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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Baú de Trovas 44



De barro se faz o homem,
e de luz principalmente.
O barro, os anos consomem;
a luz eterniza a gente.
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
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Vendo-te os lábios vermelhos,
deles morro enamorado.
Mas, em te vendo os joelhos,
me sinto ressuscitado...
ARLINDO BARBOSA
(Matias Barbosa/MG) São Paulo/SP
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Em nossa Constituição
este artigo deve entrar:
— Quem já tiver seu emprego,
não precisa trabalhar...
AUGUSTO LINHARES
Baturité/CE, 1879 – 1963, Rio de Janeiro/RJ
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Com teu doce viço expeles
quatro pétalas de aromas:
régia flor de rubras peles,
és Rosa, e de amor nos tomas!…
ELIAS PESCADOR
São Paulo/SP
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A justiça, rica em falhas,
corrompida por esquemas,
enche de glória e medalhas
mãos que merecem algemas!
GERSON SOUZA
São Leopoldo/RS
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Dei-te o melhor dos abraços,
do mais profundo querer...
Mas a força dos meus braços
não conseguiu te prender!
JANSKE NIEMANN SCHLENKER
Curitiba/PR
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Inês, a graça que tens,
a maior dentre as demais,
ninguém a vê quando vens,
sómente a vê quando vais.
JOÃO CARLOS DE VASCONCELOS
Natal/RN, 1893 –  
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Marido que quintal tendo
anda no alheio roçado,
acaba, por certo, vendo
o seu quintal capinado...
JOÃO RODRIGUES
Campos dos Goytacazes, 1911 –
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Bela filha da floresta,
Maringá é uma lição:
nela o trabalho é uma festa
e o progresso é uma canção.
JORGE FREGADOLLI
Maringá/PR
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O nosso destino até
com nomes faz ironia:
Ela é Maria José,
e eu sou José… sem Maria!
JOSÉ COELHO DE BABO
Quinta do Cedro/Portugal, 1910 – 1986, Nova Friburgo/RJ
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Com saias nunca te metas,
se queres viver feliz.
Por isso tenhas cuidado
com mulher, padre e juiz...
JOSÉ RAIMUNDO BANDEIRA
Santos Dumont/MG, 1923 –
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Na corda bamba da vida
o povo sofre, a dançar...
Mas não aprende a escolher
quem saiba a corda esticar!
JOSIAS DE PAIVA PINHEIRO
Jacutinga/MG, 1909 –   , Campinas/SP
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O teu narigão vermelho,
que parece um pimentão,
espanta qualquer espelho
que não sofra da visão!...
JULIMAR VIEIRA
Aracaju/SE
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Rosas vermelhas, paixão…
Com perfume embriagador,
despertam meu coração
para os acordes do amor!…
LUCILIA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR
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"Se é ocê que tá me espreitando,
lá no cantim, iscundido,
bom sabê qui tô aceitando,
só farta fazê o pidido."
MÁRCIA JABER
Juiz de Fora/MG
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Solidão e violão
são irmãos e não se largam:
uma amarga o coração,
outro adoça os que se amargam.
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP
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O ar da serra eu lhe receito,
— disse o doutor ao Santana.
E este, em casa, satisfeito,
pega um serrote e se abana!
P. DE PETRUS
São Paulo/SP, 1920 – 1999, Rio de Janeiro/RJ
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Sempre sozinha, aos farrapos,
mas de rosário na mão…
A fé tecida entre os trapos
remendava a solidão!
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
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Na língua ele se aprofunda
e, quando algo nos explica,
o faz com tal barafunda
que a gente mais burro fica!
PYLADES GAMA
Muzambinho/MG, 1904 –   ,Rio de Janeiro/RJ
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A bagunça  aconteceu,
a fogueira nos  clareou,
a música emudeceu…
e São João  nos   abençoou!
REGINA RINALDI
Pariquera-Açu/SP
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Ao tocar uma canção
que chora o fim de um amor,
também chora o violão
nos braços do cantador!
RENATA PACOLLA
São Paulo/SP
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Por mais que eu seja fraterno
socorrendo o pobre irmão,
pior que o frio do inverno,
é o frio do coração.
ROMILTON FARIA
Juiz de Fora/MG
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Pelo pensamento alheio,
bem lembrado, eu quero ser.
Que ampara, tal qual esteio,
tendo a força do poder.
SILVIA SVEREDA
Irati/Pr
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Garota que, muitas vezes,
com jantares se tapeia
vai, durante nove meses,
“chorar… de barriga cheia!”
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP
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Se diante de algum tropeço
a minha fé sofre entraves,
perdão, Deus! É que me esqueço
de olhar os lírios e as aves.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR
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As nuvens choraram tanto,
que o sol compensa o escarcéu,
tecendo com doce encanto
mais sete cores no céu!
WANDIRA F. QUEIROZ
Curitiba/PR

