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segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Luiz Poeta (Trovas, com amor)
quis marcar um gol de placa,
tropeçou na própria bola,
coitado! Saiu de maca.
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Aqui, galo não se tem.
Relógio? ...deixa pra lá,
De manhã, me sinto bem,
quem me acorda é um sabiá.
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Caramba! Que desperdício!
Tanto alambique bacana
e o meu carrinho sem vício
movido a goles de cana!
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Coitada... pobre da gringa...
Quis sambar na passarela,
tropeçou na própria ginga
e a ginga tropeçou nela.
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Com a grana que ele roubou,
o doleiro se ufana.
por comer do que sobrou,
o pobre é quem vai em cana.
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Comilão come o que quer,
basta apenas sentir fome,
nem precisa de colher,
mete o dedo e tudo some.
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Fiel ao que a mestra ensina
com tanto amor e ternura,
orgulhosa, a pequenina
sorri ao fim da leitura.
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Filho e mãe, finda a leitura, '
adormecem… que obra prima!
É num toque de ternura
que a leitura se sublima.
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Há certo tipo de lama
que serve de adubação
e a semente nem reclama
da lama da podridão.
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Há lirismo e sentimento
em cada ramo que oscile,
polinizando, com o vento,
grinaldas de Bougainville.
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Há no caminho da trova
um preconceito exigente
de quem nunca se renova
nem sente o que a trova sente.
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Há poder na onda do mar;
há poder no Sol ardente,
mas há mais poder no olhar
de quem ama ardentemente.
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Hoje eu faço aniversário!
...estou vivo, quem diria
que esse meu itinerário
nem num caixão caberia!
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Nossa vida é um desafio:
o recém-nato que o diga;
sem um útero macio,
que ventre que nos abriga?
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Num rabisco num caderno,
a família reunida.
Quando um sentimento é terno,
um desenho ganha vida.
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Numa página molhada
pelo pranto, a poesia
ficou tão desfigurada,
que borrou a fantasia.
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Numa pequena gravura,
a família reunida.
Só Deus desenha a ternura
que representa uma vida,
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Numa trova sensual,
fiz o teu corpo de trilha,
mas meu verso irracional
tropeçou na redondilha.
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Num verso, se me confesso,
nunca impeço a emoção
de escrever o que nem peço,
impeço, sim, a razão.
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Nunca fui muito bonito...
mas sempre fui sedutor:
seduzi o infinito
bonito do teu amor.
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O amor pede que eu siga
os rumos de um sonhador,
mas a mudez que me instiga,
se abriga na minha dor.
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O bonde do Corcovado
leva o povo embevecido
a cada vez que é trilhado
seu caminho colorido.
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Poeta nasce poeta,
mas o tempo o aprimora;
quando a vida é incompleta,
que poeta que não chora?
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Poeta que diz que mente,
certamente se desdiz,
pois só diz o que não sente,
quando mente que é feliz.
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Quando a alma está vazia
e o amor torna-se vago,
só se tem por companhia
a lembrança de um afago.
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Quem nunca tomou porrada,
não sabe nada da vida;
faz da avenida, a calçada
e da calçada, avenida.
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Quem parte, deixa uma parte,
encarte fora da obra,
mas quando a dor nos reparte,
a parte triste é que sobra,
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Quem prejulga e não se julga,
ou é tolo ou desvairado,
cachorro escondendo a pulga
nos pelos do condenado.
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Quem reclama o tempo inteiro
do tempo que Deus lhe deu,
será sempre prisioneiro
do tempo que já perdeu
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Quem se dedica ao ofício
sublime da poesia,
transforma esse dom em vício
e esse vício em fantasia.
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Quem se vai e a dor não deixa,
não se vai completamente,
pois se a solidão se queixa,
a saudade diz: "presente"!
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Quem te pôs, Drummond de Andrade,
dando as costas para o mar,
na certa quis que a cidade
pudesse te admirar.
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Quis pintar em aquarela
a história do nosso amor,
não pintei nada na tela,
como é que se pinta a dor?
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Redondilhas d'além-mar,
poesia lusitana,
Portugal no meu olhar
na quadra camoniana
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Roubei tuas fantasias,
mas tu ficaste com as minhas;
guardaste mais que podias
e eu quis bem mais do que tinhas.
