Trovadores em Ordem Alfabética

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terça-feira, 25 de maio de 2021

Angélica Villela Santos (1935 - 2017)

1
À astúcia utilizada, 
bato palmas, brindo a vinho, 
se a mentira, derrotada, 
à verdade abrir caminho! 
2
A Belinha, mãe solteira, 
disse ao padre, em confissão: 
- Nunca fui namoradeira; 
a culpa...foi do "apagão"...! 
3
Abraçadas, as crianças
que contemplam o infinito,
representam esperanças
de um futuro sem conflito!
4
Abre-se o chão e recebe
as sementes do plantio
e fertilmente concebe
frutos no colo macio.
5
A correnteza da idade
é mutável, já se disse:
revolta na mocidade,
calma na infância e velhice.
6
A formiga, em seu carreiro,
trabalho e força revela;
pelo bem do formigueiro
constantemente ela zela.
7
A inspiração, num abraço, 
arrebata os escritores, 
aos poetas dá o compasso, 
faz vencer os trovadores. 
8
A lembrança, na velhice,
sempre traz a mocidade,
que, qual sombra, com meiguice,
abraça a terceira idade...
9
A lua cheia é artista
que em sombras pinta uma tela
de beleza nunca vista
e só mostrada por ela.
10
A mocinha reclamou
mas o ceguinho, no baile,
passando a mão, explicou:
- A minha dança é em braile!!!
11
À noite, após a enxurrada
que o meu barquinho levou,
eu fico olhando, encantada,
o céu que Deus enfeitou...
12
Ante as portas, lado a lado,
a que está aberta nos tenta.
Porém, tenhamos cuidado:
nem sempre é o fácil que alenta!
13
Ao Brasil e Portugal, 
- elos que ligam carinho - 
num brinde internacional 
ergamos taças de vinho 
14
A pipa que a nossa infância
faz ao mais alto chegar,
representa a nossa ânsia
de nossa vida elevar.
15
Após noite tenebrosa,
envolta em forte neblina,
chega ao porto a nau, garbosa,
que o sol nascente ilumina!
16
A praça enfeita a cidade,
é o seu cartão de visita;
representa, na verdade,
seu coração, que palpita.
17
Apreciando a natureza,
- belo por-do-sol no mar -
um casal, vendo a beleza,
mais amor vai externar.
18
A queimada, tão nociva,
para a terra é uma agressão;
vai-se a floresta nativa,
fica só desolação…
19
A redenção dos escravos
 foi de Isabel um presente
 para pôr fim aos agravos
 sofridos por essa gente.
20
Às vezes a caridade,
que a paz e a esperança aspira,
põe no lugar da verdade
uma piedosa mentira...
21
Até ao bebermos vinho,
procuramos ser iguais,
mostrando o nosso carinho,
que não acaba jamais!
22
A vovó foi assaltada 
numa viagem de turismo 
e passou a temporada 
numa praia de nudismo!!! 
23
Batida por forte vento,
quer minha nau soçobrar;
porém, na fé tenho alento
para em meu Deus me apoiar.
24
Buscando a Felicidade
ao longo dos dias meus,
sigo a seta da Verdade,
que indica o reino de Deus!
25
Cantando na chuva, o ator,
fez sucesso no passado.
Também bom sapateador,
o Gene Kelly é lembrado.
26
Céu e mata refletindo
nas águas claras de um rio,
a nós estão exibindo
um meio-ambiente sadio!
27
Com amor sempre presente
e a força da educação,
livraremos o carente
dos grilhões da exploração!
28
Com um grito de alegria
e uma passagem na mão,
o retirante anuncia
que já chove no sertão!
29
Com tudo desmoronando 
na batalha pela vida, 
só a Fé fica amparando 
a coragem combalida. 
30
Com versos a se espalharem,
eu subo morros, ao léu,
para meus sonhos se alçarem
até as nuvens do céu!
31
Crianças são como flores
que enfeitam na Primavera.
São buquês de várias cores
que a natureza libera.
32
Dança a nuvem, descuidada, 
ignorando a sua sina. 
Porém, depois, já pesada, 
