Trovadores em Ordem Alfabética

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terça-feira, 29 de julho de 2025

Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes (Niterói/RJ)

1
A criança adormecida
parece um lírio se abrindo.
É o princípio de uma vida
que o tempo vai esculpindo.
2
É tão belo o amanhecer,
quando o sol enfeita a aurora,
que o luar ao perceber,
fica triste e vai embora.
3
Eu nunca fico às escuras
nos caminhos que percorro,
porque Deus, lá das alturas,
sempre me envia socorro...
4
Eu venho fazendo versos
em fase de encantamento...
Trago na mente Universos
girando em meu pensamento.
5
Há nos jardins uma flor
que se chama Amor-perfeito.
Eu também tenho um amor
perfeito dentro do peito...
6
Há sonhos em nossas vidas
que duram um só momento.
Parecem flechas perdidas
nas asas do pensamento.
7
Há tempos eu descobri
mais uma forma de amor.
É o beijo do colibri
na corola de uma flor...
8
Nosso amor é tão bonito,
que já não tem dimensão,
pois galgamos o infinito
mesmo tendo os pés no chão.
9
- Nuvem leve, tão discreta.
Quem te fez tão leve assim?...
Foi o sonho de um poeta,
ou coisa de um querubim?...
10
O canto do passarinho
que era liberto outrora,
é só saudade do ninho,
é sua alma que chora...
11
O tempo ficou parado
naquele retrato antigo,
que mesmo preso ao passado,
conversa sempre comigo...
12
O verso da trova é leve,
e por ser leve é fluente,
mas na hora que se esereve,
é um pedaço da gente...
13
Para ser sempre lembrado
com alegria e emoção,
o nosso amor foi guardado
no cofre do coração...
14
Pouso os olhos nas estrelas
sob um banho de luar.
E assim, perdida por vê-las,
nem sinto a noite passar.
15
- Qual o ritmo mais belo
que a gente pode escutar?
- É o ritmo singelo
das cantigas de ninar...
16
Quando o inverno terminar,
abrirei minhas janelas...
Quero ver em pleno mar,
muitos barcos, muitas velas...
17
Quando leus lábios se calam,
eu consigo perceber
o que teus olhos me falam
e o coração quer dizer…
18
Quem vive da nostalgia
dos momentos do passado,
não faz do seu dia-a-dia
um presente a ser lembrado…
19
Tão esplêndido luar
desceu do céu sobre a terra,
que eu cheguei a imaginar
que havia prata na serra...
20
Um sorriso de criança
Sempre nos traz novo alento.
É como um fio de esperança
num leve sopro do vento...
21
Uma trova pequenina,
quando sincera e sonora,
a nossa mente ilumina
como o esplendor de uma aurora...
22
Uma verdade se encerra
nesta minha afirmação:
- A flor se eleva da terra
e o verso do coração...
23
Uma vida sem amor
parece casa vazia,
parece jardim sem flor
ou canção sem poesia...

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Gilvan Carneiro da Silva (São Gonçalo/RJ)