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Tantas dádivas divinas
e o homem, contestador,
fechando suas retinas
para as dádivas do amor.
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Tantas vezes a sorrir,
minha mãe me abençoava;
quando teve que partir,
foi seu filho quem chorava.
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Tanto achismo e tanto achado,
tanto eu acho e... "desachei",
que olhando o lado errado,
eu percebo que acertei.
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Tantos olhares perdi,
procurando me encontrar,
mas dos olhos que escolhi,
só me vi no teu olhar,
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Te traí comigo mesmo.
Não perguntes como fíz.
Amar quem me ama a esmo
sempre me fez infeliz.
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Tenho pena dessas pombas
que já nem têm mais pombais;
elas são pombas das bombas,
não são mais pombas da paz.
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Tem sempre alguém que nos planta;
e com carinho, nos colhe,
alguém que nos agiganta
e sempre alguém... que nos tolhe.
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Tem tanta gente que indaga
sobre seu destino vão,
porque além da ideia vaga,
Deus lhe deu um coração.
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- Tens tanto predicativo
no teu olhar sedutor...
e eu só uso um vocativo...
sabe qual é? Meu amor!
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LUIZ GILBERTO DE BARROS, amplamente conhecido pelo seu pseudônimo patenteado LUIZ POETA, é um renomado professor, escritor, poeta, cantor e compositor brasileiro. Nasceu em 1950, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Desenvolveu toda a sua vida pessoal e artística estabelecido na própria cidade natal. Formou-se e atuou fortemente na área da educação como Professor de Língua Portuguesa, Redação e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Lecionou em instituições tradicionais como os Colégios Santa Mônica, Itu e em escolas da rede pública do Município do Rio de Janeiro. É reconhecido também como gramático, revisor literário, prefaciador e tradutor.
Sua veia poética começou a se consolidar fortemente a partir de 1967. Ele transita com extrema facilidade por diferentes vertentes da escrita, atuando como cronista, contista, ensaísta, trovador e adepto do movimento aldravianista. Pelo grande envolvimento e liderança em prol da cultura, Luiz Poeta acumula diversas condecorações institucionais de relevância: Presidente, Embaixador, Cônsul, Comendador e Chanceler em corporações de fomento às artes. Membro atuante e reconhecido no cenário das Federações e Academias de Letras e Artes do Brasil. Foi Presidente da Academia Pan-Americana de Letras e Artes; do Centro Cultural Leopoldina de Souza Marques, da Faculdade Souza Marques, e Diretor Presidente do Jornal “ O Coruja “, de circulação universitária; membro da Academia Luso-Brasileira de Letras; Associação dos Acadêmicos da Academia Brasileira de Letras; Academia Paulista de Letras; Academia Aldrava, Letras e Artes; Cerc Universal des Ambasssadeurs de la Paix; Divine Academie Française de Letters y Arts; Cônsul dos Poetas del Mundo; Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais; Inbrasci (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, etc..
Teve, inclusive, o seu nome imortalizado na Sala de Leitura Luiz Poeta, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (5ª CRE), uma homenagem direta ao seu legado acadêmico. Ao longo de sua jornada, Luiz Poeta recebeu expressivos prêmios lítero-musicais (muitas vezes competindo sob pseudônimos para preservar a avaliação cega de suas obras): Prêmio UNESCO: Foi premiado duas vezes pela UNESCO em reconhecimento ao valor humanitário e cultural de seus escritos. Melhor Poeta do Estado do RJ (2008), condecorado pelo Congresso da Sociedade de Cultura Latina (Seção Brasil) na categoria de Poesia Clássica. Prêmio de Ensaio Poético: Teve sua obra "Gullarearte" (um cordel em homenagem a Ferreira Gullar) premiada em um concurso literário em Porto Alegre. Na Pele da Poesia (2007): Uma de suas obras poéticas de maior circulação, onde reúne poesias que exploram o cotidiano, o lirismo e a sensibilidade humana. Canção de Ninar Estátuas (2019) – contos; Trov…Ansi…Arte(2022) – trovas.
Sua extensa produção literária e artística espalha-se por livros autorais, coletâneas, CDs e DVDs, possuindo traduções em cinco línguas (português, espanhol, italiano, inglês e francês). Entre suas principais contribuições estão: Participação em Antologias de Peso: Como a antologia "Poemas à flor da pele", além de inúmeros sonetos clássicos publicados no Brasil e no exterior (como no Portal CEN, de Portugal). Obra Lítero-Musical: Registro expressivo de composições poéticas transformadas em faixas de áudio e vídeo distribuídas no mercado fonográfico e literário.
