Trovadores em Ordem Alfabética

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terça-feira, 27 de maio de 2025

Luiz Damo (Caxias do Sul/RS)

A face pode não ter
a mesma força do olhar,
mas, nela podemos ler,
o que o dono quer falar.

A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.

Ampla e plena liberdade
à humanidade Deus deu,
mas a sensibilidade
nem a todos concedeu.

Ante as rochas da imprudência
todo o sonho se tritura,
só resta à sobrevivência
destroços de uma aventura.

Às aves Deus tira o medo,
de voarem nas alturas,
diz aos homens, vos concedo:
luz para as noites escuras!

A velha e frágil escada,
quase perdeu seu valor
de conduzir à sacada
alguém pelo elevador.

A verdade que hoje buscas,
num passado tão distante,
está na imagem que ofuscas
todo o dia, a cada instante!

Ávida, à vida a alma segue,
busca o porvir tão sonhado,
num presente que prossegue
carregando o seu passado.

Cada dia que somamos
à caminhada vivida,
nova flor acrescentamos
no ramalhete da vida.

Conquistas vão se somando,
pela subtração da dor,
divide, multiplicando,
teu sentimento de amor.

Dentro e fora da família,
tudo gire em torno dela,
sirva ao mundo de estampilha
sendo à paz sua chancela.

Destemido, o sol mergulha,
no horizonte debruçado,
deita à terra, tal fagulha,
sendo por ela abraçado.

De uma indigesta amizade
muitas vezes nada resta,
nem arestas de saudade
sobram pra fazer seresta.

Diz quem ama, à parte amada:
esquecer-te eu não consigo,
sem ti sou menos que nada,
mais que tudo, eu sou contigo.

É depois de um tratamento
que o doente convalesce
e ao sumir o sofrimento
a saúde lhe aparece.

Faça a verdade imperar
sobre qualquer julgamento
e assim a chance de errar
pode ser zero por cento.

Frágil corpo os pais nos deram,
vida e sinais que eram seus,
o corpo, os filhos o enterram,
mas a essência volta a Deus.

Há quem queira ser modelo
de uma vivência exemplar,
luta tanto e por não sê-lo
passa a se autocontemplar.

Jamais posso imaginar,
ou projetar meu porvir,
sem ao passado voltar
e no agora me inserir.

Longínquas tardes amenas
com o rubor da pitanga,
trazem imagens serenas
do sol dormindo na sanga.

Livro! Tua estrela brilha,
sob o cosmos da cultura,
iluminas quem palmilha
as estradas da leitura.

Mantenha a chama do embate
na luta, sem se apagar,
siga em frente no combate
com o exemplo a propagar.

Mesmo fraca, a dor na luta,
avança e nos faz sofrer,
nunca, se a nossa conduta,
for mais forte e não ceder.

Na contramão do sucesso
segue lento o pessimista,
finge que exista progresso,
pensando ser otimista.

Nada igual, nem mais fecundo,
que plantarmos bons valores
deixando assim para o mundo
um legado aos sucessores.

Nada igual, nem parecido,
com a flor desabrochando,
o campo fica florido
na primavera chegando.

Não chores se a dor te aflige
e impede de à vida alçares,
qualquer luta esforço exige
para o objetivo alcançares.

Não tem criança que esconda
a predileção em ter,
um simples carro de lomba
pra brincar e se entreter.

Nas esquinas do passado
deixo um pedaço de mim,
por alguém vai ser juntado
depois de chegar meu fim.

Nas mãos dos transportadores
quantos frutos transportados!
Transportam grandes primores,
depois dos bens transformados.

Ninguém cai do seu cavalo
quando passa a conhecê-lo,
a não ser que sem domá-lo
pensa estar sobre um camelo.

Ninguém morra brutalmente
por qualquer bala perdida,
de uma escolha inteligente
surja a proteção da vida.

No campo, traça caminhos,
quem planta e supera o pranto
ceifa a dor do próprio espinho
que tenta ofuscar o encanto.

Num contexto mais moderno
o saber rompe a fronteira.
Não tem SIM que seja eterno,
nem um NÃO pra vida inteira.

O autor de um crime confesso,
quando aos tribunais, entrar,
tem nos autos do processo
tão pouco a lhe acrescentar.