1
Abro a cortina do sonho
e num gesto de quem vela,
-me deito a seu lado e ponho
meus sonhos nos sonhos dela...
2
A Justiça, envergonhada,
baixa os olhos impotentes,
quando algumas, por um nada,
prendem pulsos inocentes.
3
Alvorada dos meus dias,
teus olhos – luzes pagãs
acendem com poesias
o céu de minhas manhãs…
4
A mais cruel solidão
é a do cego (sina triste),
vivendo na escuridão,
sabendo que a luz existe.
5
Angustiante dúvida esta
perseguindo os dias meus:
o tempo que ainda me resta
é o mesmo tempo de Deus?…
6
A vida é um breve passeio
e o homem não sabe, talvez,
que ele é um “turista” que veio
e vai voltar outra vez…
7
Baseada em tristonhos fados
a história assim se deduz:
todos nós somos culpados
daquela morte na cruz…
8
Cai a tarde lenta, e nasce
em tudo um gesto de prece...
Ah, se o instante me levasse!
Ah, se a tarde te trouxesse!
9
Caíste amigo? Ergue o peito.
Esconde o pranto. Levanta.
É caindo no seu leito
que o rio mais forte canta.
10
Como esconder a tristeza
que aperta meu coração:
o pão me sobra na mesa
e há tanta gente sem pão!
11
De fato acordos teriam
de a paz selar muitos laços,
se braços que digladiam
se estendessem para abraços.
12
De pensar tanto em Maria,
- oxalá isto endireite -
no restaurante, outro dia,
pedi Maria com leite...
13
Diante de tantos escolhos
em meu insone abandono,
eu sei que são os teus olhos
a luz que impede o meu sono
14
Dizer que a vida não presta
não me cabe isso afirmar.
A minha vida é uma festa
na festa do seu olhar.
15
Em meio a ações violentas,
tanto ódio, pouco juízo,
bendito aquele que ostenta
como armamento um sorriso.
16
Esta manhã que se adensa
em tanta luz e poesia.
basta ter tua presença
para enfeitar mais o dia.
17
Foi ela... Eu sei, é um garrancho
esse "EU TE AMO" escrito assim...
Mas isso faz do meu rancho
um castelo para mim!
18
Fraco ante as minhas paixões,
invejo, juro por Deus,
essa audácia com que pões
teus olhos dentro dos meus.
19
Fui à missa. Que pecado!
- Perdão, "seu" padre, se errei.
Ela sentou-se a meu lado,
olhei... pensei e... pequei!
20
Hoje não te vi. Prevejo
inquietação... desconforto...
O dia em que não te vejo
é para mim dia morto...
21
Mesmo que a tantos iluda
com diversas abordagens,
história de amor não muda,
mudam só os personagens...
22
Meu coração não te esquece,
refém de insones rotinas.
Ah, se a manhã te trouxesse
quando eu abrisse as cortinas!...
23
Minha paixão decidida
doce sentença esquadrinha:
minha vida só tem vida
se a tua vida for minha.
24
Mistérios em si bisonhos, 
que o amor decifra e traduz:
são os teus olhos tristonhos
que enchem meus olhos de luz.
25
Nas mãos de Deus, em verdade,
o universo se afigura
na simples fragilidade
de ser uma miniatura.
26
Neste sonhar em que vivo
da poesia cultor,
o teu desvelo é o motivo
dos meus motivos de amor.
27
Numa tímida esperança
eu a cobiço com medo,
como uma pobre criança
que almeja um lindo brinquedo!
28
O céu de luto parece
quando a cigarra anuncia
num canto em forma de prece
a morte triste do dia...
29
Ó minha alma, por que anseia
ir tão longe os vôos seus?...
O universo é um grão de areia
na palma da mão de Deus...
30
O pobre estende a sacola:
(que triste contradição!)
- os lábios pedem esmola;
- os olhos pedem perdão...
31
– O que é o vento, mamãezinha,
que a gente não vê mas sente?
E a mãe responde: “– Filhinha,
vento é Deus beijando a gente...”
32
O sol vem... E faz algumas
distinções em seu caminho:
deixa um Palácio entre brumas,
cobre de luz um ranchinho.
33
O truque falha...vermelho,
o mágico diz que o enguiço
é culpa do seu coelho
que ainda é novo no serviço…
34
Por mil candangos plantada
com ferro, cimento e asfalto,
eis Brasília, germinada
como uma flor no Planalto!
35
Procuras em vão... Contudo,
não desesperes... Convém.
A felicidade é o tudo
do pouco que a gente tem…
36
Quem me vê tristonho assim,
talvez não saiba que existe
chorando dentro de mim
o eterno menino triste...
37
Refém de ti, não recuo,
réu do amor que me corrói:
cada sonho que construo,
tua apatia destrói...
38
Se crês, uma prece apenas
é possível transformar
um mar de dores e penas
num doce e tranquilo mar...
39
Se não te tenho ao meu lado,
um só instante sem ti
é como um dia passado
que sinto que não vivi...
40
Sendo boa ou má, a vida
teve sempre o seu valor,
se um dia foi repartida
em um momento de amor.
41
Sendo o fim de longa espera
sabendo que sou teu dono,
voltou a ser primavera
em minha vida de outono…
42
Sonhos dourados desmancho...
Meu coração enfim vê
que às vezes, ventura, é um rancho
de chão batido e sapê…
43
Teus rogos, se estás sozinho,
pleno de amor, Deus atende,
mas a luz do teu caminho
teu coração é que acende !
44
Veio um golpe em teu encalço?...
Não desesperes em vão!
Às vezes um passo em falso
não joga a gente no chão.
45
Vejo-te e tanto me apego
com teu ser que me seduz,
que me sinto como um cego
maravilhado ante a luz…
46
Vivendo de um sonho morto
na solidão dos meus dias,
o meu coração é um porto
cheio de amarras vazias...

