Trovadores em Ordem Alfabética

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domingo, 2 de maio de 2021

Ademar Macedo (1951 - 2013)


1
A distância nos redime 
se a saudade nos escolta; 
ir pra longe é tão sublime 
como sublime é a volta! 
2
Adotei o isolamento, 
feito um ermitão qualquer. 
Pra fugir do casamento 
e das manhas de mulher!... 
3
A justiça incompetente, 
por um deslize qualquer, 
toma o dinheiro da gente 
e dá todo pra mulher!… 
4
Almoço e janto poesia. 
E neste meu universo, 
mastigo um pão todo dia 
amanteigado de verso. 
5
A lua, de vez em quando 
fica um pouco sem brilhar, 
para ficar “espiando” 
dois pombinhos namorar! 
6
A lua, sem empecilho, 
desfilando, linda e nua, 
deixa também o seu brilho 
“nas poças d’água da rua”! 
7
A Lua, que a noite ronda 
com o seu lindo clarão, 
é a lamparina redonda 
que ilumina o meu sertão! 
8
Amar… verbo transitivo 
que em qualquer conjugação 
traz um novo lenitivo 
para o nosso coração! 
9
À noite, as brisas divinas 
dão som aos seus movimentos; 
e, "na Lua," as bailarinas 
dançam a valsa dos ventos... 
10
Após causar desencantos 
e nos fazer peregrinos, 
a seca fez chover prantos 
nos olhos dos nordestinos! 
11
Aquela mão estendida 
é Nau que ainda trafega 
no mar revolto da vida 
que a própria vida renega... 
12
A “solidão” me parece, 
ser um conforto sem fim… 
quando um grande amor me esquece; 
“Ela” se lembra de mim. 
13
As rosas tem seus floridos 
que a “natura” se apodera, 
dando beijos coloridos 
no rosto da primavera! 
14
Assim que começa o dia, 
envolto em profundo enlevo, 
sinto o cheiro da poesia 
em cada verso que escrevo. 
15
A vida escreve-me enredos 
com finais que eu abomino. 
Meus sonhos viram brinquedos 
nas mãos cruéis do destino… 
16
Causa-me espanto o coqueiro; 
algo de bom ele tem… 
Mas, sendo torto ou linheiro, 
nunca deu sombra a ninguém! 
17
Chega a causar agonia, 
uma visita sacana, 
que vem pra passar um dia, 
passa mais de uma semana! 
18
Coloquei a foto errada. 
Viram logo os menestréis… 
Como eu vou subir escada 
Se me falta um dos meus pés? 
19
Com certa preponderância 
eu impus esta verdade: 
Quem inventou a distância 
não conhecia a saudade!... 
20
Com minha alma amargurada, 
envolto em meu sofrimento, 
passo inteira a madrugada 
jogando versos ao vento… 
21
Com o dom que Deus lhe envia, 
no riso o palhaço aflora 
um semblante de alegria… 
Que ele só sente por fora! 
22
Como quem faz sua escolha, 
disfarçando o desatino, 
alterei folha por folha 
do livro do meu destino! 
23
Com os temas mais dispersos, 
eu mesmo me fiz enchente 
numa enxurrada de versos 
jorrando da minha mente… 
24
Com sua língua de trapo 
disse, ao ser mandado embora: 
– É moleza engolir sapo, 
o duro é botar pra fora! 
25
Construí dentro de mim, 
com minh’alma enternecida, 
um teatro onde, por fim, 
pude encenar minha vida!… 
26
Da Bebida fiquei farto, 
bebendo, perdi quem amo; 
hoje bebo no meu quarto 
as lágrimas que eu derramo. 
27
Da fonte que jorra o amor, 
Deus, na sua imensidão, 
faz jorrar com todo ardor 
as carícias do perdão. 
28
Da ingratidão praticada 
eu tirei uma lição: 
Perdoar, não pesa nada,
pesado…É pedir perdão! 
29
Das colheitas dadivosas 
que Deus deixa nos caminhos, 
uns curvam-se e colhem rosas, 
outros, só colhem espinhos… 
30
Debruçado sobre a mata, 
o luar, tal qual pintor, 
pinta as folhas cor de prata 
e pinta o chão de outra cor. 
31
De maneira indefinida, 
por amar e querer bem; 
vou dividir minha vida 
com a vida de outro alguém! 
32
De nada eu sinto ciúme, 
nem mesmo da mocidade; 
pois hoje eu sinto o perfume 
da flor da terceira idade!… 
33
Depois do beijo, um aceno, 
e, sofrendo em demasia, 
bebo doses de um veneno 
que a sua ausência me envia. 
34
Descobri no envelhecer 
que a musa que me enaltece 
não deixa o verso morrer, 
pois musa nunca envelhece! 
35
Desde o tempo de menino 
vi o quanto eu sou machão; 
pois meu lado feminino 
é um tremendo sapatão! 
36
De sonhar eu não me oponho 
nem sequer me desiludo. 
Quem faz de “Paz” o seu sonho, 
já fez metade de tudo!… 
37
De um olhar triste, alquebrado, 
desse meu filho que é “mudo”… 
eu vejo, mesmo calado, 
seus olhos dizerem tudo! 
38
Deus, demonstrando poder, 
quando a mulher engravida, 
transforma a dor em prazer 