morre, em chuva repentina... 
33
Das janelas da memória 
que ainda consigo abrir, 
só do amor revejo a história 
que ficou, a me iludir... 
34
Da UBT é o fundador, 
pela trova batalhou; 
Luiz Otávio, vencedor, 
ao pódio a trova levou! 
35
De manhã, formando um elo, 
jangadas singram o anil, 
compondo o quadro mais belo 
dos mares do meu Brasil! 
36
Devagar, mas com prazer,
o homem, sem ficar a esmo,
usa o cinzel do Saber,
vai modelando a si mesmo.
37
Doce sorriso, olhar terno,
minha sogra, tão querida,
ocupa um lugar materno
nas trilhas de minha vida.
38
Do coreto “ela” saiu
sob apupos e sem jeito
pois a peruca caiu
e a “cantora”... era o prefeito!
39
Em festa branca e amarela,
embelezando o jardim,
margaridas, numa tela,
abrem-se todas pra mim!
40
Em frente ao computador
a namorada moderna
manda beijos ao amor
e com mensagens alterna.
41
Estas fotos que estou vendo
me remetem ao passado:
é uma viagem, percorrendo
o que me foi muito amado...
42
Eu senti, na despedida, 
( e a verdade constatei) 
o gosto de sal, querida, 
quando teus olhos beijei... 
43
Fugindo pela janela,
o “Don Juan” quis “dar no pé”.
- Um fantasma! gritou ela.
E o marido: - Agora é!
44
Fui passear na Argentina
e logo o tango aprendi.
Porém, sou má bailarina
e o meu parceiro perdi...
45
Guaratinguetá, querida,
és deste Vale a rainha!
E eu carrego em minha vida
o orgulho de seres minha!
46
Hoje é diferente o lar:
não compartilha e encolheu,...
Pois quem manda é o celular
e até o Lulu tem o seu!!!
47
Humilde e sempre sorrindo,
levando a pomba da paz,
vai Francisco, distribuindo
a esperança que nos traz!
48
Já não mais sonha o excluído 
em ser feliz na cidade, 
pois, na favela, abatido, 
vive a dura realidade! 
49
Junto à bola, uma criança,
na pobreza do sertão,
sonha e acalenta a esperança
de um dia ser campeão...
50
Lá... no fim da caminhada, 
as lembranças sobraçando, 
a saudade está postada, 
nossa chegada aguardando... 
51
Lembro que quando eu, menino,
meu carro quebrou na estrada,
voltou pra casa o cão Bino
e trouxe a ajuda almejada!
52
Meia noite...ou meio dia?
O meu relógio quebrei.
E, na minha nostalgia,
se é dia ou noite...não sei...
53
Meu coração, na gaiola
do teu amor, ficou preso;
mas, ali, ele estiola,
na tortura do desprezo...
54
Na caravana da vida,
 se sou levada ao deserto,
 procuro a trilha batida
 que Deus deixou em aberto.
55
Na história da Humanidade, 
sempre lutas, desavenças... 
Mas só a fraternidade 
porá fim às malquerenças. 
56
Nada maior eu ordeno 
para meus versos compor, 
que um espaço bem pequeno 
para pôr trovas de amor! 
57
Na manhã que vai surgindo, 
nada há que mais encante, 
que o orvalho a relva cobrindo 
como um manto cintilante! 
58
Não sou mais celibatário
e vou encontrar meu bem,
nem que seja necessário
eu correr atrás do trem!
59
Nas longas noites de estio,
eu ouço estranha canção:
São os lamentos do rio
morrendo de poluição...
60
Nas ruas, negros dançando,
 nas senzalas, emoção;
 sons de grilhões se soltando,
 anunciando a redenção!
61
No belo painel pintado 
pelo Sol, no fim do dia, 
o horizonte é transformado 
num cenário de magia! 
62
No céu azul de verão, 
se espreguiça nuvem bela: 
ora uma flor...um pavão... 
que a imaginação modela... 
63
No circo ele era o palhaço, 
mas, ao perder seu amor, 
todo aquele estardalhaço 
foi o disfarce da dor. 
64
Nos jardins, bela e vaidosa,
enfeita-se a natureza:
recende a aroma de rosa
e põe brincos-de-princesa!
65
No sonho do trovador,
