Trovadores em Ordem Alfabética

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quinta-feira, 19 de junho de 2025

Maria Madalena Ferreira (Magé/RJ)

1
A gente não dá valor...
E a vida cobra, em verdade,
por um instante de amor,
muitas horas de saudade...
2
Algumas gotas de orvalho
e o sol da manhã radiosa
fazem de um simples cascalho
uma pedra preciosa!
3
A mais bela profecia
- o mistério mais profundo! -
se cumpriu, quando Maria
deu à luz a "luz do mundo"!
4
Após a noite chuvosa,
chora, triste, o Beija-flor,
ao contemplar sua Rosa...
–  despetalada e sem cor!...
5
Cansado, triste e carente,
meu coração é um mendigo,
buscando uma alma indulgente
que lhe conceda um abrigo.
6
- Cartas de amor! - andorinhas
riscando os céus, em vai-vem...
cruzando as saudades minhas
com as saudades de alguém!...
7
Chega ao fim a serenata...
E a Lua, mesmo cansada,
recolhe as taças de prata
das mesas da madrugada!
8
Da morte? - Sim, tenho medo,
mas temo mais pelo além...
- Esse insondável segredo
não revelado a ninguém!...
9
Da seiva da "Flor do Lácio',
tirou Caminha o matiz
com que escreveu o prefácio
da História deste País!
10
Desculpe, Amor, se me atraso
na volta ao lar... Acontece
que eu me perco, olhando o ocaso,
enquanto o sol adormece!!!
11
Desde já, meu filho, aprenda
que a vida é feito as aranhas:
disfarça em teias de renda
seus intentos e artimanhas!
12
Deus, em matéria singela,
ou seja: o barro do chão,
deu forma e vida à mais bela
das obras da Criação!
13
Dos amores infelizes
não guardo mágoa. - Em verdade,
se deixaram cicatrizes...
também deixaram saudade.
14
Eis o que resta, hoje em dia,
do que eu fui (triste verdade...):
um "fusquinha" de alegria
e um 'caminhão" de saudade!
15
Embora o dia me açoite
com seus barulhos brutais,
lá no silêncio da noite...
a solidão bate mais!...
16
É tanto, tanto, o chamego
da Maria Salomé,
que endoidece qualquer "nego"
com um simples cafuné!
17
Eu não quero despedidas
no momento em que eu morrer!
- Vou em busca de outras vidas,
onde eu possa renascer!
18
Faço tudo direitinho!
Sou “faxineira” das boas”
- Até – sobrando um tempinho...
– “limpo” as “pratas” das patroas…
19
Falassem os arvoredos...
e o mundo iria corar
ante os milhões de segredos
que o vento deixa, ao passar!...
20
Felicidade! – Eu te estudo
e não decifro a “charada”:
– Uns – infelizes com tudo…
– Outros – felizes sem nada!!!
21
Fito o espelho... e o que constato?
– Rugas... tristezas... enfim,
o verdadeiro retrato
do que a vida fez de mim!
22
Fugindo ao rol das “coroas”,
finjo ser “balzaquiana”...
- “MÁSCARA”... ENGANA AS PESSOAS!
Só que... o Tempo... não engana…
23
Moro sozinha... porém,
solidão não é castigo!
-- Se não falo com ninguém...
meu rádio fala comigo.
24
Mostrar-me um rumo é louvável,
porém, meus passos não tolhas!
Eu quero ser responsável
por minhas próprias escolhas!
25
Na caneca... o bom "verdinho"!
Caldo verde... sobre a mesa!
Pão à farta! E o meu ranchinho
é uma "casa portuguesa"!
26
Não fales mal da ilusão!
Mede as palavras que dizes!
- As ilusões são o pão
das almas dos infelizes!
27
Meu barco – velho e sem lastro –
 não sobe nem mansos rios!...
- Murcha a vela... entorta o mastro...
 (E eu, na rede... “a ver navios”...)
28
Na rebeldia da infância
não basta agir com rigor:
precisa haver tolerância,
bom exemplo e... muito amor!
29
Nenhum ourives se atreve
a imitar - nem de arremedo -
as filigranas de neve
dos galhos nus do arvoredo!
30
No meu peito há tanta mágoa
que não seria surpresa
se uma simples gota d’água
eclodisse em correnteza!
31
Olho a praça abandonada
e me ponho a imaginar
uma saudade sentada
sem ter com quem conversar!...
32
Para este amor, que a nós dois
tomou – assim de improviso –,
não houve “antes” nem “depois”;
houve o “momento preciso”!
33
Perco a conta das pegadas
dos sonhos que vão passando,
nas eternas madrugadas
em que fico te esperando!
34
Portugal, jamais me escondas
qualquer chance – por mais rara –
de eu tentar rasgar as ondas
deste mar que nos separa!
35
Portugal, reafirma os laços
do teu amor mais profundo:
toma o Brasil em teus braços
e mostra teu filho ao mundo!
36
Pressenti, desde o começo,
- insensatez de te amar -
que esta saudade era o preço
que eu teria que pagar!...
37
Qual foi a forma?! – Define-a!,
pois, mesmo sem transfusão,
pela corrente sanguínea
entraste em meu coração!
38
Quem quiser ter livre acesso
ao peito de um sonhador
basta trazer como ingresso
um bilhetinho de amor!
39
Que eu sou pobre... ninguém diz!
Passo alegre os dias meus!
- Não tenho “bens de raiz”,
mas... tenho as bênçãos de Deus!!!
40
Quisera ser um mecenas,
Mas, sem dinheiro ou valia,
serei "defensor", apenas,
dos Amantes da Poesia!…
41
Razão de minha altivez;
meu orgulho mais profundo:
- Ouvir falar "português"
nos quatro cantos do mundo!
42
Recebo a idade com calma,
para evitar que o desgosto
ponha rugas em minha alma,
como já pôs no meu rosto!
43
São: - minha face enrugada
e a cabeça embranquecida,
máscara velha... – surrada
pelas “folias’ da Vida!…
44
Sou culpada, sim senhor!
Porém não peço perdão!
Porque... pecados de amor...
não merecem punição!
45
Sou "mãe branca" de uma vida,
por um milagre, entre mil,
da Senhora Aparecida!
- A Mãe Preta do Brasil!
46
Sou seresteiro perfeito!
Pois, até meu coração
se amoldou, dentro do peito,
à forma de um violão!
47
Sou um "bígamo" perfeito!
Mas... não me inveje! Em verdade,
são parceiras no meu leito
a solidão e a saudade!...
48
Triste e só, no meu fadário,
amargando a tua ausência,
sou um banco solitário
numa praça em decadência!...
49
Vives só me provocando!
Depois eu é que me enrasco!
- Vou mesmo acabar virando...
“espeto” do teu churrasco!
50
Volta o barco... e o pescador
- após a noite em vigília -
exibe, em gestos de amor,
o sustento da família!
51
Zune o vento – na janela...
Zumbe a abelha – no jardim...
Zarpa a nau – rumo à procela...
- Zomba a saudade... de mim!...

