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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Edy Soares (Cristais Poéticos)


EPÍLOGO

Já sem querer mudar o mundo,
Sinto-me apenas um sentinela,
Um simples vigia.

Arrisco olhares pela janela.
É imenso, é profundo
O abismo da cidade fria.

Nem frestas, nem lampejos,
Nem luz no fim do túnel.
Até me fraquejo!
Nada vejo; nada espero!

Ao que me parece,
No intervalo de cada prece,
Assim como as mentes,
As ruas ficaram vazias.

Sem luta, sem luto,
Sem recompensa,
Se finda a história.

Não há música,
Ninguém toca,
Ninguém mais escuta,
Não há mais, sequer,
Quem movimente a batuta.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

JANGADEIRO

Jangadeiro na noite escura,
Sem vela, sem armadura,
Sem remo, perdeu o norte.
Tá entregue ao acaso e à sorte.

Jangada que sob os pés se desfaz,
Socorro que não chega mais,
Pois a esquadra perdeu seu dono,
E os fuzileiros caíram no sono.

Tempestades que trazem medo,
Mares de céu cinzento,
Jangadeiro pede socorro,
À deriva vai noite adentro.

Na terra, ficou sem chão;
No mar, quase sem jangada
à procura de peixe ou pão,
Perdeu-se da enseada.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O SILÊNCIO

Silenciaram-se os sinos e buzinas,
O trem não mais saiu da estação.
Folhas vagam sopradas nas calçadas,
Faz algum tempo...
Muito tempo, desde aquele último clarão.

Da janela, nunca mais trancada,
A vista da rua gélida, fantasma.
Nada que tenha vida ou movimento,
A não ser coisas que o vento ainda sopra.

Imagens na memória, longínquas,
De pessoas sentadas na praça,
E gritos infantis nunca mais ouvidos,
Somente o ruído do vento que passa.

A lua...
Ah! A lua parada no céu,
Até o sol, não mais movimenta,
Parece que a terra agarrou em sua órbita,
Nem sei se é ela, ainda um planeta.

Apalpo nas coisas, me apalpo a toa,
Que susto!...
Nada sinto! Nada sinto!
Estou abstrato, não toco nem grito,
Não tenho um formato, tá tudo esquisito.

Pouco a pouco arisco, arrisco um grito,
Nada sai da garganta, me vem um arrepio!
Não há marcação de tempo, só ouço o vento,
Não há mais dia ou noite... Ficou infinito.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

QUANDO A ALMA SE VAI

Um dia a alma acorda,
Bate asas e vai-se embora.
Aqui ela deixa apenas
Saudades nos olhos que choram.

Se vai pra lugar distante,
Repousar em outras esferas,
Preparar, talvez, lugares
Pra outras que aqui esperara.

De onde veio é incógnita,
Aonde vai não se sabe.
Se encontra lugar melhor,
Em nosso pensar não se cabe.

Se aonde vai é eterno,
A alma não é pequena,
Mas grande se prende ao fato
De que a vida aqui vale à pena.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

REBANHO PERDIDO

Estourada boiada, sem rumo,
Berrante que não ecoa,
Manada que, sem um norte,
Se perde correndo à toa.

Sem um campeiro nobre,
Condutor que conhece a trilha,
Tem lugar, tantos errantes,
Que entregam o rebanho à matilha.

Não andam mais, perfilados,
Dispersos e em desatino,
Pisoteia-se toda a manada.

Qual rebanho que, sem campeiro,
Em trote, vão sem destino
Ou perdidos em disparada.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