há sempre um mar e uma lua,
que o inspiram a compor
a mais bela trova sua !
66
O bruxulear de uma chama
de vela, gasta e mortiça,
lembra o excluído que clama
por respeito e por justiça!
67
O chão dourado do outono, 
sua beleza exibindo, 
é o leito que vela o sono 
das folhas que vão caindo... 
68
O ladrão sentiu fraqueza 
quando nos muros corria; 
escorregou e...ó surpresa! 
Caiu... na Delegacia! 
69
O modelo achou-se esperto 
e desfilou de pirata. 
Mas, logo foi descoberto, 
ao fugir de uma barata... 
70
O trem, em sua passagem, 
pela estação da cidade, 
de um amor leva a mensagem 
e faz descer a saudade... 
71
Pela luz da abolição
 por Isabel proclamada,
 das trevas da escravidão
 a Pátria foi libertada! 
72
Pelo ciúme acuada, 
sem pensar no que fazia, 
eu apaguei a pegada 
que ao teu amor conduzia. 
73
Planta nas leiras da lida
as sementes dos teus dons,
e terás, por toda a vida,
fartura de frutos bons!
74
Por entre o verde da mata,
permeia o rio azulado,
que nas cheias arrebata
árvores, casas e o gado.
75
Por este gesto tão nobre,
foi chamada Redenção,
para que o ato desdobre
lembranças da Abolição!
76
Presente é como migalha
que mal se nota cair,
pois é um fio de navalha
entre o passado e o porvir...
77
Quando a montanha escalar,
buscando sucesso e glória,
deixe a humildade levar
a bandeira da vitória!
78
Quando eu lembro e se avantaja
minha vida de criança,
só a saudade viaja
nos trens da minha lembrança...
79
Quando ilusões apagaram 
as luzes daquele encanto, 
meus olhos se transformaram 
numa vertente de pranto... 
80
Quando o outono bate às portas
de um cansado coração,
sonhos viram folhas mortas
sarabandeando no chão...
81
Reticência...nada dizes 
ao coração de quem ama; 
só pões ali cicatrizes 
que a dúvida mais inflama! 
82
Salve, Monteiro Lobato, 
pois Taubaté elevaste! 
O teu talento eu constato 
na grande obra que deixaste! 
83
São as mãos do mundo inteiro
que, numa união fraternal,
formam sustento altaneiro
para a paz universal!
84
Se a Humanidade souber 
sobre o bem que a trova faz, 
dela fará, se quiser, 
o maior elo da paz! 
85
Se todo homem semear 
somente o amor verdadeiro, 
vai, por certo, abarrotar 
de paz, um amplo celeiro! 
86
Só o poeta vai poder 
com seu dom puro e singelo, 
a realidade envolver 
no sonho mais suave e belo! 
87
Sou mochileiro constante,
sempre um amor a buscar,
mesmo sabendo que adiante
só névoas vou encontrar.
88
Tão logo a chuva chegou, 
trazendo vida ao sertão, 
o retirante vibrou, 
com a passagem na mão! 
89
Toma a trova, por inteiro,
todos nós, os trovadores.
de Luiz Otávio, o pioneiro,
somos todos seguidores.
90
Tudo acabou em quimera
na tarde chuvosa e fria
e a grande perda me espera
dentro da casa vazia...
91
Um bom livro nos envolve, 
dá prazer e distração; 
é um amigo que dissolve 
o amargor da solidão! 
92
Um passeio no canal,
numa gôndola, em Veneza,
envolve qualquer casal
em romantismo e beleza!
93
Um tropeço desastrado 
na bengala do compadre, 
jogou o noivo, assustado, 
direto em cima do padre! 
94
Vai-se o dia, vem a noite 
e a minha dor não descansa, 
pois a saudade é um açoite 
brandido pela lembrança! 
95
Velha ponte de madeira
ligando a roça à cidade,
foi a passagem primeira
do meu sonho à realidade.
96
Vendo na imagem de um santo, 
que lhe faltavam os dentes, 
diz a devota, com espanto: 
- Que dentistas mais descrentes!! 
97
Zumbindo sobre as corolas,
de delicada beleza,
os insetos são violas
na orquestra da Natureza!