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Ercy Maria Marques de Faria (Bauru/SP)

1
A apatia que hoje vês
neste semblante cansado,
é vestígio dos “porquês”
sem respostas do passado!!!
2
Agora o peso da idade
me obriga a encurtar meus passos
e acelera os da saudade
para acolher-me em seus braços...
3
A insônia que vai além
das horas da madrugada,
por teimosia mantém
minha saudade acordada...
4
Amo tanto esse meu povo
e essa terra onde nasci,
que, se acaso eu nascer de novo,
peço a Deus que seja aqui
5
A onda toda vez quando
na praia vem deslizar,
parece o pranto rolando
dos olhos tristes do mar…
6
Apesar desta certeza
de que somos tão iguais,
alma gêmea, que tristeza,
chegaste tarde demais!...
7
Aplausos a quem merece!…
Um brinde à velha esperança
que no peito permanece
mesmo enquanto a idade avança!
8
A saudade vem e liga
o velho rádio do peito
e ao som de uma valsa antiga
chora o meu sonho desfeito...
9
As dúvidas elimina
e repara os erros seus,
quem crê na ajuda Divina
e ouve o conselho de Deus!
10
A varanda, hoje
de algazarra das crianças,
se transforma, dia a dia,
num castelo de lembranças!...
11
Barrei a tua saída
após ouvir-te afirmar
que entraste na minha vida
na certeza de ficar!
12
Bendito é aquele que crê
e com fé, sempre maior,
dobra os joelhos e vê
adiante um mundo melhor!!!
13
Bilhetes... esta quadrinha...
te escrevi, andando ao léu...
- Como enviar-te, mãezinha?
Não há Correios no Céu!...
14
Busquei tanto a liberdade
e ao transpor milhões de abrolhos,
encerrei minha ansiedade
na prisão desses teus olhos
15
Cada manhã que desponta
encantando a mocidade,
por certo é mais uma conta
no rosário da saudade…
16
Cigano, da tua andança
por esse mundo sem fim,
traz-me um pouco da esperança
que a sorte roubou de mim…
17
Com muito humor, o gabola
insiste numa cantada,
mas hoje tanto se enrola,
que apenas canta... e mais nada!!!
18
Da varanda eu olho a rua
que eu dizia que era “minha”...
E a saudade continua
a brincar de “amarelinha”…
19
Desta emoção incontida
não faço nenhum alarde...
E culpo demais a vida,
por te encontrar muito tarde.
20
Diria a bruxa atual:
- Espelho, vê se não manca
e me responda, afinal,
quem tem a pior carranca?
21
Dizendo "adeus", foste embora,
levando em tua bagagem
meu coração, que até agora
não regressou da viagem!
22
Diz o caipira ao chegar
“de fogo”, à mulher que o xinga:
-“Houve engano lá no bar...
eu disse “Mé”... deram “pinga”!!!
23
Dois olhares se cruzaram...
Duas almas se entenderam...
Mas, em silêncio ocultaram
o sonho que não viveram...
24
Dosando amor e energia
ele cumpriu seu destino;
Oh meu pai! como eu queria
ser novamente um menino!
25
Em ligeiras pinceladas
eis um retrato da vida:
– Às vezes, certas chegadas
têm sabor de despedida…
26
É na sua deficiência,
que o cego, na escuridão,
acende a luz da paciência
no altar do seu coração…
27
É nos instantes de dor,
ante o Teu porte sereno,
que um homem "Grande", Senhor,
se torna um homem "pequeno"!...
28
Essa lágrima sentida
que nos teus olhos aflora,
é uma prova enternecida
de que um homem também chora!
29
Esse teu jeito tão mudo...
esse modo de encarar...
A gente, às vezes, diz tudo
na carícia de um olhar!
30
Eu e você .. que tristeza!
Duas perdidas metades...
Dois corações com certeza,
chorando as mesmas saudades!…
31
Lembrança.. retorno ousado
que se faz às escondidas,
pelos porões do passado,
buscando ilusões perdidas!
32
Lembrando o que tu dizias
do amor que tinhas por mim,
