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domingo, 27 de outubro de 2024

Edy Soares (Trovas em Preto & Branco)

 
O beija-flor à direita, é a ave símbolo do Espírito Santo

1
A memória enfraquecida,
a fronte calva, a bengala,
mostra no ciclo da vida
o velho que o neto embala.
2
A trapaça é artifício
do covarde sem pudor,
que sem nenhum sacrifício
quer se fazer vencedor.
3
Da semente, a nova planta;
da planta, a semente e o pão.
Do pão, a vida que encanta,
que planta e cultiva o chão
4
- Era profunda a raiz!
Disse o dentista ao cliente,
ao perceber que o nariz
saiu agarrado ao dente.
5
Eu... você... as confidências...
Que pena que o tempo passa!
Hoje vivo de aparências
e a vida já não tem graça…
6
Meu Noel é de dar dó...
Nesta crise, veio a pé,
sem renas e sem trenó...
E entalou na chaminé!
7
O chato que mais me irrita
e que mais me funde a cuca...
é aquela pessoa aflita,
que enquanto fala, cutuca.
8
Por egoísmo e ganância
a Terra está dividida.
Tanto poder e arrogância,
ante a pobreza sofrida.
9
Quer, ricos ou indigentes,
todos são filhos de Deus;
sejam mansos ou valentes,
sejam nobres ou plebeus.
10
Sem o amor do jardineiro,
o que seria da flor?...
Rosas não teriam cheiro,
jardins não teriam cor!…
11
- “Três dias de penitencia”,
pede o padre ao confessado.
- "Pode dobrar a exigência,
vou repetir o pecado!”
12
Velhas fotos no monóculo,
na gaveta de uma estante...
É como ver de binóculo,
um tempo já bem distante.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

AS TROVAS DE EDY SOARES EM PRETO E BRANCO
por José Feldman

AS TROVAS UMA A UMA

1. A memória enfraquecida
A primeira trova reflete sobre a passagem do tempo e a fragilidade da memória. A imagem do velho sendo embalado pelo neto simboliza a continuidade da vida e a relação entre gerações.

2. A trapaça é artifício
Aqui, o autor critica a covardia e a falta de ética. A trapaça é apresentada como uma solução fácil para quem não quer se esforçar, destacando a desonestidade como um caminho sem valor.

3. Da semente, a nova planta
Esta trova aborda o ciclo da vida e a conexão entre natureza e existência. A semente representa o potencial, enquanto o pão simboliza a vida e a sustento, enfatizando a importância da agricultura.

4. Era profunda a raiz!
Com um toque de humor, essa trova brinca com a relação entre dentista e cliente. A metáfora da raiz dental que "sai agarrado ao dente" retrata a relação entre dor e cuidado.

5. Eu... você... as confidências...
Refere-se à passagem do tempo e à superficialidade das relações modernas. O eu lírico lamenta que, apesar das confidências, a vida perdeu sua essência, tornando-se apenas aparência.

6. Meu Noel é de dar dó...
Essa trova traz uma crítica à realidade econômica, usando a figura do Papai Noel como símbolo de esperança que se tornou ineficaz. A imagem de Noel "entalado na chaminé" é uma metáfora para as dificuldades da vida.

7. O chato que mais me irrita
Aqui, o autor fala sobre a irritação causada por pessoas que não param de falar. A "cutucada" é uma metáfora para a insistência, destacando a falta de empatia.

8. Por egoísmo e ganância
Essa trova critica a desigualdade social. A Terra dividida simboliza a luta por poder e a arrogância dos que têm em contraste com a pobreza dos que não têm.

9. Quer, ricos ou indigentes
O autor reafirma a ideia de que todos são iguais diante de Deus, independentemente de sua condição social. A mensagem é de unidade e humanidade.

10. Sem o amor do jardineiro
Esta trova celebra a importância do cuidado e do amor. Sem o jardineiro, as flores não teriam seu valor; essa relação enfatiza a dependência entre amor e beleza.

11. Três dias de penitência
Com humor, essa trova aborda a hipocrisia nas práticas religiosas. O diálogo entre o padre e o confessado revela a ideia de que a penitência é muitas vezes superficial.

12. Velhas fotos no monóculo
Por fim, essa trova reflete sobre a nostalgia e a memória. As fotos guardadas simbolizam recordações de um passado distante, visto de forma distorcida, como se olhado através de um binóculo.

