Trovadores em Ordem Alfabética

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sábado, 5 de setembro de 2026

Figueiredo Pimentel (A Corda do Diabo)


Sinfrônio era um homem riquíssimo, dono de inúmeras propriedades e dispondo de fabulosas somas em ouro. Metendo-se, porém, em maus negócios, empobreceu de repente.

Vendo-se na mais completa miséria, resolveu sair do seu país, procurar uma terra onde não fosse conhecido, e ver se conseguia recuperar a fortuna perdida.

Um dia, atravessando uma planície, encontrou o diabo, a quem não reconheceu, todavia.

— Que tens? perguntou-lhe Satanás, conquanto soubesse perfeitamente bem a causa da tristeza de Sinfrônío.

— Para que dizer-te? — respondeu este. — Não me poderás dar remédio...

— Isso é que não sabes; e, desde já, obrigo-me a tirar-te do embaraço, se te obrigares a fazer tudo quanto eu disser.

Em seguida, vendo que Sinfrõnio estava espantado com aquela proposta, deu-se a conhecer.

O pobre homem não sabia que fazer, mas como se achava desesperado da vida, completamente pobre, resolveu aceitar a proteção de Satanás.

Prometeu ficar-lhe pertencendo, com a condição de enriquecer de novo.

— Pois bem, disse o demônio concluindo o pacto, de hoje em diante sair-te-ás bem de todos os negócios em que te envolveres. Se, entretanto, te achares alguma vez em perigo, bastará dizer “Dom Martinho, socorre-me!” e eu te aparecerei.

O capataz do inferno sumiu-se.

Sinfrônio, continuando viagem, chegou pelo meio da noite, a uma cidade.

Aí, certo de que triunfaria, resolveu roubar.

Em todas as casas que pretendia entrar, mal chegava, as portas abriam-se de par em par, encontrava os moradores profundamente adormecidos, e via à mão objetos preciosos.

Então meteu-se em altas empresas, e tornou-se um bandido célebre, terror de toda a região, saqueando viajantes.

Um dia foi preso.

Mal se viu na prisão, lembrou-se do seu protetor e exclamou:

— Dom Martinho, socorre-me!

O diabo apareceu logo e libertou-o.

Vendo-se livre, Sinfrônio recomeçou na sua antiga existência, cometendo toda a sorte de rapinagens.

Novamente foi preso, mas, como da primeira vez, invocou Satanás.

— Dom Martinho, socorre-me!

O demônio veio, mas Sinfrônio reparou que se demorara um pouco.

— Por que não vieste mais depressa?

— Estava ocupado, limitou-se o diabo a dizer laconicamente.

Mais tarde, depois de novos crimes e terríveis façanhas, o nosso herói caiu nas mãos da justiça.

Do fundo da sua prisão chamou Satanás que não veio.

Passaram-se dias, o processo já estava muito adiantado, e só faltava a sentença, quando finalmente mestre Lúcifer veio libertar o amigo.

Posto em liberdade, o bandido continuou ainda na sua horrível existência de rapinagem, com mais afã que nunca, em vez de se emendar.

Pela quarta vez foi preso, encerrado numa masmorra forte, e guardado por sentinelas.

Sem se inquietar muito, Sinfrônio gritou pelo demônio, segundo haviam combinado.

— Dom Martinho, socorre-me!

Decorreram semanas e semanas, até que, enfim, o juiz pronunciou a sentença, condenando-o à morte.

Marcou-se a data para a execução da sentença. Satanás, faltando à palavra, não acudiu à chamada.

Sinfrônio, escoltado pelo carrasco, e por soldados, caminhou para a praça e subiu à forca.

Foi só então que o capataz do inferno apareceu.

— Toma esta bolsa, disse-lhe ele. Aí, dentro estão vinte contos de réis. Dá-os ao juiz que ele te libertará.

O condenado, chamando o juiz, como que para lhe dizer as suas últimas vontades e confissões, fez-lhe a proposta.

O juiz, magistrado desonesto e avarento, escondeu a corda e disse para o povo:

Cidadãos: acaba de suceder um fato extraordinário, que pela primeira vez acontece: esquecemos de trazer a corda para enforcar o condenado. A execução fica pois, suspensa. Quem sabe se Deus não quis, por esse modo, mostrar a inocência do réu? Vai rever-se a sentença mas a justiça será feita.

Prepararam-se os executores para reenviar Sinfrônio para a cadeia.