O Brasil vê com reserva
as matas diminuírem,
enquanto o mundo as observa
de longe, também sumirem.

O leitor quando mergulha
no universo da leitura,
dela faz nova fagulha
a brilhar na noite escura.

Ontem, no homem, seu bigode,
era igual a um documento,
hoje, o que assina, mal pode,
dar aos atos provimento.

Os primeiros imigrantes
venceram hostilidades,
não foram beligerantes
mas guerreiros nas vontades.

O tempo transcorre ameno,
para quem a paz imprime,
nos traços de algo sereno
vê-se o bem que o mal suprime.

Para Deus jamais afirmes
que os grandes males são teus.
Aos males nunca confirmes
que eles são frutos de Deus.

Parta e desate as amarras,
busque do sol o esplendor,
pra colher noutras searas
os frutos de um sonhador.

Passam meses, surgem anos,
mudam séculos, milênios,
o homem elabora planos
não maiores que decênios.

Pedra solta, rola imersa,
na água turbulenta e fria,
rija, impune e controversa,
companheira à travessia.

Por trás dos ventos hostis
a varrerem a esperança,
ouve-se uma voz que diz:
não temeis, virá a bonança!

Quando ao consultório fores
buscando, à dor tratamentos,
não sejam somente às dores,
mas, também aos sentimentos.

Quando na vida avistares
fartas nuvens de ciúmes,
lembra, não passam de entraves,
sob a forma de tapumes!

Quem oferece uma flor
pode ser autor confesso,
dum ato que exprima amor
ou de carinho em excesso.

Quem tomar uma atitude
em não mais se alimentar,
vê enfraquecer a saúde
e o corpo debilitar.

Ramo algum é superior
que a planta, mas pode um dia,
se romper, se o vento for,
maior que a sua energia.

Se a luta parece insana
e a batalha perniciosa,
mude tal conduta humana
numa senda prazerosa.

Se beberes, não dirijas,
nem deixes que alguém o faça.
Para que, por nada erijas,
teu sepulcro numa taça.

Se calado alguém consente
não sente a mesma emoção,
de falar tudo o que sente
guardado em seu coração.

Se ensinares à criança
ser instrumento de paz,
no céu terás uma herança
que a ninguém a perderás.

Seja a luz da vida, o fulcro
e a morte um fruto tardio,
tudo o que ocupa o sepulcro
sejam restos de um vazio.

Seja como a vela acesa
num candelabro a brilhar,
siga à vida com firmeza,
sem medo de iluminar.

Se não mudas teu passado
muda o teu jeito de ser,
nisso podes ter mudado
o mundo sem perceber.

Só quem luta sabe o quanto
o dor pesa na derrota,
seu rosto banhado em pranto
reflete o que ela denota.

Surge o sol nos horizontes,
as estrelas vão dormir
e o lençol cobrindo os montes
retira-o pra se vestir.

Todo passo na alegria
se veste de brevidade,
mas, à dor, numa agonia,
parece uma eternidade.

Vejo à noite um lampadário
sempre à mesma hora a acender,
nunca muda de cenário
para o brilho acontecer.

Velho tronco decepado
com vestígios de abandono,
na impunidade, ceifado,
pelas mãos do próprio dono.

Vida plena, alguém alcança,
se calcada na virtude,
numa constante mudança
ascendendo à plenitude.

Vida, vivida com a alma,
é arte nas mãos do escultor,
chama que arde lenta e calma,
na imagem do Criador.

Vi nas areias, pegadas,
de alguém que me precedeu
e as minhas, quase apagadas,
ninguém as reconheceu.

sábado, 24 de maio de 2025

Ester Figueiredo (Barra do Piraí/RJ)

Algemas são os teus braços
que me prendem com ardor...
De alma nova, sem cansaços,
eu vou render-me a este amor!

Amanheci tão contente
por mais um dia de vida,
podendo seguir em frente
com Deus me dando guarida.

A paisagem que desfila
perante este meu viver,
lembra o tempo, lembra a vila,
o amor que me fez sofrer.

As alegres margaridas
enfeitam nosso jardins
jamais ficam às escondidas
parecem até manequins.

A vagar por nossas mentes,
sempre tão belas, tão novas,
as palavras são sementes
que dão vida às minhas trovas.