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Aparício Fernandes (1934 - 1996)

1
Ah! Se eu morresse, querida,
sentindo os carinhos teus,
teria, na morte, a Vida
que em vida pedi a Deus!
2
A justiça humana é falha!
E reconheço isto a custo...
Se é rico, livra o canalha!
Se é pobre, condena o justo...
3
Amor - mistério profundo
que não se pode explicar.
Mesmo, assim, pobre do mundo
se ninguém soubesse amar…
4
À noite, ó rua, constatas,
em teus silêncios tristonhos,
que, enquanto um cão vira latas,
eu vou virando os meus sonhos!
5
Bem pouca alegria existe
no riso de largos traços.
- Você já viu como é triste
o olhar de certos palhaços?
6
Bodas de Ouro! Nosso beijo
retrata nossa ventura:
o que lhe falta em desejo,
hoje lhe sobra em ternura...
7
Cartas de amor, esquecidas,
contendo um pouco do Céu!
Dois corações, duas vidas
resumidas num papel!
8
Com refulgências estranhas
de ternura e de calor,
são duas gemas castanhas
os olhos do meu amor!
9
Conheço um tipo de fome
que não se farta de pão:
fome de amor! Eis o nome
da fome do coração!...
10
Conselhos, desde menino,
muita gente me quis dar,
mas a cruz do meu destino
quem me ajuda a carregar?
11
Das culminâncias da serra
ao mais profundo grotão,
trago viva a minha terra,
dentro do meu coração!
12
De falhas ninguém se esquiva,
por isso, afirmo sem susto:
há censura construtiva
e muito elogio injusto!
13
Desce a lágrima insistente,
e há sempre alguém que a maldiz!
Mas a verdade é que a gente
chora até quando é feliz!...
14
Desconfio das vitórias
que neste mundo colhi.
- Se as coisas são ilusórias,
quem garante que eu venci?
15
Deserto o mundo seria,
sem vida, luz e calor,
se nos faltasse algum dia
a grande força do amor!
16
Desta saudade infinita
não guardo mágoas, porque
foi a coisa mais bonita
que me ficou de você!
17
Desta saudade, o vazio
parece até que traduz
um velho teto sombrio
filtrando um raio de luz!
18
Dotada de amor profundo,
meiga e doce em seu mister,
- que graça teria o mundo,
sem a graça da mulher?
19
Enquanto os olhos acusam
o desespero de amar,
as nossas vidas se cruzam
como dois barcos no mar!
20
Eu formulo esta sentença
como um libelo à tolice:
antes cego de nascença
do que cego de burrice!
21
Eu trago minha alma aflita,
bem vês o ciúme em meu rosto:
o mal é seres bonita
e os outros terem bom gosto!
22
Felicidade é somente
uma visita apressada
que aparece de repente
e parte sem dizer nada.
23
Foi sempre assim! Escondida
no engodo que a desvirtua,
a Verdade anda vestida
quando a Miséria está nua!
24
Goza, criança, o instante raro
do teu doce alvorecer,
- que a gente paga bem caro
o pecado de crescer!
25
Guarda bem isto na mente,
se a mentira te norteia:
mais cedo ou mais tarde, a gente
colhe aquilo que semeia!...
26
Guia o nauta e o peregrino,
rege os nobres e os plebeus.
- É que o dedo do destino
faz parte da mão de Deus!
27
Há muita gente vaidosa
seguindo o exemplo da lua,
e refletindo, vaidosa,
uma luz que não é sua...
28
Hoje tratam de "Excelência"
quem deixa o povo com fome.
Ou no mundo há só demência,
ou ladrão mudou de nome!...
29
Infância - um reino encantado
onde reside a esperança. ...
E o tempo acaba o reinado,
e a vida muda a criança...
30
Já não adianta ocultares
a febre dos teus desejos.
- Meu bem, há certos olhares
que dizem mais do que um beijo!
31
Lá se vão os retirantes!
Deixam seus campos... seus bois...
- O coração morre antes!
- O corpo morre depois . . . 
32
Liberdade, em ti se encerra
o ideal do poeta aflito
que tem os pés sobre a Terra
e o coração no Infinito!
33
Meditando sobre a morte,
digo aos crentes e aos ateus:
a bondade é o passaporte
que nos conduz para Deus.
34
Meu canto é humilde e meu estro,
numa oração triunfal,
rende graças ao Maestro
da harmonia universal!
35
Meu coração sente frio!
- A saudade o transformou
no leito triste e vazio
de um rio que já secou…
36
Meu pobre pai, alquebrado,
- gigante da minha aurora! –
queira Deus dar-te, em dobrado,
tudo o que me deste outrora.
37
Minha mãe, quando partiste,
Deus, com imensa piedade,
fez do meu coração triste
um altar para a saudade!
38
