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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Caldeirão Poético 3 (São Paulo)


SERGINHO POETA 
(Sergio Luis Oliveira Mesiano)

Largo e Profundo

No instante
Em que o sino da igreja anuncia
A hora da Ave Maria
O Menino outra vez desafia
A Guarda Municipal
Precipita-se por entre o comércio informal
E o mar de gente confusa
Desce a alameda em queda livre
E vai se abrigar nos braços da Meretriz
O Ambulante canta a oferta
Abafando o alerta de pega ladrão
No instante seguinte
O Padre bendiz o Menino
No ato do seu sermão
E a Carola, samaritana boa
Que momentos antes
Perdera a bolsa e a fé nos meninos
Reza e perdoa
E tudo volta ao normal

Percebo um olhar de soslaio
No Largo Treze de Maio
Coberta de joia falsa
A maquiagem realça
O rosto da Moça da Vida
E a pouca idade que tem
A Guarda esquece o menino
O Ambulante grita de novo
E o povo se agita na praça

É tudo pressa de novo
E o Ônibus passa
E passo Eu e o Menino
A Carola e a Puta
Só o Largo Treze não passa.
===================

PAULO ALMEIDA 

Santo Amaro de Vários Artistas

Nem todos os demônios se dissiparam
Na barra da manhã...
Quando amanheceu era sábado,
O sétimo dia,
E pouca coisa era sagrada :
Quem sabe a necessidade do camelô
Dizendo nunca se sabe ,
Atento à guarda municipal,
Quem sabe a pouca idade da menina
Calcando ruas já tão prostituídas,
Quem sabe a febre de Paulo,
Eiró, perseguindo noivas, poemas,
e represas entre ruas, catedrais
E hospícios .
Na casa amarela treze poetas
E treze visões se entrelaçam.
Colecionadores de pedras
Extravasam poemas e vidraças
Com um novo olhar .
Um planeja ornar com flores
A carabina de Borba Gato.
Outra ,poeta e menina,
Dança no coreto enquanto recita
Nua poesia sobretudo Santo Amaro.
Vamos ao largo de dvds , piratas ,
E da catedral sufocada,
Colocar versos na boca da estátua,
Ouvir o uivo dos albergados,
Confissões púbicas e sem preço
Da fantasia em hotéis baratos.
Vamos comungar o pão e a poesia,
Perecíveis artistas no monumental teatro das ruas.
======================

LAURA GUIMARÃES 

Ecos do Largo Treze

Que tipo de fé, seu moço,
consola as noites
desse pedaço de chão?

Sabe, seu moço,
um tipo de Deus diferente
passeia pelo Largo.

Pequenos milagres
escorrem pelas sarjetas
e abotoam as camisas
daqueles que não as têm.

O sopro de sarcasmo que falta
transborda dos copos cheios de mágoa
que toma conta do corpo
daqueles que não têm mais corpo, não.

Sabe, seu moço,
há um rio mudo
correndo, ao largo,
por entre as veias desse povo.

Correnteza forte, sim senhor!

Sabe, seu moço,
há um largo sorriso de medo
preso em suas gargantas.

Protestariam, se soubessem.
Contestariam, se pudessem.

Mas de que adianta força sem direção?

O pai de família corre atrás do pão.
A dona de casa faz milagre na ponta da faca.
A criança faz brinquedo do lixo que sobra.

Do pouco que sei,
sei que esse pedaço de chão
é como se fosse o mundo inteiro.
Santo Amaro.
                    Meu mundo, meu chão.
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JOÃO ROSALVO 
(João Rosalvo da Silva Júnior)

Ao Santo armado

ajoelhado
devotado em oração
surge no banquinho inexistente da praça
um homem
na noite
que diante de sua devoção paulista
(a estátua do Borba Gato)
começa:

"Oh, meu Santo Armado,
de guerra construído e preparado,
que guardas a cidade amarga de barro,
bairro da grande metrópole, São Paulo,
meu tempo anti-lunar vem te pedir,
salve nossas noites de esperança
salve nossas boates, nossas danças,
nas ruas terminais de Santo Amaro
nas praças floreais de poucos atos,
nas casas da antiga: antigos fatos.

Fazei de nossa flor Matriz,
da alameda eira e da Eiró Meretriz,
a chave para acharmos o paraíso,
asfalto e carro e condutor divinos.

Com goles de cerveja, salvai as nossas almas padecidas
e as pobres caras, um tanto parecidas
dos jovens moços que roem o osso sujo e 
bebem do esgoto pútrido da cidade esquecida.

Aos maltrapilhos que cantam vícios
em coro triste no coreto limpo da Floriano,
dá menos planos e mais oportunidade
de fumarem um cigarro novo por noite
ou de cobrirem seus corpos poucos com lençóis de verdade.