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Alberto Fernando Bastos (Rio de Janeiro/RJ, 1921 - ????)

A bela trova, em verdade,
tem aqui berço natal...
Mas o toque de saudade
quem nos deu foi Portugal!...
2
À noite, quando me deito
sem você - por meu castigo -
intrometida em meu leito,
fica a tristeza comigo!
3
A trova eu faço assim - de olho...
E a seguir por essa trilha,
nos cascalhos que eu recolho,
sempre alguma coisa brilha!...
4
Como troféus de vitórias,
minhas rugas, comovidas,
contam todas as histórias
de mil batalhas vencidas!
5
Com presteza indescritível,
confundindo o ser incréu,
da prece o barco invisível
nos leva ao porto do céu.
6
Da chama, outrora incontida,
de minha vã mocidade,
a brasa dorme escondida
sob a cinza da saudade…
7
Da paz deixei a procura...
Não a busco mais, enfim.
Por que sofrer a tortura
se ela está dentro de mim?!...
8
Do frio que me castiga,
neste inverno que perdura,
só me livra, aquece e abriga,
teu cobertor de ternura!...
9
É na renúncia que a gente
salva, mesmo em retirada,
de uma derrota iminente
o tudo de um quase nada!
10
És feliz? Não digas nada.
Goza em silêncio o teu bem,
que há muita gente empenhada
em não ver feliz ninguém!...
11
Há em nossa alma cansada,
mesmo sendo a vida atroz,
criança eterna e levada
que brinca dentro de nós...
12
Mandei-te embora e, ao fitar-te,
em ti não vi qualquer queixa.
Hoje, o amor, em outra parte,
essa tristeza não deixa!...
13
Mesmo sem querer ouvir,
vou guardando, contrafeito,
as ofensas que ao dormir
vou ruminar no meu leito…
14
Na noite em que perco o sono,
pensando coisas a esmo,
sinto o pavor do abandono
por ter medo de mim mesmo...
15
Não consintas, Pai amado,
seja de novo esta Terra
cenário triste e assolado
pelo fantasma da guerra!…
16
Nem mesmo a morte retrata
o horror que a desonra traz:
– Se uma espada fere e mata,
bem pior a língua faz...
17
Neste mundo, onde os problemas,
são reticências impostas,
o trovador busca os lemas
e as rimas trazem respostas...
18
Num contra-senso, é verdade,
- pois vazio é sem valor -
o vazio da saudade
encheu minha alma de dor!...
19
Por certo fico à deriva
no mar da vida - agitado -
se uma ideia negativa
no barco, pesa ao meu lado...
20
Quem nunca se desespera,
nem pedras atira a esmo,
vivendo em busca sincera
encontra a paz em si mesmo.
21
Quis ser famoso e, na vida,
apanhei... levei pancada...
Hoje, ao fim de muita lida,
me conformei: – Não sou nada!
22
Se o nosso céu se escurece,
a própria dor nos conduz
à busca humilde da prece,
que inunda a vida de luz!
23
Trovador, de alma empenhada
em luta, em choques medonhos,
faz da Trova a tua espada
e busca salvar teus sonhos!...
24
Um pensamento retive,
dentre muitos a escolher:
– Quem para servir não vive.
não serve para viver!…
25
Uma sombra - uma inquietude -
lembra-me, agora infeliz,
o bem-fazer que não pude
e o bem que pude e não fiz.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Rômulo Cavalcante Mota (Rio de Janeiro/RJ)

