Beowulf é um poema épico anônimo escrito em inglês antigo (anglo-saxão), com 3.182 versos aliterativos. A data exata de composição é incerta, mas o consenso acadêmico atual situa sua criação entre meados do século VII e o início do século XI, sendo o século VIII a data mais aceita pelos estudiosos.
- Ações narradas: passam-se na primeira metade do século VI, na Escandinávia (atual Dinamarca e Suécia).
- Manuscrito sobrevivente: único exemplar preservado, o Códice Nowell (ou Cotton MS Vitellius A XV), datado de cerca do ano 1000 d.C., durante o reinado de Æthelred, o Desprevenido.
- Primeira edição impressa: só veio a público em 1815, pelo islandês Grímur Jónsson Thorkelin.
- Autoria: desconhecida; provavelmente composto por um ou mais poetas cristãos em ambiente monástico ou cortesão, que reelaboraram tradições orais germânicas pré-cristãs .
Resumo
O poema conta a história de Beowulf, um guerreiro dos gautas (povo da atual Suécia), que viaja à Dinamarca para ajudar o rei Hrothgar, cujo grande salão, Heorot, é aterrorizado pelo monstro Grendel. Beowulf derrota Grendel com as próprias mãos, arrancando-lhe o braço. Em vingança, a mãe de Grendel ataca o salão; Beowulf a segue até sua toca subaquática e a mata com uma espada mágica.
Após esses triunfos, Beowulf volta à Geácia, torna-se rei e governa com sabedoria por cinquenta anos. Já idoso, enfrenta um dragão que devastava seu reino por causa de um roubo de tesouro. Na luta final, Beowulf mata o dragão, mas recebe um ferimento mortal. Morre heroicamente, assistido apenas pelo fiel vassalo Wiglaf, e seu povo o consagra com um funeral de fogo em um monte funerário, lamentando sua perda e temendo o futuro sem seu protetor.
Descrição Detalhada da História
PARTE I — A Juventude de Beowulf
1. O flagelo de Heorot
O rei dinamarquês Hrothgar construíra Heorot, um magnífico salão onde seus guerreiros se reuniam para beber, receber presentes e ouvir cantos. Por doze anos, porém, o monstro Grendel, descendente de Caim, atacava o salão todas as noites, matando e devorando os guerreiros adormecidos. Ninguém conseguia detê-lo, e o salão ficava abandonado ao cair da noite.
2. A chegada de Beowulf
Ao saber da aflição de Hrothgar, Beowulf, jovem guerreiro dos gautas, reúne catorze homens e navega até a Dinamarca para oferecer ajuda. Ao chegar, é recebido com desconfiança por alguns, mas Beowulf se apresenta com confiança, declarando que enfrentará Grendel sem armas, pois o monstro também não as usa. Hrothgar aceita a oferta, embora temeroso.
3. A luta contra Grendel
Na noite seguinte, Grendel surge debrestado e ataca Heorot. Beowulf, fingindo dormir, o aguarda. Quando o monstro o agarra, Beowulf o segura com uma força sobre-humana. A luta é brutal: o salão treme, as paredes estremecem. No confronto, Beowulf arranca o braço e o ombro de Grendel com as próprias mãos. Ferido, o monstro foge para seu pântano, onde morre. Ao amanhecer, os dinamarqueses celebram a vitória, e o braço de Grendel é pendurado no teto de Heorot como troféu.
4. A vingança da mãe de Grendel
A alegria dura pouco. Na noite seguinte, a mãe de Grendel, também um monstro, surge em Heorot para vingar o filho. Ela mata Æschere, o conselheiro favorito de Hrothgar, e foge levando o braço do filho. Beowulf acompanha Hrothgar até o pântano, onde vê a cabeça de Æschere à margem. Mergulha nas águas turvas e desce até a toca subaquática da criatura. Lá, a mãe de Grendel o ataca, e Beowulf quase sucumbe. No entanto, ele encontra uma espada mágica feita por gigantes, que jazia no fundo da caverna. Com ela, decapita o monstro. No fundo da toca, encontra também o corpo de Grendel e corta-lhe a cabeça como prova. A espada derrete ao tocar o sangue do monstro, restando apenas o punhal. Beowulf regressa à superfície com a cabeça de Grendel e o punhal da espada.