EDY SOARES (cujo nome de batismo é Edmardo Lourenço Rodrigues) é um poeta, sonetista clássico e trovador brasileiro. Nascido na cidade de Ibatiba/ES, em 1964, se destaca nacionalmente como uma das principais vozes da revitalização e preservação do movimento trovadoresco e do soneto clássico no Sudeste do Brasil. Nascido em solo capixaba e filho de pais agricultores, sua trajetória internacional e regional moldou sua vivência. Residiu nos Estados Unidos entre os anos de 1991 e 2006. Santo: Após retornar ao Brasil, fixou residência no município de Vila Velha/ES, onde vive, trabalha e mantém sua base de atuação cultural e empresarial. Paralelamente ao seu envolvimento de décadas com as letras, Edy Soares atua profissionalmente como empresário do ramo hoteleiro. Destaca-se por sua atuação em grandes eventos literários, tendo integrado ativamente as equipes de apoio, debates e programação da FLIC (Feira Literária Capixaba) nas edições de 2015, 2016 e 2017, além de participar da Bienal Capixaba do Livro.
Edy Soares possui uma vasta folha de serviços dedicados à comunidade literária de forma institucional, atuando de maneira marcante na liderança de agremiações de fomento à poesia. Exerceu o cargo de Presidente Estadual da UBT no Espírito Santo e presidiu a seção municipal em Vila Velha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO); Membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA);* Acadêmico Correspondente da Academia Iunense de Letras (AIL); Membro da ASSEI (Associação de Escritores de Ibatiba), em sua terra natal.
O autor é amplamente reconhecido por dominar a técnica de formas poéticas fixas. Suas principais publicações incluem: Poemas, Canções e Sonetos; Flores no Deserto; Sonetos Sonantes; Três em Trovas (coautoria); Além de participação como prefaciador de obras regionais e publicação em dezenas de antologias e coletâneas literárias nacionais. Ao longo de sua trajetória na poesia acumulou importantes distinções, como Troféu Carlos Drummond de Andrade (2015): Recebido na histórica cidade de Itabira/MG, em reconhecimento à sua produção poética. Diploma Especial de Mérito Cultural concedido por academias literárias capixabas devido à sua dedicação e contribuição para a difusão da arte e das letras. Classificado recorrentemente em certames nacionais e internacionais e convidado frequente para compor comissões julgadoras de concursos de trovas.
A relevância de Edy Soares para a literatura contemporânea reside essencialmente no seu papel de preservador e articulador das formas poéticas tradicionais no Brasil. Em uma época literária amplamente dominada pelo verso livre, ele atua como resistência estética ao produzir e ensinar o soneto clássico e a trova. Mais do que produzir textos, sua importância manifesta-se no associativismo: ao liderar a UBT no Espírito Santo, ele ajudou a transformar a trova de uma prática de escrita solitária em um movimento coletivo forte. Edy estimula o surgimento de novos trovadores, organiza concursos de fomento à escrita rápida e sintética e atua ativamente conectando a literatura clássica às novas dinâmicas das redes sociais e feiras de livros modernas.

Fontes:
Edy Soares. Flores no deserto. Vila Velha/ES: Ed. do Autor, 2015. Livro enviado pelo poeta.
Biografia = Recanto das Letras, Academia Iunense de Letras, Facebook, Clério Borges, etc.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Jerson Brito (1973)


A melhor alternativa

para alcançar a vitória
é tornar a tentativa
atitude obrigatória!
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Aquela vila afastada,
nas brenhas do interior,
parece pobre... Que nada!
É manancial de amor…
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A riqueza genuína
da tapera ou da mansão
vem do amor que predomina,
não se mede com cifrão.
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Da minha infância tranquila
recordo, os olhos marejo.   
Mil vezes aquela vila
do que concreto e azulejo!
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Digo com sinceridade:
É melhor pro coração,
o amargor duma verdade,
do que o mel d’uma ilusão
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Ela é charmosa e pequena,
concisa, porém, completa.
Eis a trova, expressão plena
da mensagem do poeta.
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Esperança assim defino:
rio que corre veloz,
banhando nosso destino
sem chegar à sua foz.
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Existe um tênue limite
entre paixão e loucura;
para as duas, acredite
não é fácil ter a cura.
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Faltou bronze ao escultor
que, sem outra solução,
resolveu, na praça, expor
a estátua do herói anão!…
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- Fui bronze! Missão cumprida!
Disse o sujeito aos parentes,
sem mencionar que a corrida
só tinha três concorrentes.
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Já tentei tirar de mim
a semente dessa flor,
que espalhou no meu jardim
o perfume do amor.
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Libertado das ruínas
de um amor sem solidez,
ao abrir outras cortinas,
meu coração se refez.
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Na crise, eu me fortaleço,
não perco os sonhos de vista;
toda queda é o recomeço
para quem crê na conquista!
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Na luta, quando entendido
o recado de um tropeço,
qualquer espinho vencido
escreve um fim... e um começo!
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Não maldiga o desafio
se a jornada é longa e dura;
a glória é fruto macio,
carregado de doçura.
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No baú da experiência,
guarde dor e alegria.
As lições dessa vivência
são úteis no dia-a-dia.
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Nossa paixão dissemina,
nos sonhos, a insanidade
quando surge, clandestina,
disfarçada de saudade.
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No teu sussurro extravasas
um sopro avassalador
que mantém vivas as brasas
da fogueira deste amor.
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O fracasso e a vitória
fazem parte do existir.
É normal na trajetória,
de vez em quando cair.
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Olhando estas mãos feridas,
lamento, orgulhoso, as falhas
e não as chances perdidas
no decorrer das batalhas!
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O vivente caminheiro,
se palmilha senda escura,
na esperança tem luzeiro
que no coração fulgura.
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Qual cometa incandescente,
a paixão passa e se vai,
deixa no peito da gente
uma dor que nunca sai.
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Quem se empenha na leitura
nada perde e tem certeza
de que, para a mente escura
livro aberto é luz acesa.
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Se de rancor está cheio
nosso coração doente,
estão vazias, eu creio,
a nossa alma, a nossa mente.
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Sentindo o golpe certeiro
da paixão que me extasia
louvo teu sorriso, arqueiro
de notável pontaria.
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Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão;
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
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Se põe fogo em nossa cama,
amor, esse teu perfume
é a mesma essência que inflama
o facho do meu ciúme!
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Será crescente a desgraça
da fome e grande o lamento
enquanto existir quem faça
da ganância um alimento.
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Sobre opiniões e crenças,
a sensatez nos diria
que o respeito às diferenças
tece teias de harmonia.
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Somos almas garimpeiras
nessa vida de perigos
onde, em lavras rotineiras,
valem ouro os bons amigos.
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Tentei enxugar meu pranto
na fronha do travesseiro.
Péssima ideia, porquanto
chorei mais, senti teu cheiro…
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Um amor especial
trouxe a flecha do cupido,
a saudade, esse punhal,
fez meu coração partido.
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Um cenário me devasta:   
a garrafa de champanhe,
duas taças, vela gasta
e ninguém que me acompanhe.
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        JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.
Fontes:
Messias da Rocha (org.). Múltiplas palavras vol. III. Juiz de Fora/MG: Ed. dos Autores, 2022.
Livro enviado por Lucília Trindade Decarli