ABORDAGENS

As trovas de Edy Soares são uma expressão rica e multifacetada da poesia popular brasileira, refletindo tanto a simplicidade quanto a profundidade das experiências humanas.

Conexão com a Tradição Popular
As trovas se inserem na tradição da poesia popular, que é acessível e frequentemente recitada em diferentes contextos sociais. Essa conexão com o folclore e a oralidade confere às trovas um caráter atemporal.

Reflexão sobre a Condição Humana
Cada trova traz uma reflexão sobre a vida, abordando questões como a passagem do tempo, a fragilidade das relações e as desigualdades sociais. Essa capacidade de capturar a essência da experiência humana torna as trovas relevantes em diferentes épocas e contextos.

Humor como Ferramenta Crítica
O uso do humor e da ironia é uma característica marcante. A leveza com que Edy Soares aborda temas pesados permite que o leitor reflita sobre questões sérias sem sentir-se oprimido. O humor é uma forma eficaz de crítica social, tornando as mensagens mais impactantes.

Imagens e Metáforas
As metáforas utilizadas nas trovas são poderosas e evocativas, permitindo que o leitor visualize e sinta as emoções descritas. A utilização de elementos da natureza, por exemplo, serve para simbolizar experiências humanas, criando uma conexão íntima entre o homem e o meio ambiente.

Universalidade e Acessibilidade
A linguagem simples e direta torna as trovas acessíveis a um público amplo. Essa universalidade permite que pessoas de diferentes idades e origens se identifiquem com as mensagens, promovendo um sentimento de comunidade e pertencimento.

Impacto Emocional
As trovas conseguem tocar em questões emocionais profundas, provocando reflexões sobre amor, perda, nostalgia e esperança. Essa capacidade de evocar emoções é o que torna a poesia de Edy tão ressonante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essas trovas, com seu tom leve e crítico, oferecem uma rica reflexão sobre a vida, a sociedade e as relações humanas. Cada trova aborda temas universais, como a vida, a morte, as relações humanas e as questões sociais, muitas vezes com um toque de humor ou ironia. O uso de metáforas é comum, enriquecendo a mensagem e proporcionando múltiplas interpretações. Mensagens profundas transmitidas de maneira concisa e memorável.

Enfim, as trovas de Edy Soares são uma rica contribuição à literatura brasileira, combinando forma, conteúdo e emoção de maneira magistral. Elas não apenas entretêm, mas também oferecem uma profunda reflexão sobre a vida e a sociedade, tornando-se uma fonte de inspiração e aprendizado. A sua relevância perdura, mostrando que a poesia pode ser um meio poderoso de expressão e crítica.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. vol.1. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

sábado, 26 de outubro de 2024

Jerson Brito (Trovas em Preto & Branco)

 

 1
Aquela vila afastada,
nas brenhas do interior,
parece pobre... Que nada!
É manancial de amor…
2
A riqueza genuína
da tapera ou da mansão
vem do amor que predomina,
não se mede com cifrão.
3
Digo com sinceridade:
É melhor pro coração,
o amargor duma verdade,
do que o mel d’uma ilusão.
4
Esperança assim defino:
rio que corre veloz,
banhando nosso destino
sem chegar à sua foz.
5
- Fui bronze! Missão cumprida!
Disse o sujeito aos parentes,
sem mencionar que a corrida
só tinha três concorrentes.
6
Na crise, eu me fortaleço,
não perco os sonhos de vista;
toda queda é o recomeço
para quem crê na conquista!
7
Na luta, quando entendido
o recado de um tropeço,
qualquer espinho vencido
escreve um fim... e um começo!
8
O fracasso e a vitória
fazem parte do existir.
É normal na trajetória,
de vez em quando cair.
9
Qual cometa incandescente,
a paixão passa e se vai,
deixa no peito da gente
uma dor que nunca sai.
10
Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão;
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
11
Sobre opiniões e crenças,
a sensatez nos diria
que o respeito às diferenças
tece teias de harmonia.
12
Um cenário me devasta:
a garrafa de champanhe,
duas taças, vela gasta
e ninguém que me acompanhe.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

AS TROVAS DO JERSON EM PRETO E BRANCO
por José Feldman

As trovas de Jerson Brito capturam sentimentos profundos e reflexões sobre a vida, amor, e superação. Cada uma traz uma mensagem única, misturando lirismo e sabedoria.

