Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (13)
  • F (13)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (27)
  • L (33)
  • M (31)
  • N (7)
  • O (11)
  • P (4)
  • R (18)
  • S (12)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (3)
  • Z (3)

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Zaé Júnior (Tertúlia da Saudade)


1
Ao cumprir o meu dever
de filho, de pai, de irmão,
aprendi que compreender
vale mais que ter razão!
2
A ternura que deixaste,
pai, qual herança tão nobre,
deixou-me na alma o contraste
de ser rico... sendo pobre!
3
Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
4
Cansado, mas com coragem
de continuar a jornada,
a vida é a minha bagagem,
que vou deixando na estrada!
5
Com pena das minhas penas,
tais penas o assum levou,
e apenas penas pequenas
das próprias penas deixou!
6
Copiando os astros distantes,
o sereno, em seus desvelos,
pousa estrelas de diamantes
na noite de teus cabelos!
7
Depois da chuva inclemente,
levando um pássaro morto,
o ninho, na água corrente,
é nau fantasma e sem porto!
8
Depois do amor sem censura,
nossos agrados sutis,
dizem coisas de ternura
que a nossa boca não diz!
9
Dividindo, sem paixão,
tudo o que nos pertenceu,
levaste o teu coração,
mas não me deixaste o meu!
10
Do teu perfil, na verdade,
só podes ver um pedaço,
pois para a tua vaidade,
o espelho tem pouco espaço!
11
Em frente à perfumaria,
enquanto o ônibus espera,
pergunta o cego ao seu guia:
- Já chegou a primavera?
12
Em silêncio vejo pura,
disfarçada em teu olhar,
a lágrima de ternura
que não querias chorar!
13
E quando o inverno chegar,
saudosos, em seus desvelos,
meus dedos irão esquiar
na neve dos teus cabelos!
14
Fiz da vida um labirinto,
do qual, se eu tento escapar,
quanto mais fujo, mais sinto
que estou no mesmo lugar!
15
Há quem renove a esperança
e com promessas se iluda...
mas o Ano Novo é mudança,
que em verdade nada muda!
16
Herói, que vence o cansaço
da vida em rude batalha,
tem no peito um marca-passo,
sua invisível medalha!
17
Lembra? Eu brincava de Rei,
você... de escrava brincava;
do meu sonho hoje acordei,
escravo de minha escrava!
18
Manhã... a geada caindo...
Mas se do inverno estou farto,
beijo os teus olhos se abrindo
e é primavera em meu quarto!
19
Meu barraco, sem queixume,
fiz com redes de cipós...
mas a vida, com ciúme,
um a um desfez os nós!
20
Meu cirquinho no quintal
era um circo de verdade;
na infância, não tinha igual
nem tem igual na saudade!
21
Meu pai, a tua bondade,
que nos deu pão na pobreza,
é agora a farta saudade
que se serve em nossa mesa!
22
Meu reino é um casebre antigo
onde um sol, sem majestade,
vem, de cócoras comigo,
aquecer minha saudade!
23
Na Academia onde moram,
em sussurrante coral,
os imortais também choram
a morte de um imortal!
24
Na existência dividida
pela incompreensão da idade,
se não te encontrei em vida,
te encontro, pai, na saudade!
25
Na infância a gente brincava,
eu de sol, você de lua...
e o universo começava
e acabava em nossa rua!
26
Não me agrada a falsa glória
que o jogo da vida tem,
pois sei que toda vitória
sempre é derrota de alguém!
27
Não queiras cobrar com sangue
o mal que te machucou,
pois o mal é um bumerangue
que volta à mão que atirou!
28
Na penumbra, sobre a toalha,
vultos que a vela produz
mostram que a sombra não falha,
por menor que seja a luz!
29
No meu palco de ilusão,
quando se fecha a cortina,
ao terminar a sessão,
a ilusão nunca termina!
30
No princípio, a solidão,
mas tu voltaste... e depois,
não coube em meu coração,
o que restou de nós dois!
31
O atalho me leva à ermida,
a ermida me leva a Deus;
e Deus me leva à outra vida,
que a levou dos olhos meus!
32
O bonde rangeu nos trilhos,
meu pai desceu, não sei onde...
Seguimos, a mãe e os filhos,
sozinhos no mesmo bonde!
33
O chão não é de ninguém
nem do seu "dono", um instante;
do chão os homens só têm
sete palmos... e é o bastante!
34
O meu sonho é um passarinho,
que de voar ficou farto
e acabou fazendo o ninho
na janela do meu quarto!
35
O poeta mais que o soldado,
se quiser ser vencedor,
terá que amar, ser amado,
e só perder por amor!
36
O tempo é como a caverna,
que não tem volta nem fundo,
onde a vida, que é eterna,
dura apenas um segundo!
37
Ouço a melodia amena,
que vem do cosmos disperso
e minha alma, tão pequena,
ganha amplidão de universo!
