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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Flávio R. Stefani (Semeando Trovas)


1
Abaixo a guerra entre irmãos!
Plantemos a paz somente.
- Quem tem sementes nas mãos
não tem granadas na mente.
2
Adoro bonde gaiola
e ao teu lado – vistas turvas 
se a curva do trilho esfola,
me saram as tuas curvas…
3
A mulher, naquela fase,
quase que acaba com a gente!
-- Com tanto fogo na base,
não há chaminé que aguente! 
4
Apatia é quando o gato,
com olhar de covardia,
vê passar por ele o rato,
vira a cara e... repudia...
5
Bem cedo a feira se instala,
e a vizinhança se toca,
pega o carrinho na sala,
e todos vão pra fofoca…
6
Brancos, negros e amarelos,
se a causa é justa e loquaz,
juntam braços, que são elos
forjando as cores da Paz!
7
Brinquedos bons eu não tinha,
mas sabia achar maneira,
e com latas de sardinha
eu tinha uma frota inteira.
8
Brinquedos de guerra, não,
pois quem brinca de matar,
amanhã – de arma na mão -,
vai matar para brincar!
9
Cada queimada, no fundo,
por ser um ato velhaco,
queima um pedaço do mundo,
deixando o mundo mais fraco!
10
Chuta o balde a Dona Mima
porque o marido, Vavá,
em vez de partir pra cima,
vai pra baixo do sofá...
11
Com malícia, a lua cheia
vestiu de luz nosso leito
ao te ver desnuda, alheia,
aconchegada em meu peito.
12
Conversa... velhos amigos,..
e a convivência animada,
chimarrão... carros antigos...
Que feira livre, que nada…
13
Coragem! Ergue teu rosto,
desamarra esta carranca,
porque o sol, depois de posto,
nos mostra a lua mais branca.
14
Cruel e ingrato, o sobrinho
põe no freezer o seu tio,
e a surpresa é o bilhetinho:
"Não esquenta... fica frio...”
15
Destino cruel se encerra
neste turismo obsoleto:
quando o frango sobe a serra,
não desce - vira galeto!...
16
De surpresa, muitas vezes,
vinha o noivo da vizinha...
e depois de nove meses,
nasceu uma surpresinha...
17
É mais feliz a criança
que recebe amor profundo,
pondo luzes de esperança
no quarto escuro do mundo.
18
Embora rudes e escassos
os bons atos, em geral,
o Natal recria laços
num simples “Feliz Natal!”
19
Em ternura plena e extrema,
nossos sonhos se cruzaram.
E a noite se fez poema...
E os versos também se amaram!
20
Entre os licores mais puros
que a vida me fez provar,
estão os lábios escuros
que me deixaste beijar.
21
É tão nojenta a franguinha,
tão cheia de blá-blá-blá,
que se um dia for galinha,
nem raposa a comerá…
22
Eu, boêmio sem comando,
nos dias mais enfadonhos,
passo os dias chimarreando
na varanda dos meus sonhos!
23
Ganha contornos de festa,
de festa vira euforia,
quando Deus se manifesta,
abrindo os olhos do dia!
24
Garibaldi, esses vinhedos
dão vinhos com tal sabor,
que o licor dos teus segredos
está no próprio licor.
25
Gerador de paz e calma,
que dispensa cerimônia,
o livro é o jantar da alma
nas noites claras de insônia.
26
Já velhinho, o marinheiro,
que foi das ‘gatas’ xodó,
hoje só e sem dinheiro,
levanta a âncora... e só!...
27
Lembrando um fandango antigo,
muita mão... muitos abraços...
a Joana leva consigo
um belo “troféu”... nos braços…
28
Meu Senhor, quero sentir,
de uma forma singular,
a coragem de sorrir
quando o dia é de chorar.
29
Na ausência que não nos poupa,
saudade é formiga arisca
que fica dentro da roupa
e volta e meia belisca...
30
Na dureza dos escombros,
quando as dores se equivalem,
amizade é mão nos ombros,
embora os ombros não falem.
31
Não tem cura, é de matar,
bebe tanto o Zebedeu,
que outro dia foi trocar
seu nome pra “Zebebeu”...
32
Na pescaria, de fato,
notei teu jeito chinfrim,
mas o olhar era de gato:
um no peixe e outro em mim...
33
Nascedouro de certezas
e ninho de inspiração,
a lua afasta as tristezas,
pondo paz no coração.
34
Na verdade, a praça traz
do campo para a cidade
uma carreta de paz,
puxada pela saudade!...
35
No abandono das marquises,
meninos dormem de mão,
fingindo que são felizes
nos braços da solidão.
36
No café tinha polenta
e no almoço também tinha...