na celebração da vida! 
39
Deus vendo que não tem fim 
essa fé que me conduz, 
deixou cair sobre mim 
uma cascata de luz! 
40
Do fogo no matagal, 
na fumaça que irradia, 
vejo um câncer terminal 
no pulmão da ecologia!... 
41
Do meu jeito apaixonado, 
envolvente, terno, mudo… 
Faço um apelo calado, 
onde os olhos dizem tudo! 
42
Em busca de ser feliz, 
e em prol do amor de nós dois, 
quantos atalhos que eu fiz… 
Mas só chegava depois! 
43
Em humor não me destaco, 
mas, por pura peraltice; 
mesmo não sendo macaco, 
vou fazendo macaquice. 
44
Em inspirações, imerso, 
fiz do sol o próprio guia 
para conduzir meu verso 
nos caminhos da poesia! 
45
Entre os atos de bonança 
e meus pecados mortais, 
quando eu botar na balança, 
Deus sabe quais pesam mais!… 
46
Essas gotas maculadas, 
itinerantes no rosto, 
são as lágrimas magoadas 
que dão vida ao meu desgosto. 
47
Esses meus versos doridos 
que estão bem perto do fim, 
são retratos coloridos 
que eu mesmo tirei de mim… 
48
Eu aprendi a perder 
mesmo sem haver perdido, 
também aprendi vencer 
“sem humilhar o vencido!” 
49
Eu ouvi de um cidadão 
brincalhão, sagaz, afoito: 
-Melhor ser um cinquentão 
do que morrer aos dezoito…! 
50
Eu que já nasci Poeta, 
digo-lhe nesta obra prima: 
meu coração só se aquieta 
depois que eu faço uma rima! 
51
Eu, que nunca pude tê-las… 
Que é um sonho do menestrel; 
sonhei enchendo de estrelas, 
meu barquinho de papel! 
52
Eu sinto a brisa do vento 
como se fosse magia, 
soprando em meu pensamento 
os versos que Deus me envia… 
53
É terapeuta da mente, 
mestre maior do saber… 
O Livro é o melhor presente 
que alguém pode receber. 
54
Eu, num desejo medonho, 
quis tê-la, mas nunca pude… 
Transformar desejo em sonho, 
foi minha grande virtude! 
55
Eu sou qual um jangadeiro 
que a fé no peito tatua… 
Num barco sem paradeiro, 
sua esperança flutua. 
56
Fiz a “pergunta ao espelho” 
que para não me ofender : 
disfarçou, ficou vermelho 
e não quis me responder! 
57
Fiz do quarto um santuário, 
pus sua foto no andor 
e rezei um novenário 
para louvar nosso amor! 
58
Fiz minha casa de barro 
ao lado de uma favela. 
Lá fora, eu sei, não tem carro, 
mas tem amor dentro dela!... 
59
Fui reviver meu passado 
na casa que pai morou… 
Um velho espelho quebrado, 
foi tudo o que me restou! 
60
Hoje na terceira idade, 
eu, de amores já vazio, 
voltei ao mar da saudade 
para ancorar meu navio. 
61
Igualmente aos nossos pais, 
nos cabelos brancos temos 
as impressões digitais 
dos anos que já vivemos. 
62
Inimigo do trabalho, 
é meu primo, o “Paraíba;” 
seu emprego é no baralho: 
buraco, truco e biriba. 
63
Já quase louco de amor, 
envolto num triste enlevo 
ponho toda a minha dor 
no papel…quando eu escrevo! 
64
Lágrimas, águas em fugas, 
que num trajeto indolente, 
deixam escritos nas rugas, 
os sofrimentos da gente… 
65
Lágrimas, fuga das águas 
por um riacho inclemente 
que numa enchente de mágoas 
inunda o rosto da gente! 
66
Lembranças deixam feridas 
que nascem na alma da gente. 
Que tenham elas nascidas 
67
no passado… ou no presente! 
Meu momento mais doído 
foi perder quem tanto adoro, 
por isso eu choro escondido 
para ninguém ver que eu choro! 
68
Ninguém calcula essa dor 
no coração dos mortais… 
Quando a saudade é de amor, 
a dor é cem vezes mais ! 
69
No instante da despedida, 
arquivei no pensamento 
a tristeza da partida 
e a dor do meu sofrimento. 
70
No momento em que eu nascia 
Deus colocou no meu ser, 
um mundo de fantasia, 
de poesia e de prazer… 
71
Nos momentos mais tristonhos 
chega a musa da poesia, 
torna reais os meus sonhos 
num mundo de fantasia. 
72
Nos poemas que componho, 
de beleza quase extrema, 
eu ponho em verdade um sonho 
dentro de cada poema! 
73
Numa caminhada inglória, 
com minha alma enternecida; 
pude ver a minha história 
no retrovisor da vida. 
74
Num desespero medonho, 
acordei quase enfartando, 
pois vi no melhor do sonho 
que a sogra estava voltando! 
75
Num sonho eu me fiz refém, 
ao viver uma emoção 
que o próprio sonho a retém 
na mente e no coração… 
76
O pantanal se engalana, 
mas eu mesmo desconfio; 
que até a própria chalana 
sente ciúmes do rio. 
77
O papel que eu desempenho 
na poesia, não tem preço; 
pelos amigos que eu tenho… 
Ganho mais do que mereço!