sábado, 6 de dezembro de 2025

Alvitres do Professor Renato Alves n. 115


“Ai, deixa-me chorar para suavizar o que eu não sei dizer, mas sei sentir…”
cantava Orlando Silva, o cantor das multidões, nos idos de 1935. E na mesma canção: “É mais sublime a lágrima que exprime as nossas emoções do que sorrir…”; “Chorar é mágoa em pérolas diluir…”

O tema “Lágrimas” era dos mais recorrentes nas letras da música popular de cunho romântico da época, quando eram criadas belíssimas imagens, definições poéticas e metáforas.

Nas trovas, o florescente movimento das décadas de 60 também espelhava essa predileção pelo lirismo emocional do tema e os trovadores se esmeravam em criativas composições, legando-nos verdadeiras pérolas de sua criatividade.

No momento em que partiste,
pranteei minha viuvez…
Foi o trajeto mais triste 
que uma lágrima já fez!
Maria Nascimento S. Carvalho

A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito…
Reinaldo Aguiar

Muita lágrima sentida,
em silêncio sei que enxugas…
– São reticências da vida
pelo caminho das rugas!
Helvécio Barros

O mar, que geme e palpita,
no seu tormento profundo
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo!
Lilinha Fernandes

Mais trovas sobre LÁGRIMA/S:

Por que, lágrima divina,
tu que trêmula te expandes,
sendo assim tão pequenina,
 consolas dores tão grandes?
Geraldo Pimenta de Moraes

A lágrima comovida,
que vem de dentro de nós,
é uma palavra sofrida
que chega aos olhos sem voz.
Hegel Pontes

Velhas roupas coloridas,
penduradas nos varais,
choram lágrimas doridas,
nos casebres muito iguais.
José Rodrigues Louzã

Sofredor sempre se esquiva
de mostrar a dor, por fora:
quando a lágrima é furtiva,
maior é a dor de quem chora!
Lavínio Gomes De Almeida

Da vela branca que ardera
como tranquilo fanal,
umas lágrimas de cera
caíram do castiçal!
Machado De Assis

A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito...
Reinaldo Aguiar

Fontes:
Texto e Trovas enviadas pelo professor Renato Alves (Rio de Janeiro/RJ).
Trovas adicionais enviadas por Maria Thereza Cavalheiro (São Paulo/SP, 1929 – 2018) para a Revista Florilégio de Trovas, em 2017.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Edy Soares (Vila Velha/ES)

 Ah, mas que espirro maldito,
que me deixou avexado.
Além de forçar um grito,
ainda veio acompanhado!

A memória enfraquecida,
a fronte calva, a bengala,
mostra no ciclo da vida
o velho que o neto embala.  

A morte, visita chata,
desprezível,  deprimente
vem sorrateira,  arrebata,
levando a vida da gente.

A mulher, pura beleza...
foi feita a partir de um osso,
mas a sogra, com certeza...
da carne de algum pescoço.

Ao deparar com a cena
de uma boa escorregada,
confesso que tenho pena,
mas não seguro a risada.