A relevância de Luiz Poeta reside no seu papel como elo integrador entre a erudição técnica e a sensibilidade popular. Como professor e gramático, ele defende a pureza e a beleza da língua, mas despe a poesia de "rebuscamentos intelectualóides". Ele democratizou o acesso à leitura poética e influenciou gerações de alunos no Rio de Janeiro. Herdando o talento do pai (que tocava flauta de bambu), Luiz tornou-se violonista, cantor, produtor musical e compositor de mão cheia. Ele atuou como Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, e sua relevância técnica é tão vasta que ele foi integrado como membro do casting oficial de suporte artístico da Orquestra Sinfônica. No campo das artes visuais, ele se destaca de forma inovadora pela criação de telas plásticas utilizando técnicas singulares com esmaltes de unha.
Fontes:
Luiz Poeta. Trov... Ansi... Arte. RJ: ZMF Ed., 2022. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Dicionário MPB, Recanto das Letras, O Secular Soneto, Portal CEN, Confraria Brasileira de Letras, etc.
Carlos Drummond de Andrade (Trem de Contos) 1
Qual não foi o pasmo de Matias ao abrir em casa o dicionário de português que comprara para o filho colegial, e verificar que ele era todo feito de palavras cruzadas.
— O garoto não vai estudar palavras cruzadas, vai estudar português — explicou ao balconista da livraria, pedindo a troca do volume.
— O dicionário está certo — respondeu-lhe o rapaz.
— Como está certo, se não começa pela letra A e termina pela letra Z, a exemplo de todos os dicionários de português desde que a língua existe?
— Estou vendo que o senhor não acompanhou a evolução do português. Com as últimas aquisições da ciência linguística e as recentes pesquisas lexiológicas, e mais o uso literário da língua, o português é hoje considerado jogo de palavras cruzadas. Cruzadíssimas.
— Hem? Não estou entendendo.
— Não precisa entender, desde que o senhor tenha habilidade para decifrar palavras cruzadas. Mestres universitários da maior categoria assim resolveram, e os editores lançaram dicionários de acordo com os novos moldes. Procure ler os tratados e revistas de lexicologia, os estudos sobre linguagem, os ensaios de crítica literária, as dissertações universitárias. Tudo palavras cruzadas. Seu filho ainda não tem a nova gramática cruzacional? É indispensável. E muito cuidado no cruzamento das ruas. As placas também vão cruzar.
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O AMOR DAS FORMIGAS
— O amor das formigas, você já observou o amor das formigas? — perguntou Otávio a Isadora.
– Não, Isadora nunca observara o amor das formigas.
— Nem eu — confessou Otávio. — Aliás, nunca ninguém observou o amor das formigas — sentenciou.
— Mas os entomologistas… — ponderou Isadora.
— Os entomologistas pensam que observaram — retrucou Otávio —, mas as formigas são muito discretas. Não são como os homens e as mulheres, que amam em público.
A conversa continuava nessa trilha de formiga, em zigue-zague, quando a formiga apareceu na ponta da toalha de mesa e foi subindo.
Outra formiga veio em seguida. As duas caminharam às tontas, depois juntaram as cabecinhas num movimento elétrico, e se afastaram, cada uma para o seu lado.
— Você acha que elas se amaram? — perguntou Isadora. — De modo algum — respondeu Otávio. — Trocaram sinais de serviço, apenas. E daí, querida, ninguém ama com a cabeça, é exatamente o contrário: cabeça atrapalha.
— Pois eu acho o contrário do contrário — disse Isadora. — As formigas podem ser mais evoluídas do que nós, e amar acima do coração, de um modo perfeito.
Mas a conversa não conduziu a nada, e os dois tomaram chá.
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.
Fontes:
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Publicado em 1981
Biografia = Wikipedia, Carlosdrummond.com.br, e-biografia, Brasil Escola, Rio Memórias, Academia Brasileira de Letras, etc.
Olivaldo Júnior (Três microcontos sobre a amizade)
Era uma moça como inúmeras outras, cheia de sonhos, desejos e esperança. Um dia, conheceu um moço, com igual capacidade de amar e de acreditar na vida e nos outros.