sábado, 1 de maio de 2021

J. G. de Araújo Jorge (1914 - 1987) (2)


Ah, quando escuto teus passos
meu coração se acelera,
que um só minuto em teus braços
compensa a angústia da espera!

Ah, trova com quem me enleio...
- Tens um gingado qualquer
Que lembra esse bamboleio
Do corpo de uma mulher...

Amor que tudo promete,
falso amor das Colombinas:
-juras e beijos: confete!
Abraços - de serpentinas!

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?

A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela...

Às vezes penso que a vida
que há tanta gente a querer
só existe, - indefinida -
pra gente poder morrer...

A todos prende e cativa,
E não se rende a qualquer...
- É pequena, mas esquiva...
... Não fosse a trova, mulher...

A Vida - ansiosa escalada
sobre a paisagem do mundo
Tanto esforço para nada
se há sempre abismo no fundo!

A Vida, - mistério vão
sombra agora, depois luz,
- estranho traço de união
ligando um berço... a uma cuz!

A Vida - uma onda que avança
e volta, vai-vem do mar...
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!

A Vida - visão fugaz,
praia chã, mar que alteia,
onda que faz e desfaz
os seus cabelos de areia...

Cão de guarda, ameaçador,
a rosnar, furioso e cego
eis afinal, meu amor,
este ciúme que carrego...

Coração – pobre realejo –
com canções velhas e novas...
Tudo o que sinto, e o que vejo,
vais tocando.. . em minhas trovas...

- "Crê na Vida"- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça...

Diz que é rico... Pode ser...
Mas pode ser que não seja...
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja...

Do amor e da desconfiança
infeliz casal sem lar,
nasceu o ciúme, - essa criança
tão difícil de educar...