Dia de verão, tão lindo...
O sol, teu corpo dourando...
Tua, nua, quase dormindo...
E eu, bem perto, apreciando!

É magia, é sedução,
sempre que meu corpo inteiro,
ao toque da tua mão,
se transforma em um “braseiro”.

És o rumo em minha estrada...
És a luz que me ilumina...
És uma noite estrelada...
És o sol que bem me anima...

Estas rugas no seu rosto
que a deixam amargurada
formam marcas de desgosto
por amar sem ser amada.

Esta união que é um exemplo
de amor, de fidelidade,
fez dos corações o templo
que acolhe a felicidade.

Este orgulho que carregas,
insano, dentro do peito,
foge, tão logo te entregas
de corpo e alma em meu leito.

E tu seguiste... sozinho...
Aqui fiquei rejeitada...
Prologarás teu caminho,
eu buscarei nova estrada.

Exalando este perfume,
enlaçando-me em teus braços,
eu me esqueço do ciúme
e entrego uma alma em pedaços.

Exploram o trabalhador,
prostituem a mestiça,
e quase sempre este autor
fica impune, sem justiça.

Inverno de frias noites
e também de solidão,
ausências que são açoites
machucando o coração.

Lembrando as chaves das portas,
que abrias de madrugada:
passos lentos, horas mortas...
marcando tua chegada.

Linda manhã de verão,
o sol surgiu radiante,
à noite estrelas virão
abrilhantar meu semblante.

Mãe!... Exemplo de ternura,
coragem, fé, devoção.
A tua face é moldura
que adorna meu coração.

Minha Barra tão amada,
de palmeiras, tradições...
Tu serás sempre lembrada
num século de orações.

Muito te amei... tanto, tanto,
com grande ardor dos quinze anos...
Hoje, se rola o meu pranto,
a culpa é dos desenganos.

Na carícia do teu beijo
e no calor deste abraço,
te demonstro o meu desejo
e, em prazer, me despedaço.

Na contramão desta vida,
a criança, sem saber,
é pelo povo esquecida,
mas luta para viver.

Na corrente dos teus braços,
adormecida e bem calma,
eu te entrego meus cansaços,
torno cativa a mina alma.

Não sofra, não se atormente,
tenha fé, muita coragem,
pois nesta vida silente
nós estamos de passagem.

Nas noites de serenata,
o poeta sonhador,
canta, na triste sonata,
as suas dores de amor.

Neste instante derradeiro
em que nada mais restou
sou errante marinheiro
que na saudade afundou…

Neste momento, calado,
de gestos e olhar bisonho,
penso em você ao meu lado,
nos “amanhãs” dos meus sonhos!

Num bom livro, sem frescura,
devaneio na emoção,
de tanto amor e candura,
dando-me sustentação.

O teu carinho de amante,
tão ardente e sem pudor,
eu desejo a todo instante
que me dês com muito amor.

Partiste com ar tristonho
e repleto de razão...
Fui ingrata, mas proponho:
- Volta! Dá-me o teu perdão.

Pobre menino de rua,
sem amor e sem carinho,
só a clara luz da lua
ilumina o teu caminho.

Por causa dos teus maus-tratos,
indiferença... desdém...
eu rasguei os teus retratos,
mas hoje não sou ninguém!

Por sobre o lençol macio,
desejosos, sem pudor,
brilhos de olhos no cio
clamam momentos de amor.

Quando escrevo minhas trovas,
sem saber como e porque,
sinto que são como provas
do meu amor por você.

Que a minha infância floriu
com os conselhos e cuidados,
saudades de quem partiu
mas deixou muitos legados.

Que me tire todo o breu
e que surja a claridade,
pra que neste mundo meu
reine só felicidade.

São tuas mãos que me afagam
e teus beijos que me aquecem...
E quando as luzes se apagam,
os desejos me enlouquecem...

Segue teu rumo a teu gosto...
E esqueça que eu existi,
pois as rugas do meu rosto
revelam o que já sofri.

Se me olhas, estremeço...
Se me tocas, aí, socorro!
Se me beijas, enlouqueço...
No teus braços, quase morro!

Se o mundo te encheu de dor,
se te feriram a alma,
lembra-te sempre: há o amor...
Espera, conserva a calma!