Nas noites claras de maio,
eu sinto, nitidamente,
que a saudade é como um raio
de luar, dentro da gente...
39
Nesta angústia indefinida,
penso, cheio de amargor:
de que vale o bem da vida,
quando falta o bem do amor?
40
Neste exemplo se presume
um prêmio às almas bondosas:
fica sempre algum perfume
nas mãos que oferecem rosas!
41
Nome dos mais esquisitos,
que, aliás, não foi bem posto;
há na Rua dos Aflitos
uma calma que faz gosto…
42
No sonho estavas sorrindo,
mesmo assim fiquei tristonho:
- de que vale um sonho lindo,
se dura apenas um sonho?
43
Nos trilhos da ferrovia,
ela, brincando, caminha.
- Até que afinal Maria
resolveu andar na linha...
44
Obra prima da Criação,
a mulher - dilema eterno -
é um traço de união
entre o paraíso e o inferno.
45
Ó mãe que tudo perdoas,
corrige teus pequeninos!
- Às vezes, de intenções boas
nascem ladrões e assassinos...
46
Ondas bravias ou calmas,
que estais sempre a soluçar!
- Quem pôs a angústia das almas
dentro das ondas do mar?
47
Os noivos fazem questão
de ter as mãos sempre unidas.
- É fácil unir as mãos...
difícil é unir as vidas!
48
Ó velho mar, são singelas
as tuas fúrias humanas,
comparadas às procelas
do mar das paixões humanas!
49
Para a seca exterminar
no meu Nordeste escaldante,
eu sugiro represar
o pranto do retirante!
50
Parti do Norte chorando,
que coisa triste, meu Deus!
- Eu vi o mar soluçando
e os coqueirais dando adeus...
51
Partiste, sim, mas ainda,
por ironia ou maldade,
ficaste muito mais linda
vestida nesta saudade!
52
Pensando, na tarde calma,
logo me ocorre à lembrança
que a própria vida tem alma,
e a alma da vida é a Esperança!
53
Por mais que o artista se esmere
em seu talento criador,
duvido que ele supere
a perfeição de uma flor!
54
Por mais que o mundo se torça
de angústia, revolta e medo,
Deus revela sua força
mas não conta seu segredo!
55
Por muito amar ninguém morre,
ama, pois, com todo ardor!
- Olha que a muitos ocorre
morrer por falta de amor...
56
Posso entender o martírio
da pureza junto ao mal,
vendo a solidão de um lírio
no lodo de um pantanal.
57
Poucas mulheres entendem
que, no seu doce mister,
muitos destinos dependem
de um sorriso de mulher!
58
Poucos sabem que não sabem
tudo o que dizem saber.
Maiores saberes cabem
nos que sabem sem dizer.
59
Quando adormeço tristonho,
vejo-te em sonhos, querida!...
E a vida fica mais sonho,
e o sonho fica mais vida!
60
Quando me vires sorrindo,
de olhos fechados, sonhando,
- meu corpo estará dormindo...
- minha alma estará te amando...
61
Quanto mais a mulher jura
gostar de homem erudito,
tanto mais ela procura
um tipo burro e bonito!...
62
Quero beijar-te, querida,
e não te deves opor:
- se o amor é a alma da vida,
o beijo é a vida do amor!
63
Que sábio discernimento
neste exemplo se traduz:
a vidraça anula o vento,
mas deixa passar a luz.
64
Redimindo os pecadores,
conduzindo-os para a luz,
o maior dos sonhadores
morreu pregado na cruz!
65
Saudade é isto que existe
nos olhos desse velhinho,
quando, embevecido, assiste
aos folguedos do netinho.
66
Se a caridade ilumina
o semblante da desgraça,
bendigo a graça divina
que criou tamanha graça!
67
Se alguém tiver que sofrer
para que eu tenha ouro e glória,
direi com muito prazer:
- Declino dessa vitória.
68
Se a mocidade se afasta,
não julgue a vida tristonha.
- A ação do tempo não gasta
o coração de quem sonha!
69
Se observo os homens de perto
e analiso os animais,
fico sem saber, ao certo,
quais são os irracionais...
70
Se queres viver tranquilo,
sem muita preocupação,
jamais dependas daquilo
que depende do patrão...
71
Tornam-se mais encurvados
os ombros de um ancião,
quando suportam, cansados,
o peso da solidão!
72
Um sonho às vezes enfeita
o meu destino tristonho.
- Ah, se tu fosses perfeita
como és perfeita em meu sonho!
73
Vejo em teus olhos, criança,
docemente refletida,
uma inocente esperança
sorrindo aos males da vida!
74
Ver-te em sonhos me complica,
não quero ver-te, meu bem!
- O sonho apenas duplica
a saudade que se tem.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Aparício Fernandes (Como Fazer uma Trova Antológica)