"Dosado", o ciúme é tempero
que à afeição da mais sabor...
Mas, levado ao exagero,
é o pior veneno do amor...

E eis a suprema ironia
ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
mas, com quem? - com teu marido...

Eis a arte de viver
num conselho dos mais sábios:
às vezes, para vencer
basta um sorriso nos lábios...

Eis como o ciúme defino:
mal que faz mal sem alarde
corte de alma, muito fino,
que não se vê... mas como arde!

Esperava tanta luta
e tão pouco foi preciso:
ao invés da força bruta
ele empregou... um sorriso...

Fantasia eu próprio sou
e há um contraste dentro em mim:
- carrego um velho Pierrot
num atrevido Arlequim!

Gota d'água transparente
que brilha, cresce...e que cai!
Assim a vida da gente
que num instante se vai!

Há uma ironia, contida
nas contigências da sorte:
- quanto mais se vive a vida
mais se avança para a morte.

Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.

“Matar saudades”, querida
é uma expressão, simplesmente,
pois, em verdade, na vida,
saudade é que mata a gente.

Meu terço feito de trovas
Que em versos fico a compor,
Com ele rezo, e dou provas
Do meu culto ao teu amor!

Moeda de estranho valor
que o coração faz cunhar:
quanto mais se gasta o amor,
mais se tem para gastar!

Não tinha paz nem descanso...
O amor... a vida.... – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem...

Nem tanta coisa é preciso
para evitar-se um revés...
- Tão pouco... basta um sorriso
e eis todo mundo a teus pés...

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento...

Nesse jardim de surpresas,
que foi o amor que me deste,
as violetas são tristezas,
minha saudade, um cipreste.

No meu carro vou tranquilo,
tenha a estrada sombra ou luz,
pois bem sei que, ao dirigi-lo,
eu dirijo... Deus conduz!...

Numa amizade perdida,
num amor que se desgraça,
a morte desconta a vida
a cada dia que passa!

O ciúme, desajustado,
por louco amor concebido,
era uma amante, (coitado)
a padecer... de marido!"

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele... que já morri...

Ó pobre vida suicida!
Teu destino é uma ironia
se o que chamamos de vida
é um morrer de cada dia!

Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades... de agora.

Perigoso, onipotente,
verdadeiro ditador...
o ciúme é um cego, doente,
ou um doente, cego de amor?

Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu.

Poesia, flor de mistério
que brota do coração
e abre as pétalas de etéreo
no céu da imaginação.

Por certo a pior solidão
É aquela que a gente sente
Sem ninguém no coração...
No meio de muita gente...

Por duas Marias erra
meu viver de déu em déu:
- a que me perde, na terra,
- a que me me salva, no céu.

Praias longe, em solidão
Fora de todas as rotas,
Tal como o meu coração
Só como o sonho... das gaivotas...

Que eu não tenho coração
não és tu, sou eu que digo...
-Como hei de ter coração
se tu o levas contigo?

Rico eu sou, mesmo sem ouro
E da riqueza, dou provas,
- eis aqui o meu tesouro:
Minha sacola de trovas.

Rosas tolas, tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam...
Vem, amor, olha estas rosas,
quero que as rosas te vejam!

Saudade, - estranha ilusão,
que a solidão recompensa,
presença no coração
maior que a própria presença...

Sejam felizes ou não
Cantando instantes diversos,
As trovas do coração,
são trevos de quatro versos.

Tão simples, as trovas são
Cantigas com que a alma expande
Tudo o que há no coração
Do poeta - um menino Grande.

Tudo é trova: a flor, a onda,
A nuvem que passa ao léu
E a lua, trova redonda
Que a noite canta no céu!

Tu queres mais, sempre mais...
Sê comedido, prudente...
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente...

Vi teu retrato, - revivo
um velho amor que foi meu...
A saudade é um negativo
de foto que se perdeu...

Vive a vida bem vivida
e ao mais, esquece e revela,
que a gente leva da vida
a vida que a gente leva...