A trapaça é artifício
do covarde sem pudor,
que sem nenhum sacrifício
quer se fazer vencedor.

Cabisbaixo pelos cantos
me pego pensando em ti.
Pai, o maior dos meus prantos,
é saber que te perdi.

Cada mulher preparando
em seu ventre uma criança,
é o mundo se renovando,
é Deus nos dando esperança.

Com o planeta por um fio,
tanta gente a desmatar.
Queira Deus que algum plantio,
seja feito no lugar.

Da semente, a nova planta;
 da planta, a semente e o pão.
Do pão, a vida que encanta,
 que planta e cultiva o chão. 

Deixemos de lado o orgulho,
pois nobre é o dom do perdão;
rancor guardado é entulho,
que adoece o coração.

- Era profunda a raiz!
Disse o dentista ao cliente,
ao perceber que o nariz
saiu agarrado ao dente.

Esse meu corpo curvado,
feito quem reverencia,
já dá sinais de cansado
e agradece mais um dia!

Este amor que me oferece,
sinto – já não me convence.
Meu coração não merece,
pois a outro já pertence.

É uma agressão desumana,
uma falta de respeito...
Num país com tanta grana,
hospitais faltando leito.

Eu... você... as confidências...
Que pena que o tempo passa!
Hoje vivo de aparências
e a vida já não tem graça...

Há que se enxergar o amor
em cada olhar, cada canto.
E perceber que onde for,
todo olhar tem seu encanto.

Meu Noel é de dar dó...
Nesta crise, veio a pé,
sem renas e sem trenó...
E entalou na chaminé!

Necessita ser “curado”,
todo aquele que imagina,
que quando estiver errado,
compra o certo com propina.

Nunca vi trova sem rima,
macaco enjeitar banana;
nunca vi chover pra cima.
nem político sem grana.

O chato que mais me irrita
e que mais me funde a cuca...
é aquela pessoa aflita,
que enquanto fala, cutuca.

Os olhos as vezes falam
mais que palavras em vão;
silentes as bocas calam
enquanto amando se dão.

Por egoísmo e ganância
a Terra está dividida.
Tanto poder e arrogância,
ante a pobreza sofrida.

Por se valer da trapaça,
ás vezes quem trapaceia,
por mais esforço que faça,
se enreda na própria teia.

Qualquer tipo de trapaça,
será sempre repugnante.
Mesmo que vencedor, faça...
Não fará mais que um farsante!

Quando saio em devaneios,
navegando em pensamentos,
cruzo bravos mares cheios,
velejo em grandes tormentos.

Quer, ricos ou indigentes,
todos são filhos de Deus;
sejam mansos ou valentes,
sejam nobres ou plebeus. 

Refletia a luz da lua,
o orvalho da noite fria;
sobre o menino de rua,
que na calçada dormia.  

Sem o amor do jardineiro,
o que seria da flor?...
Rosas não teriam cheiro,
jardins não teriam cor!...

Sempre achei que o céu é aqui,
à sombra dessa palmeira...
escutando o bem-te-vi,
no meu banco de madeira. 

Se não posso  amar a Bela
ou tê-la aqui junto a mim,
ainda sim, sonho com ela
entre as flores, no jardim.

Sete vidas eu tivesse
ou talvez, setenta mil,
quantas vidas Deus me desse...
Que elas fossem no Brasil...

Supera tristeza e dor,
quem na vida por batalhas,
aprende ser vencedor,
sem contentar com migalhas.

Terra molhada no cio,
pronta, esperando a semente
das mãos que fazem plantio...
Tal qual amada nubente.

Trago essa grande saudade,
longe, no peito que dói,
por amor a essa cidade...
Por amar-te Niterói.  

- “Três dias de penitencia”,
pede o padre ao confessado.
- "Pode dobrar a exigência,
vou repetir o pecado!"

Velhas fotos no monóculo,
na gaveta de uma estante...
É como ver de binóculo,
um tempo já bem distante.

Vi sumir ao longe o trem.
Levou, chorando, Maria.
Na estação fiquei também
chorando porque a perdia.