Sob um velho abacateiro,
revivo os doces amores...
E o violão companheiro
é quem canta as minhas dores.

Somente a fé na justiça
do Supremo Criador
destruirá a cobiça
de quem promove o terror.

Tantas tardes de alegria
e tantas noite de amor!
Hoje, à madrugada fria,
busco, em vão, o teu calor.

Tu finges que não me queres,
percebi tudo, já sei...
Mas nenhuma das mulheres
Vai te amar como eu te amei...

Tu trazes na alma a nobreza
e, por caminhos diversos,
mostra bem toda a beleza
tão presente nos teus versos.

Um mundo melhor seria
se o homem fosse capaz
de, num toque de magia,
converter a guerra em paz.

Um olhar cheio de brilho,
de ternura, de emoção,
é o da mãe ao nascer seu filho,
fruto de amor, de doação.

Vejo um mundo de carinho
neste teu jeito de olhar
como a seta de um caminho
que me conduz a te amar.

Vendo as ondas e os rochedos,
num encontro sedutor,
vi que escondiam segredos
de um belo sonho de amor.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Lisete Johnson (Butiá/RS, 1950 - 2020, Porto Alegre/RS)

 1
Ah, o amor não dividido,
sonho não compartilhado...
Será este cão marido
ou um homem acorrentado?
2
Ao teu lado, não sei bem...
São as ondas em seu vagar
ou se é a rede num vai vem
que me dão o céu e o mar?
3
As amizades bonitas,
correntes de abraço estreito,
levo, gravadas em fitas,
no porta-joia do peito.
4
Às vezes, da terra bruta
e de um par de pés no chão
que vêm o exemplo de luta
e ânsias de superação!
5
Até parece mentira
que, na Rede, ao navegar
nas doces notas da lira,
vou, no teu corpo, aportar!
6
Benditas fotografias,
que contam fatos passados,
retalhos de alegres dias,
pelo tempo, costurados!
7
Céu marinho como tela,
verdes, grises, tom carbono…
são tintas de uma aquarela,
pintando as tardes de outono.
8
Embora este andar cansado,
denuncie minha idade,
a menina do passado
baila com facilidade!
9
Em todas minhas passagens
por terras, águas ou trilhos,
Deus, sempre, adorna as paisagens
de flores, de sóis, de brilhos!
10
Enquanto houver um luar
e um sol cheio de esplendor,
há de se ouvir o cantar
da lira de um trovador!
11
Este mundo gira, gira!
Gira tanto, tão veloz!
Ele gira ou é mentira?
Pois quem gira, somos nós!
12
Eu fui deixando um a um
meus vícios e compulsões…
E feliz, hoje, em jejum
me alimento de emoções.
13
Foi graças a seu gingado,
que a garota, um “avião”,
ganhou do “seu” deputado
“baita” cargo em comissão!
14
Franciscos são pregadores
de lumes e boas novas…
Alguns, da fé, são pastores,
outros, pastoreiam Trovas.
(trova para o Prof. Garcia)
15
Inconstância é estar contigo,
tudo tem duplo valor:
busco o amor, encontro o amigo;
busco o amigo, encontro o amor.
16
Marujos em alto mar,
habituados às baleias...
Nas areias... nem pensar!!!
Só querem fisgar sereias.
17
Meu barquinho de papel,
antes que o dia desponte,
zarpará do mar ao céu,
onde repousa o horizonte!
18
Meu gato, todo assanhado,
pêlo em pé, todo se estufa,
totalmente apaixonado,
e seduz minha pantufa…
19
Meu desejo percorreu
teu corpo, feito compasso,
circulando o que é tão meu
na geometria do abraço!...
20
Muitos sofrem neste mundo,
por falta de pão e teto,
mas o pesar mais profundo,
é ser carente de afeto.
21
Na feira, o “seu” Manuel:
– Não vendo nada... Pois, pois!
Mas se esgoela: - Olha o pastel,
pague três e leve dois! 
22
Não culpe, nunca, o destino