eu vi, enquanto partias,
quanto o infinito... tem fim!
33
Minhas velhas esperanças...
Os sonhos da mocidade...
Que imensidão de lembranças
no meu baú de saudade…
34
Na conquista deste amor
me empenhei... não fui covarde!...
E só não fui vencedor
porque cheguei muito tarde!
35
Na Medicina e Poesia
foste um Mestre!!! As nossas palmas
pelo trato, a cada dia,
do ser humano... e das almas!!!
(Homenagem a Miguel Russowsky)
36
Não há luxo... desde a porta...
o amor lá dentro é tão belo!...
Nele sou rei... pouco importa...
O meu lar... é o meu castelo!!!
37
Não te desvies da estrada,
buscando atalhos bisonhos.
A vida não vale nada,
se sufocares teus sonhos…
38
Na pressa descontrolada
da multidão,há, contudo,
rostos que não dizem nada...
e rostos que dizem tudo!!!
39
Nesta troca de homenagem
com outro País amigo,
meu Samba segue viagem
e o Tango...fica comigo!!!
40
No jogo da vida é assim:
tem encrenca e desacato,
e, quando ele chega ao fim,
a mãe de alguém paga o pato…
41
Ó estrela-do-mar, faz presa,
e sepulta em mar profundo,
por favor, toda tristeza
e desamor que há no mundo!...
42
Olho a tapera habitada
e em minha fé me concentro:
– Feita de restos de “nada”!...
e quanta paz tem por dentro!!!
43
O meu coração se agita,
Toda a alegria extravasa,
quando ao chegar, o amor grita,
querendo entrar:-“Ó de casa???”
44
O meu mundo é mais bonito!
Tem dois sóis com muito brilho:
– Um, no seio do infinito…
– Outro, em meu seio: Meu filho!…
45
O mundo será melhor
e atingirá rumos novos,
quando se fizer maior
o entendimento entre os povos…
46
Por ser "soft" e "pra frente",
o Carneiro, aborrecido,
por um nome diferente
ficou muito conhecido!…
47
Por teu feitiço ou magia,
mesmo sabendo quem és,
troquei a minha alforria
e fui escravo a teus pés…
48
Qualquer onda eu desafio,
sou surfista destemida
neste imenso mar bravio
que nós chamamos de Vida!
49
Quando a ilusão o convida,
não apresse a caminhada...
certos atalhos na vida
não nos conduzem a nada…
50
Quando a luz se faz escassa,
não renego os sonhos meus;
abraço a treva que passa
e pego na mão de Deus…
51
Quase um dilúvio parece,
a forte chuva lá fora,
unida ao pranto que desce
nesta saudade que chora!
52
Que as chaves da educação
possam abrir com sucesso,
as portas desta nação
para a cultura e o progresso!
53
Que o dom da Sabedoria,
dádiva do Criador,
seja usado a cada dia,
cobrindo o Mundo de amor!
54
Quis vingar “olho por olho”
e também “dente por dente”...
Mas como, se era caolho
e a sogra só tinha um dente?!
55
Renúncia – uma ponte estreita,
onde, das extremidades,
pode-se ouvir, sempre à espreita,
chorando duas saudades!...
56
Saudade é um velho barquinho
que vence o tempo e a distância
e recolhe, no caminho,
os pedacinhos da infância …
57
Se é mentira ou se é verdade,
pouco importa, não reclamo…
A maior felicidade
é ouvir-te dizer: – “Eu te amo!”
58
Seja ao índio assegurado,
como bem manda a razão,
o seu direito sagrado
por um pedaço de chão!
59
Sempre que a lágrima desce
e insiste em molhar-me a face,
eu uso o lenço da prece...
E é como se eu não chorasse…
60
Toda união é perfeita,
se, congregando emoções,
além das mãos que ela estreita,
une também corações...
61
Uma flor descolorida...
Um bilhete amarelado...
São capítulos da vida
nos registros do passado...
62
Velha ponte do caminho
nossa história é parecida:
- Suportamos de mansinho
tantas pisadas na vida!!!
63
Velho mar, o seu bailado
das ondas nos vem provar,
que nada existe de errado
às vezes em recuar…