AS TROVAS UMA A UMA

1. Aquela vila afastada
A abertura destaca um contraste entre a aparência de pobreza e a riqueza emocional. A "vila" simboliza lugares simples que guardam profundos sentimentos de amor. A ideia central é que o amor é um recurso valioso, superando bens materiais.

2. A riqueza genuína
Aqui, Jerson reforça que a verdadeira riqueza é medida pelo amor que existe nas relações e ambientes, não por riquezas financeiras. A "tapera" e a "mansão" são metáforas de que o valor está nas conexões humanas.

3. Digo com sinceridade
Essa trova aborda a importância da verdade, mesmo que dolorosa. O "amargor duma verdade" é preferível ao "mel d’uma ilusão", sugerindo que enfrentar a realidade, por mais difícil que seja, é mais saudável para o coração.

4. Esperança assim defino
A esperança é comparada a um rio que flui, simbolizando continuidade e movimento. A metáfora indica que, embora a esperança seja vital, ela pode nunca chegar a um destino final, refletindo a natureza incerta da vida.

5. Fui bronze! Missão cumprida!
Esta trova utiliza o humor para criticar a superficialidade das conquistas. O sujeito se vangloria de um prêmio em uma competição com poucos concorrentes, destacando a ironia de se sentir realizado em um contexto de baixa competição.

6. Na crise, eu me fortaleço
A resiliência em tempos de crise é o foco aqui. A queda é vista como uma oportunidade de recomeço, e a ideia de que "quem crê na conquista" pode transformar dificuldades em oportunidades é inspiradora.

7. Na luta, quando entendido
Jerson enfatiza a aprendizagem que vem dos tropeços. Cada dificuldade superada traz um novo começo, sugerindo que a vida é um ciclo de desafios e renovações, onde cada fim é uma oportunidade.

8. O fracasso e a vitória
Essa trova reflete a dualidade da vida. Tanto o fracasso quanto a vitória fazem parte da existência humana. A normalidade de cair é uma parte essencial do percurso, ressaltando a importância da experiência.

9. Qual cometa incandescente
Aqui, a paixão é retratada como efêmera, intensa e, por fim, dolorosa. A metáfora do cometa sugere que, embora a paixão possa ser deslumbrante, a dor que fica é uma parte inevitável da experiência amorosa.

10. Se o fracasso tem dois lados
Sugere que a resposta ao fracasso influencia nosso crescimento. A escolha entre lamentar ou aprender com as frustrações é crucial. A "lição" é um ativo valioso que pode ser extraído das experiências difíceis.

11. Sobre opiniões e crenças
A ênfase aqui é no respeito mútuo e na importância das diferenças. A "teia de harmonia" sugere que a convivência pacífica e o entendimento entre diferentes visões de mundo são fundamentais para a sociedade.

12. Um cenário me devasta
Esta trova traz um tom de melancolia. A cena de solidão, com uma garrafa de champanhe e velas gastas, simboliza a busca por conexão e a tristeza de estar sozinho em momentos que deveriam ser comemorativos.

TEMAS ABORDADOS

Amor e Riqueza: 
A verdadeira riqueza não está no material, mas no amor que habita os lugares, sejam eles simples ou grandiosos.

Verdade e Ilusão: 
A sinceridade é mais valiosa do que viver em ilusões; enfrentar a verdade pode ser doloroso, mas é libertador.

Esperança: 
Descrita como um rio que flui incessantemente, a esperança é vital, mesmo que nunca chegue a um fim definitivo.

Superação: 
A resiliência é central nas adversidades; cada queda é uma oportunidade de recomeço e aprendizado.

Amor e Solidão: 
A imagem do cenário solitário com champanhe simboliza a busca por companhia e a tristeza da solidão.

AS TROVAS DE JERSON NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA

Temáticas Universais
As trovas podem refletir a busca pela verdade e a complexidade das emoções, semelhantes a temas em "Os Lusíadas" ou na obra de Pessoa, que aborda a melancolia e a identidade.

A valorização do interior e da vida simples nas trovas incorpora elementos da cultura local, refletindo costumes, linguagem e tradições que ressoam com a literatura regionalista, semelhante a autores como Guimarães Rosa e Jorge Amado.