Assim, a moça e o moço se tornaram os melhores amigos de sempre. Faziam tudo juntos, desde compras no mercado a idas regulares ao cinema. Adoravam filmes de comédia.
Tão linda, a moça conheceu outro moço, que, interessado em sossego, quis se casar. Aflita, contou logo a boa nova a seu amigo, que a apoiou muito. Nunca mais se viram.
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O SANTO
Havia se acostumado a ser santo aquela imagem no altar da igreja mais próxima. Não me lembro direito qual mesmo o santo que era, mas era um santo. Tinha os olhos nus.
Dia a dia, como se fosse um pastor, via as ovelhas, digo, os devotos, indo e voltando de lá, deixando aos pés dele uma carta, uma vela, ou um bocado do olhar que o encarava.
Amigo de todos, o santo no altar não podia muita coisa, senão escutar e fazer ele mesmo sua prece a Jesus, a Maria, a Deus Pai. Talvez aquela gente precisasse do santo só isso.
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O HERÓI
Era um homem jovem e muito bonito. Pelo mesmo era isso o que lhe diziam. Tanto que, depois de um tempo, passou a acreditar que era uma espécie de herói, Eros, Hércules!
Malhava bastante e se sentia com muitos amigos, pois quase nunca estava sozinho. “A vida é tão boa! Sou tão amado!”, pensava, sem saber que amigos são joias muito raras.
Com a crise no País, sofreu um revés financeiro, perdeu o emprego, ficou sem dinheiro, nem para a academia. Aliás, para os velhos “amigos”, aquele herói virara um bandido.
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O poeta, trovador e escritor OLIVALDO JÚNIOR é uma figura de destaque na cena cultural e literária da região da Baixa Mogiana, no interior do estado de São Paulo. Ele transita com facilidade pelas vertentes da escrita acadêmica, da rádio, da música e da poesia clássica. Nasceu na cidade de Aguaí/SP, mudou-se com a família para a cidade de Mogi Guaçu/SP ainda quando era menino. É nesse município que ele fixou residência, desenvolveu suas profundas raízes artísticas e construiu sua vida comunitária. Sua paixão pela comunicação e pelas artes se reflete em suas escolhas acadêmicas e profissionais.: Graduou-se em Letras (com Licenciatura Plena e Habilitação em Português e Inglês) pelas Faculdades Integradas Maria Imaculada (FIMI). Também possui formação profissionalizante em Radialismo pelo SENAC de São Paulo. Atua como Oficial Administrativo na Fundação Educacional Guaçuana (FEG) e também exerce atividades no campo da docência, locução/radialismo e na música popular, atuando como instrumentista.
Olivaldo Júnior cultiva o gosto pelos livros e discos desde a infância. Sua expressão escrita foca principalmente em poemas, contos, crônicas e letras de música. Ao longo de sua caminhada lírica, tem se inscrito assiduamente em festivais literários e concursos de trovas regionais, colecionando diversas classificações e premiações que validam a sensibilidade de sua escrita. Embora desenvolva seu trabalho de maneira independente ou integrada a coletivos locais, sua produção está associada a plataformas e grêmios de fomento, como o portal Família Literária (https://www.familialiteraria.com.br/escritores/olivaldo-junior/1513688), que cataloga e preserva a voz de escritores atuantes no Brasil. A principal marca das publicações de Olivaldo Júnior é a sua participação em antologias poéticas coletivas e fanzines regionais, dividindo páginas com outros poetas paulistas. Suas produções espalham-se em formato de poesia clássica, com destaque para as suas trovas e minicontos, compartilhados tanto em compilações impressas de concursos quanto em suas mídias sociais voltadas à arte.
A importância de Olivaldo Júnior reside no seu papel como um dinamizador da cultura descentralizada no interior de São Paulo. Ao unir as competências de radialista, professor de línguas e músico popular, ele atua como uma ponte que retira a poesia dos espaços puramente acadêmicos e a devolve para o cotidiano da população de Mogi Guaçu e região. O autor mostra que manifestações clássicas e exigentes (como a métrica das trovas) combinam perfeitamente com a sensibilidade popular e a sonoridade musical moderna, inspirando novas gerações locais a valorizarem a riqueza da Língua Portuguesa.
Fonte:
Textos enviados pelo autor.