É muito simples. Tome:

A dramaticidade de João Rangel Coelho:

Senhor Deus! Ó Pai dos Pais!
Por que motivo consentes,
entre teus filhos iguais,
destinos tão diferentes?


A brejeirice de Luiz Homero de Almeida:

Sobre o busto ela trazia
três rosas frescas, catitas.
E, contando-as, eu dizia:
– Que cinco rosas bonitas!…


A fluência de Américo Falcão:

Não há tristeza no mundo
que se compare à tristeza
dos olhos de um moribundo
fitando uma vela acesa…


A musicalidade de Cícero Dias:

A tua casa pendida
entre o rosal e a mangueira
é uma açucena caída
no vermelhão da ladeira.


O humanismo de Zálkind Piatigorsky:

Tudo o que tenho reparto,
ó Senhor, sempre em Teu nome!
Tu fizeste o mundo farto,
o homem é que fez a fome!


A sugestão poética de Corrêa de Oliveira:

Ó ondas do mar salgado,
de onde vos vem tanto sal?
– Vem das lágrimas choradas
nas praias de Portugal!


O lirismo de Archimimo Lapagesse:

Se Deus atendesse um dia
minha prece ingênua e doce,
quem fosse mãe não morria,
por mais velhinha que fosse!


A simplicidade de Edgard B. Cerqueira

Saudade – lembrança triste
de tudo que já não sou!
Passado que tanto insiste
em fingir que não passou…


A originalidade de Adherbal de Carvalho:

Da lua sob os clarões,
os leques destas palmeiras
parecem caudas faceiras
de agigantados pavões!


A filosofia de José Maria Machado de Araújo:

Neste mundo que nos cansa,
tanta maldade se vê,
que a gente tem esperança,
mas já nem sabe de quê!…


A ironia de Belmiro Braga:

Quanta vez, junto a um jazigo,
alguém murmura de leve:
– Adeus para sempre, amigo!
E o morto diz: – Até breve!…


Junte tudo isto, transponha para uma só trova e não há dúvida: você terá feito a melhor trova do mundo!

Fonte:
Aparício Fernandes. A trova no Brasil: história & antologia. Rio de
Janeiro/GB: Artenova, 1972

domingo, 9 de maio de 2021

Aparício Fernandes (Trovas Circunstanciais) - 3, final -


Por ocasião de um dos Jogos Florais de Pouso Alegre, homenageando o magistrado e poeta Jorge Beltrão, Adalberto Dutra de Rezende "aplicou" este improviso:

Tua palavra correta
te põe da glória na crista,
como brilhante poeta,
como eminente jurista!


Há também os casos em que as trovas de circunstância são também trovas de propaganda. Várias delas aconteceram, por exemplo, em dezembro de 1962, quando, a convite da escritora Mariazinha Congílio, vários trovadores estiveram na cidade de Jundiaí e foram convidados a visitar a famosa fábrica de doces Cica. Essa fábrica é de fato algo de notável, pela limpeza e pelo requinte de perfeição que se traduz na qualidade de seus produtos. Diante disto, vários trovadores improvisaram suas quadrinhas. Eis algumas delas:

De Zálkind Piatigorsky:

Um bom paladar se indica
às vezes num simples nome:
- quando ouço falar de Cica,
na verdade sinto fome!


De Admerval Silva de Souza:

Que doces apetitosos
neste lugar se fabrica!
Que seria dos gulosos,
se não existisse a Cica?


De Colbert Rangel Coelho:

Suporta melhor a carga,
que bem mais leve lhe fica,
quem na vida tão amarga
saboreia doces Cica!


De Luiz Otávio:

É a mais pura realidade:
- a pessoa — pobre ou rica —
se tem gosto de verdade,
só prefere o doce Cica!


De Ivo dos Santos Castro:

Verias, meu bem, se fosses
comigo até Jundiaí:
- Cica é a fábrica de doces
mais completa que já vi!


De Raul Serrano:

A vida seria pura
e de alegrias mais rica,
se nela houvesse a doçura
dos doces de marca Cica!


De Aparício Fernandes:

Com tanto carinho é feito,
que logo se verifica:
– é sempre mais que perfeito
qualquer produto da Cica!


Quando já nos despedíamos, fui brindado com o sorriso amável de uma linda operária, o que deu motivo a mais esta trova:

Que dúvida extraordinária
seu sorriso comunica!
Quem é mais doce: – a operária,
ou o doce que ela fabrica?


Guimarães Barreto cita uma trova-propaganda de Olavo Bilac, promovendo os fósforos "Brilhante". Bilac cobrou cem mil réis pela trova — o que, na época, era um bom dinheiro. Eis a quadrinha:

Aviso a quem é fumante:
- tanto o Príncipe de Gales
como o Dr. Campos Sales
usam fósforos Brilhante.


E outra, curiosíssima, de um bicheiro fazendo propaganda do seu jogo:

Jogadores avisados,
o meu palpite, hoje, é
cercar por todos os lados
o macaco e o jacaré.


Aliás, esta tese foi apresentada no Congresso de Trovadores realizado em Nova Friburgo em 1969 — a Trova, pela sua comunicabilidade e sendo fácil de se decorar, valor é     um elemento de que extraordinário publicitário, surpreendentemente     ainda não despertou nos especialistas     do assunto (sempre à cata de "idéias geniais") a atenção de que é merecedora.

