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sábado, 5 de setembro de 2026

José Feldman (Contos para crianças) O Abraço Possível


Era uma manhã ensolarada na Clareira Verde. O coelho Leco dava saltos tão altos que suas longas orelhas balançavam no vento. Ele transbordava alegria. Havia acabado de ganhar a corrida anual dos bichos e mal podia esperar para comemorar com sua melhor amiga, a ouriça Tatá.

Ao avistá-la perto de um pé de amoras, Leco correu em disparada, gritando:

— Tatá! Eu venci! Eu venci!

E, no embalo da empolgação, Leco abriu os braços para dar aquele abraço de urso — ou melhor, de coelho.

— Espere, Leco! Não corre tanto! — avisou Tatá, encolhendo-se instintivamente.

Mas foi tarde demais. Plim! Plim! Ui!

Leco freou abruptamente, dando um pulinho para trás e massageando o próprio peito.

— Ai, ai, ai! Esqueci que você está cheia de espinhos hoje, Tatá! — disse Leco, rindo de nervoso e fazendo careta.

Tatá olhou para baixo, chateada. Seus espinhos estavam todos eriçados por causa do susto.

— Desculpa, Leco... Eu queria muito te dar um abraço de parabéns. Mas o meu corpo é assim. Se eu me emociono ou me assusto, meus espinhos sobem. Eu não queria te machucar.

Leco, vendo a amiga murchar, esqueceu a dorzinha na mesma hora. Ele sentou-se na grama e colocou a pata no queixo, pensando.

— Não fica triste, Tatá. A culpa foi minha, eu vim correndo que nem um foguete! Mas... tem que ter um jeito. Todo mundo comemora com um abraço. Como é que a gente vai fazer?

Tatá pensou um pouco, olhou para os lados e viu uma grande folha de bananeira caída no chão. Os olhos dela brilharam.

— Já sei! Leco, pegue aquela folha ali!

Leco correu, pegou a folha e a estendeu entre os dois.

— E agora? — perguntou o coelho.

— Agora, nós nos abraçamos com a folha no meio! Ela protege as suas patinhas dos meus espinhos! — sugeriu Tatá, animada.

Eles tentaram. Leco apertou a folha de um lado, Tatá do outro. Mas a folha era tão grossa e rígida que eles mal conseguiam se sentir.

— Hum... não deu muito certo — disse Leco, soltando a folha. — Parece que estou abraçando uma parede de planta. Eu quero sentir o carinho da minha amiga!

— É verdade — suspirou Tatá. — E se a gente tentar o "abraço de costas"? Minha barriga não tem espinhos, é bem macia.

— Boa ideia! — topou Leco.

Tatá virou de frente para Leco, e Leco ficou de costas. Eles tentaram se encostar, mas as orelhas compridas de Leco começaram a fazer cócegas no nariz de Tatá.

— Atchim! — espirrou a ouriça. Com o espirro, ela deu um pulinho e Zás! — quase espetou o bumbum do coelho.

— Opa! Quase! — Leco deu um salto para frente, rindo. — Esse é perigoso demais!

Os dois sentaram na grama, um de frente para o outro, pensativos. O vento soprava suave, balançando as flores da clareira. Tatá olhou para suas próprias patinhas e depois para as patas longas de Leco.

— Leco... e se o abraço não precisar ser com o corpo todo? — perguntou Tatá, timidamente.

— Como assim?

— Olha só. Estica a sua pata direita.

Leco esticou a pata peluda e macia. Tatá, com muito cuidado para não erguer nenhum espinho, esticou sua patinha pequena e a encostou na palma da pata de Leco. Depois, ela entrelaçou seus pequenos dedos nos dedos dele. Com a outra pata, ela tocou o ombro de Leco, onde não havia espinhos, e Leco encostou o nariz comprido e quentinho bem no topo da cabecinha de Tatá, onde os espinhos eram bem baixinhos.

Eles fecharam os olhos. Não havia pressa, não havia dor, e nenhum espinho subiu.

— Puxa... — sussurrou Leco, com um grande sorriso. — Estou sentindo o abraço. É quentinho igual.

— É o nosso abraço — disse Tatá, feliz da vida. — O Abraço Possível.

A partir daquele dia, sempre que queriam comemorar ou demonstrar carinho, Tatá e Leco não corriam para se esbarrar. Eles se aproximavam devagar, esticavam as patinhas e inventavam um novo toque que fosse confortável e seguro para os dois. Afinal, o afeto não estava na força do impacto, mas no cuidado de estarem juntos.
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Moral: 
O verdadeiro carinho não machuca e nem força espaço. Amar e ser amigo de alguém significa encontrar maneiras criativas de demonstrar afeto, respeitando sempre os limites e o corpo do outro.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Aventuras de Leco e Tatá: contos para crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

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