Salve nossas Ladys e nossos End Nights.
E salve esta alma de homem pobre
que toda noite se cobre com manto de jornal
e diante da lua: silêncio sepulcral;
clama pelo povo sofrido
da noite querida
da Santo Amaro perdida
entre os becos e os beijos de suas meninas."
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INDIARA NICOLETTI 
(Indiara Nicoletti Ramos)

"Ciclo de Vida"
.
Gira rodopia
a criança no coreto
Menina que dorme
de olhos semiaberto

No relento da calçada
O plástico preto
que sonora ao vento

Pode ser o cobertor
Pode ser a cama
Para o mijar
Embriagado

Os olhos fecham-se
Na esperança de um sono
Continuo ...

Mas o som da praça
Adormecida
De gritos de liquidações
Mudas

Na voz muda de garças
Que migram em direção
As águas represadas

A menina passeia
As margens da Guarapiranga

Muitas crianças
Pulam se jogam
Nas águas em
Um dia de sol

A mãe pede ao filho
Que não arrisque
A pele na sombridez
Da água turva

Mas o menino vê o verde
Do parque da mata
Do corredor de arvores
Ao lado da hípica

O céu azul
Refletido nas
Águas

Ora mansa recheada de peixes
Ora redemoinho que engole gente
Nas turbinas da Sabesp

A menina sonha
Os cabelos acariciados
Pelo vento

Pelas mãos de vento
Da Donzela Guaianazes
Moça que também
Habita a praça

Viajante de outros tempos
Raiz plantada nestas terras
Aos pés da árvore tombada
Para a construção do camelódromo

Plásticos brandam
Mortos, matéria
descartada

Olhares esquecidos
Na calçada composta
De passos ligeiros

Marcas nas mãos
Ciclo de vida

Reciclar as relações
Corriqueiras, fugazes
Como as promessas
Da cidade das luzes modernistas

Um dia no coreto
Habitou uma princesa
Bonecas de porcelana
Na jazida casa alemã

Bomba de chocolate
No rosto anuviado
Da menina
Na jazida Doceria Yramaia

Ecos de vozes do papagaio
No corredor da madrugada
Na também jazida pensão
Talvez uma Espanhola

Sonha a menina
Travesseiro de colo materno
Da donzela Guaianazes

Ela seria mãe
Se não fosse
Interrompida por
Fogo azul

Jaz Borba ao vento
Duro concretizado
No mosaico de Júlio Guerra

Borba andarilho de ladrilhos
Dá as costas para o fruto
Da semente mal plantada

Cayubi olha sua filha
Hoje mãe acariciando
Os cabelos da menina

Gira a menina no coreto
Ciclo de vida
Ciclo das águas
Que levam as lágrimas de mazelas

Júlio Guerra limpa as pedras
De mármore e basalto
Júlio Guerra lava o painel
Poluído por tinta preta

Em casas de outrora
Espanhóis, Portugueses
Alemães... habita uma tela
De Júlio que observa
A porta Veneziana do teatro

Lava as pedras no painel
Com lágrimas derramadas

Descansa Júlio Guerra

As lágrimas que brotam da terra
Na construção do metro
Fura o lençol freático

Com sede, do alto
A menina observa
Acompanhada
Pela donzela Guaianazes

Na igreja
Vultos de um jazido cemitério
Assustada ela volta para o coreto

Cayubi limpa o sono
De quem dorme ao relento
Guaranis com suas maracás
Hoje em Parelheiros

Cayubi abençoa a praça
Terebê planta ao pé
Da grande arvore
A semente de um povo

Útero da Terra
Aquífero Guarani
Jorrando água
Na calçada

Cayubi guardião de toda a Terra
Olha a praça de frente
Com sua gente
Sua casa amarela

Onde em uma madrugada
Uma cidade virou bairro
Promessa fugaz...

Cayubi olha Borba
Olhar concretizado
Pelo chumbo
Olhar amolecido
Pelas lágrimas

Água Guarani
Sangue da Terra
Água cíclica
As margens da represa

Ciclo de vida na matéria ignorada
Trabalho de mãos calejadas
Jorrando o desperdício na calçada

Hoje são poucas as arvores
São diferentes os frutos
Plástico brotando no concreto

A donzela Guaianazes
Puxa um galho de Jasmim
E abençoa sua filha tão pequena
Tão sofrida

Com um beijo deixa a praça
Ciclo de vida na calçada

Criança gira no coreto
No tempo sonha
E com o vento
Se despede
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CARLOS GALDINO 

A Curva da Praça

A curva da praça
é curva de rio
Tem gente com fome
Tem gente com frio

Na curva da praça
Tem gente que fica
Tem gente que passa
Tem gente esquisita

Na curva da praça
Tem gente que joga
E gente jogada
Tem gente com tudo
Gente sem nada

A curva da praça
Tem crime e segredo
Tem gente esperta
E gente com medo

A curva é de um só
A curva é de massa
A curva tem preço
A curva é de graça

A curva da praça...
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Poetas integrantes de Treze Poetas, de Treze Visões do Largo Treze de Maio.

Fonte:
http://www.trezevisoes.blogspot.com/

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