Estilo Lírico
Utiliza uma linguagem poética e acessível, o que é uma característica comum na poesia contemporânea. A simplicidade das palavras, aliada à profundidade dos temas, permite que sua obra atinja um público amplo.

Reflexão sobre a Vida
As reflexões sobre a verdade, a experiência e as relações se alinham com a literatura contemporânea que explora a subjetividade e a busca por significado em um mundo complexo.

Crítica Social
Embora suas trovas sejam frequentemente pessoais, há uma crítica implícita à sociedade e suas expectativas, similar a muitos autores contemporâneos que abordam questões de identidade, classe e cultura. Como na literatura regionalista, há uma crítica subjacente às desigualdades sociais e às dificuldades enfrentadas pelas comunidades do interior, ecoando preocupações de autores como Rachel de Queiroz.

Intertextualidade
As trovas podem ser vistas como parte de um diálogo intertextual com outros poetas e escritores, refletindo influências e referências que são comuns na literatura atual, onde a interconexão entre obras é cada vez mais valorizada.

Exploração da Emoção
A exploração das emoções humanas de maneira honesta e crua é uma preocupação central na literatura contemporânea. Jerson, ao abordar temas como a dor e a alegria, contribui para essa tradição.

Conexão com o Cotidiano
A conexão com o cotidiano e a espiritualidade em suas trovas pode ser comparada à poesia de Adélia Prado, que frequentemente aborda temas de amor e fé em contextos simples e profundos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

As trovas revelam uma sensibilidade profunda às emoções humanas e uma reflexão sobre a vida. Ele aborda temas universais como amor, verdade, resiliência e solidão, convidando o leitor a refletir sobre sua própria experiência.

Suas trovas também refletem influências da literatura regional, incorporando elementos da cultura e do cotidiano do interior, o que estabelece uma conexão com escritores contemporâneos que buscam valorizar suas raízes e identidades locais.

A intertextualidade é evidente nos temas universais que ele aborda, como amor, solidão e superação, que são recorrentes na poesia contemporânea. Isso cria um laço com outras obras que tratam dessas experiências humanas, permitindo uma leitura mais rica. Esta intertextualidade não apenas enriquece sua poesia, mas também a conecta a uma tradição literária mais ampla e ao contexto contemporâneo. Essa rede de referências e diálogos permite uma leitura multifacetada, onde cada trova se torna um ponto de partida para novas interpretações e conexões.

As trovas de Jerson, com sua combinação de lirismo, reflexões profundas e crítica social, se insere bem no contexto da literatura contemporânea. Sua capacidade de tocar em questões universais e a forma como se relaciona com a experiência humana o tornam relevante e ressonante com as tendências atuais.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. vol.1. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Jessé Nascimento (Trovas em Preto & Branco)

 

1
Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem…
2
Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.
3
Com meus sonhos mais singelos,
embalados na esperança,
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
4
Corres tanto, mocidade,
és pela vida levada:
– amanhã, serás saudade,
serás velhice, mais nada.
5
Dos outros não dependamos,
mas cada um erga a voz;
a paz que tanto almejamos
começa dentro de nós
6
Na dureza da porfia
para moldar minha história,
Deus me abençoa e me guia
para chegar à vitória.
7
Não adormeças teus sonhos,
não os esqueças, jamais;
os dias são mais risonhos
pra aqueles que sonham mais.
8
Não censuro o teu pecado,
não me censures também;
de vidro é o nosso telhado,
pecados... quem não os têm?
9
Navegando nas poesias,
nas ondas da inspiração,
iço as velas de alegrias
deixo o rumo ao coração.
10
Nesta vida, de passagem
sem morada permanente,
numa tão breve viagem,
sou um turista somente.
11
O genro sempre é quem dança,
a minha sogra é um porre;
o nome dela é "Esperança"
que é a última que morre.
12
Sempre fui um sonhador,
sonhos...por que não os ter?
Vivo meus sonhos de amor
porque sonhar é viver.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

AS TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO EM PRETO E BRANCO
por José Feldman

AS TROVAS UMA A UMA

1. Ah, relógio, meu amigo
A metáfora do relógio representa a inevitabilidade do tempo. Os "ponteiros" que correm simbolizam a urgência da vida e a perda de sonhos. A ideia de que "com ele os sonhos morrem" sugere uma reflexão sobre como o tempo pode levar embora as esperanças e aspirações.

