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sábado, 5 de setembro de 2026

Manuel Bandeira (Antologia Poética)


MINHA GRANDE TERNURA

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.
= = = = = = = = = = = = = =  

NATAL SEM SINOS

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ali meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, o sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.
= = = = = = = = = = = = = =  

NATAL

Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh’alma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana - pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
= = = = = = = = = = = = = =  

NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.
= = = = = = = = = = = = = =  

NOITE MORTA

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras
Sobras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
= = = = = = = = = = = = = =  

NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido
Poeta sórdido:
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim
muito bem engomada,
e na primeira esquina passa um caminhão,
salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poeta deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas,
as estrelas alfas,
as virgens cem por cento
e as amadas que envelheceram sem maldade.
= = = = = = = = = = = = = =  

O ANEL DE VIDRO

Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, -
Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
MANUEL CARNEIRO DE SOUSA BANDEIRA FILHO é um dos maiores nomes da literatura em Língua Portuguesa. Nascido em Recife/PE, em 1886, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1968, aos 82 anos de idade, em decorrência de uma hemorragia gástrica. Passou a infância na "casa de seu avô" (eternizada em seus poemas). Mudou-se com a família aos 10 anos para o Rio de Janeiro onde residiu a maior parte de sua vida. Em São Paulo/SP mudou-se temporariamente para estudar. Devido ao diagnóstico precoce de tuberculose em 1904, morou em busca de tratamento em cidades como Campanha (MG), Petrópolis (RJ), Teresópolis (RJ) e passou um ano internado no sanatório de Clavadel, na Suíça. Manuel Bandeira ingressou no curso de Engenharia-Arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, mas abandonou os estudos devido à saúde frágil. Dedicou-se inteiramente às letras. Trabalhou como crítico literário, crítico de arte, cronista e tradutor para diversos jornais e periódicos. Foi nomeado professor de Literatura no tradicional Colégio Pedro II, onde lecionou de 1938 a 1943. Atuou como professor catedrático de Literaturas Hispano-Americanas na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ), aposentando-se em 1956. 
Iniciou sua trajetória literária ainda sob a influência do Parnasianismo e Simbolismo, mas tornou-se um dos precursores e expoentes da Primeira Fase do Modernismo brasileiro. Embora não tenha comparecido presencialmente à Semana de Arte Moderna de 1922, seu poema emblemático "Os Sapos" foi lido no evento, servindo como uma demolição satírica da poesia parnasiana. Foi eleito em 1940 para a Academia Brasileira de Letras. Recebeu o prestigioso Prêmio Ibiriá da Sociedade Felipe d'Oliveira pelo conjunto de sua obra poética, além do Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro.
Principais Livros Publicados: A Cinza das Horas (1917) – Obra de estreia, marcada pelo tom melancólico e intimista; Carnaval (1919) – Onde começa a experimentar a liberdade de composição rítmica; Libertinagem (1930) – Sua obra-prima modernista, contendo os célebres poemas "Vou-me Embora pra Pasárgada" e "Poética"; Estrela da Manhã (1936); Lira dos Cinquent'anos (1940); Itinerário de Pasárgada (1954) – Obra em prosa de cunho autobiográfico e memorialista; Estrela da Vida Inteira (1966) – Coletânea que reúne sua poesia completa.
A importância de Manuel Bandeira reside em sua capacidade única de aproximar a alta poesia da linguagem cotidiana e coloquial. Sob a constante sombra da morte (pela tuberculose), ele transformou o lirismo brasileiro ao introduzir o verso livre, o humor fino, a autoironia e o lirismo focado nas pequenas coisas do dia a dia, nos desvalidos e na infância perdida. Bandeira libertou a poesia das amarras formais rígidas do passado, consolidando a identidade estética do Modernismo e provando que qualquer elemento da vida — por mais simples ou trágico que seja — é matéria-prima para a arte.

Fontes:
Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Publicado originalmente em 1966.
Biografia = Wikipedia, E-Biografia, Academia Brasileira de Letras, Brasil Escola, 
E-Biografia, Toda Matéria, etc.

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