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 1 – Conceito de Cidadania

Nota do blog:
Recebi do trovador potiguar Gonzaga da Silva o livro Trova e Cidadania, onde ele organiza uma compilação de trovas de trovadores de diversas regiões referentes a tópicos que envolvem a Cidadania. A partir de hoje coloco no blog, periodicamente alguns tópicos em trovas do excelente livro deste trovador. 
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CONCEITO DE CIDADANIA

O termo cidadania deriva do latim civitas, cidade. O conceito tem origem na Grécia antiga e designava o exercício dos direitos e deveres de cidadão, ou seja, do sujeito que vivia na cidade e que participava ativamente dos negócios e das decisões políticas. Entretanto, mesmo na Grécia, nem todos eram considerados cidadãos, ficando excluídos desta categoria os escravos, as mulheres, as crianças e os estrangeiros.

Atualmente, o termo cidadania está mais relacionado ao exercício dos chamados direitos fundamentais ou direitos humanos, previstos nos Tratados internacionais e nas Constituições dos estados. Mas esta previsão não assegura, por si só, o direito de cidadania.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Para os que seguem sozinhos,
descalços e combalidos,
que importa ter mil caminhos
se todos são proibidos?
Amália Max - PR

É necessário um esforço contínuo dos cidadãos para que os seus direitos sejam efetivados e respeitados. Nossos trovadores dizem o que é cidadania e como ela pode ser exercida.

Cidadania é civismo;
sobretudo é comunhão:
é ajuda mútua, é altruísmo,
partilha Justa do pão!
A. A. de Assis - PR

Exerce a cidadania
quem faz valer seu direito
e luta, no dia a dia,
por um mundo mais perfeito!
Renata Paccola - SP

Exercer cidadania,
em meio à desigualdade,
é conquistar, dia a dia,
um quinhão de liberdade!
Marisa Vieira Olivaes - RS

Exercer cidadania
é postar-se vigilante,
e com serena ousadia
lutar pelo semelhante.
Gonzaga da Silva - RN

Cidadania é o dever
do ser humano exemplar
gritar, com o seu poder,
por quem não pode gritar!
José Valdez de Castro Moura - SP

Com sentimento profundo
de pura cidadania
é que um povo afirma ao mundo
a sua soberania.
Sandro Pereira Rebel - RJ

Cidadania, em seus pleitos,
toda a grandeza contém
no conjunto dos direitos,
mas de deveres também.
Alonso Rocha - PA