pelas quedas e fracassos.
Não se censura um menino
que cai nos primeiros passos!
23
Não é à força e martelo,
que se esculpe um cidadão!
Constrói-se, até, um castelo,
não caráter, retidão...
24
Não fico mais à mercê
do soar de cada hora,
pois o tempo pôs você
no meu tempo sem demora!
25
Nas nuvens vejo ajoelhada
minha mãe a orar comigo,
sempre que a fé é abalada
e nem rezar eu consigo.
26
No brinquedo “Esconde-esconde”,
eu me escondia tão bem,
que, até hoje, não sei onde,
eu me escondi…E de quem?
27
Nosso amor é, com certeza,
permanente transfusão:
na alma, no leito, na mesa,
ao sugo de um macarrão!!
28
Num arco-íris de cores,
fui descendo de mansinho
sem, se quer, pisar nas flores
que plantaste em meu caminho.
29
Num tropel de evoluções,
a lua, no céu, galopa,
entrelaçando bilhões
de áureas estrelas em tropa!
30
O Jerry, rato travesso,
atazanou tanto o gato,
que virou Tom, ao avesso,
e fez do gato, sapato!
31
Olhando, assim, de relance,
não consigo vislumbrar...
Fora está do meu alcance,
distinguir o céu do mar!
32
Ousada, a Lua assistia
pelas frestas da janela,
nossos corpos, na euforia,
rindo sob os raios dela!
33
"Paloma, blanca paloma",
do nada veio, ao tudo foi,
trouxe a paz, levou a soma
de uma sentença: "Acá estoy!!"
34
Perdão… As ondas pediam
afago às areias do mar,
que, em volúpia, se despiam
com o incessante beijar!
35
Por excesso de vaidade,
de soberba, de altivez,
valores, como a igualdade
estão, hoje, em escassez.
36
Pulsa tanto neste peito,
coração preso e febril,
ao mirar o vago leito
co’a sombra do teu perfil!!
37
Quando criança, eu ficava
olhando o céu, a cismar:
- quem, tão alto, a luz ligava
para acender o luar!
38
Quando me sinto impedida
por problemas iminentes,
o meu Deus me dá guarida
e vai rompendo as correntes!
39
Quando o percurso é distante
e os trilhos correm sem fim,
é bem neste exato instante, 
que Deus alia-se a mim!
40
Que monótono seria,
se não houvesse matizes
de cor, de raça , de etnia,
frutos de várias raízes!
41
Quero um abraço apertado,
real ou até da ficção,
de um personagem letrado,
que afague meu coração!
42
Resgatei o meu passado
e a noite outonal de abril
ao ver no espelho embaçado,
a sombra do teu perfil!
43
Se a droga traz euforia...
Como seria melhor
drogar-se só de alegria,
sem lançar mão do pior!
44
Se a pressa fez-me escolher
atalhos e não caminhos,
por certo, só vou colher
em vez de rosas, espinhos…
45
Se, em vez de paredes, pontes
eu tivesse construído,
talvez outros horizontes
teria então percorrido!...
46
Singrei mares de agonia,
lutei contra vendavais,
para achar a calmaria
que só encontro em teu cais.
47
Sol poente e meu veleiro
diz adeus aos coquerais...
Voa livre, aventureiro,
à procura de outros cais!
48
Tempos de patriotismo,
inspiram até meu olhar:
na paisagem há lirismo
e a bandeira a tremular!
49
Teu beijo, bombom cremoso
de conhaque com anis,
é o manjar mais saboroso
que minha boca já quis!
50
Teu corpo, lânguida estrada,
percorro com meu desejo,
no asfalto da madrugada,
na trilha de cada beijo! 
51
Um coração peregrino 
encontra estabilidade, 
quando Deus ou o destino, 
põem, na trilha, a amizade.
52
Um larápio, bem “pé-frio”,
ao fugir de um cachorrão,
escolheu, logo, o desvio
que acabava na prisão!…
53
Voltem riso e traquinagem
ao lar informatizado!!
A vida pede passagem
para o marasmo instalado!

