Quando eu morrer, assim que chegar do lado de lá e confirmar que não há lado de lá, faço questão de baixar em algum centro só para dar a má notícia.
– Se houver algum espírito entre nós, que se manifeste.
– Não tem espírito nenhum porque espírito não existe. Vim só para dizer que não tem nada do lado de cá. O Além é uma ilusão.
– Se não tem nada desse lado daí, onde é que tu estás?
– Em lugar nenhum. Ateus são como a Buzina do Chacrinha: acabam quando terminam. Morreu, céfini. E não precisa me tratar na segunda pessoa porque sei que este centro é em Magé, não em Bagé.
– Mas se tu, quer dizer, se você acabou e não está em lugar nenhum como é que estamos conversando neste momento. Não faz sentido…
– Exatamente. Sabe qual a diferença entre o unicórnio de 4 chifres e o de 7 chifres?
– Um tem 3 chifres a mais.
– Não, não tem diferença nenhuma. Nenhum dos dois existe. Você estar falando agora com um espírito ateu inexistente é a mesma coisa de estar falando com um espírito de luz, que também não existe. É tudo uma projeção do seu inconsciente, tudo sua imaginação.
– Você está insinuando que isto aqui é uma armação?
– Uma armação, eu não digo. Um delírio, com certeza. Mas acredito que seja uma forma de consolar as pessoas, e nada mais consolador que a fantasia. Então, tá de boa.
– Mas não tem mesmo nada aí?
– Nadica.
– “Nosso lar” então era…
– … licença poética. Onde já se viu passarela para espírito, que não tem corpo, ter guarda-corpo? Tinha que ter guarda-espírito…
– É que os espíritos…
– Nem vem. Espírito é espírito, corpo é corpo. Uma coisa é o relógio, outra é a corda do relógio.
– Você não está comparando a alma humana com a corda do relógio, está? A corda é uma coisa mecânica…
– … e a alma é uma coisa química. Ou quer que eu acredite que, quando um relógio para, a corda do relógio vai para a “Nossa relojoaria”, onde continua tendo a forma de despertador, cuco, carrilhão, Casio, Rolex? E que depois um reloginho desses de ponteiro, se nunca tiver se atrasado na vida, pode reencarnar – quer dizer, reenrelojar – num relógio digital ou mesmo num celular…. me poupe.
– Mas é que a alma, o espírito, o perispírito, a psique, princípio vital…
– Mano, eu só vim para avisar que vocês vão se decepcionar quando chegarem aqui e não for nada do que imaginam. Porque aqui não existe. É só um imenso Nada, um Nada absoluto. Até eu, que sabia que ia encontrar o Nada fiquei abismado com um o tamanho do Nada que encontrei. Vazião mesmo.
– Ok, o papo tá ótimo, mas tem outros ectoplasmas na fila de espera para se manifestar e o pessoal aqui do centro tá ficando meio indócil com essa nossa conversa. Ide em paz, espírito ateu!
– Valeu, irmão! E obrigado pela segunda do plural. Pena que não exista nenhum centro espírita ateu. Ia ser divertido baixar lá com Freud, Einstein, da Vinci, Hawking, Sagan, Sartre, Niemeyer – que também chegaram aqui, não encontraram nada e vão passar o resto da eternidade sem uma corrente pra arrastar, uma cartinha para ditar, uma gira para animar, uma casa mal assombrada pra assombrar. Pensando bem, inexistir tem suas vantagens. A gente descansa. Fui!
– Já vai tarde. (Suspira fundo) Desculpem, irmãos. Tivemos uma interferência aqui na conexão com o Além, que já foi restabelecida. Tem alguém aqui cujo nome começa com a letra M? O espírito de um ente querido tem uma mensagem de paz para você…
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O professor, cronista e arquiteto mineiro EDUARDO AFFONSO é uma das vozes mais originais e bem-humoradas da crônica contemporânea brasileira. Ele se destaca nacionalmente por suas reflexões irônicas sobre o comportamento humano, sua análise lúdica das redes sociais e sua paixão pela etimologia e pelo aportuguesamento criativo de termos estrangeiros. Nasceu em 1959, em Belo Horizonte/MG. Mudou-se para o Rio de Janeiro /RJ, onde se estabeleceu profissionalmente, graduou-se e fixou sua residência de longo prazo. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ). Embora tenha atuado como arquiteto no passado, acabou se distanciando da profissão ao ser seduzido pelos estudos da psicanálise, da linguística e da escrita criativa. Atua há anos na imprensa de grande circulação, mantendo uma prestigiada coluna semanal/quinzenal na página 3 do jornal O Globo. Escreve também crônicas para revistas e portais de destaque, como a Veja Rio. Destaca-se fortemente no ambiente digital como palestrante, tendo ministrado apresentações marcantes como o TEDxSaoPaulo sobre a "estantologia" (a ciência das estantes de livros nas transmissões de vídeo).
Sua trajetória na escrita começou pela poesia. No entanto, após o que ele define ironicamente como "um pé na bunda da poesia", consolidou-se como cronista urbano. Tornou-se um formador de novos talentos e um articulador cultural focado no ambiente democrático e independente. Ele é o idealizador e coordenador da Oficina Literária Eduardo Affonso, um projeto focado em estimular a escrita criativa e orientar novos produtores de crônicas. É um dos fundadores da FLIQUE (Feira Literária de Quem Escreve). Não possui filiação a academias de letras tradicionais, preferindo manter sua atuação voltada à literatura de imprensa, à internet e ao mercado de oficinas livres. Não é conhecido por acumular prêmios institucionais ou acadêmicos clássicos. Seu grande reconhecimento reside na altíssima fidelidade e engajamento de seus leitores, na circulação massiva de seus textos que viralizam organicamente pelas redes sociais e pelo respeito conquistado na grande imprensa carioca.
Durante anos, construiu sua reputação literária quase inteiramente por meio de textos em jornais, blogs e redes sociais. Posteriormente, começou a estruturar e organizar seus livros e antologias de forma impressa: Crônicas de A a Z – Livro coletivo do qual é coautor e organizador, editado em parceria com a FLIQUE; Antologias e publicações em formato de livro digital/físico reunindo suas centenas de crônicas de cotidiano de O Globo.
A relevância de Eduardo Affonso para a literatura atual está em sua capacidade de renovar a crônica jornalística na era digital. Autodenominado por críticos como um "inventalínguas", ele chama a atenção pela forma genial com que aborda a língua portuguesa viva: em vez de adotar estrangeirismos corporativos e tecnológicos em inglês, ele os abrasileira sistematicamente em seus textos — criando expressões divertidas como "romiófice" (home office), "feiquenius" (fake news), "apigreide" (upgrade) e "pleiliste" (playlist). Com um estilo que evoca o olhar arguto de crônicas clássicas misturado à agilidade da comunicação pós-moderna, ele consegue democratizar o acesso à literatura por meio de suas oficinas, ensinando que o cotidiano mais banal e as contradições do comportamento humano são matérias-primas ricas para a alta literatura.
Fontes:
Blog do Eduardo Affonso
https://tianeysa.wordpress.com/2019/07/30/nada-alem/
Biografia – Veja Rio, TED, Facebook.

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