Cidadania se exerce
com consciência e respeito,
pois se assenta no alicerce
do dever e do direito...
Élbea Priscila Souza e Silva - SP
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor.

domingo, 31 de maio de 2026

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

* O Sentir em Quatro Versos: Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Velhice — esse estágio de nossa vida, lapidado pela sensibilidade de vozes inesquecíveis.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz um verdadeiro "catatau" de trovas do mestre juizforense Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho. Uma imersão profunda na obra de um dos maiores expoentes da nossa arte.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo indispensável do livro "O Bom Trovar", da saudosa Maria Thereza Cavalheiro, falando sobre a rima.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem à delicadeza e ao talento do curitibano Maurício Norberto Friedrich, resgatando a memória da trova paranaense.

* Encerro com um artigo sobre o Trovadorismo.

Baixe em pdf no link abaixo

Boa leitura.
abraços trovadorescos

José Feldman

sábado, 2 de maio de 2026

Revista Crestomatia de Trovas nº 2


Segunda edição da Revista Crestomatia de Trovas. Esta edição foi preparada como um verdadeiro mosaico, unindo a tradição secular à força da nossa produção contemporânea.

Confira os destaques que preparei para o seu deleite:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

* O Sentir em Quatro Versos: Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Saudade — esse sentimento tão nosso, lapidado pela sensibilidade de vozes inesquecíveis.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz um verdadeiro "catatau" de trovas do mestre maringaense A. A. de Assis. Uma imersão profunda na obra de um dos maiores expoentes da nossa arte.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo indispensável do livro "O Bom Trovar", da saudosa Maria Thereza Cavalheiro.

* Trovadores de Ontem: Encerro esta edição com uma homenagem à delicadeza e ao talento da curitibana Argentina de Mello e Silva, resgatando a memória da trova paranaense.

Baixe para seu computador no link abaixo

domingo, 26 de abril de 2026

Revista Crestomatia de Trovas n.1 (Lançamento)


Olá,

Apresento a Crestomatia de Trovas, uma publicação independente idealizada por mim e nascida do trabalho de mais de dez anos do blog O Voo da Gralha Azul, dedicado exclusivamente para a trova.

O termo "Crestomatia" remete ao "estudo de coisas úteis". Na prática, a revista funciona como uma antologia didática e um registro histórico, conectando a maestria dos trovadores do passado às vozes contemporâneas.

Convido você a mergulhar nestas lições de poesia e sensibilidade. Caso queira contribuir com futuras edições, sua colaboração é muito bem-vinda através do e-mail: gralha1954@gmail.com.

Boa leitura e vivas à Trova!

Baixe para seu computador no link abaixo

abraços trovadorescos
José Feldman

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Trovadorismo no Brasil (Introdução)

(organização e pesquisa por José Feldman)


O trovadorismo é um dos movimentos literários mais antigos e marcantes da história, surgido na Europa medieval, especialmente no sul da França, por volta do século XII. No entanto, no Brasil, o trovadorismo não surgiu como um movimento literário formalizado e alinhado às características do trovadorismo europeu, mas foi reinterpretado e adaptado ao longo do tempo. Aqui, as manifestações poéticas com características trovadorescas emergiram principalmente através da influência portuguesa e se desenvolveram de maneira singular, conectando-se tanto à tradição oral quanto à escrita.

INFLUÊNCIAS PORTUGUESAS NO BRASIL COLONIAL

O trovadorismo como movimento literário original não existiu no Brasil colonial, pois ele já havia declinado na Europa antes mesmo da descoberta do país em 1500. Contudo, sua herança foi transmitida ao Brasil por meio da cultura portuguesa. O trovadorismo europeu, caracterizado pelas cantigas de amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e maldizer, influenciou a literatura oral e popular trazida pelos colonizadores. No Brasil, essas formas de poesia ganharam novos contornos, misturando-se com a cultura indígena e africana, o que deu origem a manifestações poéticas híbridas.

No período colonial, os jesuítas desempenharam um papel importante na difusão da poesia lírica e religiosa, que incorporava traços do trovadorismo. Um exemplo notável é a obra do padre José de Anchieta, que utilizava versos para catequizar os índios. Embora sua produção literária fosse mais voltada para a poesia religiosa e pedagógica, alguns de seus textos apresentavam traços líricos que lembravam as cantigas trovadorescas, com sua musicalidade e simplicidade.