terça-feira, 17 de junho de 2025

Reinaldo Moreira de Aguiar (Natal/RN, 1921 – 2010)

1
A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito…
2
Após longa caminhada
de perigos e cansaços,
encontrei doce pousada
na maciez dos teus braços.
3
Com primoroso carinho,
usando formosa teia,
as nuvens fazem caminho
por onde a lua passeia.
4
Depois de muitas andanças,
e tanta ilusão perdida,
vejo lindas esperanças
orvalhando minha vida.
5
Desgosto grande, profundo,
que me entristece e consome,
é o de saber que, no mundo,
crianças morrem de fome.
6
Em branda calma e sozinho,
sou bem feliz em mirar
a aurora vir de mansinho
colorindo o imenso mar…
7
Escuto o acalanto antigo
com tão pura nitidez,
que às vezes penso comigo:
estou na infância outra vez!
8
Eu afirmo, não suponho,
e essa certeza me anima:
- Toda beleza de um sonho
pode caber numa rima!
9
Eu me sinto satisfeito
quando, em horas sossegadas,
vejo no cais do meu peito
as saudades ancoradas.
10
Mágoas... E para esquecê-las,
assim sempre faço e fiz:
olho, ansioso, as estrelas,
sou novamente feliz!
11
Minha cidade é tão linda!
Não há de certo outra igual.
- Ostenta beleza infinda
no próprio nome: Natal!
12
No esplendor da lua cheia,
vejo, no meu delirar,
a saudade que passeia
no verde dorso do mar!
13
No pôr-do-sol comovente,
que de tristeza me invade,
rezo, enternecidamente,
uma oração de saudade.
14
Nos percalços desta vida,
quando a maldade nos corta,
é graça bem recebida
se alguém nos abre uma porta.
15
O Ano Novo sempre faz
renovar nossa vontade,
de ver a bendita Paz
reinando na humanidade.
16
O meu peito é velho cais,
onde o barco da saudade
descarrega sempre mais
lembranças da mocidade.
17
Onda de espuma enfeitada,
que nos encanta e deleita,
vem de longe e tão cansada,
que sobre a areia se deita...
18
Os males do mundo encaro,
e pela vida me arrisco,
tendo sempre o forte amparo
na oração de São Francisco.
19
O tempo, com seu poder,
tudo altera sem clemência,
mas não me faz esquecer
os sonhos da adolescência.
20
Pessoas, casos, andanças,
lances de vários matizes...
é garimpando lembranças
que tenho as horas felizes.
21
Quando o vaqueiro valente
se encontra longe de casa,
no seu aboio plangente
toda a saudade extravasa.
22
Quem atinge longa idade
cumpre cruel penitência:
- levar a cruz da saudade
até o fim da existência.
23
Se, às vezes, alguma treva
a minha estrada domina,
a Trova surge e me enleva,
e tudo então se ilumina.
24
Sinto-me bem satisfeito,
quando, em horas sossegadas,
vejo no cais do meu peito
as saudades ancoradas.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Doralice Gomes da Rosa (Porto Alegre/RS)