Naturalmente, para que uma trova alcance êxito como fator de promoção publicitária, é necessário que seja feita por um verdadeiro trovador. Versinhos forçados e de "pé-quebrado" jamais adiantariam...

Muito úteis me foram também as trovas de circunstância quando, no mês de abril de 1970, a convite do Dr. Domingos Vieira Filho, diretor da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, e do meu caro amigo, o dinâmico poeta e trovador Carlos Cunha, Presidente da Academia Maranhense de Trovas, fiz uma palestra na capital maranhense. Os maranhenses são um povo cuja tradição de cultura é algo de muito sério. Sua hospitalidade não fica atrás. Por isso, até banda de música havia na Academia Maranhense de Letras, para a minha palestra. Minhas primeiras palavras foram estas trovas de circunstância:

Minhas senhoras, senhores
presentes à reunião,
meus irmãos, os trovadores
do Estado do Maranhão,

Não espereis um tribuno
de palavras colossais,
pois sou um simples aluno
que aqui veio aprender mais.

Na terra em que Assis Garrido
deu lições de inteligência,
não quero ser presumido,
para fazer conferência.

Por isso, em linguagem destra,
mas sem nada de genial,
vou fazer uma palestra
muito simples e informal.

A trova são quatro versos,
que nos dão muito prazer.
Os assuntos mais diversos
pode uma trova conter.

Mas antes quero dizer,
com toda sinceridade,
do meu imenso prazer
por estar nesta cidade.

São Luís, em toda parte,
como um sol que se irradia,
será sempre um baluarte
da cultura e da poesia.

Seu próprio nome comprova
esta grandiosa missão:
– pois é um verso de trova
São Luís do Maranhão.

No Rio Grande do Norte,
no Encontro dos Trovadores,
tornou-se muito mais forte
minha amizade aos senhores.

Pois em Natal viu-se o brilho
do Maranhão que se impunha:
- Virgílio Domingues Filho
ao lado de Carlos Cunha!

Quando o Nordeste deixei,
para tentar vida nova,
minha saudade cantei
dizendo em forma de trova:

– Parti do Norte chorando,
que coisa triste meu Deus!
Eu vi o mar soluçando
e o coqueiral dando adeus!...

Hoje eu digo aos maranhenses,
já saudoso e emocionado:
- não partirei totalmente
desse Estado abençoado.

À sombra de uma palmeira,
deixarei meu coração.
E, na hora derradeira,
ao tomar a condução.

Minha esposa e eu diremos,
com imensa gratidão:
– nós jamais esqueceremos
São Luís do Maranhão!

Após vos haver falado
estes versos incolores,
vamos ao mundo encantado
da Trova e dos Trovadores.


E fiz então a minha palestra, que, aliás, continha vários aspectos da Trova abordados neste livro.

Como se vê, a trova de circunstância desempenha um importante papel na animação dos encontros trovadorescos. Pena que a quase totalidade delas se perca ao sabor do improviso ocasional.


Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de
Janeiro/GB: Artenova, 1972

sábado, 8 de maio de 2021

Aparício Fernandes (Trovas Circunstanciais) - 2 -


Não há poeta ou trovador que alguma vez não tenha sido perseguido por um pai ou mãe, pedindo versos para os seus rebentos. Certa vez tive que improvisar, para um cartão de aniversário, esta quadrinha de circunstância, horrivelzinha como ela só, mas que o orgulhoso papai achou uma beleza:

Hoje eu completo um aninho
e estou contente, porque
vou repartir meu bolinho,
dando um pedaço a você.


Em outra ocasião, Colbert Rangel Coelho, integrando um grupo de trovadores que viajavam para participar de uns Jogos Florais, teve a sorte de, no ônibus, sentar-se ao lado de uma moça muito bonita, mas calada e compenetrada. Colbert ficou quietinho mas, na primeira parada, ao descer para um cafezinho, piscou o olho e nos segredou:

Eu sentado na beirada,
ela junto da janela.
— Graças às curvas da estrada,
vou sentindo as curvas dela...


Em Pouso Alegre,MG, fiz uma trova de circunstância que passou a figurar no cardápio da Cantina Uirapuru, e que me valeu uma refeição de graça:

Se você está com fome,
não faça como um zulu!
— Civilizado só come
na Cantina Uirapuru!...


Em 1969, na cidade mineira de Juiz de Fora, quando do encerramento de um concurso de trovas promovido pelo Lions Clube local, estiveram presentes duas grandes poetisas portuguesas; Maria Helena e Maria Amélia Novais.

