografia, Enciclopedia Itau Cultural, Wikipedia, Revista Oeste, Crônica Brasileira, Infoescola, etc.

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