O SÉCULO XVIII E O NEOTROVADORISMO TROPICAL

No século XVIII, com o advento da escola literária conhecida como Arcadismo, alguns poetas brasileiros retomaram elementos do trovadorismo em suas obras. O Arcadismo, com sua valorização da simplicidade, da natureza e do bucolismo, abriga certa afinidade com a poesia trovadoresca, especialmente nas cantigas de amor e amigo. 

Entre os principais nomes desse período está Tomás Antônio Gonzaga, autor de “Marília de Dirceu”. Embora sua obra esteja mais alinhada ao Arcadismo, ela contém elementos líricos que ecoam o espírito trovadoresco, sobretudo na expressão do amor idealizado e na musicalidade dos versos. Outro destaque é “Cláudio Manuel da Costa”, cujos poemas líricos apresentam uma sensibilidade que dialoga com a tradição trovadoresca medieval.

SÉCULO XIX: O ROMANTISMO E A REINTERPRETAÇÃO DO TROVADORISMO

No século XIX, com o Romantismo, o Brasil viveu um momento de forte resgate e reelaboração das tradições literárias do passado. O trovadorismo inspirou muitos poetas românticos, especialmente no que diz respeito à exaltação do amor, da natureza e da melancolia. A poesia romântica brasileira muitas vezes ecoava o lirismo trovadoresco, com sua musicalidade e idealização amorosa.

Entre os principais expoentes desse período, destaca-se Gonçalves Dias, cuja obra poética apresenta traços líricos que remetem ao trovadorismo, especialmente na idealização da mulher e na musicalidade dos versos. Em poemas como “Seus Olhos” e “Canção do Exílio”, percebe-se o uso de uma linguagem simples e direta, com forte apelo emocional e musical.

Outro poeta que dialoga indiretamente com o trovadorismo é Álvares de Azevedo, com sua poesia marcada pela melancolia, pelo amor idealizado e, frequentemente, por um tom confessional. Embora inserido no contexto do Ultra-Romantismo, seu lirismo intenso e sua sensibilidade podem ser associados à tradição trovadoresca.

SÉCULO XX: O RESSURGIMENTO DO ESPÍRITO TROVADORESCO

O século XX trouxe novas formas de manifestações poéticas no Brasil, mas o espírito trovadoresco continuou a se manifestar em diferentes contextos. Durante esse período, o trovadorismo foi reinterpretado e reinventado, especialmente por movimentos literários que valorizavam a tradição oral e a cultura popular brasileira.

Um exemplo marcante é o movimento modernista, que, embora fosse essencialmente vanguardista, resgatou aspectos da poesia popular e da tradição medieval, adaptando-os para um contexto contemporâneo. Poetas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira incorporaram em suas obras elementos da oralidade, da musicalidade e da simplicidade que remetem ao trovadorismo.

Além disso, o século XX assistiu ao fortalecimento da literatura de cordel, que, de certa forma, pode ser vista como uma herdeira do trovadorismo. Os cordelistas, com suas histórias rimadas e sua musicalidade, mantiveram viva a tradição de criação poética ligada à oralidade e à cultura popular. Autores como Leandro Gomes de Barros e Patativa do Assaré revitalizaram o espírito trovadoresco, adaptando-o à realidade nordestina e às questões sociais do Brasil.

MODERNISMO E A GERAÇÃO DE 45 (SÉCULO XX)

O Modernismo brasileiro, em suas diferentes fases, buscou a nacionalização da arte e a valorização da cultura popular. Embora a primeira fase fosse de ruptura, a terceira fase modernista, ou Geração de 45, viu um retorno à métrica e à forma fixa, o que ajudou a resgatar a estrutura da trova.

Expoentes desse período:

J. G. de Araújo Jorge: Poeta popular de grande sucesso na metade do século XX, organizou concursos de trovas ("Jogos Florais") na TV Rio em 1959, popularizando o gênero e incentivando novos trovadores.

Adelmar Tavares: Conhecido como o "Rei da Trova", foi um grande expoente e pioneiro na organização do movimento trovadoresco no Brasil, ajudando a fundar a União Brasileira de Trovadores (UBT).

Luiz Otávio: Outro nome importante na organização e difusão da trova no Brasil, também envolvido na promoção dos Jogos Florais.

O TROVADORISMO NAS DÉCADAS RECENTES

Nas últimas décadas, o trovadorismo tem sido reinterpretado por poetas contemporâneos e artistas que buscam resgatar a musicalidade e a simplicidade lírica características do movimento original. Em tempos de globalização e cultura digital, muitos artistas têm se inspirado na tradição trovadoresca para criar obras que dialogam com o passado e o presente.