2. Após tantos desenganos
Aqui, há um tom de melancolia e arrependimento. O eu lírico reflete sobre as oportunidades perdidas e conselhos não seguidos. A frase "sem ter meus dias vividos" implica uma vida de experiências não aproveitadas, levantando questões sobre a valorização do presente.

3. Com meus sonhos mais singelos
Esta trova fala sobre a simplicidade dos sonhos infantis e a construção de "castelos" na imaginação. A conexão entre a infância e a esperança sugere que manter a inocência e a capacidade de sonhar é essencial para a felicidade.

4. Corres tanto, mocidade
A juventude é apresentada como efêmera, um período que rapidamente se transforma em saudade. A ideia de que a mocidade "serás velhice, mais nada" ressalta a transitoriedade da vida e a necessidade de aproveitar cada momento.

5. Dos outros não dependamos
Esta enfatiza a importância da autonomia e da responsabilidade pessoal. A paz interna é vista como um pré-requisito para a paz coletiva, sugerindo que a mudança começa dentro de cada indivíduo.

6. Na dureza da porfia
O esforço e a luta para moldar a própria história são reconhecidos. A presença de Deus como guia indica uma busca por força espiritual e moral para superar desafios, culminando em um desejo de vitória.

7. Não adormeças teus sonhos
Um forte apelo à persistência e à valorização dos sonhos. A ideia de que "os dias são mais risonhos" para aqueles que sonham sugere que a esperança e a ambição trazem alegria à vida.

8. Não censuro o teu pecado
Esta estrofe reflete a aceitação da imperfeição humana. O "telhado de vidro" simboliza a fragilidade das relações e a vulnerabilidade de cada um, reconhecendo que todos têm suas falhas.

9. Navegando nas poesias
A poesia é vista como um meio de libertação e alegria. O ato de içar as velas representa a disposição de seguir o coração e aproveitar a inspiração, sugerindo que a arte é uma forma de navegar pela vida.

10. Nesta vida, de passagem
A metáfora do "turista" implica que a vida é temporária e que devemos valorizar cada experiência. A ideia de "morada permanente" reflete a incerteza e a natureza efêmera da existência humana.

11. O genro sempre é quem dança
Aqui, o humor é utilizado para abordar as dinâmicas familiares. A sogra como "Esperança" sugere que, mesmo em meio a desafios, a esperança permanece, destacando uma visão otimista.

12. Sempre fui um sonhador
Esta trova reafirma a identidade do eu lírico como sonhador. A afirmação de que "sonhar é viver" encapsula a mensagem central das trovas: a importância dos sonhos para uma vida plena e significativa.

TEMAS ABORDADOS E SUAS RELAÇÕES COM OUTROS POETAS

As "Trovas de Jessé Nascimento" capturam a essência do tempo, dos sonhos e da vida com profundidade e sensibilidade.

Transitoriedade do Tempo
Em "O Tempo", Fernando Pessoa reflete sobre a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, semelhante à preocupação de Jessé com a efemeridade dos sonhos e a juventude que rapidamente se transformam em memória, assim como Marcelino Freire que explora a passagem do tempo e a efemeridade das experiências, refletindo sobre a vida de maneira intensa.

Esperança e Sonhos
Em seus poemas, Cecília Meireles fala sobre a importância da esperança e dos sonhos, ecoando a mensagem positiva de Jessé sobre a a importância de manter a esperança e sonhar, enfatizando que a vida é mais rica para aqueles que sonham.

Reflexão e Autoconhecimento
Em obras como "Sentimento do Mundo", Carlos Drummond de Andrade explora a introspecção e o autoconhecimento, temas que também permeiam as trovas acima, uma busca por compreender as próprias experiências, arrependimentos e a necessidade de aproveitar o presente. A poesia de Alice Ruiz é marcada por uma busca íntima e reflexões sobre a vida e o amor, dialogando com a introspecção presente nas trovas.

Individualidade e Coletividade
Em suas poesias, Adélia Prado e Rafael Cortez discutem a relação entre o eu e o outro, similar à necessidade de Jessé de encontrar a própria voz e contribuir para a paz interna e externa destacando a relação entre o indivíduo e a sociedade.

Aceitação da Imperfeição Humana
Com um tom leve e humorístico, Mário Quintana aborda a fragilidade humana em muitos de seus poemas, semelhante às trovas de Jessé que enfatizam a aceitação dos erros e falhas pessoais, reconhecendo a fragilidade das relações e a universalidade do pecado, assim como Thiago de Mello, conhecido por sua visão humanista.