1
A frágil rosa em seu galho
depois que o vento passou,
desfolhou-se sobre o orvalho
que a madrugada deixou.
2
A franga sente o perigo,
vendo o frango já galeto,
diz a ele: eu vou contigo
pra rodar no mesmo espeto.
3
A mulher grita, se zanga
quando o marido, afobado,
invés de soltar a franga,
solta um frango congelado.
4
Anda estranho meu gatinho,
parece coisa mandada,
na cama nenhum beijinho,
é só rom-rom e mais nada.
5
Ao Patrão Velho e buenacho,
pedindo, tiro o chapéu:
- Olha um pouco aqui pra baixo,
manda uma bênção do céu.
6
Ao ver o broto nadando,
o vovô, já bem caduco,
se joga na água, gritando:
"Tô maluco, tô maluco!"
7
Apeie, peão, se abanque,
venha tomar chimarrão!
Amarre o pingo ao palanque:
- Aqui, ninguém é patrão!
8
Aquela coroa enxuta,
mal anoitece, ela sai,
dizendo que vai à luta
- só Deus sabe onde ela vai!
9
As lembranças e euforia
dos folguedos de criança
gravei no peito em poesia
onde a saudade descansa.
10
Brigamos qual cão e gato
sem razão, sem um motivo.
Ele me arranha, eu lhe bato,
mas sem meu gato não vivo.
11
Cai a chuva e com malícia,
num jeito todo atrevido,
vai moldando com perícia
teu corpo sob o vestido.
12
Chimarrão, tem mais sabor
quando a bomba prateada
volta trazendo o calor
dos lábios da minha amada!
13
Diz, num porre, o coroinha,
na missa, ao Padre Pimenta:
- Eu só tomei umazinha,
o resto foi água-benta!
14
Hoje, nós dois, no abandono;
perdidos, sem mais escolhas:
– dois galhos secos no outono
que o vento varreu as folhas.
15
Já fui frango revoltado,
dono, rei do meu terreiro.
Hoje, velho, aposentado,
nem subo mais no poleiro.
16
Levando um chute o magrinho
ao jogar uma pelada,
o que já era pouquinho
acabou virando nada.
17
Magro dos pés ao pescoço,
feio do fim ao começo,
o Zeca era o próprio esboço
de uma caveira ao avesso.
18
Mais um Natal se anuncia
e em minha mesa hoje tem:
uma cadeira vazia
a esperar por quem não vem.
19
Marujo ao pisar na areia
traz do mar lendas estranhas,
nunca viu uma sereia
mas fisgou muitas piranhas.
20
Marujo velho, o Raimundo
quando em vez dá uma ensaiada,
levanta a vela e vai fundo
mas qual, só nada, mais nada!
21
Meninas, eis um conselho:
vêde bem por onde andais!
A honra é como um espelho,
se quebrar, não cola mais...
22
Minha gata por capricho
ronda o gato do vizinho.
Mas o danado bicho
sai miando e bem fininho.
23
Na ilusão de ser amado,
sonho a grandeza dos sábios,
bebo o licor do pecado
no cálice dos teus lábios.
24
Não quero saber de intriga
pois cheguei à conclusão:
é melhor viver sem briga,
do que brigar com razão!
25
Na solidão do meu rancho,
nossa rede, que ironia,
ainda presa no gancho,
embala a noite vazia.
26
Nesta taça de licor
transbordando de ternura,
brindaremos nosso amor,
nossos sonhos de ventura.
27
Nosso amor é um triste enredo
que o destino emaranhou,
fez de nós dois um brinquedo
que em tuas mãos se quebrou.
28
O bebum, num corrupio,
cheio de pinga e de mágoa,
não percebendo o desvio,
se foi com os burros n’água.
29
O capeta à Terra veio,
fugindo do fogo eterno
e ao ver o mundo tão feio,
voltou correndo pro inferno.
30
O frango muito fuleiro
pula o muro, canta grosso,
vai ciscar noutro terreiro
e acaba virando almoço.
31
Para brindar a partida
de alguém que já não me quer,
bebo o champanha da vida
nos lábios de outra mulher.
32
Pra sorrir não tenho hora...
nas mágoas não me concentro;
mostro um sorriso por fora,
mesmo chorando por dentro.
33
Quando a sogra vem chegando,
com olhar de cobra mansa,
eu corro, me desviando,
mas ela sempre me alcança!
34
Quando eu cruzar a porteira
para o plano do infinito,
levarei minha bandeira
com meu protesto e meu grito!
35
Que o velhinho em seu trenó,
campeando luas e luas,
tenha compaixão e dó
dos piás que vivem nas ruas!
36
Sogra boa - não se iluda!
Se existiu, morreu à míngua.
A não ser que seja muda
e a boca não tenha língua.
37
Teu amor é uma jangada
que aportou com muito jeito
e agora vive ancorada
nas amarras do meu peito.