quarta-feira, 21 de maio de 2025

J. G. de Araújo Jorge (Trovas sobre Saudade)


1
A saudade é este vazio
que a vida, ao partir, deixou;
rio seco, que foi rio,
porque a água já secou...

2
A saudade, intimamente,
devagarzinho nos rói;
é uma emoção diferente,
como uma dor que não dói.

3
A saudade me atormenta
e pesa como uma cruz,
- é como a sombra que aumenta
quanto mais se afasta da luz...

4
A vida passa e a saudade
passa a ser a vida ausente,
- é uma vaga claridade
de um clarão de antigamente...

5
Ah, saudade se te pego
me vingo sem compaixão:
dou-te esta cruz que carrego
sozinho, no coração!

6
Definir a eternidade
é fácil, já a defini:
é o instante de saudade
e eu vivo longe de ti.

7
Entre as folhas da lembrança
encontrei, de uma outra idade,
a verde flor da esperança
amarela... de saudade...

8
Fere aos poucos: mansa fera...
Maltrata... mas não destrói.
Saudade é dor que ainda espera,
é uma esperança que dói...

9
Já não há chamas... A vida
é invisível combustão...
Saudade: brasa escondida
queimando no coração...
10
Longe o amor, quem pode amar?
Tudo é inquietude, aflição...
A saudade é falta de ar
asfixiando o coração...

11
Louco, aumento esta saudade
aqui sozinho, a sofrer,
só pra poder ter vontade
de voltar para te ver.

12
Misto de pranto e alegria,
sol e chuva, sonho e dor,
a saudade é o sol num dia
de chuva, no nosso amor...

13
Nesse jardim de surpresas,
que foi o amor que me deste,
as violetas são tristezas,
minha saudade, um cipreste.

14
No peito dos marinheiros
nasceu , cresceu, emigrou...
Mas nos porões dos "negreiros"
foi que a saudade... chorou!

15
O tempo tudo desbasta
mas nem a tudo desfaz:
a saudade não se gasta
com o tempo aumenta mais!

16
Ontem, de amor tu morrias...
Hoje, já te sentes farta...
A saudades que sentias
só mata... no fim de carta...

17
Partiu com sonhos de glória!
Ficou com a dor e a tristeza!
Eis afinal toda a história
da saudade portuguesa!

18
Persistente e fina dor,
sombra da felicidade,
ânsia e gemido de amor,
lembrança e espera... Saudade.

19
Por meu coração já frio
uma saudade ainda passa:
- lembra apagado pavio
onde a restos de fumaça...

20
Quando estas longe, querida,
na minha angústia sem fim,
saudade é o nome da vida
que morre dentro de mim...

21
Saudade boa é a que existe
na espera... que há de chegar...
Mas há uma saudade triste
que fica sempre a esperar...

22
Saudade é amor que se sente
no coração inseguro:
é amor passado, presente,
que ainda espera ter futuro...

23
Saudade é fidelidade !
e eis como a imagem se explica:
partem o amor, a amizade,
todos partem... ela fica.

24
Saudade é permanência,
algo de amor que ficou,
que, mesmo longe, na ausência,
só partiu... não se ausentou...

25
Saudade, - estranha ilusão,
que a solidão recompensa,
presença no coração
maior que a própria presença...

26
Saudade: enigma cruciante
que talvez se explique assim:
_ quanto mais te sei distante
mais te sinto junto a mim...

27
Saudade: amor, na lembrança
de quem ficou a esperar.
É uma dor difusa e mansa
que faz sofrer... e sonhar...

28
Saudade: fruto acre-doce,
vem da flor do amor que cai...
Se calor: acidulou-se...
- só dá quando o sol se vai...

29
Sem amor quem pode amar ?
Tudo é inquietude, aflição...
A saudade é falta de ar
asfixiando o coração.

30
Sempre fiel e verdadeira
vigia de nossa dor,
ó saudade, companheira
dos solitários do amor...

31
Sentir saudade, não é
ser infeliz, - pensa bem,
- mais infeliz é quem nunca
sentiu saudades de alguém

32
Vaga do mar sem espuma
ramo verde, sem botão;
noite sem lua, de bruma;
saudade no coração.

33
Vaga em vai-vem, dolorida
a rolar dentro de nós:
Saudade: vida sem vida,
canto ou soluça, sem voz...

34
Vi teu retrato, - revivo
um velho amor que foi meu...
A saudade é um negativo
de foto que se perdeu...

Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou. vol. IV. 1a. Edição, 1965. 

XXV Concurso de Trovas de Caicó-RN 2026 (Premiados)

Tema: Conquista ÂMBITO NACIONAL  VETERANOS 1. Lugar:  Cezar Defilippo  (Astolfo Dutra-MG) Nas crises emocionais – conquisto em mim – nas bat...