Coração – pobre realejo –
com canções velhas e novas...
Tudo o que sinto, e o que vejo,
vais tocando.. . em minhas trovas…
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"QUEM CALCULA ?"
Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?
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"O ETERNO TRIÂNGULO... "
Aos meus ciúmes doentios
Tu me disseste ainda nua:
- De olhos abertos sou dele!
De olhos fechados, sou tua!
Ciúme tolo, policial,
Tão pretensioso, irritante,
Se eras casada... e afinal
Eu era apenas... amante...
E eis a suprema ironia
Ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
Mas, com quem? - com teu marido...
(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes... mil espreitas...
Hoje, nem sei onde andas,
Nem em que cama te deitas…
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"SER MÃE..."
Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
pois ser mãe – é perdoar!
Quando todos te abandonem
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois ser mãe – é compreender!
Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
pois ser mãe – sempre é se dar!
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"DIÁLOGO IMPOSSÍVEL"
Chama-me tu, por favor,
Se estamos juntos, e a sós...
- não ponhas este Senhor
tão importuno... entre nós...
Tu tão moça, eu tão vivido...
Tantos anos de permeio.
- Bem poderias ter sido
o grande amor que não veio...
Tu, moça, bela, tão calma...
Eu, inquieto, a alma ferida...
- O diabo leve a minha alma!
- Quero o amor de Margarida!
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"PORTUGAL"
Portugal, que, num segundo
da História, - do "era uma vez"
fizeste do mar - um mundo!
E o mundo - um mar português !
Portugal de D. Diniz
que em seus pinhais, em Leiria,
plantava naus que, feliz
o Infante Henrique, colhia!
Araste o Mar – tuas velas
abriram caminhos novos...
Teus grãos – eram caravelas!
E as colheitas – eram povos!
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"VOCÊ... E O NATAL..."
Festa na terra e no céu...
Só eu só... tão triste assim...
- Quem dera Papai Noel
trouxesse Você pra mim!
Quem dera Papai Noel
descendo pelos espaços
me desse um pouco de céu
pondo Você em meus braços...
Neste dia belo e doce
de festa, - sentimental,
- quem dera que Você fosse
meu presente de Natal !
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"FILOSOFIA..."
Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é... primeiro viver...
e depois... filosofar...
Vou pisando folhas mortas
sem amanhã... Sigo a esmo...
Fecham-se todas as portas...
Sou o fantasma de mim mesmo...
Disse Jesus certo dia
com bondade e com saber
- há mais alegria em dar,
muito mais - que em receber !
Não tinha paz nem descanso...
O amor... a vida.... – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem...
Diz que é rico... Pode ser...
Mas pode ser que não seja...
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja...
Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento...
Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele... que já morri...
Tu queres mais, sempre mais...
Sê comedido, prudente...
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente...
Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.
Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades... de agora.
- "Crê na Vida"- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça...
Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu
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"SORRIA..."
Esperava tanta luta
e tão pouco foi preciso:
ao invés da força bruta
ele empregou... um sorriso...
Eis a arte de viver
num conselho dos mais sábios:
às vezes, para vencer
basta um sorriso nos lábios...
Nem tanta coisa é preciso
para evitar-se um revés...
- Tão pouco... basta um sorriso
e eis todo mundo a teus pés…
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"MÃOS..."
Como aves desarvoradas
Depois de roteiros vãos
Tuas mãos vieram, cansadas,
Se aninhar em minhas mãos...
Há momentos... Acontece...
Puro, o amor pode ficar,
Como duas mãos em prece,
Esquecidas, a rezar...
Quando maior é o carinho
Às vezes, tenho a impressão
De que conversam baixinho...
Tua mão... em minha mão…
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JOSÉ GUILHERME DE ARAÚJO JORGE, imortalizado na literatura como J. G. de Araújo Jorge, foi um influente poeta, escritor, jornalista e político brasileiro. Nascido em Tarauacá, no Acre, em 1914, faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1987, aos 72 anos. Conhecido carinhosamente como o "Poeta do Povo e da Mocidade", ele equilibrou ao longo da vida o lirismo romântico e o forte engajamento social. Em Rio Branco (AC) viveu toda a sua infância, realizando os estudos primários. Mudou-se na juventude para o Rio de Janeiro para dar continuidade aos estudos secundários e superiores. Permaneceu radicado no Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal e Estado da Guanabara) durante a maior parte de sua vida adulta e profissional. J. G. teve uma atuação profissional multifacetada e dinâmica Atuou como jornalista, publicitário, locutor e redator em importantes emissoras da era de ouro do rádio, como a Rádio Nacional, Rádio Tupi, Cruzeiro do Sul e Eldorado. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Dotado de forte vocação pública, elegeu-se Deputado Federal em 1970 pelo antigo Estado da Guanabara. Exerceu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, onde chegou a ocupar a presidência da Comissão de Comunicação e a vice-liderança do partido de oposição à época (MDB).
Sua trajetória literária começou excepcionalmente cedo. Ainda estudante do tradicional Colégio Pedro II, foi eleito o "Príncipe dos Poetas" da instituição em 1932, sendo saudado pessoalmente pelo escritor Coelho Neto. Sua escrita se consolidou por meio de uma linguagem simples, fluida, musical e profundamente voltada aos sentimentos populares e às angústias sociais de sua época. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II e fundador e primeiro presidente da Academia de Letras da Universidade. Foi também um dos grandes articuladores e fundadores da União Brasileira de Trovadores (UBT) ao lado de Luiz Otávio, consolidando o movimento da trova no país. Logo na estreia, seu primeiro livro recebeu uma prestigiosa Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras (ABL). Durante seus anos de estudante na Europa, recebeu o título de "Estudante Honorário" da renomada Universidade de Coimbra, em Portugal.
Autor de uma obra vasta com mais de 30 títulos publicados, destacam-se: Meu Céu Interior (1934) – Obra de estreia poética ; Bazar de Ritmos (1935); Cântico dos Cânticos (1937); Amo! (1938); Cântico do Homem Prisioneiro (1941); Os Versos Que Te Dou (1949) – Um de seus maiores sucessos de público; etc.
J. G. de Araújo Jorge ocupa um lugar singular na literatura brasileira como o poeta do afeto e da acessibilidade. Embora muitas vezes combatido ou preterido pela crítica modernista mais rígida devido ao seu estilo assumidamente neorromântico, ele alcançou um feito raro: uma imensa e duradoura popularidade com o povo. Seus poemas e trovas eram amplamente recitados por jovens, apaixonados e estudantes de norte a sul do Brasil. Ao unir o lirismo romântico à poesia de protesto social e político, ele provou que o fazer poético não precisava ficar restrito aos círculos acadêmicos fechados. Sua contribuição fundamental ajudou a estruturar e eternizar a trova como um patrimônio cultural vibrante e democrático na Língua Portuguesa.
Fontes:
J.G. de Araujo Jorge . Trevo de Quatro Versos". 1. ed. Livraria São José, 1964.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Dicionário MPB, Antonio Miranda, etc.

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