Já sem querer mudar o mundo,
Sinto-me apenas um sentinela,
Um simples vigia.
Arrisco olhares pela janela.
É imenso, é profundo
O abismo da cidade fria.
Nem frestas, nem lampejos,
Nem luz no fim do túnel.
Até me fraquejo!
Nada vejo; nada espero!
Ao que me parece,
No intervalo de cada prece,
Assim como as mentes,
As ruas ficaram vazias.
Sem luta, sem luto,
Sem recompensa,
Se finda a história.
Não há música,
Ninguém toca,
Ninguém mais escuta,
Não há mais, sequer,
Quem movimente a batuta.
* * * * * * * * * * * * * * * *
JANGADEIRO
Jangadeiro na noite escura,
Sem vela, sem armadura,
Sem remo, perdeu o norte.
Tá entregue ao acaso e à sorte.
Jangada que sob os pés se desfaz,
Socorro que não chega mais,
Pois a esquadra perdeu seu dono,
E os fuzileiros caíram no sono.
Tempestades que trazem medo,
Mares de céu cinzento,
Jangadeiro pede socorro,
À deriva vai noite adentro.
Na terra, ficou sem chão;
No mar, quase sem jangada
à procura de peixe ou pão,
Perdeu-se da enseada.
* * * * * * * * * * * * * * * *
O SILÊNCIO
Silenciaram-se os sinos e buzinas,
O trem não mais saiu da estação.
Folhas vagam sopradas nas calçadas,
Faz algum tempo...
Muito tempo, desde aquele último clarão.
Da janela, nunca mais trancada,
A vista da rua gélida, fantasma.
Nada que tenha vida ou movimento,
A não ser coisas que o vento ainda sopra.
Imagens na memória, longínquas,
De pessoas sentadas na praça,
E gritos infantis nunca mais ouvidos,
Somente o ruído do vento que passa.
A lua...
Ah! A lua parada no céu,
Até o sol, não mais movimenta,
Parece que a terra agarrou em sua órbita,
Nem sei se é ela, ainda um planeta.
Apalpo nas coisas, me apalpo a toa,
Que susto!...
Nada sinto! Nada sinto!
Estou abstrato, não toco nem grito,
Não tenho um formato, tá tudo esquisito.
Pouco a pouco arisco, arrisco um grito,
Nada sai da garganta, me vem um arrepio!
Não há marcação de tempo, só ouço o vento,
Não há mais dia ou noite... Ficou infinito.
* * * * * * * * * * * * * * * *
QUANDO A ALMA SE VAI
Um dia a alma acorda,
Bate asas e vai-se embora.
Aqui ela deixa apenas
Saudades nos olhos que choram.
Se vai pra lugar distante,
Repousar em outras esferas,
Preparar, talvez, lugares
Pra outras que aqui esperara.
De onde veio é incógnita,
Aonde vai não se sabe.
Se encontra lugar melhor,
Em nosso pensar não se cabe.
Se aonde vai é eterno,
A alma não é pequena,
Mas grande se prende ao fato
De que a vida aqui vale à pena.
* * * * * * * * * * * * * * * *
REBANHO PERDIDO
Estourada boiada, sem rumo,
Berrante que não ecoa,
Manada que, sem um norte,
Se perde correndo à toa.
Sem um campeiro nobre,
Condutor que conhece a trilha,
Tem lugar, tantos errantes,
Que entregam o rebanho à matilha.
Não andam mais, perfilados,
Dispersos e em desatino,
Pisoteia-se toda a manada.
Qual rebanho que, sem campeiro,
Em trote, vão sem destino
Ou perdidos em disparada.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
EDY SOARES (cujo nome de batismo é Edmardo Lourenço Rodrigues) é um poeta, sonetista clássico e trovador brasileiro. Nascido na cidade de Ibatiba/ES, em 1964, se destaca nacionalmente como uma das principais vozes da revitalização e preservação do movimento trovadoresco e do soneto clássico no Sudeste do Brasil. Nascido em solo capixaba e filho de pais agricultores, sua trajetória internacional e regional moldou sua vivência. Residiu nos Estados Unidos entre os anos de 1991 e 2006. Santo: Após retornar ao Brasil, fixou residência no município de Vila Velha/ES, onde vive, trabalha e mantém sua base de atuação cultural e empresarial. Paralelamente ao seu envolvimento de décadas com as letras, Edy Soares atua profissionalmente como empresário do ramo hoteleiro. Destaca-se por sua atuação em grandes eventos literários, tendo integrado ativamente as equipes de apoio, debates e programação da FLIC (Feira Literária Capixaba) nas edições de 2015, 2016 e 2017, além de participar da Bienal Capixaba do Livro.
Edy Soares possui uma vasta folha de serviços dedicados à comunidade literária de forma institucional, atuando de maneira marcante na liderança de agremiações de fomento à poesia. Exerceu o cargo de Presidente Estadual da UBT no Espírito Santo e presidiu a seção municipal em Vila Velha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO); Membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA);* Acadêmico Correspondente da Academia Iunense de Letras (AIL); Membro da ASSEI (Associação de Escritores de Ibatiba), em sua terra natal.
O autor é amplamente reconhecido por dominar a técnica de formas poéticas fixas. Suas principais publicações incluem: Poemas, Canções e Sonetos; Flores no Deserto; Sonetos Sonantes; Três em Trovas (coautoria); Além de participação como prefaciador de obras regionais e publicação em dezenas de antologias e coletâneas literárias nacionais. Ao longo de sua trajetória na poesia acumulou importantes distinções, como Troféu Carlos Drummond de Andrade (2015): Recebido na histórica cidade de Itabira/MG, em reconhecimento à sua produção poética. Diploma Especial de Mérito Cultural concedido por academias literárias capixabas devido à sua dedicação e contribuição para a difusão da arte e das letras. Classificado recorrentemente em certames nacionais e internacionais e convidado frequente para compor comissões julgadoras de concursos de trovas.
A relevância de Edy Soares para a literatura contemporânea reside essencialmente no seu papel de preservador e articulador das formas poéticas tradicionais no Brasil. Em uma época literária amplamente dominada pelo verso livre, ele atua como resistência estética ao produzir e ensinar o soneto clássico e a trova. Mais do que produzir textos, sua importância manifesta-se no associativismo: ao liderar a UBT no Espírito Santo, ele ajudou a transformar a trova de uma prática de escrita solitária em um movimento coletivo forte. Edy estimula o surgimento de novos trovadores, organiza concursos de fomento à escrita rápida e sintética e atua ativamente conectando a literatura clássica às novas dinâmicas das redes sociais e feiras de livros modernas.
Fontes:
Edy Soares. Flores no deserto. Vila Velha/ES: Ed. do Autor, 2015. Livro enviado pelo poeta.
Biografia = Recanto das Letras, Academia Iunense de Letras, Facebook, Clério Borges, etc.

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