e uma nesga de luar,
fugindo à fria neblina,
vem aos meus pés se abrigar.
A carícia do Nordeste
às lindas praias morenas
é magia que reveste
as suas noites serenas.
Acorda a nossa consciência
o drama da moto-serra
que mesmo em sua inocência,
sela o destino da Terra.
A existência é definida
não por azar, mas por sorte:
quanto mais cheios da vida,
mais perto estamos da morte.
- Ai, doutor, não acredito...
Picada por um "barbeiro"?
Veja só, pois o maldito
me disse que era engenheiro!
A lua, em passo indeciso,
muda o andante da sonata,
pondo pausas de improviso
no pentagrama de prata.
A nova rica não topa
sugestão de amigo seu.
Diz que não vai para a Europa
porque não fala europeu.
"Ao céu vai o bem dotado.
E o criminoso aonde vai?"
Diz o filho do advogado:
"Não sei... isso é com meu pai..."
Após trabalho incessante,
num pipilo, o passarinho
anuncia, triunfante,
a festa de um novo ninho.
A rosa, o lírio, a violeta
dão o tom com seus olores,
e o jardim abre a retreta
em sinfonia de cores.
A roseira solferina
num cantinho do jardim,
guarda os sonhos da menina
que o tempo mudou, em mim.
Até por gênios deixada,
a floresta a vida encerra,
e deserta, devastada,
sela o destino da Terra.
Bem outro seria o clima
se em tantos gritos cruzados,
fosse ouvida, lá de cima,
a prece dos desgraçados!
Cheguei tarde para a festa...
De véu, grinalda e um sorriso,
ela é a imagem que me resta
de um pretenso paraíso.
Dizemos que o tempo voa,
e enquanto filosofamos,
ele vive aí, à toa,
e somos nós que voamos.
Dizem que amas de mentira,
mas gosto de acreditar,
e até que um dia eu confira,
vou-me deixando enganar.
Do coveiro, a noiva, rente
É tão magra o estrupício
Que ele diz: "Literalmente:
Casei com os ossos do ofício."
Do que agitou nossas almas,
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados!
Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
Em cada tarde a cair,
vejo a vida em agonia,
aos poucos se despedir
na morte de mais um dia.
Envolto em nívea camada,
sonha, em repouso, o jardim.
Vem o sol, derrete a geada…
Negro, o sonho chega ao fim.
- Este bolso é meritório,
nunca viu nada roubado!
Perguntam lá do auditório:
- Terno novo, Deputado?
Eu me faço de blindado.
Amor? Bobagem... Pieguice...
Meu medo é que, apaixonado,
eu me envolva na tolice.
Fala a gota que se esconde
no cálice de uma flor;
fala o mar, tudo responde,
quando fala o Criador,
Garoto à fome minguando,
na calçada sentadinho,
e o vendedor apregoando;
"Olha gente, o pão quentinho!”
Guardo os bons tempos da vida,
e os maus procuro esquecer,
mas a memória, atrevida,
teima em roubar-me o prazer.
Guri do boné virado,
estilingue... palavrão...,
hoje, vigário ordenado: –
Pax vobiscum, meu irmão!
Irrequieto, o molecote,
no jeitinho turbulento,
parece um mini-quixote,
perseguindo um cata-vento.
Matuto filosofante
vendo filme que arrepia:
“E esse era o ”inferno de Dante...”
“Imagine o de hoje em dia!”
Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombros fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos...
e eis-me sonhando outra vez!
Na capelinha da aldeia,
os contornos esfumados
brilham à luz da candeio
da fé dos seus devotados.
Na praça, neste banquinho,
passou correndo a amizade;
sentou o amor, só um pouquinho,
ficou pra sempre a saudade.
Nas águas de um turvo horrível
espelha-se um céu cinéreo,
onde a ganância, insensível,
já pôs também seu império.
Na taça de cada dia,
a transbordar de amargura,
cai um pingo de alegria,
e o fel se torna doçura.
Nem sonhos maus acontecem
nas noites mais tormentosas.
Se teus abraços me aquecem,
durmo num leito de rosas.
No mar a lua se espelha,
mas o gigante, enciumado,
reduz a cocos de telha
o lindo disco prateado.!
Nossa terra e a terra lusa,
na doce língua que as liga,
são cordas nas mãos da musa,
cantando a mesma cantiga.
Num estranho automatismo,
lá do fundo, os meus gemidos
voltam ò tona do abismo,
procurando os teus ouvidos,
O amor, ao termo da vida,
deixa na pauta apagada
uma só nota sentida,
canto de cisne... mais nada.
O cara dentro do armário
diz: “Não é o que você pensa”...
“Eu já sei”, responde o otário,
“o gajo é o lá da despensa”.
Ora eloquente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés de um Nada.
Os erros que fiz na vida
quero apagar sem alarde
mas, a consciência revida
e, aos brados, me diz: é tarde!
