de toda agressão sofrida
e essa revolta respinga
no centro de nossa vida!
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Aos jovens dou um conselho,
nesta vida tão incerta:
não se olhem tanto no espelho
pois Narciso é morte certa!
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Ao teu prazer eu me entrego
- seja lá o que quiseres –
pois te escolhi, eu não nego,
entre todas as mulheres.
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As tuas mãos - que brancura
- que bonito de se ver,
pois elas têm a ternura
dos lírios do amanhecer.
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Busco de novo a verdade
na aspereza dos caminhos,
e só encontro a saudade,
a solidão dos sozinhos!
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Casaste... triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
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Depois de fazer a ronda,
o galo ficou danado:
a galinha, tão redonda,
quis botar ovo quadrado!
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Desde que tu foste embora,
tua saudade é açoite
que já começa na aurora
e dói mais durante a noite!
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Dessa forma Cristo pensa:
"maior será o perdão
quanto maior for a ofensa".
- Que bela e sábia lição!!
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De todo "não" que me deste,
o que mais triste me fez
foi aquele que disseste
disfarçado num "talvez".
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Do meu verso é sempre a fonte
essa cidade lendária
chamada Belo Horizonte,
a Capital centenária!
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Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
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Em cada nota eu receio,
na pauta que a vida escreve,
que transformem nosso enleio
numa simples semibreve.
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É muito estranho, meu bem,
o relógio do destino:
vai de manso, vai e vem,
depois bate em desatino!
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E se em tupi é “kiri”
e lá na Itália “bambino”,
no sul só falam “guri”:
diabruras de “menino’!
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Essa vitória alcançada
nos obriga a meditar:
sem o povo não há nada,
que verdade singular!
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Eu bem sei que tu me esperas
e, se te vejo, ao sol-posto,
projeto um céu de quimeras
na moldura do teu rosto!
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Eu confesso abertamente,
e disso não me envergonho,
que tu foste, simplesmente,
o amplo portal do meu sonho.
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Eu sei que o belo e a verdade
caminham juntos na vida
e atinjo a felicidade
se a ternura é dividida.
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Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!
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Eu te amo tanto, mas tanto
que já pus num pedestal
toda a glória desse encanto,
que se tornou imortal.
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Eu te digo, com alegria,
e a realidade comprova
que o melhor da poesia
é a beleza de uma trova.
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Eu tenho perseverança
e à tristeza me anteponho:
garimpeiro da esperança,
sempre vivi do meu sonho.
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Foi no tempo da janela
e do namoro à distância
que a vida, muito mais bela,
tinha tão grande importância!
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Jamais eu temo o fracasso
pois me deste o teu amor
e a simples força do abraço
me transforma em vencedor!
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Na magia desse sonho,
nessa noite calma e pura,
a sonata que componho
tem as notas da ternura.
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Não foi perto, nem distante:
o nosso amor, ideal,
nasceu da luz de um instante
e se tornou imortal!
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Não me queres... pouco importa...
Só penso no alvorecer,
pois ele sempre abre a porta
à sedução de viver!
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Nas horas mortas da noite,
sem luar e bem-querer,
tua ausência é puro açoite
que duplica o meu sofrer.
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Na tessitura do sonho,
vou cortar, sem mais tardança,
esse nó górdio que imponho
a um amor sem esperança.
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Navegador solitário,
singrando as águas do mar,
jamais pensa em numerário,
mas conjuga o verbo amar!
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Nem o sofista profundo
esta verdade falseia:
quem se julga rei do mundo
é um pequeno grão de areia!
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Nenhum amor se constrói
só com flores e ternura,
pois aquele que mais dói
certamente é o que mais dura.
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Nessa vereda que é a vida,
vou de tropeço em tropeço,
pois cada nova subida
é sempre um novo começo.
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Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
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Nosso amor já teve história
e, por isso, eu te proponho
seja posto na memória
do relicário do sonho.
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Novo estatuto vigora
nas leis do amor hoje em dia:
sei que vale mais o agora
do que a mais bela utopia!
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Numa alquimia de nume,
à tristeza me anteponho,
transformando teu perfume
no perfume do meu sonho!
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O açougueiro viu passando
a mulher que é só pele e osso
e disse, a faca afiando:
"Isso é carne de pescoço".
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Olhando o tempo passar,
no relógio da memória,
eu senti coisa invulgar,
pois revivi nossa história!
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O que conta nessa vida
não é tempo nem idade,
mas a procura renhida
da deusa felicidade.
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O tempo passa depressa
e tão rápido ele flui
que nunca mais recomeça:
– sou a sombra do que fui.