domingo, 15 de junho de 2025

Frazão Teixeira (Rio de Janeiro/RJ, 1902 - ????)

1
Aliança de ouro – esperança
de horas risonhas e puras,
se une o casal na bonança
une-o também nas agruras.
2
A minha vida era triste,
da solidão era presa,
mas tu chegaste e sorriste,
e lá se foi a tristeza.
3
A Morte nos leva à porta
do céu, quando Deus nos chama;
se somos maus, não importa,
– no céu entrará quem ama.
4
A razão tem seus ditames
que o coração não compreende;
ela te diz que não ames,
e o coração não atende.
5
A sorte deu-me um tesouro
de inestimável valor;
não foi nem prata, nem ouro,
apenas foi teu amor.
6
A trova é manto que teço
com fios de desenganos;
depois com ela eu aqueço
minha alma ao passar dos anos.
7
A trova é um bem que se almeja
em quatro versos oculto,
mas, para mim, talvez seja
um sonho morto insepulto.
8
Cultivo este gesto lindo
de ser útil por prazer,
pois penso que dar sorrindo
é melhor que receber.
9
É grande espelho este mundo:
– se ris ele também ri,
se odeias, ódio profundo
verás em torno de ti.
10
Eu hoje vivo cantando,
feliz da vida, porque
eu sinto que estou amando,
e meu amor é você.
11
Há ternura em teu olhar
e calor nos lábios teus,
quando vens depositar
teu beijo nos lábios meus.
12
Não espere em alvoroço
para não se lamentar;
“a esperança é bom almoço
mas também um mau jantar.”
13
Não lamente os dissabores;
cicatrizada a ferida,
sempre se aprende nas dores
dos maus embates da vida.
14
Não se faz trova, ela existe
já feita como o carvão;
ser, pois, trovador consiste
em abrir o coração.
15
No outono da vida, o amor,
entre as dádivas divinas,
parece ser como a flor
nascida junto às ruínas.
16
Nuvens são trovas ao léu,
que nos primeiros albores
Deus coloriu lá no céu
em tons de todas as cores.
17
O barco se despedindo
singra no rumo perfeito,
e esta saudade surgindo
também singra no meu peito.
18
Ponha amor no coração
e nos lábios um sorriso;
para ser feliz, então
nada mais será preciso.
19
Tal como uma flor colhida,
cujo aroma nos invade,
emana da despedida
o perfume da saudade.
20
Tudo que nos acontece
uma causa deve ter;
amor enfim me parece
a causa de eu te querer.

