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sábado, 5 de setembro de 2026

Nilto Maciel (O Pecado de André Gide)


Bomfim fechou a porta e parou na calçada. Olhou para um lado, para outro e tirou a sorte: esquerda ou direita? Acendeu um cigarro, ergueu os olhos para o céu e seguiu. Nem os cachorros da noite davam sinal de vida e a luz fraca das lâmpadas dos postes se derramava sonolenta pelo chão. Sua sombra ia e vinha, a crescer e desaparecer, como num filme de terror.

Não havia nenhuma pressa em seus pés, nem sequer algum desígnio em seus olhos. Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios passos, para cansar-se e poder dormir. Em casa, os ratos brincavam de esconde-esconde, enquanto o gato morria de emoção no canto da parede. Os livros se espremiam na estante, Proust a empurrar Gide para lá, Thomas Mann a sufocar Hermann Hesse. Na sala, o alcatrão e a nicotina se misturavam à alfazema do desejo. A cama esparramava-se pelo quarto, desajeitada, fria, feia, feito mulher indesejável  – coberta de mofo, de lodo, de todos os cheiros ruins da solidão.

Na ponta da rua, uma nesga de luz cortava o chão da calçada de um amarelo claro e projetava a imagem retorcida e tosca de um fantasma. Que rugia, ou blasfemava, ou ameaçava. E Bomfim conteve mais a maciez dos passos e outra vez tirou a sorte: seguir ou voltar? Em seus olhos brilhou o último desígnio – o medo. E não voltou.

A figura se contorcia no chão, aureolada de ouro, poderosa, fascinante, a boca a espumar de desespero – insanamente.

Bomfim desviou-se para a ponta da calçada, quase apressado, um olho na réstia, outro em casa. Os ratos escalavam as paredes, o gato miava de prazer. Uma voz se colava aos seus calcanhares. Gide tombava, Hesse gemia.

Súbito, o braço agudo irrompeu de dentro da luz e Bomfim correu. E saltou pedras, chutou barros e espantou burros. Até desequilibrar-se e ir ao chão.

No corre-corre, o outro também tombou, deixando cair um punhal às mãos de Bomfim, que o agarrou e cravou na goela traiçoeira.

De volta à casa, encontrou tudo como antes – os ratos riam do gato, Proust empurrava Gide, a sala fedia a nicotina e o mofo inundava o quarto. Nem esperou pelo sono e caiu desajeitado no meio da cama – feito um homem repugnante.

E dormiu, muito, como nunca, a noite inteira, sem um sonho para contar. Amarguradamente só.

De manhã, correu aos jornais: o monstro havia voltado, o louco sanguinário, a fera noturna tinha feito mais uma vítima. O mesmo processo: punhaladas no pescoço. A cidade alarmada, a caça infrutífera, a violência urbana, o descalabro social.

Bomfim deu meia volta, abriu a porta de casa, aspirou a nicotina da sala, chamou os ratinhos de safados, alisou a lombada de Proust, abraçou-se a Gide e sentou-se na beira da cama. E se fosse à polícia contar tudo? Não, só se fosse muito ingênuo. Para virar monstro, louco, fera?

Abriu, ao acaso, seu Gide: “Nathanael, não acredito mais no pecado.”
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nilto Maciel. Itinerário: contos. Fortaleza, CE: Ed. do Autor, 1974. Livro enviado pelo autor.

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