O sol, cumprida a rotina,
cerra o painel em que atua,
some por trás da colina
e abre o portão para a lua.
Pancada de chave inglesa
amontoou o Garcês,
que para a própria surpresa,
acordou falando inglês!
"Para sempre!" Será mesmo?
Não importa a duração;
é promessa feita a esmo,
mas aquece o coração.
Parecemos - tu chorando
e eu num discreto lamento -
dois violinos ensaiando
a charanga atroz do vento.
Por que é que eu te chamo, Nei,
de 'porquinho' ... faz favor?
É que ainda eu não cheguei
ao tamanho do senhor...
Presença eterna do ausente,
perfume em frasco vazado,
saudade é sombra incoerente
num coração apagado.
Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.
Que bela seria a vida
se, acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!
"Que tanto estudas, Leal?"
"Geografia, Seu Garcês."
"Humm... e onde está Portugal?"
"Na página cento e três."
Se enfrento a agressão do frio,
do gelo pelos caminhos,
é porque me refugio
sob o sol dos teus carinhos.
Se me abrigo no teu braço
das noites na travessia,
até da insónia, o cansaço
torna doce a companhia.
Sem motivo, sem palavra,
no adeus insinuado em calma,
deste o golpe que escalavra
os pilares de minha alma.
Sinto, e é quase transparente
que estás a te divertir,
mas falta ao meu ser carente
coragem pra conferir.
Somos tão bem afinados,
que, em termo gramatical,
podíamos ser chamados
"encontro consonantal"!
Talvez um simples "Bom dia"
dito em casual diapasão,
seja a nota de alegria
que faltava ao teu irmão.
Tecendo trovas ao vento
nascidas do coração,
num pouco de luz e alento,
Eu disfarço a solidão.
Toda enfeitada, a capela
faceira põe-se a esperar
de algum artista a chancela
que a venha imortalizar.
Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!”
Triste e sozinha eu me deito,
mas encontrando um desvão,
a lua invade o meu leito,
e afugenta a solidão.
Uma certeza me encanta
e traz minha alma aquecida:
Se o orvalho reanima a planta,
a fé é o orvalho da vida.
Vendo, em mudo sofrimento,
a vida me desertar,
entendo, enfim, porque o vento
se recusa a silenciar.
Você, absurda e volúvel,
que ora quer, ora recusa,
é, o grande enigma insolúvel
em minha vida confusa.
"Vovô, feche os olhos já!
Vi papai dizendo à Guida
que quando você fechá,
vamo ficá bem de vida!”
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Dorothy Jansson Moretti (1926 – 2017)
DOROTHY JANSSON MORETTI foi uma das mais refinadas e importantes poetisas e trovadoras da literatura paulista e brasileira. Amplamente respeitada no meio literário, destacou-se pela maestria em formas poéticas fixas, em especial o soneto e a trova, além de sua profunda dedicação à preservação histórica e cultural. Nasceu em 1926, em Três Barras/SC, filha do renomado fotógrafo sueco Claro Jansson (cuja obra documental é essencial para a história da Guerra do Contestado). Faleceu em 2017, em Sorocaba/SP, aos 91 anos de idade. Mudou-se para Itararé/SP com apenas dois anos de idade. Mais tarde, residiu no Paraná, passando por cidades como Castro e Londrina. Em 1956, radicou-se definitivamente em Sorocaba/SP, onde passou a maior parte de sua vida. Formou-se em Letras na capital paulista e atuou por muitos anos como professora de Inglês. Escreveu artigos, crônicas e poesias de forma assídua para jornais e periódicos das cidades onde morou, incluindo O Itararé, O Guarani e os jornais sorocabanos Cruzeiro do Sul, Diário de Sorocaba e Folha de Sorocaba. Também atuou fortemente na preservação e divulgação do acervo fotográfico de seu pai sobre o sul do Brasil.
Começou a escrever aos 16 anos, focando inicialmente em acrósticos. Com o tempo, desenvolveu uma técnica refinada para o soneto e para a trova. Teve uma faceta marcante como autora de hinos. É dela a autoria da letra do Hino Oficial do Município de Itararé (musicado por Gerson Gorski Damaceno). Livros Publicados: Entre suas obras individuais e participações em antologias, destacam-se: Chá da Tarde (2006) – Livro dedicado exclusivamente a trovas; Instantâneos (2012). Foi um nome central no associativismo literário do interior paulista, vinculando-se a várias instituições importantes: Além da entidade troadoresca a Associação Paulista de Imprensa (API). Participou ativamente dos movimentos e academias literárias locais de Sorocaba e região, promovendo saraus. Recebeu a honraria na categoria "Poesia" pelo seu livro Chá da Tarde em Sorocaba.
A importância de Dorothy reside ao manter viva a trova, ao compor o hino de Itararé e colaborar ativamente com a imprensa do interior, Dorothy consolidou-se como um pilar de identidade cultural paulista e regional, unindo sensibilidade lírica com amor pela terra.