Nesse intervalo o magistrado abriu a bolsa, mas só encontrou uma corda nova, em lugar dos vinte contos de réis.

Voltou-se indignado, exclamando:

— Cidadãos: acaba de aparecer uma. Foi Deus quem a enviou. Este homem é na verdade um bandido. Enforquem-no!

Passaram o laço no pescoço de Sinfrônio, que vendo-se estrangulado, bradou:

— Dom Martinho, socorre-me!

— Ah! disse o demônio aparecendo, eu não posso fazer nada, quando os meus amigos já estão com a corda no pescoço.

É assim que o diabo, fingindo querer salvar-nos, acaba sempre por trazer a corda para nos enforcar.
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ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL (conhecido no meio literário apenas como Figueiredo Pimentel) foi um prolífico e polivalente jornalista, romancista, poeta, cronista e folclorista brasileiro. Ficou imortalizado na história cultural por ser o grande pioneiro da literatura infantil e da compilação de contos populares e folclóricos voltados para crianças no Brasil. Nasceu em Macaé/RJ, em 1869. Faleceu precocemente na cidade do Rio de Janeiro, em 1914, aos 44 anos de idade. Embora tenha nascido no interior fluminense, viveu a maior parte da sua vida ativamente na capital federal, o Rio de Janeiro, que serviu de cenário e inspiração para grande parte de suas crônicas e reportagens. Iniciou sua carreira jornalística extremamente jovem, aos 17 anos. Foi redator de grandes veículos e ganhou imensa notoriedade a partir de 1907 ao assinar a famosa coluna "O Binóculo" no jornal Gazeta de Notícias. Por meio de suas crônicas diárias, ele ditava a moda, os costumes e os comportamentos da sociedade carioca da Belle Époque. Foi ele quem cunhou e popularizou o célebre slogan "O Rio civiliza-se", que embalou as reformas urbanas e culturais da capital. Também atuou brevemente na diplomacia.
Foi um autêntico polígrafo (escritor de alta produtividade). Transitou por estéticas variadas, flertando com o Parnasianismo, o Naturalismo e o Simbolismo. Paralelamente à literatura boêmia e aos seus "romances de sensação" (por vezes vistos como escandalosos para a época), ele promoveu uma revolução ao se voltar para as narrativas populares e o universo infantil. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras, que dava os seus primeiros passos no final de sua vida, mas foi correspondente internacional e redigiu sobre as letras brasileiras para a prestigiada revista francesa Mercure de France. Suas obras infantis foram gigantescos sucessos editoriais de venda.
O autor teve dezenas de livros impressos, divididos em fases distintas:
Fase Adulta (Poesia, Crônica e Romance Naturalista): Fototipias (1893) – Seu livro de estreia na poesia; O Aborto (1893) – Romance de estética naturalista; Livro Mau (1895) – Poesias de tom decadente e pessimista.
Fase de Folclore e Literatura Infantil (A famosa "Biblioteca Infantil" da Livraria Quaresma): Contos da Carochinha (1894/1896) – Sua obra mais famosa, que inaugurou o gênero no país; Histórias da Avozinha (1896); Histórias da Baratinha (1896); Teatrinho Infantil (1896) – Considerado o pioneiro em publicar textos dramáticos para crianças no Brasil; Histórias do Arco da Velha.
A relevância histórica de Figueiredo Pimentel é imensurável por dois motivos centrais: ele foi o pai fundador da literatura infantil brasileira e um dos primeiros a aclimatar e democratizar o folclore para as crianças. Antes dele, não existiam livros editados no Brasil pensando especificamente no público infantil; as crianças liam traduções diretas e áridas vindas de Portugal. Pimentel teve a sensibilidade de pegar os contos de fadas clássicos europeus (de Perrault, Andersen e dos Irmãos Grimm) e as fábulas populares, reescrevendo-os em uma linguagem simples, fluida, brasileira e musical. Ao registrar e popularizar narrativas da tradição oral e folclórica local na coleção da Livraria Quaresma, ele preparou o terreno e formou a base de leitores para que, décadas mais tarde, autores como Monteiro Lobato pudessem expandir o universo literário nacional.

Fonte:
Figueiredo Pimentel. Histórias da baratinha. Publicado originalmente em 1896.
Biografia = Wikipedia, UFSC (Literatura Brasileira), UERJ (publicações), Antonio Miranda, Blitz Literária, Editora Atena, etc.

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