Fonte:
Revista Florilégio de Trovas n. 30 - 29 de abril de 2019.

Nemésio Prata (Fortaleza/CE)

 1
A droga foi seu arpéu,
sem destino, destroçado,
vagueia na rua, ao léu,
até quando for "levado"!
2
Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!
3
Ao relento, relegado,
negado pelo destino;
hoje vive escravizado,
coitado; que desatino!
4
Ao ver a imagem singela
do barco, tranquilo, ao mar,
lembrei-me: não há procela
que Deus não possa acalmar!
5
Chorando, segue o andarilho
solitário, a sua dor;
de deixar pra trás um filho,
fruto de um fugaz amor!
6
Com talento e sutileza
no salão, "a media luz",
o casal mostra a leveza
do belo tango andaluz!
7
Coração, enquanto bate,
é vida, amor e paixão;
mas depois que ele se abate,
é vela, choro e caixão!
8
Correndo, desesperado,
de mala e chapéu na mão,
o passageiro, coitado,
perdeu o trem... e a razão!
9
Deixe a Natureza em paz,
rapaz, tenha mais juízo; 
pois isso que você faz
demonstra falta de siso!
10
Descendo esta escadaria
Onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
Como não sei, vou ficar!
11
Despertando, reparei
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
12
De toda trova legenda
que já fiz na minha vida
esta veio de encomenda,
pois não dei nem a partida!
13
De tudo que eu aprendi
pra chegar a ser “doutor”,
se, bem, eu o compreendi:
devo muito ao Professor!
14
Deus me livre, por um dia
me faltar um Livro a mão;
de tristeza eu morreria,
em pungente solidão!
15
Deus, o Poeta dos Poetas,
é TROVADOR; e em poesias
manda-nos netos e netas
para encher-nos de alegrias!
16
Dizem, com propriedade,
que a saudade é inexplicável;
explica-se: na verdade,
o senti-la é indecifrável!
17
Dois minutos, Cinderela;
está chegando o momento!
Não vá cair na esparrela
de esquecer o encantamento!
18
É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!
19
Entre lágrimas e risos,
respostas às emoções,
liberamos sentimentos
represos nos corações!
20
Férias! Ah, sim, bem eu sei,
que és bem merecedora;
mas, cá, não esquecerei
de ti, grande trovadora!
21
Homem, mau, vil e perverso;
toda vez que tu desmatas,
mesmo em nome do progresso,
é a ti mesmo que tu matas!
22
Já não suportamos mais
ver os nossos pequeninos,
nas mãos destes marginais:
traficantes-assassinos!
23
Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
24
Maranguape a tua glória
são teus filhos de valor;
foi Capistrano, na História,
e Chico Anísio, no Humor!
25
Na mata o machado bate
forte pra tirar "madeira";
e assim o "homem" abate,
uma a uma, a mata inteira!
26
Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!
27
Não "curta" a sua velhice
dando voz ao seu lamento;
deixe dessa "caduquice"
seu "velhote" rabugento!
28
Não queiras por teu amigo
quem não pode ser provado
no dar água, pão e abrigo,
para alguém necessitado!
29
Na solidão do meu eu,
fugindo da realidade,
meu pensamento varreu
da mente toda verdade!
30
No céu, as nuvens, e as flores,
no campo; um quadro sem par.
É Deus tingindo de cores
a Primavera a chegar!
31
Nos bailes não dava trela,
e a todos dizia não;
mas no fim foi a donzela
quem "dançou": ficou na mão!
32
Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!
33
O ato de ler praticado
com prazer, pelo leitor;
no final, seu resultado,
assemelha-se ao do amor!
34
O bailarino, indeciso,
na chuva, dá mil volteios;
e o lampião diz, bem preciso:
homem, deixe de rodeios!
35
O envelhecer é sublime
presente a nós concedido
por Deus; o que bem exprime:
Dele, ninguém é esquecido!
36
Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!
37
Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!
38
Os dois silentes, colados,
corações a palpitar;
olhares apaixonados...
já pensou no que vai dar?
39
Para cuidar da saúde
com desvelo e competência
busco Médico amiúde,
amigo, de preferência!
40
Passei horas meditando,
pensando no que dizer;
terminei nada compondo,
sem nada para escrever!
41
Perdido na multidão
das ruas, sem ter alguém
que ao menos lhe estenda a mão;
não passa de um "Zé Ninguém"!
42
Pintor, por que teimas ver
o teu sol onde ele não
pode mais aparecer,
vítima da poluição?
43
Por aqui passava um rio
caudaloso e pleno em vida;
hoje mal se vê um fio
d'água suja e poluída!
44
Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!
45
Quem ama a literatura,
e a ela se entrega, tem
prazer não só na leitura,
mas, no produzir, também!
46
Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
47
Quem corta, na natureza,
árvores sem precisão,
destrói-a e deixa-a indefesa;
é um ser sem coração!
48
Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
49
Sem um "pingo" de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
50
Ser Poeta neste mundo
é cultivar nele o Amor;
sentimento mais fecundo
na vida do TROVADOR!
51
Se tu estás velho, também,
mais perto de Deus tu estás;
tem tu, pois, por grande bem
ser velho, e bem viverás!
52
Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!
53
Se você sofre de tédio
só tem um jeito: tomar
TROVADOR, santo remédio;
e seu tédio vai passar!
54
- Solta-me! Clama o navio
ao cais que o faz prisioneiro;
- deixa-me sair vadio
pelo mar... que é meu parceiro!
55
Tem coisas que não se explica
na vida de um TROVADOR;
uma: é quanto ele mais fica
só, mais cultiva o Amor!
56
Tem Poeta nesta terra
que seus versos dão prazer
de lê-los, pois ele encerra
numa Trova o seu dizer!
57
Tem quem só quer receber
para si o que é melhor,
porém ao aparecer
chance pra dar: dá o pior!
58
Toda noite o seresteiro
aguardava a madrugada
para declarar, faceiro,
seu amor à sua amada!
59
Todo livro deve que ter
"título" bem eficaz...
pois não é que o meu vai ser:
Leia-me... (se for capaz).
60
Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!
61
Uma folha de caderno,
um lápis, e a inspiração,
bastam ao trovador terno
pra lhe abrir o coração!
62
Vendo a imensidão do mar
pensei cá, com meus botões:
se esta turbina falhar
tem "janta" pros tubarões!
63
Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!
64
Voa, canário indeciso,
o que esperas; afinal
seres liberto é preciso,
mesmo pensando irreal!

