Trovadores em Ordem Alfabética

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domingo, 3 de agosto de 2025

Clenir Neves Ribeiro (Nova Friburgo/RJ)

1
A patroa: “O que me pasma
é, no seu quarto, um gemido!”
- Não se assuste, é que o fantasma
tem a voz do seu marido!
2
A velha pensão da Inês
serve estranha refeição...
- Nunca vi tanto freguês
depois que fecha a pensão!…
3
A vizinha, sem alarde,
recebe uma visitinha
que chega domingo à tarde
e sai segunda à tardinha!…
4
Brigamos... e mesmo tensa
renovei minha proposta...
Como dói, se a indiferença
traz em silêncio a resposta!
5
Chega a tarde... e há nostalgia
nesta angústia desmedida...
Que importa o nascer do dia?
- Tudo é tarde em minha vida!...
6
Coincidência que me arrasa,
que me assusta e me espezinha...
- Meu marido chega em casa
quando chega o da vizinha!
7
Dei um basta à indiferença!...
- Nem tentes mais meu perdão,
pois foi na tua presença
que eu conheci solidão!…
8
De remédio tem mania,
mas vício... não tem nenhum!...
- Toma mil gotas por dia...
da erva "Cinquenta e um"!…
9
Ela grita, aliviada,
certa noite na mansão...
- O fantasma da empregada
tem a cara do patrão!…
10
Ele jura ter carinho...
caindo a sogra, sem pressa,
prepara, devagarinho,
a pimenta na compressa!…
11
Errei muito no passado,
e hoje digo, de antemão,
que para tanto pecado
talvez não haja perdão!…
12
Errei por não estar perto
desse amor, sereno e doce,
mas, juro, daria certo,
por mais errado que fosse!…
13
Está no hospício o Zequinha
e, por mais que a noiva torça
em vez de usar camisinha,
é só camisa de força!…
14
Este amor já está em mim,
mais que eterno, reconheço...
- Se um dia foi quase fim,
foi num outro o recomeço!…
15
É um detalhe, terno e doce,
que a saudade vem lembrando
- E eu sinto como se fosse
o meu passado voltando!…
16
Eu só o conheci agora!...
- E a fofoqueira: - Há um engano!
Ele visita a senhora,
já contei, há mais de um ano!…
17
Fim do amor ... eu, já cansado,
sinto a angústia de estar vendo
todo o segredo guardado
no sonho que está morrendo.
18
Foi minha sogra internada
no Hospício municipal...
- Pior é que, ante a danada,
qualquer maluco é normal!…
19
Foste embora sem razão...
- Sozinha em meu universo,
eu transformei solidão
em rima para o meu verso!…
20
Gastei meus sonhos sozinho...
Voltaste tarde demais...
- Tenho, agora, o teu carinho,
mas... meus sonhos... nunca mais!…
21
Há muita briga e baderna
no bar do casal Gusmão,
se alguém, nele, passa a perna
e alguém, nela, passa a mão!
22
Houve briga e zum-zum-zum
antes mesmo do casório...
- O Zé não quis ser mais um
a ter culpa no cartório!…
23
Malandro e da pá virada,
em casa faz o que quer...
- Quando briga com a empregada,
faz as pazes com a mulher!…
24
Melhora a sogra, e o Clemente
que em carinhos se desdobra,
diz que salvou a doente...
com remédio para cobra!…
25
Mesmo se triste e magoado,
meu sonho não acabou...
- Nosso amor, que hoje é passado,
para mim nunca passou!…
26
Na carta, volto a rever
lembranças, tuas e minhas...
- hoje eu só consigo ler
saudade... em todas as linhas!…
27
Não sei se a casa é assombrada,
mas a vizinha me pasma...
- Quando chega a madrugada,
é um entra e sai de fantasma!…
28
Nosso amor nasceu sagrado,
mas, com o tempo errou tanto,
que hoje chamam de pecado
o que outrora, já foi santo!…
29
O amor que teve importância,
passou tão perto, e eu, calada,
só pude ver a distância
de dois na mesma calçada!…
30
O Manoel do Bar, no beco,
pagou um mico danado...
Gritou: “Sai um vinho seco,
que o pau d’água está molhado!...”
31
Os sonhos, como contê-los,
se o amor, cansado, sem voz,
nem quer ouvir os apelos
que nós fizemos a nós?!
32
Ouço passos da sacada,
ansiosa, chego ao portão...
- E vejo, em minha calçada,
o final da solidão!…
33
“Pagou um mico” perfeito
a Clara, em busca de fama!
Disse à esposa do prefeito:
“eu sou a segunda dama!...”
34
Partiste... e em meio à lembrança
a saudade continua
pondo luzes de esperança
nos postes de minha rua!
35
Por mais que eu tente esconder
nosso amor, que é todo medo,
o meu olhar, sem querer,
revela o nosso segredo.
36
Por timidez, dei as costas
ao amor que eu sempre quis...
E a vida deu-me as respostas
às perguntas que eu não fiz!…
37
Que adianta fazer propostas?...
- Nem tenho mais teu abraço -,
se eu mesmo dou as respostas
às perguntas que eu te faço!…
38
Sei quanto errei no passado...
Paguei caro à solidão!...
E o pior preço cobrado,
foi não ter o teu perdão!…
39
Sem pressa, vai percebendo,
na firma, quando ele atrasa,
que o seu patrão vai fazendo
um "serão" em sua casa!…
40
Sou poeta do Universo,
feito de sonho e magia,
pois faço de cada verso
meu sonho de cada dia!…
41
Tão metida a ser Dondoca,
tinha um castigo, a Maria:
- Quando fazia fofoca,
a dentadura caia!...
42
Vendo a espera angustiante,
o meu relógio, sem graça,
vai mostrando o teu semblante
em cada instante que passa!…
43
Vendo as tristezas tão minhas
na tua ausência, a lembrança
fez da saudade, entre linhas
os meus versos de esperança!…
44
Voltas com outra proposta,
mas, eu, fingindo altivez,
uso o poder na resposta
e digo não, outra vez! ...