O trovadorismo também se manifesta em movimentos artísticos ligados à música popular brasileira, onde a poesia e a musicalidade encontram terreno fértil. Compositores como Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Caetano Veloso podem ser vistos como "trovadores modernos", cujas obras combinam lirismo, musicalidade e uma profunda conexão com a tradição poética.

EUROPA E BRASIL , DIFERENÇAS

O trovadorismo europeu e o brasileiro apresentam diferenças marcantes, especialmente porque o trovadorismo, como movimento literário formal, não surgiu de maneira autônoma no Brasil. 

O trovadorismo europeu, datado entre os séculos XII e XIV, foi uma manifestação cultural e literária característica da Idade Média, enquanto no Brasil ele foi reinterpretado e adaptado, influenciando diferentes formas de expressão poética ao longo do tempo. 

ORIGEM HISTÓRICA

Europa:
O trovadorismo surgiu na Europa medieval, mais precisamente no sul da França, com os trovadores provençais. Ele se desenvolveu como uma arte poética e musical ligada às cortes feudais, com forte influência dos valores da Cavalaria e do Amor Cortês. Era um movimento literário bem definido, marcado pelas cantigas de amor, amigo, escárnio e maldizer.

Brasil:
O trovadorismo não existiu como um movimento literário formal. Ele chegou indiretamente, por meio da colonização portuguesa, como uma herança cultural. Elementos da poesia trovadoresca foram transmitidos através da tradição oral, da literatura popular e das influências líricas trazidas pelos jesuítas e colonizadores. Aqui, ele foi reinterpretado em diferentes períodos e estilos literários, como o Arcadismo, o Romantismo e a Literatura de Cordel.

CONTEXTO CULTURAL

Europa:
O trovadorismo europeu estava diretamente ligado à cultura das cortes feudais e aos ideais cavaleirescos, como o amor platônico e a exaltação à dama. Era uma expressão elitista e aristocrática, pois os trovadores compunham para as classes nobres, que eram os principais mecenas das artes.

Brasil: 
No Brasil, a poesia com elementos trovadorescos não estava vinculada a uma aristocracia feudal. Ela foi incorporada à cultura popular e adaptada às realidades locais, como o ambiente rural, a religiosidade e as influências indígenas e africanas. Essa adaptação tornou o "espírito trovadoresco" mais democrático e acessível, manifestando-se especialmente na oralidade e nas tradições populares, como a literatura de cordel.

TEMAS E LINGUAGEM

Europa:
Os temas do trovadorismo europeu eram bastante específicos e formalizados:
  - Cantigas de Amor: Amor cortês, idealizado, geralmente com o eu lírico masculino exaltando uma dama inatingível.  
  - Cantigas de Amigo: Relacionadas à saudade e ao lamento amoroso, com o eu lírico feminino.  
  - Cantigas de Escárnio e Maldizer: Sátiras diretas ou indiretas, com críticas sociais ou pessoais.  

  A linguagem era sofisticada, repleta de metáforas e simbolismos, e seguia normas rígidas de composição (versificação, rimas e métrica).

Brasil:  
Os temas ganharam um caráter mais popular e regional. A poesia influenciada pelo trovadorismo brasileiro incorporou o cotidiano, o amor simples, a religiosidade e as realidades locais. A linguagem, em geral, tornou-se mais direta e menos formal, com forte influência da oralidade. Exemplos disso aparecem na literatura de cordel e na poesia popular, que muitas vezes preservam a musicalidade e a métrica, mas com um tom mais acessível e próximo do povo.

MÚSICA E ORALIDADE

Europa:  
O trovadorismo europeu estava profundamente ligado à música. Os trovadores não apenas escreviam poesia, mas também as cantavam, acompanhados de instrumentos musicais, como o alaúde e a viela. A poesia trovadoresca era essencialmente uma arte performática, destinada a ser ouvida nas cortes.

Brasil:  
Embora a poesia trovadoresca europeia tenha influenciado a tradição musical e oral brasileira, a música se desvinculou do poema escrito. No entanto, a literatura de cordel, que pode ser vista como uma herança indireta do trovadorismo, manteve a oralidade ao ser recitada ou cantada pelos cordelistas, especialmente no Nordeste. A música popular brasileira também incorporou o lirismo trovadoresco em canções de amor e sátira.

