Trovadores em Ordem Alfabética

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (Invenção de espanto)


PENSEM NUM SUJEITO trabalhador e honesto, cumpridor de seus deveres até debaixo d'água. O Alpheu! Este mesmo, escrito assim, desta forma arcaica, Alpheu com ‘PH’. E ele, por seu turno, fazia questão de deixar pontificado, o ‘PH’. Sem dúvida alguma, este era o cara, apesar de não gostar da melodia do Roberto Carlos, onde o cantor de Cachoeiro de Itapemirim, filho de dona Laura e seu Robertino, dava conta de um indivíduo que exaltava a figura auspiciosa de um craque, o dono do pedaço e da cocada preta, sobretudo, que fazia as honras em todos os sentidos, inclusive e, principalmente, se abrindo feito paraquedas às princesas de todas as idades, o que tornou o bendito fruto amável e benquisto entre as beldades do sexo oposto, Brasil e desvãos além fronteiras.

Mas o nosso Alpheu com ‘PH’, sem tirar nem pôr, fora o escolhido. Homem sério, até seu relógio interno seguia as regras do excelente. Sem nenhuma mancha que tornasse seu passado obscuro, servia de chacota e de gozação para os amigos. Na verdade, um espectador inocente, figura ridícula pela maneira por que se deixava, sobretudo, escravizar com as barbáries e investidas dos idiotas que se diziam e se proclamavam ‘seus chegados’: ‘Você é o cara, mano —, afirmava um’. Este ‘cara é você’ —, ajuntava outro. Por conta deste ‘cara sou eu’, o homenzarrão queria morrer. Tirando esta particularidade, Alpheu com ‘PH’, um santo. Do pau oco, mas santo. Bom pai, ótimo marido e seleto companheiro, principalmente com os colegas de trabalho. O patrão o adorava. Seu trajeto, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano... Apenas um. Com uma variante.

De casa para o trabalho e do trabalho para casa. Nada mudava a sua rota. A vida, para ele, se fazia mais obsessiva que as liquidações das Lojas Renner, anunciando seus auspiciosos e chamativos Black Friday. Alpheu com ‘PH’, como todo ser humano perfeitamente imperfeito, claro, exatamente por ser humano, tinha (apesar dos pesares e da vidinha reta e sem nódoas), cinco defeitos inquestionáveis. Primeiro deles. Gostava de fazer filhos. Por conta desta vida desregrada, no escuro de quatro paredes, enrodilhado com a sua metade gostosa do casamento, a Belinha, e gozando, com ela, os prazeres das fogosidades calientes, trouxera, à luz, em consequência das viradas de olhinhos, nove boquinhas para dar de beber e comer. Nove. Imaginem só! O segundo defeito. Ao sair do trabalho (pegava às cinco da manhã, na padaria do português Manuel Joaquim, parava uma hora para almoçar e, quinze minutos, para engolir o café servido como lanche).

Largava, o batente, às dezessete horas. Todo santo dia esta rotina enervante. O terceiro defeito. O pior deles. Antes de chegar em casa, vinha a variante acima citada. Alpheu com ‘PH’, passava, impreterivelmente, pelo boteco do Aristeu da Conceição (duas quadras de onde morava) e, uma vez ali, alagava os bofes, tomando todas as purinhas com seus amigos de copos. Ficava enraivecido, porque, nesta hora, os falsos amigos das garrafadas zoavam da sua vida certinha, cantando ‘Este cara sou eu’, do Roberto Carlos. Alpheu com ‘PH’, ficava pra morrer. Odiava, com todas as forças, esta canção e, se tivesse poder, pegava seus parceiros e os mandava para verem Papai do céu antes da hora marcada. Um suplício mal parido de que não cogitou, em nenhum momento, a sua postura de cidadão de bem.

Quarto defeito. Chegava, em casa, por volta das vinte e uma e o fazia, aos tropeços, chamando urubu de Nego do Burel e confundindo os postes com os mourões das cercas de arame ao longo da avenida. Morava quase no final dela, num bonito sobrado de alvenaria que lhe fora deixado de herança pelos pais falecidos. Ainda no jardim, ao ouvir o som das crianças jogando em frente à televisão, ato contínuo, pintava o quinto defeito. A criatura então soltava a âncora, deixando, à mostra, um temperamento virulento. Em nome deste drástico frenético, se fazia acessível aos desastres do horror. Arrancava o cinto da calça e pulava, num gingado à Jackie Chan, metendo sem dó nem piedade, um punhado de pancadas nos costados dos pobrezinhos. Neste pega pra capar, os quatro garotos com as idades de sete, nove, treze, e quinze anos, bem ainda, em igual número, as meninas, com dez, onze, quatorze, e dezessete, debandavam, em solitários impulsos, cada um para seu quadrado, os respectivos fundilhos pegando fogo, além das pernas e braços em carne viva. Coisa de meio minuto. O bastante para a gurizada dispersar, se escondendo, entre choros e atropelos, fora do real, todavia, em uma asselvajada realidade adentro.