A Vida como Viagem
Vinicius de Moraes reflete sobre a vida como uma jornada, um tema que ressoa com a visão na trova de Jessé, por intermédio da metáfora da vida como uma passagem ou viagem que sugere a importância de valorizar cada experiência, assim como Bruna Beber, que frequentemente utiliza metáforas de viagem e passagem, refletindo sobre a jornada da vida de maneira lírica e introspectiva.

Relações e Dinâmicas Familiares
O humor e a complexidade nas relações familiares são explorados, especialmente em relação à figura da sogra, como Juliana Leite aborda estas relações e complexidades, trazendo um olhar contemporâneo que ressoa com o humor e a leveza de Jessé.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A temática das trovas de Jessé Nascimento revela uma rica tapeçaria de reflexões sobre a condição humana, onde a transitoriedade da vida, a importância da esperança e a busca por autoconhecimento se entrelaçam de maneira profunda. Aborda a passagem do tempo com uma sensibilidade que ressoa em muitos leitores, convidando-os a contemplar a efemeridade dos sonhos e a inevitabilidade das mudanças.

A simplicidade de sua linguagem e a musicalidade de suas trovas tornam suas mensagens acessíveis, permitindo que temas universais, como amor, perda e as complexidades das relações humanas, sejam explorados de forma íntima e profunda. O uso de humor e ironia, especialmente em contextos familiares, oferece uma leveza que contrabalança a seriedade de suas reflexões, destacando a dualidade da experiência humana.

Além disso, o trovador enfatiza a importância da individualidade dentro de um contexto coletivo, sugerindo que a paz pessoal é fundamental para a harmonia social. Essa ideia ressoa fortemente em um mundo contemporâneo repleto de desafios, onde a busca por significado e conexão se torna cada vez mais urgente.

Enfim, as trovas de Jessé Nascimento não apenas capturam a essência da vida cotidiana, mas também oferecem um convite à introspecção e à valorização dos momentos simples. Sua obra se estabelece como um farol de esperança e reflexão, incentivando os leitores a sonhar, a viver plenamente e a encontrar beleza mesmo nas incertezas da vida.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco.  vol.1. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Vanda Fagundes Queiroz (Trovas em Preto & Branco)

 

1
A minha alma adolescente,
de braços dados com a vida,
parece nem ser parente
desta face envelhecida.
2
A primavera, suponho,
que tendo sonhos de amor,
faz, sim, com que cada sonho
nasça em forma de uma flor.
3
Chuva a molhar nosso riso,
riso feliz e molhado…
qualquer tempo é paraíso,
quando o amor é partilhado.
4
– Corte o texto!… Longo assim,
A ideia até se desdoura.
– Pois não, mestre, corto sim,
vou procurar a tesoura…
5
Entro em casa e, no consolo
de ter, no lar, proteção,
piso o primeiro tijolo…
e sinto o céu, no meu chão!
6
Fez plástica no nariz
e comprou peruca loura…
Pirracenta, a outra diz:
- Falta montar na vassoura…
7
Maior prêmio, no decurso
da vida de um trovador,
bem mais que ganhar concurso,
é erguer o troféu do amor!
8
Não basta apenas sonhar,
a vida requer firmeza
de agir, para transformar
uma esperança em certeza.
9
Neste mundo tão mesquinho,
é um prazer ouvir a voz
de quem faz o bem sozinho,
mas usa o pronome “Nós”.
10
Para um garoto, os quintais
eram reinos de magia,
guardando tesouros reais
nos mapas de fantasia…
11
Por mais que o progresso iluda,
deturpe e inverta valor,
o que Deus fez ninguém muda:
o amor será sempre amor!
12
Que imenso mundo se esconde
na pena de intenso brilho
que torna em sábio Visconde
um sabuguinho de milho…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

AS TROVAS DE VANDA EM PRETO E BRANCO
por José Feldman

AS TROVAS UMA A UMA

1. A minha alma adolescente
A poetisa reflete sobre a dualidade entre a juventude e o envelhecimento. A "alma adolescente" representa a vitalidade e a esperança, enquanto a "face envelhecida" sugere a experiência e os desafios da vida. Essa tensão entre o ser interior e a aparência externa provoca uma reflexão sobre a identidade e a passagem do tempo.