João Batista Xavier Oliveira (Poemas Recolhidos)
Entre nós uma lança em duas pontas
voltadas bem direto a nosso peito,
porém compreensão com o respeito
são atributos de insondáveis montas.
Na conta permanente do direito
espaços dão às asas, sempre prontas,
os ares das visões do preconceito
e afastam as algemas tão medrontas.
É assim que um grande amor entre pessoas
atrai as vibrações das almas boas
com a esperança de um mundo melhor.
Respeito o teu espaço em todo meio
assim como respeitas meu passeio.
Nosso trabalho ao bem é bem maior!!
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O PEDESTAL DO HORIZONTE
Quando me vejo aqui, no pedestal
onde a lida acalenta e se faz luz,
a vitória cintila no portal
e desintegra a treva que seduz.
Conseguir algo mais, travar o mal,
vislumbrar no crepúsculo, conduz
sentimento de força sem igual
na vereda luzida por Jesus.
Volver à luz que brilha no horizonte
mostrando o caminhar em forte ponte
é a mesma luz que brilha a todos nós...
bastando simplesmente a coerência
na busca da lavoura em consistência.
Seremos então livres, jamais sós!!
* * * * * * * * * * * * * * * *
SILÊNCIO
Quando eu pensei que tudo estava certo...
eis que você, na calma de serpente,
virou meu mundo assim tão de repente
numa miragem plena de um deserto.
Meu pensamento sóbrio, tão presente,
não alertou-me como estava perto
um coração fechado... e bem aberto
à pequenez de um sopro tão latente!
Me refazendo aos poucos, fui olhando
nas passarelas de um mundo nefando
desfiles frágeis, quem olha e não vê.
Hoje agradeço sua insensatez
silenciando o vazio de vez
feliz por mim e triste por você!
* * * * * * * * * * * * * * * *
SINAIS INVERTIDOS
Olhando a terra acima dos sentidos
um ar tristonho abate-me na entranha:
sermões abaixo aos ares da montanha
e súplicas em motes de alaridos.
Como esperar que rogação tamanha
venha a elevar as almas dos “ungidos”
pelos sinais, nas mentes, invertidos,
se trechos do alfarrábio mal arranha?
Verter em lágrimas na espera, inerte,
(açoite de cilício não reverte)
na frialdade do silêncio atroz...
é malograr-se às vestes endeusadas;
é recorrer às luzes apagadas
se Deus reside aqui... dentro de nós!!
* * * * * * * * * * * * * * * *
SUTIL OLHAR
A nova era agora tão veloz
atinge os ares lassos de metais;
a quântica figura não é mais
o mito que atordoa a todos nós.
Os olhos deslumbrados por fanais
que buscam horizontes, antes sós,
percebem muito além de nossa voz
as vibrações sutis de mil sinais.
Desperta criatura limitada!
Aguça a tua aura dos sentidos;
o mundo ao teu redor é quase nada!
A nova era agora tem ouvidos;
o espírito retarda evolução
se olhar de uma segunda dimensão!!
* * * * * * * * * * * * * * * *
TROPEÇO
Vejo-me agora no final da estrada
e as consequências de uma vida aflita
a procurar afoito a mais bonita
virtude altiva, joia lapidada.
As mãos vazias cheias de desdita
não afagaram outras sem ter nada.
E a consciência viva, tão pesada,
arrasta o fardo que a ambição incita.
Peço perdão para mim mesmo, eu sei
que para evoluir existe lei
da semeadura e sua consequência.
Queira ou não queira o fim faz o começo
para engendrar a escala sem tropeço;
ser mais humilde na nova existência!
* * * * * * * * * * * * * * * *
VELEJANDO
Varanda, vales, verdes, primavera;
o ar envolto em meigas cantilenas...
Imagens tão serenas que eu quisera
perenes, tácitas em mim apenas.
Sonhar é o som sagrado da quimera
num canto enquanto as dores são amenas.
Descanso à rede a lágrima sincera
que luz na luz dos olhos dos mecenas.
A bordo de uma rede a velejar
eu sorvo a paz que a brisa faz ao mar
no vento que acarinha as mãos poetas.
Bendigo a natureza onde os estetas
descrevem a meiguice de um tormento
na voz que se enternece à voz do vento!!