Três Trovas sem Pé nem Cabeça
65
Sem barulho, corta o céu
por entre as nuvens, um trem,
levando pro beleléu
a lua, e o sol também!
66
Era noite e a lua cheia,
viu chegar a madrugada,
trazendo o sol, em candeia,
deixando-lhe "encandeada"!
67
Não deixe a coisa ficar
do jeito que já não dê
pra você, um jeito dar,
no sujeito que é você!

Teia de Trovas sobre o Limão
68
No meio do laranjal
que plantei lá no sertão
deu-se um fato especial:
só foi colhido limão!
69
Recebendo este recado
do presidente Alencar
vou tomar maior cuidado
quando limão for provar!
70
Trovando e tirando as provas
deste fato memorável;
provei, brincando com trovas,
de que o limão é saudável!
71
Ao tomar a limonada
vá bebendo devagar
sorvendo cada golada
pro seu gosto apreciar!
72
Pode até não ser remédio
mas não dê cavaco não;
agora, ao chegar o tédio
o remédio é... com limão!
73
Cabe a cada cidadão
interpretar os pontinhos
desde que o "velho" limão
não falte nos pingadinhos!
74
Se você não é chegado
a quaisquer pingas, então:
esqueça logo o pingado
e chupe, puro, o limão!
75
Quem muito chupa limão,
dizem alguns entendidos,
melhora a "disposição":
aceito seus desmentidos!

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...