2. A primavera, suponho
Aqui, a primavera simboliza renovação e novos começos. Os "sonhos de amor" florescem, representando a capacidade de transformar aspirações em realidade. A imagem da flor é poderosa, sugerindo beleza, fragilidade e a natureza efêmera dos sentimentos.

3. Chuva a molhar nosso riso
A chuva é uma metáfora para a alegria compartilhada. Mesmo em tempos difíceis, o amor pode criar um "paraíso". Essa trova destaca a importância da conexão emocional e da partilha nas relações, sugerindo que a felicidade é, em grande parte, uma construção conjunta.

4. – Corte o texto!… Longo assim
Esta trova revela uma crítica à superficialidade na arte. De uma forma humorística, o "mestre" representa a voz da razão que busca simplificação, enquanto a resposta do eu lírico demonstra a disposição em questionar essa autoridade. A tesoura torna-se um símbolo da necessidade de edição e clareza na expressão artística.

5. Entro em casa e, no consolo
A casa é retratada como um santuário, um lugar de proteção e conforto. O "primeiro tijolo" simboliza a construção de um lar e de raízes. A expressão "sinto o céu, no meu chão" sugere uma conexão profunda entre o mundano e o espiritual, enfatizando a paz que se encontra em um ambiente seguro.

6. Fez plástica no nariz
Essa trova aborda a obsessão pela aparência e as pressões sociais que levam à transformação física. A crítica à superficialidade é evidente, com uma personagem que se transforma, mas ainda é alvo de zombarias. Isso provoca uma reflexão sobre a autenticidade e o valor interior versus exterior.

7. Maior prêmio, no decurso
O amor é exaltado como a verdadeira recompensa na vida de um trovador. Essa trova sugere que, embora o reconhecimento externo seja valioso, o amor é a realização mais significativa, ressaltando a importância das conexões afetivas.

8. Não basta apenas sonhar
Aqui, a poetisa destaca a necessidade de ação. Sonhar sem agir é insuficiente; a transformação de esperanças em certezas requer determinação. Essa mensagem é um chamado à proatividade e à responsabilidade na busca por objetivos.

9. Neste mundo tão mesquinho
A voz que faz o bem "sozinho" e usa "nós" sugere uma crítica ao individualismo. A coletividade e a solidariedade são valorizadas, destacando que ações altruístas são mais impactantes quando vistas como esforços conjuntos, reforçando a ideia de comunidade.

10. Para um garoto, os quintais
A evocação da infância e dos quintais como "reinos de magia" simboliza a imaginação e a descoberta. Os "mapas de fantasia" refletem a inocência e a capacidade de ver o mundo como um lugar cheio de possibilidades, evocando saudade e nostalgia.

11. Por mais que o progresso iluda
A poetisa critica a forma como o progresso pode distorcer valores. O amor, como uma essência divina, permanece imutável, destacando a importância de preservar o que é verdadeiro e significativo em meio às mudanças da sociedade.

12. Que imenso mundo se esconde
A metáfora do "sabuguinho de milho" transformado em "sábio Visconde" sugere que há um potencial oculto em tudo e todos. Essa ideia de transformação e descoberta da sabedoria interna reflete um otimismo sobre o crescimento humano e as possibilidades de mudança.

RELAÇÕES DA TEMÁTICA DAS TROVAS DE VANDA COM OUTROS POETAS

As trovas de Vanda F. Queiróz dialogam com diversos poetas, tanto antigos quanto contemporâneos, em vários aspectos. Vejamos:

1. Amor e Natureza
Em tempos de incertezas e crises emocionais, a ênfase de Vanda no amor como uma força transformadora destaca a sua relevância. O amor, em suas diversas formas, é um antídoto contra a alienação e a solidão, promovendo laços que fortalecem a comunidade.

Camões e Bocage frequentemente exploram o amor em conexão com a natureza. Camões, em particular, usa a natureza como um reflexo das emoções humanas. Adélia Prado e Maria Bethânia também utilizam a natureza para evocar sentimentos amorosos, similar ao que se vê nas trovas de Vanda.

2. Juventude e Envelhecimento
A tensão entre juventude e envelhecimento que permeia suas trovas convida à introspecção sobre a identidade pessoal em meio às pressões sociais. Essa reflexão é essencial em uma era em que a imagem e a aparência muitas vezes superam o valor interior.