sábado, 14 de junho de 2025

Renato Baptista Nunes (Vassouras/RJ, 1883 - 1965, Rio de Janeiro/RJ)

1
Agora, não sei por quê,
meu relógio faz maldades.
Numa hora sem você,
marca sessenta saudades!
2
Águas do lago... tão calmas...
Olhando-as, fico a cismar :
– Por quê, Senhor, há nas almas
essa inquietude do mar ?
3
A nossa alma se reparte
pelos filhos que nos vêm;
temos sempre nossa parte
nos destinos que eles têm.
4
As dores e os desencantos
têm dois destinos diversos:
- ou se dissolvem nos prantos,
- ou se desfazem nos versos.
5
Bem pouca gente procura
aceitar esta verdade:
- antes ser bom sem ventura,
que ser feliz sem bondade.
6
Canta, canta as tuas mágoas,
que a trova nos traz conforto;
quando morre um sonho, a trova
guarda a alma do sonho morto.
7
Céu de azul inexistente,
linda mentira sem par!
Quando o próprio céu nos mente,
em quem posso acreditar?
8
Com que cara fica a gente,
junto à mulher que se adora,
se perguntam, de repente:
- "Como vai sua senhora?”
9
Como dói a gente ver
sem conseguir consolar,
- uma criança a sofrer,
Um velhinha a chorar...
10
Coração, bate baixinho,
pois, a ouvir-te, ó desventura,
conto os passos do caminho
que conduz à sepultura...
11
Creio em alma feminina,
– quem assim pensa, não peca -
quando vejo uma menina
a ninar uma boneca.
12
Das horas sempre ditosas,
muitas o tédio nos furta...
A glória maior das rosas
é terem vida tão curta.
13
Desta feliz ignorância
decorre grande ventura:
- não sabermos que distância
vai do berço à sepultura.
14
Deus, que uniu as nossas almas,
mais bondoso foi depois,
quando, para unir-nos mais,
pôs um filho entre nós dois.
15
Deus te dê vida tão calma,
graças tais que, ao recebê-las,
sintas no céu de tua alma
todo um punhado de estrelas!
16
Dizes que gostas de mim,
se gostas, nunca senti;
teu gosto é outro, isto sim,
gostas que eu goste de ti.
17
Em dons de amor, apesar
de ser pobre como Jó,
prefiro não te beijar
a beijar-te uma vez só!
18
Entre o mar e alma da gente
há relações inegáveis:
- a inquietude permanente
e os mistérios insondáveis.
19
É o amor um milionário,
gaste os beijos que gastar,
tanto mais, o perdulário,
terá sempre para dar !
20
Eu te explico o acontecido:
- se roubei teu beijo, amada,
foi por ter-me parecido
que querias ser roubada...
21
Feliz daquele que alcança
o lenitivo que quer,
- num sorriso de criança
- num carinho de mulher.
22
Graças, pai, meu grande amigo,
pelo bem que me fizeste!
Minha mãe, eu te bendigo
pelo pai que tu me deste!
23
Guardo esta amarga impressão:
depois de tanto viver,
só hoje sinto a extensão
do que deixei de fazer...
24
Há belas trovas... mas creio,
nenhuma pode igualar
às lindas trovas que leio
no fundo do teu olhar !
25
Há no mundo muita gente
que só maldades proclama;
é que os sapos, certamente,
só são felizes na lama.
26
Há saudades que nos falam
de maneiras desiguais:
umas dizem: "pode ser" ..
muitas outras: "nunca mais"
27
Mãe feliz! É tão novinho,
e teu seio já reclama!
Dois corações tens agora:
um que pulsa, outro que mama!
28
Mãe não precisa de rima.
Nome de tal esplendor,
diz tudo, para que exprima,
sozinho, um poema de amor!
29
Mãe... Olhando o teu retrato,
meus olhos fitos nos teus,
penso que estás a meu lado
por uma graça de Deus !
30
Mais do que o próprio desdém,
nada mais deixa tão sós,
como saber que ninguém
sente saudade de nós...
31
Maria dos meus amores,
Maria dos meus pesares,
ai de mim quando te fores,
ai de mim se tu ficares...
32
Meus anseios ... tristes frades,
numa angústia indefinida,
vivem presos entre as grades
das clausuras desta vida ..