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Quando o cãozinho e o menino
se abraçam por um segundo,
solto o canto peregrino:
- Há salvação para o mundo!
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Quis esquecer-te... não pude:
a saudade é traiçoeira
e ela sempre nos ilude,
pois nos prende a vida inteira!
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Quis retratar um romance
que fosse mesmo um primor,
e fiz, com tinta e nuance,
uma aquarela de amor.
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Sempre foste minha amada
e, no doce cativeiro,
sem algema e sem mais nada,
tu me prendes por inteiro.
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Se não me dás teu carinho,
se não me queres amar,
sou barco triste e sozinho,
que já não quer navegar.
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Se navegar é preciso
e viver nem tanto assim,
vou partir com teu sorriso,
em busca do mar sem fim!
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Se todos temos defeitos,
se o mistério vem de Deus,
se nem os bons são perfeitos,
o que dizer dos ateus?
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Somos poeira que a vida
sempre leva de roldão;
em sua sanha atrevida,
ela não vê coração.
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Só se louva a juventude,
porém jamais alguém disse
que só se atinge a virtude
quando se alcança a velhice.
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Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
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Todos querem sufocar,
com disfarces atrevidos,
e sordidez invulgar,
o grito dos excluídos .
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Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem.
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Tu partiste... e essa magia
que deixaste no meu peito
vai fazer que certo dia
tu voltes de qualquer jeito.
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Vejo o mar em ondas mansas
- foto de rara beleza -
e, reforçando as lembranças,
um céu chamado Veneza!
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"Veredas, grandes sertões"...
a nossa vida é uma estrada
toda cheia de senões,
do início ao fim da jornada.
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Vou definir a saudade
e não sei se estarei certo:
saudade é aquela vontade
de que o longe fique perto.
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Luiz Carlos Abritta (1935 – 2021)
LUIZ CARLOS ABRITTA, uma das figuras mais proeminentes do movimento trovístico brasileiro, além de renomado jurista e intelectual do estado de Minas Gerais nasceu em 1935, em Cataguases, na Zona da Mata Mineira. Filho do magistrado e influente poeta modernista Oswaldo Abritta (membro fundador da célebre Revista Verde na década de 1920) e de Yolanda Nery Abritta. faleceu em 2021, aos 86 anos, na cidade de Belo Horizonte/MG. Embora tenha nascido em Cataguases e atuado em várias comarcas do interior mineiro, fixou residência permanente em Belo Horizonte. Construiu uma carreira jurídica brilhante e de altíssimo escalão no estado. Bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) na turma de 1958, ingressou na carreira em 1964, atuando como Promotor de Justiça nas comarcas de Rio Piracicaba, Minas Novas, Brumadinho, Itabira e Belo Horizonte. Em 1982, foi promovido ao cargo de Procurador de Justiça. Foi presidente da Associação Mineira do Ministério Público (AMMP), Juiz do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) e atuou como Presidente do Tribunal de Ética da OAB/MG.
Abritta herdou o gosto pelas palavras de seu berço modernista, mas consagrou-se nacionalmente no universo da trova. Alcançou o topo da representação do gênero no país e produziu uma vasta obra que engloba poesias, discursos e ensaios. Com mais de uma dezena de livros publicados, destacam-se: Pó...emas; Nada vale a pena; A história do Movimento Modernista em Cataguases; Sonho e saudade; Aurora plena; Um homem plural; Críticas criticáveis Foi um líder e aglutinador da intelectualidade e dos trovadores, comandando as principais instituições do gênero, sendo Presidente Nacional da UBT, tendo presidido também a seção estadual de Minas Gerais e a seção municipal de Belo Horizonte. Foi presidente e presidente emérito da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG), fundador e primeiro presidente da Academia de Letras do Ministério Público de Minas Gerais (ALEMP) e, nos seus últimos anos de vida, presidiu o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG).
Conquistou inúmeros prêmios em concursos de trovas e competições literárias em âmbito nacional. A importância dele Carlos Abritta repousa em sua impressionante capacidade de equilibrar o rigor técnico e o lirismo da trova. Suas principais contribuições foram: Como Presidente Nacional da UBT, ele foi um pilar fundamental para manter viva, organizada e dinâmica a tradição da trova em todo o Brasil. Ele expandiu os horizontes literários criando espaços de produção e memória onde a literatura não costumava ter cadeira cativa, como a fundação da Academia de Letras no seio do Ministério Público. Vindo de uma linhagem intimamente ligada ao Modernismo de 1922 em Minas, soube valorizar a história literária mineira enquanto defendia a beleza clássica e a rima perfeita que a trova exige.
(Biografia produzida pelo Blog: Garimpos em diversos sites pela internet)

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