5. A volta à Geácia
Beowulf entrega os troféus a Hrothgar, que o cobre de presentes e o elogia como o maior dos heróis. Beowulf navega de volta à terra dos gautas, onde relata suas façanhas ao rei Hygelac, que o recompensa com terras e um espada magnífica.
PARTE II — A Velhice e a Morte de Beowulf
6. O reinado e o despertar do dragão
Hygelac morre em batalha, e Beowulf, após um período como regente, torna-se rei dos gautas. Governa com justiça e bravura por cinquenta anos, mantendo seu povo em paz. Até que um escravo, fugindo de seu senhor, encontra uma caverna cheia de tesouros guardada por um dragão que cuspia fogo. O escravo rouba uma taça de ouro para apaziguar seu dono e foge. Ao descobrir o roubo, o dragão se enfurece e, todas as noites, voa sobre o reino de Beowulf, queimando aldeias e destruindo tudo com seu hálito ígneo.
7. A luta final
Já idoso, mas ainda destemido, Beowulf decide enfrentar o dragão sozinho, como fizera outrora. Levanta um escudo de ferro e empunha uma espada. Com onze vassalos e o escravo guia, vai até a caverna. Ao ver o dragão, os vassalos, tomados de pavor, fogem para a floresta, exceto Wiglaf, jovem parente de Beowulf, que lembra os favores recebidos e decide ajudar o senhor.
A luta é terrível: o dragão ataca com fogo e dentes. A espada de Beowulf falha, e o monstro o morde no pescoço, causando um ferimento mortal. Wiglaf intervém, ferindo o dragão no ventre. Beowulf, reunindo suas últimas forças, saca um punhal e crava-o no coração do monstro, matando-o. A vitória é consumada, mas Beowulf está condenado.
8. A morte e o funeral
Beowulf, sentindo a morte chegar, pede a Wiglaf que traga o tesouro do dragão para que possa contemplá-lo. Ao ver a riqueza, agradece a Deus e diz a Wiglaf que não é filho, mas que o adota como sucessor. Ordena que se construa um monte funerário alto à beira-mar, para que os navegantes o vejam e lembrem de seu nome. Com isso, o herói expira.
Os vassalos covardes regressam e são repreendidos por Wiglaf. O povo lamenta profundamente a morte do rei. Construem uma pira funerária, colocam o corpo de Beowulf sobre ela e a incendeiam. Depois, erguem um monte alto sobre as cinzas, encerrando nele o tesouro e o nome de Beowulf. Doze guerreiros cavalgam ao redor do monte, cantando os feitos do herói e lamentando sua partida. O poema termina com um lamento: os gautas choram a perda do melhor dos reis, o mais amável e generoso, o mais ávido de glória e o mais protetor de seu povo.
Temas Centrais
Heroísmo
Beowulf encarna o ideal guerreiro: coragem, força e lealdade, disposto a arriscar tudo pelo povo
Bem vs. Mal
Os monstros representam o caos e o mal; Beowulf, a ordem e a virtude
Morte
A morte é inevitável; o herói busca a glória póstuma como única forma de imortalidade
Fidelidade e Traição
Wiglaf simboliza a lealdade ideal; os vassalos fugitivos, a vergonha da covardia
Cristianismo e Paganismo
O poema mescla valores germânicos pagãos com uma moldura cristã (Deus como protetor, Grendel como descendente de Caim)
Conclusão
Beowulf é a obra-prima da literatura anglo-saxônica e o mais antigo épico vernáculo europeu preservado. Em sua estrutura tripartite — juventude (Grendel), maturidade (mãe de Grendel) e velhice (dragão), — traça um percurso que vai da força bruta à sabedoria e, finalmente, ao sacrifício supremo. É um poema sobre a glória, a morte e a memória: o herói morre, mas seu nome perdura, erguido em pedra e canto, enquanto seu povo, em luto, encara um futuro sem o protetor que os salvara três vezes.
Fonte:
A. I. Dola.

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