1
Aprendi muitas lições,
delas não faço mistério:
– “a rua dos valentões,
tem sede no cemitério”.
2
A quem não sabe a lição,
ensino a pequeno custo:
– “entra na casa o ladrão,
do pobre só leva o susto”.
3
De espelho posso afirmar,
de mulher sei repetir:
– “um reflete sem falar
outra diz sem refletir”.
4
De manhã desperta o nobre,
ouvindo seu passarinho,
“mas despertador de pobre
é o galo do seu vizinho”.
5
De mulher não se adivinha
o que ela disse ou pensou:
– “a mulher que andou na linha
o trem que passou, matou”.
6
Ensina um famoso vate
esta verdade tamanha:
– “coração de rico bate,
coração de pobre apanha”.
7
É profunda, é grande dor,
solidão de um passarinho.
Mais triste é sonhar o amor
e cedo acordar sozinho.
8
Eu lhe digo com certeza
aquilo que você quer:
– “do homem a maior riqueza
é ter sincera a mulher”.
9
Há gente que até graceja,
com esta grande verdade:
– “desconhecendo que é a inveja
fruto da incapacidade.”
10
Há muito já se dizia,
esta lição do passado:
– “solteiro, vida vazia,
como enche a de casado.”
11
Merecem rosas e palmas
quem nos ensina a viver,
“ pois somente as grandes almas
silentes sabem sofrer”.
12
Não tens pena, moreninha,
de quem te espera e não cansa?
Sei que a culpa é toda minha,
nunca me deste esperança.
13
Na vida, vou caminhando,
por este caminho infindo:
– “às vezes pago, chorando,
o que prometi sorrindo”.
14
Nem sempre aquilo que é belo,
é, de fato, o mais bacana:
– “para que queres castelo,
se és feliz numa cabana?”.
15
O rosto é que nos retrata
do coração a ferida:
– “sei que a saudade não mata,
mas nos sepulta com vida”.
16
Para que se vai à guerra
para que tanto barulho,
“ se algum dia a mesma terra
cobrirá o teu orgulho”.
17
Para que tanta corrida
se temos a mesma sorte,
corremos atrás da vida
perseguidos pela morte.
18
Procurei a vida inteira
pelo amor que eu mais queria:
– “a saudade é companheira
de quem não tem companhia”.
19
Quanta gente há que procura
encontrar consolação:
– “a medicina não cura
a dor da separação”.
20
Quem tem uma grande culpa
aos outros a culpa atira:
– “Porque, atrás de uma desculpa
sempre se esconde a mentira”.
21
Tenho amigos e bendigo,
quando me presta socorro:
– “mais vale um cachorro amigo
do que um amigo cachorro”.
22
Teu retrato que eu desejo,
é uma desculpa. Afinal,
na saudade em que me vejo,
quero é o teu original.
23
Todo mundo ri e se dobra
por mais que tenha preguiça:
– “o cão mordido por cobra
tem medo até de linguiça”.
24
Viola de trovador
tem cordas bem afinadas
e, se o tema for amor,
toca em todas as toadas.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Alba Christina Campos Netto (São Paulo/SP)