ESTRUTURAS POÉTICAS

Europa:  
A poesia trovadoresca seguia formas fixas e rígidas, como a balada, a canção e a tenson (debate poético). As cantigas tinham uma métrica específica (geralmente redondilhas maiores ou menores) e apresentavam esquemas de rima bem definidos, com uso de paralelismos e refrãos.

Brasil:  
Embora houvesse influência das formas fixas, a poesia brasileira adaptou-se às características locais. No Arcadismo, por exemplo, a métrica clássica (decassílabos e redondilhas) foi herdada do trovadorismo. Na literatura de cordel, predominam a redondilha e a rima simples, mas com mais liberdade na composição e maior foco na narrativa.

EXEMPLOS DE PRODUÇÃO

Europa:  
Entre os principais trovadores europeus estão:
  - Bernart de Ventadorn (cantigas de amor);  
  - Martim Codax (cantigas de amigo);  
  - João Garcia de Guilhade (cantigas de escárnio e maldizer).  

  Suas obras eram curtas, líricas e altamente estilizadas, voltadas para o entretenimento e a admiração nas cortes.

Brasil:  
Tomás Antônio Gonzaga (Arcadismo), Gonçalves Dias (Romantismo) e os cordelistas nordestinos (como Leandro Gomes de Barros e Patativa do Assaré) mantiveram vivo o espírito trovadoresco. Eles adaptaram o lirismo, a musicalidade e a crítica social ao contexto brasileiro.

CONTEXTO SOCIAL E LITERÁRIO

Europa:  
O trovadorismo europeu surgiu em um contexto de feudalismo, onde a arte era patrocinada pelos nobres e estava diretamente associada à vida nas cortes. Era uma literatura elitista, voltada para um público específico e restrito.

Brasil:  
A poesia influenciada pelo trovadorismo brasileiro se desenvolveu em um contexto muito mais amplo e heterogêneo. Ela foi incorporada à cultura popular, sendo usada como uma forma de expressão coletiva e muitas vezes ligada à luta social, como acontece na literatura de cordel ou na música popular.

A REALEZA DO MOVIMENTO TROVADORESCO NO MODERNISMO NO BRASIL

Adelmar Tavares e Luiz Otávio desempenharam papéis fundamentais na modernização e revitalização do trovadorismo no Brasil. Eles foram figuras centrais no movimento que trouxe o espírito trovadoresco para o século XX, resgatando e adaptando as características medievais do gênero para o contexto contemporâneo. Seus títulos de "Rei da Trova" e "Príncipe da Trova" refletem o reconhecimento de suas contribuições poéticas e de seus esforços para popularizar a trova no Brasil.

ADELMAR TAVARES: O REI DA TROVA

Adelmar Tavares (1888–1963) é uma das figuras mais importantes da poesia brasileira no período moderno. Ele foi um poeta, jurista e membro da Academia Brasileira de Letras. Recebeu o título de "Rei da Trova" pelo seu excepcional talento em construir trovas e pela sua dedicação à forma poética, que o tornou um mestre incontestável no gênero.

CONTRIBUIÇÕES E DESTAQUE NO TROVADORISMO

Resgate da Forma Tradicional: 
Adelmar Tavares destacou-se por revitalizar a trova, trazendo-a de volta à cena literária brasileira em um momento em que a poesia moderna, com suas formas mais livres, dominava o cenário. Ele manteve a estrutura tradicional da trova (quatro versos, redondilhas maiores, rimas rigorosas e musicalidade), conectando-se às raízes do trovadorismo medieval europeu.
  
Temas Universais e Populares: 
Suas trovas exploravam temas como o amor, a saudade, a fé e a vida cotidiana, mas com uma sensibilidade que transcendia os limites da poesia popular. Ele conseguia equilibrar simplicidade e profundidade, atingindo tanto o público erudito quanto o popular.

Reconhecimento Nacional: 
Sua maestria no gênero o levou a ser chamado de "Rei da Trova", um título que reflete o respeito que ele conquistou entre seus pares e leitores. Ele foi celebrado como o maior representante da trova em sua época, sendo uma referência para as gerações posteriores.

Influência no Movimento Trovadoresco: 
Adelmar Tavares influenciou diretamente o renascimento do trovadorismo no Brasil ao demonstrar que a trova, mesmo com suas raízes medievais, podia continuar relevante na literatura moderna. Seu trabalho serviu como inspiração para outros poetas, que passaram a valorizar e explorar essa forma poética em suas obras.