38
Plantando a vida se cansa...
e o caboclo, sem espaço,
colhe tão pouca esperança,
que não vale o seu cansaço!
39
Quando a saudade é saudade,
saudade que faz penar,
saudade é felicidade
que se foi e quer voltar!
40
Quando a seresta termina
sob o lampião do jardim,
a solidão, em surdina,
toca apenas para mim!
41
Quem perde o tempo não sabe
que perde a vida também,
pois jamais a vida cabe
no tempo que a gente tem!
42
Queres ferir-me gritando,
mas em soluços aflitos,
os teus murmúrios chorando
me ferem mais que teus gritos!
43
Sagrado seja esse chão
no qual rezando, o roceiro
planta o próprio coração,
para a fome do ano inteiro!
44
Se descobrir é preciso,
mais preciso é navegar;
"Terra à vista"... e um paraíso
floresceu além do mar!
45
Sem abrigo, ao vento forte,
sem jardim e sem escolha,
sou frágil trevo sem sorte
à espera da quarta folha!
46
Sem família, na orfandade,
aprendi triste lição;
quanto mais dói a saudade,
menos dói a solidão!
47
Sem fronteiras, num só laço,
os homens são mais felizes,
pois a Terra, lá do espaço,
não se divide em países!
48
Seu regresso foi surpresa,
pois já ninguém o esperava;
nem sentou... tinha outro à mesa,
na cadeira em que sentava!
49
Teu olhar azul celeste
só sabia dizer não;
tantos não azuis disseste,
que azul virou poluição!
50
Vovó, desfiando o rosário
das peraltices que fez,
foi zerando o calendário,
virou criança outra vez!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Zaé Júnior (1928 – 2020)
ZAÉ MARIANO CARVALHO DO NASCIMENTO JÚNIOR foi um intelectual múltiplo e fascinante: publicitário, radialista, jornalista, roteirista de cinema e TV, músico, desenhista e, acima de tudo, um dos mais reverenciados trovadores e poetas da língua portuguesa no século XX. Nasceu em 1928, em Botucatu/S e faleceu em 2020, em São Paulo/SP, aos 92 anos de idade, após enfrentar as complicações do Mal de Alzheimer. ‘Embora guardasse imenso orgulho de suas raízes botucatuenses e se autodeclarasse um "bom caipira", ele mudou-se para a capital paulista ainda na infância, na década de 1930, onde residiu e trabalhou pelo resto de sua vida. Começou a trabalhar aos 14 anos como desenhista técnico de letras miúdas na antiga Serviços Hollerith. Logo depois, passou a desenhar histórias em quadrinhos e caricaturas para revistas de circulação paulista. Teve uma carreira gigantesca na era de ouro das telecomunicações brasileiras. Trabalhou nas lendárias Rádio Cosmos e Rádio Gazeta. No rádio e na televisão, destacou-se como diretor de programação e roteirista. É dele, por exemplo, o roteiro da celebrada telenovela A Deusa Vencida (escrita originalmente por Ivani Ribeiro). Foi o fundador e principal mente criativa da renomada agência Promark Propaganda e Marketing.
Iniciou-se na poesia formal logo aos 10 anos de idade, exercitando a feitura de sonetos "a quatro mãos" ao lado de seu pai. Ingressou no auge do movimento de consolidação da trova no país. Ele ficou conhecido pela sua extraordinária agilidade mental e pelo rigor métrico intocável de suas composições. Além de escrever, era músico autodidata (tocava violão e piano), fundindo frequentemente o ritmo musical à cadência rítmica de seus versos. É um dos poetas mais vitoriosos em Jogos Florais pelo Brasil. Venceu e foi classificado dezenas de vezes nos principais certames nacionais, como os tradicionais Jogos Florais de Nova Friburgo, Taubaté e Pouso Alegre. Livros Publicados: Entre ensaios, poesias e compilações, destaca-se sua celebrada obra: O Homem e seu Quintal; 1001 Trovas de Zaé Júnior.
A importância de Zaé Júnior reside no fato de ele ser o "trovador dos trovadores" Quebrou o estigma de que a trova servia apenas para o gracejo ou para o romantismo ingênuo. Zaé colocou dilemas existenciais profundos, angústias urbanas e metalinguagem poética na rígida redondilha maior, criando verdadeiras obras-primas da síntese poética. Unindo sua atuação literária à sua relevância na rádio e na TV paulista, ele ajudou a moldar os padrões narrativos da comunicação nacional, sem nunca deixar morrer a tradição clássica da poesia com forma fixa. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Luiz Carlos Abritta (Tertúlia da Saudade)

A natureza se vinga de toda agressão sofrida e essa revolta respinga no centro de nossa vida! = = = = = = = = = = = = = Aos jovens dou um co...