sábado, 2 de agosto de 2025

Fernando Câncio de Araújo (Fortaleza/CE, 1922 - 2013)

1
Adeus... e foste saindo,
dizendo que voltarias...
E a saudade entrou sorrindo,
da mentira que dizias...
2
A ilusão da meninice
com meus netos se refez:
– agora, em plena velhice,
eu sou criança outra vez!…
3
A mão triste, vacilante,
de porta em porta estendida,
é o troféu mais humilhante
que o pobre ganha na vida.
4
A mulher do seu Ventura
tem o beijo tão sugante,
que engoliu a dentadura
do dito... 'naquele instante"…
5
Ao ver-te assim neste encanto,
mãos postas em oração,
fiquei invejando o santo
que olhavas com devoção.
6
A vida de faz-de-conta
que levo desde menino,
é brinquedo de desmonta
nas peças do meu destino...
7
Bimbalham sinos tristonhos
entre as horas esquecidas,
como a lembrar velhos sonhos
perdidos em nossas vidas…
8
Enquanto o sino da igreja
martela o bronze perfeito,
minha saudade solfeja
na catedral do meu peito…
9
Entre velhos e crianças
há dois sinos na medida.
Quando um bimbalha: – Esperanças.
O outro bate o “pôr-da-vida”.
10
Era um poeta de mão cheia,
hippie, cabelos revoltos...
Só poetava na cadeia,
detestava versos soltos!
11
Meus olhos cheios de mágoa
buscam as pedras do chão,
são dois riachos sem água
perdidos na imensidão…
12
Nas tardes calmas sentidas
Bem-te-vi - que afinidade:
– tu a cantar - tristes vidas
eu, vida triste - saudade!
13
Na velha igreja em ruína,
desprezada em abandono,
a cruz cansada se inclina,
boceja o sino de sono.
14
Nesta saudade abrangente
que maltrata qual açoite,
vejo teu vulto silente
passando dentro da noite!
15
No palco azul desta vida
toda paixão é uma fraude,
pois no ato da despedida
somente a saudade aplaude...
16
O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!
17
O nosso sonho termina
num adeus triste, exaltado,
deixando no chão da esquina
o teu retrato rasgado!
18
O que me importa a saudade
se os netos brincam lá fora,
a renovar a ansiedade
dos velhos sonhos de outrora?!...
19
Pescador dos verdes mares,
quando embarca em procissão,
nos lábios leva cantares
e no peito uma oração…
20
Saudade, marcas doridas
de um momento que passou;
bandeirinhas coloridas
que o tempo nunca rasgou.
21
Se de lágrimas brotasse
a água carente do agreste,
talvez nunca mais faltasse
inverno no meu Nordeste.
22
Sertanejo, envelheceste,
tal cardo nascido ao léu:
– quantas secas tu venceste
com os olhos postos no céu.
23
Tarde sem chuvas, de estio.
Cigarras, que afinidade,
passamos horas a fio
cantando a mesma saudade...

