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sábado, 17 de outubro de 2026

Domingos Freire Cardoso (Colheita de Trovas)


Além do horizonte temos
mais outro horizonte, além,
porque, por mais que sonhemos,
atrás de um sonho... outro vem!.

A maior felicidade
entre tantos desenganos,
é manter a mocidade
na alma ao correr dos anos.

A vida faz-se tecendo
finos elos que nos atam
aos sonhos que vão morrendo
e que, morrendo, nos matam...

Cada lágrima é cristal
puro, pequeno e brilhante,
com que me pagas o mal
que te causo a todo instante.

Em vai-e-vem de marés,
nessa valsa de salão,
teceram os nossos pés
enredos do coração…

Juntas, duas alianças,
no dedo da mão esquerda,
são permanentes lembranças
da minha infinita perda...

Levando vida tão crua,
com a fome pela frente,
qualquer criança de rua
vira adulto sem ser gente.

Nem o Tempo nem a História
vão lavar com seu perdão
a tortura da memória
das trevas da escravidão.

No meu relógio os ponteiros
são como dois namorados:
passa uma hora e, matreiros,
estão de novo abraçados...

Nossos corpos se entenderam
no samba, de tal maneira,
que nossas vidas nasceram
ao fechar-se a gafieira…

O meu lar é como um ninho
abrigando horas amenas
feitas de amor e carinho
e à mistura... algumas penas!

O riso na tua face
tão doce, puro, inocente,
é como luz que passasse
por um cristal transparente.

O silêncio inteligente,
próprio de quem tem razão,
pode ser mail eloquente
do que a mais sábia lição.

Pão nosso de cada dia
pedimos em oração
sem pedirmos a alegria
de a ninguém faltar o pão.

Perguntei ao coração
O que o fazia viver:
"Sonhos!... que só morrerão
Quando deixar de bater".

Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…

Quando chegaste ao portão
para saber quem batia,
batia o meu coração
que de saudades morria.

Roça: mata, fogo, chão,
Força, braço, homem, dor;
Plantas, flores, frutos, pão,
Terra, vida, infância, amor!!!…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Domingos Freire Cardoso (1946)
DOMINGOS FREIRE CARDOSO é um dos mais prestigiados poetas, trovadores e investigadores da cultura popular contemporânea em Portugal. Com uma técnica poética refinada e um profundo amor às suas origens, ele se destaca internacionalmente no movimento trovadoresco e no resgate da identidade linguística e histórica da região de Aveiro. Nasceu em 1946, em Chousa-Velha, em Ílhavo, Portugal. Passou a infância e a juventude na região de Ílhavo e Aveiro. Licenciou-se inicialmente em Física pela Universidade de Coimbra e, posteriormente, concluiu o curso de Engenharia Químico-Industrial no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, em 1971. Após iniciar sua carreira docente, fixou residência na cidade do Porto, onde passou a maior parte de sua vida madura. Embora diplomado em engenharia, descobriu sua verdadeira vocação no ensino. Atuou por mais de 30 anos como professor de Física e Química no ensino secundário de Portugal (iniciando no Liceu Nacional de Leiria e lecionando longamente no Porto), tendo se aposentado em 2007.
Seus laços com a escrita poética iniciaram-se ainda na juventude, mas foi no verão de 1983 que ele começou a participar intensamente de Jogos Florais e concursos literários. Tornou-se mestre na poesia de formas fixas (especialmente o soneto e a trova), aproximando-se fortemente de agremiações e movimentos de trovadores tanto em Portugal quanto no Brasil. Frequentemente convidado para academias e associações culturais lusófonas devido ao seu prestígio literário transatlântico. Ele também é membro ativo da Academia de Saberes de Aveiro (AEJE). É um dos poetas contemporâneos portugueses mais laureados em certames de trovas e poesia. Venceu e foi classificado dezenas de vezes em prestigiados Jogos Florais e concursos literários tanto em Portugal quanto no Brasil, onde é imensamente respeitado no meio trovadoresco. Sua obra engloba a poesia lírica e a investigação histórico-cultural: O Terceiro Vértice – Livro inteiramente dedicado à sua refinada produção poética; Pedras sem Tempo do Cemitério de Ílhavo (2012) – Uma detalhada pesquisa histórica baseada em atas camarárias e na evolução social da sua terra natal; Palabras co bento no leba (2018) – Uma monumental obra de resgate linguístico (com mais de 500 páginas e acompanhada de um CD áudio) que cataloga expressões típicas, ditos e o falar característico do povo de Ílhavo.
A importância de Domingos Freire Cardoso para a literatura lusófona consolida-se como uma ponte onde ele atua como um dos maiores embaixadores da trova portuguesa contemporânea no Brasil, ajudando a revigorar o intercâmbio literário da poesia de métrica rígida e redondilha maior entre os dois países. Através de suas pesquisas lexicográficas e históricas, Domingos combate diretamente a uniformização da língua e a erosão do tempo. Ao registrar os falares das gentes de Ílhavo, ele imortaliza a identidade cultural e a memória oral de sua região na literatura.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet e livro do autor) 

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