33
Minha mágoa, quando é grande,
faz da trova confidente
– Uma angústia que se expande
não sufoca a alma da gente.
34
Mistérios de enternecer
a lei da vida contém:
- quanta vez nosso prazer
não custou a dor de alguém?
35
Muita gente é infeliz
mas será por culpa alheia?
Cada qual, como se diz,
colhe aquilo que semeia.
36
Não sei que mágoa mais funda
destas tristezas decorre:
- se da saudade que vive,
– se da esperança que morre.
37
Na tua face entrevejo
transformação milagrosa:
- da semente do meu beijo,
nasce o rubor de uma rosa!
38
Nem sempre meu mal existe.
Querida, não te desoles,
às vezes finjo de triste
só para me consoles.
39
No início da vida, o mundo
parece um reino encantado!
Não há erro mais profundo,
nem logro mais bem pregado.
40
Olhando a vida vivida,
esta pergunta passou:
- fui eu que fiz minha vida,
ou fez-me a vida o que sou?
41
O mundo é um só, quem duvida?
Mas para as almas, no fundo,
há tantos mundos na vida,
quantas vidas há no mundo.
42
O prazer que a gente goza
guarda, em si, melancolia,
pois a hora que é ditosa,
há de ser saudade um dia.
43
Para evitar, precavida,
qualquer infidelidade
quando ela vai de partida,
deixa comigo a saudade.
44
Peço-lhe um beijo, matreiro,
sei que o pedido não pega;
mas conheço o meu isqueiro,
no princípio, sempre nega...
45
Quando a aurora se incendeia,
toda a passarada, em festa,
ergue um hino à Natureza
na Catedral da floresta !
46
Quando a injustiça te doer,
ou quando alguém te magoar,
esquece, pois esquecer
é bem mais do que perdoar.
47
Quando parte um velho amigo
rumo às paragens sem fim,
sinto que um pouco da vida
morreu, também, dentro em mim
48
Quanto és bela, que grandeza,
cidade vista do alto !
Quanta dor, quanta baixeza,
ao nível do teu asfalto...
49
Quão larga seria a messe
de surpresas, de tormentos,
se o simples olhar pudesse
devassar os pensamentos ..
50
Quem casa não se governa,
tenho, até, vergonha às vezes,
pois quem manda em minha casa
é um pirralho de três meses!
51
Saudade e rio corrente
ligam dois pontos distantes:
- o rio leva à nascente,
a saudade, ao que era dantes...
52
Se uma fada perguntasse
qual a ventura que almejo,
eu diria : - que consiste
em não ter nenhum desejo.
53
Solidão que não tem par,
ausência cruel, atroz,
é viverem dois num lar
como se estivessem sós.
54
Talvez não fosse tolice
pensar num mundo sem mal,
se toda gente sentisse
o que diz pelo Natal...
55
Tens um sinal junto à boca,
fonte de todo o meu mal:
ao beijá-la, fui punido
por "avançar o sinal"...
56
Tesouro que, dividido,
vai crescendo, vai subindo,
- é amor de Mãe, repartido
pelos filhos que vem vindo !
57
Teu amor é tão sincero,
que adivinhas o que almejo
pois nunca te disse "eu quero"
para ter o que desejo.
58
Teu sorriso é uma alvorada
que acende na tua face
o rubor que a madrugada
põe no céu, quando o sol nasce!
59
Vejo na noiva ditosa,
aos pés do altar, a sorrir
uma esperança radiosa
interrogando o porvir...
60
Velhice não é tristeza
quando somos venerados
- o que nos dói é a certeza
de só sermos tolerados.
61
Velhos, distantes, embora,
não nos sentimos tão sós,
quando os amigos de outrora
inda se lembram de nós.
62
Vida... Perene esperança
de quê, não se sabe bem...
Feliz de quem não se cansa
de esperar o que não vem.
63
Viver muito, na verdade,
é irmos ficando sós,
dentro da imensa saudade
dos que vão antes de nós...

XXV Concurso de Trovas de Caicó-RN 2026 (Premiados)

Tema: Conquista ÂMBITO NACIONAL  VETERANOS 1. Lugar:  Cezar Defilippo  (Astolfo Dutra-MG) Nas crises emocionais – conquisto em mim – nas bat...