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Eulinda Barreto Fernandes (Bauru/SP)

1
Abra a janela da vida
e mostre o alegre viver!
Que essa saudade doída
não a faça se esconder.
2
Acumular sentimento
dentro do meu coração,
não deixar no esquecimento
o carinho ao nosso irmão.
3
A jovem que se escondeu
nas manhãs da minha aurora,
de repente apareceu
bem diferente de outrora.
4
A medalha pendurada
que está encostada em meu peito,
foi um presente da amada
hoje ... um romance desfeito.
5
A minha casa tem grade
servindo de proteção;
suspeitos em liberdade,
delinquente sem prisão.
6
A ponte do ódio e do amor,
precisa ser balançada
para que o amor, triunfador,
passe livre em caminhada.
7
Busco teu querer em vão,
e vou vagando sem rumo.
Tropeço na solidão...
meu produto de consumo.
8
Cai a tarde e vem à mente,
as que eu vivi no sertão:
– Meu pai, trazendo a semente,
que lhe cabia na mão.
9
Da cadeira que balança,
e dos seus olhos tristonhos,
trago, na minha lembrança,
a vovó no fim dos sonhos.
10
Da casinha... que saudade
- perto da linha do trem -
Faz lembrar a mocidade
e as rodas em vai e vem.
11
Desfolhei as margaridas
pra saber do bem querer...
Mal querer às escondidas,
estava sempre a vencer!
12
Em cada página um poema,
em cada verso a emoção
de encontrar, sem ter dilema,
estampada a inspiração.
13
Foi do campo de batalha ...
- que tristes lembranças traz! -
Trouxe consigo a medalha
e o que queria era a paz!
14
Foi no calor da lareira...
com seu cheiro em toda casa,
me tomaste por inteira
deixando meu corpo em brasa.
15
Folhas mortas ... e eu revivo,
a cada outono que vem,
o nosso laço afetivo
e desse amor sou refém!
16
Há um renovar de energia
e um futuro de esperança,
ao sentir, na mão macia,
o carinho da criança!
17
Minha idade vem rolando
como as pedras no caminho.
Pedra a pedra vou juntando,
edificando o meu ninho.
18
Minha trova aprisionei
em moldura colorida,
o fato é que ali deixei
um pouco de minha vida.
19
Murmúrio que vem no vento,
com certeza deve ser
a voz de Deus, em lamento,
querendo nos proteger.
20
Na travessia da vida
 enfrentamos a batalha:
 - Ora se perde a investida...
 - Ora se ganha a medalha!
21
Na vida de um trovador
há sentimentos variados
e é da alegria e da dor,
que faz seus versos rimados.
22
No jardim em que plantei
para decorar minha alma,
lindas flores cultivei...
Espinhos? Tirei com calma.
23
O adeus assina a sentença...
e eu vejo, em meu padecer,
quando a tua indiferença
vira a página...sem ler!
24
O descendente italiano
sempre tem um sonho a mais:
– atravessar o oceano,
ver a terra de seus pais.
25
Para matar a saudade,
o meu diário eu abri.
Recordei, da mocidade,
momentos bons que vivi!
26
Passaste por minha vida
e eu escrevi nossa história...
Na página envelhecida
eu te prendi...na memória!
27
Por medo de te perder
ou por falta de coragem,
procurei sempre esconder
a minha parte selvagem.
28
Quando o feitiço acontece,
na loucura da paixão,
o nosso corpo padece
e perdemos a razão.
29
Se dói voltar ao passado,
quero sentir essa dor.
Lembranças... de um namorado:
– único e primeiro amor.
30
Sentindo o peso da idade
e, agora em compasso lento
vem, em mente, a mocidade
que se foi... tal qual o vento.
31
Sobreviver nesta vida
é travar uma batalha:
– chora-se a cada partida;
vibra-se a cada medalha!
32
Tantos anos e eu ausente...
Anos que eu sobrevivi.
Hoje vivo intensamente
compensando o que perdi.
33
Tristeza de um pescador
com a canoa no rio,
pensando no lar... e a dor
da fome e também do frio.

 BRINCANDO COM A SAUDADE

34
Anos atrás, as crianças
criavam as brincadeiras.
Eu trago, em minhas lembranças,
algumas mais costumeiras.
35
A tampinha da garrafa
era o jogo de botão.
Figurinha em bafa-bafa
e sempre de pé no chão.
36
Cantava escravo de Jó,
sem largar minha boneca.
Da galinha carijó,
as penas viram peteca.
37
Salva, carrinho de lata,
aviãozinho de papel,
como era quente a batata...
melhor é passar anel!
38
Cinco Marias trazia,
guardadas em embornal
e também quando chovia
o barco era de jornal.
39
Chega à noite, ao me deitar
e estando muito cansada,
estória vou escutar,
contada por uma fada.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Glória Tabet Marson (São José dos Campos/SP)