Fernando Pessoa, especialmente em suas reflexões sobre a passagem do tempo em "Mensagem", aborda a dualidade entre o eu jovem e o eu maduro. Mário Quintana fala sobre o tempo e a nostalgia, ecoando as preocupações de Vanda com a alma jovem em um corpo envelhecido.

3. Solidariedade e Coletividade
A valorização do "nós" em suas obras se alinha com a crescente necessidade de ações coletivas para enfrentar desafios globais, como desigualdade social e crises ambientais. Vanda nos lembra da importância de agir em conjunto, promovendo um senso de comunidade.

Olavo Bilac, em sua obra, valoriza a união e a coletividade, refletindo sobre a importância do "nós". Cecília Meireles também destaca a importância das relações humanas e da coletividade em suas poesias.

4. Autenticidade e Aparência
A crítica à superficialidade e à obsessão por aparências é mais pertinente do que nunca. Em um ambiente saturado de redes sociais e comparações, suas trovas nos incentivam a buscar a autenticidade e a verdadeira essência do ser.

Gregório de Matos critica a hipocrisia social e a superficialidade em suas poesias, semelhante ao olhar crítico de Vanda. Chico Buarque, em suas letras, aborda questões de identidade e aparência, refletindo sobre a autenticidade.

5. Nostalgia e Inocência
A nostalgia e a inocência nas trovas de Vanda F. Queiróz não apenas evocam um sentimento de saudade, mas também funcionam como um chamado à redescoberta das qualidades essenciais da vida. Elas nos lembram da importância de manter viva a capacidade de sonhar, de valorizar as conexões emocionais e de encontrar beleza nas experiências cotidianas. Em um mundo que frequentemente prioriza o material e o efêmero, as trovas de Vanda oferecem um refúgio que valoriza o que é verdadeiramente significativo e duradouro.

Gonçalves Dias, em "Canção do Exílio", evoca a saudade e a nostalgia pela infância e pela terra natal. Marília Mendonça, em suas letras, traz uma forte carga emocional ligada à memória e à inocência perdida.

6. Ação e Transformação
A mensagem de que sonhar sem agir é insuficiente ressoa em um momento em que muitos buscam mudança, tanto em suas vidas pessoais quanto na sociedade. A necessidade de transformar esperanças em realidades é um chamado à ação que pode inspirar gerações atuais e futuras.

Machado de Assis frequentemente enfatiza a necessidade de ação e mudança social em suas obras. Hilda Hilst também fala sobre a importância de agir para transformar a realidade, alinhando-se com a mensagem de Vanda.

7. Mudanças e Permanência
A relação entre mudanças e permanência nas trovas de Vanda F. Queiróz cria um espaço para reflexão sobre a dualidade da experiência humana. Enquanto as mudanças são inevitáveis e muitas vezes desafiadoras, a poetisa nos lembra que certos elementos, como o amor e os valores fundamentais, oferecem estabilidade e significado. Essa interação entre o efêmero e o duradouro é um convite para encontrar beleza e profundidade nas transições da vida, celebrando o que realmente importa em meio às incertezas.

Vinicius de Moraes explora a permanência do amor em meio às mudanças da vida, uma temática que ressoa nas trovas de Vanda. Ruth Rocha também aborda a ideia de que, apesar das mudanças, o amor e as relações humanas permanecem centrais.

Essas relações mostram como Vanda F. Queiróz se insere em um rico diálogo literário, abordando temas universais que atravessam o tempo e ressoam em diferentes vozes poéticas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A temática das trovas de Vanda F. Queiróz, com sua rica exploração de amor, juventude, autenticidade e solidariedade, ressoa profundamente no contexto contemporâneo.

As trovas de Vanda não são apenas um testemunho da beleza poética, mas também um convite à reflexão sobre temas que continuam a ser relevantes em um mundo marcado por rápidas mudanças. Suas trovas servem como um farol, guiando-nos em meio às complexidades da vida moderna, reafirmando a importância do amor, da autenticidade e da solidariedade em um mundo que muitas vezes parece desumanizado. Ao resgatar esses valores, Vanda contribui para a construção de uma sociedade mais empática e conectada, essencial para o futuro que desejamos.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. vol.1. Maringá/PR: IA Poe Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

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