Vivo a vida cada dia,
vida comum, sem engodos,
por isto a minha poesia
reflete a vida de todos

Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é... primeiro viver...
e depois... filosofar...

Vou pisando folhas mortas
sem amanhã... Sigo a esmo...
Fecham-se todas as portas...
Sou o fantasma de mim mesmo...

sábado, 13 de março de 2021

Alvitres do Professor Renato Alves - 6 -


25.

Na mesma linha camoniana do “fogo que arde e não se vê  /  ferida que dói e não se sente”, eis,  na trova ao lado,  uma bela aplicação da  “antítese”,  figura de linguagem tão adequada para definir a natureza contraditória do amor.
 
O amor é sorriso... ou pranto.
O amor é nuvem... ou sol.
O amor é lágrima... ou canto.
O amor é treva... ou farol.
Maria Thereza Cavalheiro

 
26.

Além do escorreito português dos verbos em 2ª pessoa do plural (rireis, saberdes, pousais), esta trova apresenta um interessante emprego da palavra “verde” com carga semântica dupla: verde = cor e verde = jovem, em oposição aos maduros olhos do poeta.
    
Rireis talvez ao saberdes
como eu me sinto em apuros
se pousais os olhos verdes
nos meus olhos já maduros!
José Fabiano

 
27.
Na literatura, o efêmero, o passageiro, o transitório sempre esteve representado pela metáfora do “nome escrito na areia” que o mar vem e logo apaga. Veja que belo aproveitamento desta imagem na trova ao lado.
    
Malgrado a graça suprema
que o nosso olhar incendeia,
a juventude é poema
que a vida escreve na areia.
Élen de Novaes Félix
 
28.

Está no jogo de palavras, na inteligente manipulação das variantes semânticas do vocábulo “pena”, a beleza do achado desta primorosa trova do mestre  Izo Goldman.
 
Que pena que as minhas penas
não te causem pena alguma,
e, sem pena, eu seja apenas,
entre as penas... só mais uma!
Izo Goldman

29.

A maioria dos concursos exige a menção da palavra-tema na trova. Muito já se discutiu sobre tal obrigatoriedade e as opiniões são bem divergentes. Mas veja  aqui uma bela trova, premiada em Nova Friburgo em que  a ausência da palavra não prejudicou em nada a ideia de “Presença”, o tema proposto
    
O livro, o cigarro ao lado,
o rádio, o abajur antigo...
Eu deixo tudo arrumado
fingindo que estás comigo...
Maria Tereza Noronha

Telma Tavares (São Simão/SP)

 1
Ao ver assim, abraçada, 
a criançada fraterna,
vejo que abraço é laçada 
que nos prende à Paz eterna. 

2
Ao ver o farol, querida, 
ao teu amor o comparo 
porque no mar desta vida 
és minha luz, meu amparo.

3
A sombra da bailarina, 
contrastando com a anciã, 
lembra o poente que declina 
lembrando que foi manhã.

4
Bailarinas transparentes, 
as gotas do meu olhar, 
dançam tristes, reticentes,
o “pas-de-deux” dos sem par...

5
Bravura é viver sorrindo, 
embora seja evidente
que a vida é dor insistindo 
em ser mais forte que a gente. 

6
Carícia em forma de prece 
que no ocaso vou rezando, 
o teu beijo é sol que aquece 
um outro sol se apagando. 

7
Conto os segundos, querida, 
que passo longe de ti...
Detesto tanto a partida 
que penso que não parti. 

8
Coração, nunca te emendas!... 
És de fato um sonhador. 
Até nas duras contendas 
tu vês motivos de amor!

9
Das bofetadas que a vida 
me deu sem muita piedade, 
tu foste a mais dolorida
e a que mais deixou saudade. 

10
Em minha vida sem graça 
de sonhador solitário, 
a madrugada não passa
de um por-do-sol ao contrário. 

11
Em nossas doces lembranças 
vejo-me ainda o menino 
que ao tocar em tuas tranças 
uniu ao teu seu destino.

12
Em silêncio a criatura
mais perto de Deus se faz. 
Por isso, cala e procura
encher teu mundo de paz.

13
Enquanto altiva deslizas
sobre meus tristes apelos,
eu, sozinho, invejo as brisas 
que afagam os teus cabelos.

14
Enquanto o teu ventre sofre, 
menino de muitas fomes, 
teu patrão guarda no cofre 
o lucro do que não comes.

15
- És meu príncipe! - dizia
vovó com seu jeito doce...
Tão doce que eu me sentia 
como se príncipe fosse.