1
A dentadura escorrega,
mas depois de muito estudo,
agora, em vez de corega,
ele passa cola-tudo.
2
A festa já estava brega
quando a ilustre convidada,
gingando a saia de prega,
escorrega e cai sentada!
3
Ante os preços, toma um porre,
e a quem lhe diz que isso é um erro,
responde que só não morre
por não ter grana pro enterro.
4
“A onça entrou no terreiro
e sua mulher tá lá!”…
Responde o peão, matreiro:
“deixa onça se daná!”…
5
As mentiras bem montadas
que me dizes com prazer,
são algemas desgastadas
que eu teimo em não desprender
6
Brigamos,mas a saudade,
inconformada, ergue a chama
nos abajures de jade
que guardavam nossa cama.
7
Brigas de amor têm segredos,
e eu juro que me comovo
ouvindo os nós dos teus dedos
batendo à porta de novo...
8
Depois de encher nosso quarto
desse gozo em que se esmera,
você parte, e eu me reparto
nos delírios de outra espera.
9
Em momentos exaltados
sem poder falar e agir,
o silencio dá recados
que poucos sabem ouvir.
10
Fui lembrar nosso namoro,
e pelo jardim, os gnomos
juntaram-se a mim no coro
das lembranças do que fomos.
11
Gastou no terno e gravata
todo o dinheiro que tinha.
Que frustração, pois a gata
só queria a camisinha.
12
"Há uma loura acompanhando
seu marido o dia inteiro..."
- Pois vai acabar cansando...
O meu marido é carteiro!
13
Indiferente partiste,
sem adeus, nem emoção,
sem remorso, e o que é mais triste,
nem sentiste o meu perdão.
14
Letras feias, mal impressas,
e o descuido peculiar
de quem, convidando às pressas,
sabe que eu não vou faltar...
15
Meu destino é um desatento
marinheiro em fantasias,
baixa as velas quando há vento,
e a solta nas calmarias.
16
Meu sonho é ilusão ligeira
que achando a fresta perdida,
faz a dança da poeira
nos raios de sol da vida...
17
Meus sonhos em revoada
foram-se embora, e eu me sinto
andorinha desgarrada
no meu verão quase extinto.
18
Morre o sonho, e as nossas vidas,
antes, caminhos iguais,
são duas trilhas perdidas
que não se cruzam jamais.
19
Não podendo compreendê-las,
apaguei as fantasias,
sem saber que eram estrelas
nas minhas noites vazias.
20
Não quis te assustar, de fato,
nem causar esse desmaio.
Vi o frango inteiro em teu prato,
então gritei: "Papagaio"!!!
21
Nas armadilhas da vida
às vezes, o amor mais lindo,
dá seu recado, e em seguida,
manda um outro, desmentindo.
22
Nas leis com que nos afagam
a confusão é tamanha,
que todos sabem que pagam
mas ninguém sabe quem ganha.
23
Nas nossas vidas truncadas,
juntos, sem sonhos nem crença,
mãos dadas, ou separadas,
já não fazem diferença...
24
No jantar, foi fim de papo
quando a esnobe tão segura
foi atrás do guardanapo
que levou-lhe a dentadura.
25
No quarto, vazio agora,
nosso velho cobertor
cobre as mentiras que outrora
foram delírios de amor...
26
Noites frias, inclementes,
sopro a vela, penso em ti,
e durmo nas cinzas quentes
do amor que eu nunca esqueci.
27
Num sorriso, e sem aviso,
eu te espero, e quem me dera
desta vez o meu sorriso
continuasse além da espera...
28
O jardim, feito em meandros
é o teu refúgio e o lugar
onde meus olhos malandros
não cansam de te espreitar.
29
O que eu fiz de mais errado
nos meus momentos instáveis,
foi não ter desabafado
tantas mágoas reparáveis...
30
Para o poeta, é verdade,
os temas não são problema...
o amor, o sonho e a saudade
cabem sempre em qualquer tema.
31
Perdão de amor é incerteza,
é aquela pedra em desvio
que segura a correnteza
mas não traz de volta o rio.
32
Pergunta em sã criancice
quando a visita aparece:
com que bicho o papai disse
que essa mulher se parece?
33
Preciso de um tratamento,
um remédio que me ajude
a não sofrer com o aumento
do meu plano de saúde.
34
Quando um grande amor se afasta
deixa uma nota escondida
na canção que o vento arrasta
nas folhas secas da vida.
35
Quantos anos dá pra mim?
diz vaidosa, e com desdém,
o galã responde assim:
já não chegam os que tem?
36
Quase inverno... sem escolhas
eu vejo o outono passar
levando as últimas folhas
que teimam em me abraçar.
37
Quebro a taça do passado
e o vinho espalhado ao chão
é meu brinde apaixonado
aos cacos de uma ilusão.
38
Revivendo meus espinhos
fiz descoberta assombrosa,
nunca vieram sozinhos,
trouxeram sempre uma rosa.
39
Se dissesses, na partida,
fica... me escuta... Por mim,
mesmo com alma ferida,
eu teria dito sim.
40
Se encontras caminhos falhos
na busca do amor de alguém,
o coração tem atalhos
que nenhum mapa contém.
41
Se essa estrada que foi nossa
dividiu-se, não destruas
nenhum atalho que possa
juntar outra vez, as duas...
42
Seja em palácio ou favela,
brigam, mas amam também,
e se há feijão na panela
toda família vai bem.
43
Tiro, escondo, torno a pô-lo
na carteira, e ninguém vê
que esse retrato é um consolo
que eu guardo, não sei por quê...
44
Tua sombra é um sonho triste
num grotão sem claridade
onde uma fonte resiste
molhando o chão de saudade.
45
Uma ficou sobre a mesa:
a dos sós... nem nome tinha...
E eu descobri, com tristeza,
que essa medalha era a minha!
46
Vai o rei para o combate,
cercado de proteção
e, às vezes, o xeque-mate
é dado por um peão.
47
Vai o trambiqueiro à igreja
e reza, benzendo os crentes:
Que a boa fé sempre esteja
ao lado dos meus clientes...
48
Vens de volta, tão suave,
vem, procura a mesma porta,
se o tempo entortou a chave,
o coração desentorta.
49
Vivi tantos temporais,
uns reais, outros à toa,
que hoje quando dão sinais,
eu vejo apenas garoa.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...