Este sistema abrupto não mudava nunca. Bastava por os pés no alpendre, o couro começava a comer e se esparramar solto nas oito crianças. Alto lá: não somavam nove? Sim, isto mesmo, nove. A mais nova, a Aninha, de cinco anos, não alimentava o hábito de ficar jogando com os irmãos. Dava oito horas, a lindinha saia de cena e partia para a horizontal. Por certo, se estivesse entre os consanguíneos, não escaparia das perversidades do Alpheu com ‘PH’. Belinha, coitada, a esposa aflita, vinha lá de dentro correndo, apavorada (às vezes, com uma tigela cheia de pipocas nas mãos ou uma garrafa de refrigerante) e, ao se deparar com o bafafá, se intrometia às cegas para cima do marido, pedindo a ele, aos gritos vociferados que não agisse daquela forma com seus rebentos.

Afinal de contas, eles não tinham culpa de terem sido postos no mundo:

— Alpheu, pelo amor de Deus — separava, ou tentava. – Pare de tratar as suas crias deste jeito. Eles não estavam fazendo nada, só jogando. Deixe de ser violento. Respeite a sua família, em nome do Senhor Jesus. Que loucura! Todo santo dia este perrengue... Olhe pela janela. Nossos vizinhos, boquiabertos e pasmos, presenciando os descalabros das suas malditas biritas.

Alpheu com ‘PH’, no seu intenso sentimento de ódio descomedido, na danação de distribuir cintadas, às vezes acertava a pobre mulher onde não devia.

Mesmo ferida, braços e pernas, ou onde pegasse as correiadas, a piedosa e santa mãe não deixava de se impor. Alpheu com ‘PH’, sequer dava ouvidos aos seus clamores e lamúrias. Cansado de distribuir porradas, o pinguço saía cambaleando, segurando aqui e acolá e acorria para o banheiro. Antes de fechar a porta, deixava sintetizado à esposa ultrajada:

— Não se esqueça: Alpheu, sua vadia... Alpheu com ‘PH’.

Belinha, ofendida e insultada na sua moral, apesar dos safanões e arranhões, não abria a guarda. Resmungava, xingava, chorava e para extravasar as suas inquietações, geralmente mandava junto com seus derrotismos alguma coisa pesada, jogada com força em direção ao embriagado:

— Vai para os quintos, cão sarnento.

O tinhoso, duro na queda, não arredava. Seguia sempre assim, sem nenhuma mudança. Em parte, culpa da mulher. Ora, convenhamos. Sabendo que o marido não mudava seus modos em relação aos jogos, por que não exigia que as crianças jantassem e subissem para dormir antes que o tresloucado desse o ar da graça? Se tivesse se precavido... Aconteceu, entretanto, que num final de semana os meninos haviam acabado de chegar de uma festinha de aniversário de um vizinho "parede-meiado". Todos os nove. Por algum motivo, até o presente momento não esclarecido devidamente, Alpheu com ‘PH’, saiu mais cedo da padaria. Passou pelo boteco antes da hora prevista e se empanturrou, em rodadas à gostos apurados, com os amigos de sempre. Em seguida pegou o rumo de seu barraco. Ao chegar no portão, dali mesmo, ao ouvir as risadas barulhentas vindas do interior da residência não se fez de rogado. Arrancou da cinta e...

...Meteu os pés na porta e escancarou partindo para o ataque. Aos estropigaitados* de ‘eu mato’, pegou o primeiro, agarrou o segundo, esbofeteou o terceiro, socou o quarto... Belinha, em contrapartida, se armou de uma cadeira e investiu contra o desmiolado. Ele não se deteve. Seguiu mandando correiadas e bordoadas no quinto, no sexto... Belinha, braba (pensem numa fêmea endiabrada), quebrou uma cadeira nas pernas dele. Entretanto, esta medida não se fez objetiva pelo menos para fazê-lo parar. Alpheu com ‘PH’, não se intimidou. Correu para o sétimo, grudou nos peitos do oitavo, derrubou o quinto...

Voltou para o segundo... Aplicou uma rasteira no oitavo... Quando, avistou num canto, a nona, ou seja, a Aninha, a coitadinha agachada, chorosa e assustadíssima, as mãozinhas cobrindo suas estremeções, Alpheu com ‘PH’, voou feito um leão faminto para deitar o sarrafo na brejeira:

— Até que enfim, esta maldita, hoje, está no bolo. Saiba, praguinha dos infernos, que de agora você não me escapa. Vai apanhar dobrado. Faz tempo que não boto os sentidos em seu magérrimo esqueleto...

Belinha, ao ouvir estas palavras, chegou ao ápice do seu desespero. Alcançou os píncaros do seu furor. Galgou às cumeadas das contrariedades que a dominavam e a fizeram crescer na sua cólera interior. Como um raio, passou as mãos num vaso de flores enorme e pesado (mais robusto que a consciência de Rodrigo Maia), que descansava, solitário sobre uma mesinha de centro, e mandou direto nos cornos de sua parte podre da maçã. Alpheu com ‘PH’, titubeou. Tentou ir em frente. Qual o quê! Ensaiou alguns passos. Inútil. Desabou, caindo de joelhos, o sangue jorrando abundantemente em meio à sua testa.

Antes de sair do ar, de vez, ouviu estas palavras da sua linda consorte:

— Na minha caçulinha, seu verme peçonhento, você não encosta as patas. Esta ai, seu corno safado, não é sua filha.
= = = = = = = = = = = = = =  
* Estropigaitados – atrapalhados, embaraçados, confusos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
        O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Aparecido Raimundo de Souza. “Comédias da vida na privada”. RJ: Editora AMC-GUEDES, 2020. Texto enviado pelo autor.
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor

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