LUIZ OTÁVIO: O PRÍNCIPE DA TROVA

Luiz Otávio (1916–1977), pseudônimo de Gilson de Castro, foi outro grande nome da trova no Brasil. Ele recebeu o título de "Príncipe da Trova" por sua habilidade poética e pelo esforço em organizar e promover o trovadorismo como um movimento literário e cultural no século XX.

CONTRIBUIÇÕES E DESTAQUE NO TROVADORISMO

Luiz Otávio é conhecido como o fundador de uma entidade trovadoresca que reunia poetas de todo o país, em 1966, promovendo concursos, eventos e publicações dedicados exclusivamente à trova.  Essa organização foi fundamental para a consolidação da trova como um gênero poético reconhecido no Brasil. 

Divulgação e Valorização da Trova: 
Luiz Otávio não apenas produziu trovas de alta qualidade, mas também dedicou sua vida a divulgar essa forma poética. Ele acreditava no poder da trova como uma expressão artística acessível, capaz de tocar tanto os letrados quanto o público em geral.

Estilo Poético: 
Suas trovas destacavam-se pela perfeição técnica e pela sensibilidade. Ele abordava temas como o amor, a amizade, a natureza e a espiritualidade, sempre com uma linguagem clara e musical. Sua habilidade em capturar sentimentos profundos em apenas quatro versos o tornou um modelo para outros trovadores.

Influência no Movimento Trovadoresco:
Luiz Otávio consolidou o trovadorismo moderno no Brasil, não apenas como poeta, mas como organizador e incentivador de outros trovadores. Seu título de "Príncipe da Trova" reconhece tanto sua produção literária quanto seu papel como líder do movimento trovadoresco no século XX. Ele foi o responsável por transformar a trova em um gênero vivo e ativo, com uma forte base de seguidores e praticantes.

OS TÍTULOS DE REI E PRÍNCIPE DA TROVA

Os títulos de "Rei da Trova" para Adelmar Tavares e "Príncipe da Trova" para Luiz Otávio não foram meramente simbólicos, mas um reconhecimento de seus papéis fundamentais na preservação, revitalização e popularização da trova no Brasil. Enquanto Adelmar Tavares foi celebrado como o maior trovador de sua época, Luiz Otávio foi reconhecido como o principal articulador e organizador do movimento trovadoresco moderno.

Adelmar Tavares: Rei pela excelência técnica e sensibilidade poética, ele foi o maior expoente do gênero em sua geração.

Luiz Otávio: Príncipe por sua liderança e pelo papel central na criação de uma comunidade organizada de trovadores, garantindo a continuidade e o reconhecimento da trova como forma literária.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As diferenças entre o trovadorismo europeu e o brasileiro refletem as realidades históricas e culturais de cada contexto. Enquanto o trovadorismo europeu foi um movimento aristocrático e formalizado, o brasileiro reinterpretou essa tradição de forma mais popular e democrática, adaptando-a às influências locais e à diversidade cultural do país. No Brasil, a musicalidade, o lirismo e a simplicidade típicos desse movimento continuam a ecoar em várias manifestações artísticas e literárias.

Embora o trovadorismo não tenha surgido de forma autônoma no Brasil, ele deixou marcas profundas na literatura e na cultura do país. Desde a influência portuguesa no período colonial até as reinterpretações modernas, o espírito trovadoresco continua a inspirar poetas, músicos e artistas. Seja nas cantigas medievais adaptadas pelos jesuítas, na poesia lírica do Arcadismo e do Romantismo, ou na literatura de cordel e na música popular brasileira, o trovadorismo permanece vivo e relevante, ecoando sua musicalidade e lirismo ao longo dos séculos.

Adelmar Tavares e Luiz Otávio foram os pilares do trovadorismo moderno no Brasil. Enquanto o primeiro resgatou o lirismo e a musicalidade da trova, o segundo institucionalizou o movimento, ampliando sua prática e alcance. Ambos não apenas revitalizaram um gênero poético de raízes medievais, mas também demonstraram que a trova, com sua simplicidade e profundidade, podia ser uma forma de arte viva e relevante, capaz de conectar gerações e públicos diversos. Seus títulos, de "Rei" e "Príncipe", são uma justa homenagem ao impacto duradouro de suas obras e ações.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas); "Almanaque Poético Brasileiro vol.1"; “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Versos", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Grinaldas Indígenas".

Fonte:  Chafariz de Versos. Floresta/PR: Plat.Poe. Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por JFeldman com Microsoft Bing

Fernando Vasconcelos (Colheita de Trovas)

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