Na janta, a vovó se senta
e não sai mais da "casinha"…
37
O ar puro que vem da praça
e abraça a cidade inteira,
a gente respira e abraça
como vida verdadeira.
38
O motel está falido
porque o dono, sem malícia,
ao ouvir qualquer gemido,
telefona pra polícia... 
39
Pés desnudos, a sandália
um jeito simples de ser,
cada franciscano espalha
mensagens de bem viver.
40
Pode vir de longe ou perto,
pode vir dos cafundós...
O imigrante, isso é bem certo,
logo se torna um de nós.
41
Princípio do nosso enlace,
aquele beijo, Maria,
fez com que o dia ficasse
mais dia, naquele dia.
42
Quando a causa justifica
que a gente se dê a mão,
meia dúzia significa
verdadeira multidão.
43
Quando a euforia me invade,
nas luzes do amanhecer,
puxo a corda da saudade
para esticar meu viver.
44
Queres falar de bem perto
à mãe da sabedoria?
Procura o balcão aberto
de uma boa livraria.
45
Reinventando a bondade
dos tempos do velho poço,
puxo o balde da saudade
pra saciar o alvoroço.
46
Se a violência é demais,
num mar que não se detém,
pega o rumo de outro cais,
onde o amor ancore o bem.
47
Sendo forte, sendo inquieta,
com requintes de magia,
a trova é o cais do poeta,
onde se amarra a poesia!
48
Sendo mal utilizada,
a liberdade, no fundo,
não dá tiros, não dá nada,
mas fura os olhos do mundo!...
49
Ser pai moderno e presente,
que o filho acompanhe e cresça,
não é ficar simplesmente
passando a mão na cabeça!...
50
Só meia palavra basta
quando o pai, educador,
põe no salário que gasta
um acréscimo de amor.
51
Só se salva de verdade,
nesta enchente de amargor,
quem faz da fraternidade
o seu barco salvador.
52
Tem razão a natureza,
se o rio transborda e mata!...
Tiram-lhe o peixe, a beleza;
dão-lhe o vidro, o lixo, a lata...
53
Uma idade diferente,
chamam até "flor da idade",
... e pensar que tanta gente
nem viveu a mocidade!…
54
Um tesouro que me atrai
e sustenta a minha vida:
minhas irmãs, o meu pai,
e minha mãe tão querida.
55
Vendo a franga em sério apuro,
grita o guri, na janela:
- Mamãe, o galo, eu lhe juro,
vem vindo a cavalo nela..
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Flávio R. Stefani (1949)
FLÁVIO ROBERTO STEFANI, conhecido no meio literário como o "Camisa 10" da trova, é uma das figuras mais expressivas da trova no Rio Grande do Sul, com uma trajetória de extrema dedicação à preservação e expansão desse gênero poético no Brasil. Nasceu na cidade de Porto Alegre/RS, em 1949. Filho de Ângelo Jacob Stefani e Maria José Stefani. Passou sua vida e construiu sua sólida carreira na própria capital gaúcha, onde mantém forte atuação cultural. Atua como advogado e empresário. Trabalhou também no mercado imobiliário como corretor de imóveis e na comunicação como radialista.
Poeta de nascença e trovador desde a adolescência, sua jornada literária confunde-se com a própria história da consolidação da trova no sul do país. Ingressou na trova em 1969, tendo convivido diretamente com o criador da entidade, o lendário poeta Luiz Otávio. Tornou-se o principal pilar da instituição no RS, ocupando os cargos de Presidente Seção Porto Alegre, Presidente Estadual do RS. Além das academias e grêmios puramente literários, integra ativamente os quadros do Centro de Tradições Gaúchas (CTG), unindo a poesia lírica às vertentes da cultura regional. Foi premiado em numerosos concursos de trovas e Jogos Florais por todo o Brasil, destacando-se por sua capacidade técnica e sensibilidade lírica (como sua trova co-vencedora em Cruz Alta em 1989). É autor de vários livros e coletâneas publicados em prosa e verso. Suas obras e trovas estão registradas em antologias nacionais e em cadernos especializados de poesia.
A relevância de Flávio Roberto Stefani para a literatura nacional reside no seu papel como guardião e difusor da Trova. O gênero — que exige do poeta o "milagre" de sintetizar uma ideia completa, com rima e métrica perfeitas, em apenas quatro versos heptassílabos — encontrou nele um líder administrativo e artístico rigoroso. Sua atuação mantendo acesos os Jogos Florais e organizando os trovadores brasileiros garantiu que essa tradicionalíssima forma de poesia continuasse viva, respeitada e em constante renovação no ambiente literário contemporâneo. 

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