A cantar, a minha vida,
eu canto em qualquer cidade,
mas minha terra querida,
eu não canto sem saudade!
2
Agora sou nau sem rumo,
que zarpou da mocidade,
para encalhar, eu presumo,
no banco duma saudade.
3
A mãe da gente é uma luz
que brilha, brilha e rebrilha:
dá-nos vida e nos conduz
pela mais sagrada trilha.
4
Amor que não tem saudade,
é planta que não dá flor;
amor que é amor de verdade,
na saudade é mais amor.
5
A mulher é diferente
no terreno da emoção:
- O homem diz sim e consente,
ela consente e diz não!
6
Às vezes, na multidão,
estou só sem ver ninguém,
porque a maior solidão
é estar longe do meu bem.
7
A vagar pela cidade
hoje, bem longe de ti,
vejo, através da saudade,
o tesouro que perdi.
8
Beba água mineral
e viva despreocupado,
porque água só faz mal
para quem morre afogado.
9
Cônscio de que nada valho,
quando te beijo, formosa,
eu sou uma gota de orvalho
que tremeluz numa rosa.
10
Convidei a minha sogra
pra passear no Butantã:
a velha mordeu a cobra,
e a cobra ficou tantã!
11
Curitiba, paraíso
que mil encantos encerra,
linda Cidade-Sorriso:
– Sorriso da minha terra!
12
Dentro de certas pessoas
há duas forças latentes:
uma que as torna tão boas,
outra que as vira serpentes.
13
Desde que cedo me acordo,
até que à noite me deito,
com saudade te recordo,
meu único amor perfeito!
14
Em noites de lua cheia,
no tênue alvor que se espraia,
minha alma foge e vagueia,
perambulando na praia.
15
É nobre quem não exalta
vitória já conquistada,
pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
16
É nos olhos que a pimenta
quando toca nos magoa:
quem tem sogra não a aguenta,
quem não tem diz que ela é boa.
17
Esta saudade é uma luz,
na noite da minha vida,
o guia que me conduz
à tua imagem, querida.
18
Eu fui a tua metade
e foste a minha, porque,
agora, só na saudade
inteiro a gente se vê!
19
Eu não gosto de sorteio
porque a sorte é contra mim:
talvez porque eu seja feio,
de uma feiura sem fim.
20
Eu não troco uma jazida
de ouro puro e refinado,
por uma hora vivida
na saudade do passado.
21
Eu nasci pobre na vida,
no entanto sei quanto valho,
pois conheço a dor sentida
dos que tombam no trabalho.
22
Felicidade é a esperança
que está sempre em nós presente,
mas a gente não a alcança
e ela não alcança a gente!
23
Flavo sol que as flores pintas
com doce tonalidade,
empresta-me as tuas tintas,
quero pintar a saudade.
24
Minha avó, que já está morta,
queria tudo perfeito:
até fazendo uma torta,
fazia torta direito.
25
Não fosse a necessidade
de tanto, tanto te amar,
sufocaria a saudade
nas profundezas do mar.
26
Não me comove a riqueza,
e nem lhe adoro a conquista,
pois, em saudade e pobreza
também sou capitalista.
27
Não te incomodes, querida
se o meu peito a dor invade,
sois, são temperos da vida
a dor, o amor e a saudade.
28
Não vim pra te dar um beijo,
vim pra te dar muito mais,
vim dizer que te desejo
O melhor dos teus Natais!
29
Nesta vida de percalços
todo mundo tem defeitos,
mas entre honestos e falsos
todos se julgam perfeitos.
30
No dia dos namorados
fico triste, simplesmente,
por ver que há muitos coitados
sem ter a quem dar presente.
31
O amor é a coisa mais bela
deste mundo encantador!
E é você quem me revela
toda a beleza do amor!
32
O amor é igual à comida:
demais, não se dá valor;
quando falta em nossa vida,
dá-se a vida pelo amor!
33
Oh! doce mundo da infância,
todo em saudade tecido,
a recordar-te a distância,
eu choro por ter crescido.
34
Para trovar, certamente,
não bastam apenas rimas;
trovador inteligente
faz das trovas obras-primas.
35
Pela guerra não há glória:
- Perder, vencer, tanto faz!
- A verdadeira vitória,
só se alcança pela paz!
36
Por mais que hoje louve a vida
dos que fazem bem por lei,
trago n'alma a dor sentida,
dos males que pratiquei.
37
Pra me esquecer de você,
tenho rezado à vontade!
Mas não te esqueço, porque
a minha reza é saudade.
38
Quando a trova justifica
sobejamente a valia,
- Rima pobre ou rima rica -
sempre é grande poesia.
39
Quando em meus braços te aperto,
todo o infinito sorri,
porque a vida é um céu aberto
quando estou perto de ti.