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O poeta paulista JOÃO BATISTA XAVIER OLIVEIRA foi um expressivo trovador e sonetista brasileiro, amplamente reconhecido por sua dedicação à preservação da poesia clássica de formato curto e por seu engajamento no cenário lírico do interior de São Paulo. Nasceu na cidade de Presidente Alves (SP), em 1947 e faleceu em Bauru/SP, em 2025, aos 77 anos, Embora nascido no interior profundo do estado, estabeleceu sua residência fixa e desenvolveu toda a maturidade artística no município de Bauru. Além de sua dedicação à escrita, João Batista era muito ativo nas esferas de comunicação comunitária e fomento cultural da região de Bauru. Destacou-se por colaborar frequentemente com jornais locais e periódicos de orientação humanista ou espiritualista (como o Momento Espírita), publicando crônicas, reflexões doutrinárias e poesias voltadas a temas como fraternidade, infância e o cotidiano. Também atuava na organização de manifestações e festivais líricos regionais. Sua vida literária foi predominantemente marcada pela paixão pela trova e pelo soneto clássico. Ingressou formalmente na Delegacia de Bauru da UBT — em dezembro de 1998. Se tornou um dos integrantes mais atuantes da entidade na região, ajudando a promover exposições e a difusão da arte trovadoresca inclusive em formatos acessíveis, como em Braille.
A partir de 1999, João Batista transformou-se em uma figura constante e altamente premiada em diversos concursos oficiais de trovas promovidos em todo o país e no exterior: Teve suas primeiras trovas oficialmente classificadas e premiadas internacionalmente. Consolidou seu nome em certames de relevância nacional para o gênero. Conquistou distinções e menções importantes em eventos de cidades historicamente ligadas aos Jogos Florais, como no Concurso de Poesia de Bauru e no Concurso de Trovas de Pirapetinga/MG.
A produção de João Batista Xavier Oliveira divide-se entre publicações impressas e uma contribuição maciça para antologias literárias coletivas, informativos de trovas da UBT e folhetins de poesia regional, como o Folhetim Literário Desiderata. Grande parte de suas trovas e sonetos permaneceu imortalizada nas coletâneas oficiais dos concursos nacionais em que foi laureado e em acervos dedicados ao fomento da trova na internet.
A importância de João Batista Xavier Oliveira reside em seu papel como guardião da poesia clássica no interior paulista. Em uma época de forte transição estilística, onde as formas fixas tradicionais como a trova e o soneto encontravam menos espaço nos grandes veículos de massa, ele manteve a chama da redondilha maior acesa e vibrante. Sua habilidade técnica para criar textos de enorme sensibilidade e forte apelo popular respeitando rigorosamente as exigências de métrica e rima inspirou novos autores locais. Ajudou a democratizar o acesso à literatura e a preservar o legado da poesia curta como uma das expressões mais genuínas da identidade cultural do país.
Fontes:
Biografia = Social Bauru, Blog do Professor Feijó, Centro Espírita Amor e Caridade
A. A. De Assis (Maringá Gota a Gota) As irmãs do Santa Cruz
Todos os nossos pioneiros são dignos de máximo respeito, além de credores de justa gratidão da parte de todos nós que deles herdamos esta encantadora cidade. Eram, em sua grande maioria, colonos ou pequenos proprietários em outras regiões do país, alguns em distantes rincões do mundo. Tiveram a coragem de trocar a tranquilidade do chão natal pela ousadia de abrir clareiras na mata para formar lavouras e plantar cidades. Movia-os, contudo, um motivo forte: a esperança de fazer aqui o pé-de-meia.
Dá então para entender o arrojo dos homens e mulheres que chegaram nas primeiras caravanas e em Maringá plantaram as primeiras sementes, ergueram os primeiros ranchos, instalaram as primeiras serrarias, montaram as primeiras vendinhas, as primeiras oficinas, as primeiras clínicas etc. etc.
Admiro demais o heroísmo dos nossos abridores de caminhos. Mas o que me fascina ainda mais nessa história de bravos é pensar no tipo de impulso que trouxe para cá os que vieram sem nenhum propósito em benefício próprio: os primeiros padres, irmãos, irmãs, pastores, pastoras, ou seja, os que vieram em missão de fé.