1
A alegria de viver
vai depender do momento...
Veranear pode ser
perfeito acontecimento.
2
A Escola se consolida     
quando o aluno, bem formado,
vai bem na escola da vida
por ter sido preparado!
3
Alegria de viver,
jamais poderá ter freios...
Sorrisos vão aquecer
todos os meus galanteios!
4
Atraídas pelas cores,
pela beleza que impera,
crianças fazem das flores
saudação à Primavera!
5
Buscando tecnologia,
o mundo, de hoje, se esquece
que a família em harmonia
tem o amor que nos aquece!
6
Céu do Brasil refletido
nas águas de um grande rio
retrata o país movido
por gente de muito brio!
7
Chegar às nuvens é sonho
de fugir da desventura,
mas jamais será tristonho
aquele que a Deus procura!
8
Cheiro de mato, gorjeio
dos pássaros... Que saudade!
Nada mudou e o passeio,
uma volta à mocidade!
9
Como faz a talhadeira
retirando toda aresta,
amolda-te por inteira:
– a vida vira uma festa!
10
Com uma enorme tristeza
que invade o meu coração,
eu contemplo a natureza,
fugindo da solidão.
11
Cor da pele? Quer saber?
não faz ninguém diferente.
Diferente é sempre ter
coração benevolente!
12
De barco, para o recanto,
fui por rio sinuoso,
e aquele pavor, no entanto,
tornou-se algo prazeroso!
13
Dia e noite navegando,
eu busco a felicidade...
céu e mar vou contemplando,
vendo você com saudade!
14
Do trem, a vista florida
logo foi me surpreendendo;
se assim olharmos a vida,
de sonhos vamos vivendo!
15
É gente que vai e vem
nesta vida de labuta;
São Paulo não se detém,
é cidade resoluta!
16
Enquanto favorecidos
levam vida sem coragem,
muitos pobres, decididos,
lutam, fraquejam, mas agem!
17
Esta família preciosa
ninguém de nós escolheu;
cordial e generosa,
foi Deus quem nos concedeu!
18
E vendo o tempo que passa,
afloram recordações:
– as retretas lá na praça,
flertes causando emoções!..
19
É verão, a natureza
se aprimora: o sol ardente,
o azul do céu... e a certeza
desse Deus onipotente!
20
Folhas e folhas rasgadas,
escritas com tanto ardor,
hoje “páginas viradas”
do que foi um grande amor!…
21
Homem de olhar penetrante,
sem que a donzela resista,
está certo que, por diante,
estará feita a conquista.
22
Na grinalda e no buquê,
flores brancas e amarelas;
se tudo tem o porquê:
isto é sonho das donzelas!
23
Não precisa ter chuteira
para mostrar futebol;
quem tem batida certeira
terá um lugar ao sol!
24
Nem sempre ter liberdade
traz total satisfação;
eu, presa a você, verdade,
mantenho acesa a paixão!
25
Num céu de rara beleza,
um arco-íris resplandece...
e, olhando, tenho a certeza:
é luz de Deus que aparece.
26
Onde tudo foi escuro,
mar e lua resplandecem;
sendo assim, eu asseguro:
namorados aparecem!...
27
O “ser feliz” nesta vida
está na simplicidade,
um só carinho, querida,
traduz a felicidade!
28
Preservação se constata
no Mato Grosso do Sul,
pois voa por toda a mata
a formosa arara azul!
29
Que bom se o Sol encoberto,
por nuvens de poluição,
mostrasse ao homem, por certo,
o tamanho da agressão!
30
Que bom seria se a Terra
estivesse em boas mãos,
liberta de qualquer guerra,
seriam todos irmãos!
31
Registrar minhas andanças
me traz intensa alegria;
com essas doces lembranças,
não deixo a vida vazia.
32
Saudemos nossa amizade
com o mais alegre brinde:
que ela a ninguém desagrade,
e que jamais ela finde!
33
Sei que nada nos aparta,
nem a distância malvada,
pois ao abrir sua carta...
Vejo-me até abraçada!
34
Tempo passa, vai embora...
restam lembranças, saudade...
busque, então, em cada aurora,
a doce felicidade!
35
Um rapaz encantador
agrada qualquer donzela,
se faz as juras de amor
num jantar à luz de vela.
36
Vale a pena envelhecer,
viver o hoje e ser feliz;
o passado remover
sem deixar a cicatriz!
37
Vão meus beijos tão distante,
levando o que mais esmero:
sentimento fascinante
de um amor sempre sincero!
38
Voando a primeira vez,
por entre nuvens passei;
quem sabe um dia, talvez...
estrelas contemplarei.

XXV Concurso de Trovas de Caicó-RN 2026 (Premiados)

Tema: Conquista ÂMBITO NACIONAL  VETERANOS 1. Lugar:  Cezar Defilippo  (Astolfo Dutra-MG) Nas crises emocionais – conquisto em mim – nas bat...