40
Quando tu fores velhinha
e eu também, da mesma idade,
sentirás saudade minha,
sentirei de ti saudade.
41
Quem diz que não tem saudade
e se é verdade o que diz,
não teve a felicidade
de já ter sido feliz.
42
Quem se afunda na bebida,
para afogar sua mágoa,
descobre, no fim da vida,
que a melhor bebida é água.
43
Que não valha a minha trova
por nada do que ela exiba,
senão por tudo o que prova
do valor de Curitiba.
44
Revivendo, na saudade,
a minha casa paterna,
choro! Mas tenho vontade
que a saudade seja eterna.
45
Saudade é a lembrança viva
daquilo que já morreu;
é fogo que inda se ativa
das cinzas do escombro seu.
46
Saudade é coisa que nasce
à tona do pensamento,
e, por mais que o tempo passe,
paramos nesse momento.
47
Saudade é lua que vaga
nas sombras do sol do amor;
quanto mais o sol se apaga,
mais a lua traz langor.
48
Saudade é luz matutina
no crepúsculo da gente.
Sol que o passado ilumina
quando escurece o presente.
49
Se, à noite, chega o negror
e todo o meu ser invade,
clareia-se o meu amor,
dentro da luz da saudade.
50
Se eu de você fico ausente
e alguém os meus olhos vê,
lendo os meus olhos pressente,
no fundo deles, você!
51
Se partes, fica o desgosto
da minha alma sem a tua,
e eu pareço um rei deposto
perambulando, na rua.
52
Sou feliz por te dizer,
em palavra comovida,
que minha vida é um prazer
se há prazer na tua vida.
53
Tudo que é bom, nesta vida,
foge-nos celeremente,
somente a dor mais sentida
fica na vida da gente.
54
Vermelho igual ao tomate,
meu coração é um bife:
quanto mais alguém lhe bate,
mais amolece o patife.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Orlando Woczikosky (1927 – 2019)
ORLANDO KRUMANN WOCZIKOSKY, conhecido carinhosamente como o "Trovador da Saudade", foi um dos maiores expoentes da poesia rimada do Sul do país. Conquistou o título honorífico de "Príncipe dos Trovadores do Paraná" devido à sua imensa dedicação e maestria na arte da trova. Nasceu em 1927, em Curitiba/PR, e faleceu nesta mesma cidade aos 91 anos em 2019. Viveu e residiu durante toda a sua vida em Curitiba, mantendo uma ligação profunda com o bairro Xaxim e com as paisagens do estado. Cursou o Ginásio e o Técnico Industrial na Escola Técnica de Curitiba e graduou-se pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Lecionou Desenho no Senai de Curitiba por mais de 30 anos; Ensinou Desenho e Caligrafia na Escola Técnica de Comércio de Plácido e Silva; Foi professor de Desenho e Educação Artística no Colégio Parthenon; Atuou no Ministério do Trabalho ministrando Leitura e Interpretação de Desenho no Curso de Segurança do Trabalho.
A paixão pela poesia começou na infância por influência da avó materna, que lhe declamava quadras populares. Sua primeira poesia formal nasceu em 1948, inspirada pela vista do Pico do Marumbi na Serra do Mar. Foi um dos sete fundadores históricos da UBT - Seção Curitiba em 1966 e o último remanescente vivo desse grupo. Presidiu a seção nos biênios 1973–1974 e 1981–1982, tornando-se mais tarde Presidente de Honra da UBT Estadual do Paraná. Membro da Academia Paranaense da Poesia; Centro de Letras do Paraná; Academia de Letras José de Alencar; Associação Profissional de Escritores do Paraná (APEP).
Recebeu uma vasta gama de condecorações ao longo de décadas de atuação, incluindo diplomas de honra, louvor e mérito cultural em concursos de trovas pelo Brasil. Teve uma produção sólida e focada na concisão da trova: Publicou 10 livros de trovas. 1 livro de poemas. Participou ativamente de dezenas de antologias literárias nacionais e regionais, além de jornais e revistas especializadas.
Orlando Woczikosky foi uma figura fundamental para a preservação e a difusão da trova no Brasil. Orlando dominava a estrutura da trova com uma sonoridade e fluidez ímpares, sendo frequentemente elogiado pela musicalidade de seus escritos. Sua relevância reside em ter consolidado a identidade da literatura paranaense por meio do lirismo e do bucolismo regional, traduzindo as paisagens do estado em poesia. Como guardião e um dos pilares da trova, ele ajudou a manter viva a tradição trovadoresca e serviu de ponte e inspiração para novas gerações de poetas do Sul do país.
Sites consultados = Gazeta do Povo, Bem Paraná, Oceano de Letras.

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