No banquete oferecido aos trovadores, Elton Carvalho, que é um excepcional "fazedor" de trovas de circunstância, sentou-se entre as duas referidas poetisas. Lá pelas tantas, dirigindo-se aos demais trovadores, que se haviam localizado na outra extremidade da mesa, saiu-se com esta belíssima trova, onde há uma oportuna alusão ao rio Tejo, que banha a capital portuguesa:

Amigos, não os invejo,
tão distantes, isolados:
– estou feliz como o Tejo,
com Portugal dos dois lados.

 
O Andrade, Desembargador Dr. Luís Antônio de uma das maiores  culturas jurídicas de nosso país, certa vez ofertou ao poeta Manuel José Lamas um exemplar de nossa coletânea “Trovadores do Brasil" dedicando-o com esta trova de circunstância, cujo último verso é o seu próprio nome, um setissílabo perfeito:

Ai vão, meu caro Lamas,
como prova de amizade,
as trovas que tanto amas!
Luis Antônio de Andrade.


Eis uma trova de circunstância laudatória, feita por Inês Gaspar Palácio, homenageando a cidade de Maringá/ PR:

Maringá! Quanta esperança
se contempla em teu caminho,
pois teu lema é segurança,
trabalho, fé e carinho!


O poeta Ary de Andrade refere-se a um esperto motorista de caminhão que, ao longo das estradas, "aplicava" sempre esta trova, a qual servia tanto para comover os credores como para as suas conquistas amorosas de Romeu perambulante:

Você não tem coração!
Se tivesse, não faria
que um chofer sem um tostão
vivesse nesta agonia!


Uma das mais conhecidas trovas deste que escreve estas linhas é a seguinte:

Parti do Norte chorando!
Que coisa triste, meu Deus!...
Eu vi o mar soluçando
e o coqueiral dando adeus!


Em 1968, após uma ausência de vários anos, voltamos ao Rio Grande do Norte, em gozo de férias. O poeta José Amaral, parodiando a nossa quadrinha, na homenagem que nos foi prestada pela Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, recebeu-nos com esta linda trova de circunstância:

Voltaste ao Norte sorrindo,
nós te abraçamos cantando;
— o coqueiral te aplaudindo,
o verde mar te beijando.


Exemplo da vivacidade dos trovadores sucedeu quando Hebe Camargo entrevistou Anis Murad e Zálkind Piatigorsky, em seu programa na televisão, cujo nome era "O Mundo é das Mulheres". Anis foi cavalheiresco, saudando Hebe desta forma:

Terás, mulher, se quiseres,
o mundo inteiro a teus pés,
porque o mundo é das mulheres
que forem como tu és,


Lisonjeada, Hebe voltou-se para Zálkind, indagando: "Você também concorda que o mundo é das mulheres?", ao que Piatigorsky rebateu na hora:

Seja, pois, como quiseres,
que dá certo, felizmente:
- este mundo é das mulheres
.. .e as mulheres são da gente!


No ano seguinte, houve o 1.° Encontro Nacional de Trovadores, realizado ainda na cidade de Natal, O general Umberto Peregrino, então diretor do Instituto Nacional do Livro, convidou alguns dos trovadores visitantes para almoçarem na famosa "Carne Assada do Marinho". Tão gostosa se prenunciava a carne e tão grande era o apetite, que o silêncio reinou na faminta expectativa.

Considerando que a poetisa Magdalena Léa não é muito dada a estes silêncios, improvisei esta quadrinha:

Inacreditável cena!
Diante da carne assada,
até mesmo a Magdalena
resolveu ficar calada!...


Certa vez deparamo-nos aqui no Rio com um mendigo que pedia esmola declamando esta quadrinha:

Ajude este aleijadinho,
mais tem Deus para lhe dar.
Mesmo que seja pouquinho,
eu não posso recusar.


Perguntamos-lhe se o expediente dava resultado e ele respondeu que sim, mesmo porque tinha "bolado" vários outros versinhos para substituição, quando a trova declamada não estivesse rendendo o esperado. Por solidariedade de classe, demos uma esmola melhorada ao "confrade" mendigo, prometendo que o seu nome — Lourival de Jesus Gonçalves — figuraria em nosso livro.

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continua...

Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de
Janeiro/GB: Artenova, 1972

XXV Concurso de Trovas de Caicó-RN 2026 (Premiados)

Tema: Conquista ÂMBITO NACIONAL  VETERANOS 1. Lugar:  Cezar Defilippo  (Astolfo Dutra-MG) Nas crises emocionais – conquisto em mim – nas bat...