16
Este perdão que me negas 
por 'um nada" que te fiz, 
é mais um cravo que pregas 
na cruz de um peito infeliz.

17
É tão lindo o seu sorriso!... 
Seu beijo é tão perfumado, 
que aqui vou, perdendo o siso, 
cometer mais um pecado.

18
Eu não maldigo a pobreza, 
mas tento me levantar. 
Quando Deus preside a mesa, 
qualquer pão é caviar.

19
Eu ouço o outono falando 
na voz das folhas caídas… 
E o vento sopra acordando 
minhas saudades dormidas. 

20
Eu sou pássaro cativo 
preso ao amor de meu bem.
Se me libertam não vivo, 
não sei amar mais ninguém!

21
Faço troça de alguns travos 
quando a vida sabe a fel; 
quebro entraves, tiro agravos 
pondo trovas no papel.

22
Filmes assim, tão bonitos, 
como a “Dama e o Vagabundo”
não têm mais vez, são proscritos 
das telas de todo o mundo.

23
Foi Mãe Preta alforriada 
pelo afeto do senhor. 
De tanto afeto cercada 
morreu escrava do amor. 

24
Mato as tristezas cantando. 
Curti-las não vale a pena. 
Cantando vou me livrando 
da mágoa que me envenena. 

25
Mensagem vívida e terna 
que um ardente amor traduz, 
o teu olhar é lanterna 
que ilumina a própria luz.

26 
Meu coração, condenado
só por te amar do meu jeito, 
bate triste, engaiolado 
na ingratidão do teu peito.
8
27
Minha rua é uma alegria, 
tem crianças, risos, gritos... 
E se chama – que ironia! 
Alameda dos Aflitos.

28
Na chuva eu também dancei, 
mas ganhei puxões de orelhas…
Por isso eu sempre as terei 
muito grandes e vermelhas. 

29
Não se mede o bom artista 
pelo pouco que mostrou: 
Quem me conhece “de vista” 
não sabe ao certo quem sou. 

30
Na terra do Zé Coronha 
o amor parece novela:
- a Zefa namora a Tonha
e o Zé o marido dela.

domingo, 7 de março de 2021

Cantinho do Assis (Pausa para Reflexão)


Os concursos têm sido muito úteis ao trovismo. Há mais de quarenta anos eles vêm prestando bons serviços: estimulam a intensa produção de trovas; contribuem para o fortalecimento da amizade entre trovadores de todo o Brasil e de Portugal; possibilitam a revelação de novos valores. No entanto, é preciso ter cuidado a fim de que os efeitos não se invertam.

Não se pode permitir de forma alguma o estabelecimento de um divisor de águas – de um lado os ganhadores habituais de concursos e de outro os que jamais (ou raramente) são premiados. Mesmo porque concurso não é a única maneira (e talvez nem seja a mais eficiente) de avaliar poesia ou lá o que seja. Há muitos trovadores que dificilmente aparecem no pódio dos premiados, mas que têm rico acervo de boas trovas. Além disso, a principal característica do trovismo foi sempre a fraternidade, razão pela qual não tem sentido colocar em primeiro plano a disputa de prêmios.

Agrada saber que fulano ou sicrana já receberam dezenas ou centenas de troféus, porém muito mais agrada saber que fulano e sicrana amam a trova tanto quanto nós amamos, e que tal afinidade nos faz irmãos. Se, portanto, algum dia notarmos que os concursos começam a prejudicar a fraternidade, talvez seja melhor acabar com eles, criando novas formas de motivação.

Recordemos as sábias palavras do mestre Reinaldo Moreira de Aguiar: "A trova é um modo franciscano de ser poeta.” Parece que isso resume tudo.

Fonte:
Editorial do Trovia de fevereiro / 2002

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...