Relendo a obra-prima do padre Orivaldo Robles – “A igreja que brotou da mata”, vi lá uma foto da chegada das irmãs carmelitas (18.6.1952). Sete freirinhas espanholas, trazidas pelo então bispo de Jacarezinho, Dom Geraldo Sigaud, com a responsabilidade de instalar no Maringá Velho o Colégio Santa Cruz.
Lideradas pela Irmã Pilar, em pouco tempo mobilizaram as famílias pioneiras, construíram a capela e, logo após, as salinhas onde receberam as primeiras alunas.
Na cabeça delas jamais passara a mínima ideia de ganhar dinheiro ou angariar qualquer outro tipo de vantagem. Mas seu coração pipocava de alegria pela certeza de que estariam ajudando a semear cultura e espiritualidade num mundo novo.
Pensando nelas, penso também nos irmãos que vieram trabalhar na Santa Casa, no Colégio Marista, penso nas irmãs do Albergue, do Lar dos Velhinhos, do Lar Escola, dos Colégios Santo Inácio, São Francisco Xavier, Regina Mundi.
Só Deus sabe o que leva tantos moços e tantas moças, movidos pela misteriosa força de uma santa vocação, a deixarem família, pátria e qualquer projeto pessoal para servir de graça onde forem chamados.
Todos os pioneiros merecem, sim, máxima admiração. Porém ao lado deles, pelo muito que fizeram por todos nós, há de haver sempre um lugar mais do que especial para os pioneiros e pioneiras da fé. A bênção, Irmã Pilar.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 31-12-2020)
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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas: Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.
Fonte:
Texto enviado pelo autor.
Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa * 2 *
Monforte/Alentejo, 1888 – 1925, Elvas/Alentejo
VESPERAL
Se eu te pintasse, posta na tardinha,
pintava-te num fundo cor de olaia,
na mão suspensa, nessa mão que é minha,
o lenço fino acompanhando a saia!
Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
em ar de infanta que perdeu a aia,
envolta numa luz que te acarinha,
na luz que desfalece e que desmaia!
Com teu encanto os dias me adamasques,
linda menina ingênua de Velásquez
a flutuar num mar de seda e renda.
Deixa cair dos lábios de medronho
a perfumada voz do nosso sonho,
mas tão baixinho que só eu entenda!
* * * * * * * * * * * * * * * *
Fernando Pessoa
Lisboa, 1888 – 1935
QUANDO OLHO PARA MIM...
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
que me extravio às vezes ao sair
das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
pertencem ao meu modo de existir,
e eu nunca sei como hei de concluir
as sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente reparei,
se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? Serei
tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
* * * * * * * * * * * * * * * *
Florbela Espanca
Vila Viçosa/Alentejo, 1894 – 1930, Matosinhos/Douro
AMAR
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
mais este e aquele, o outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
durante a vida inteira é porque mente.
Há uma primavera em cada vida:
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz foi pra cantar.
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar...
* * * * * * * * * * * * * * * *
Marta de Mesquita da Câmara
Lisboa?, 1894 – ????
CONTRASENSO
Oh! meu amor, escuta, estou aqui.
Pois o teu coração bem me conhece:
eu sou aquela voz que, em tanta prece,
endoideceu, chorou, gemeu por ti!
Sou eu, sou eu que ainda não morri
– nem a morte me quer, ao que parece –
e vinha renovar, se inda pudesse,
as horas dolorosas que vivi.
Oh! que insensato e louco é quem se ilude!
Quis fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que os teus olhos são capazes!
Deitando a vista pelo mundo além,
desisto de encontrar na vida um bem
que valha todo o mal que tu me fazes!
* * * * * * * * * * * * * * * *
Nunes Claro
Lisboa, 1878 – 1949
SONETO
Vieste tarde, meu amor. Começa
em mim caindo a neve devagar...
Morre o sol; o outono vem depressa,
e o inverno, finalmente, há de chegar.
E se hoje andamos juntos, na promessa
de caminharmos toda a vida a par,
daqui a pouco o teu amor tem pressa
e o meu, daqui a pouco, há de cansar.
Dentro em breve, por trás das velhas portas,
dando um ao outro só palavras mortas
que rolam mudas sobre nossas vidas,
ouviremos, nas noites desoladas,
tu, a canção das vozes desejadas,
eu, o chorar das vozes esquecidas.
Fonte:
Sergio Faraco (org.) Livro dos sonetos: 1500-1900. Porto Alegre/RS: L&PM, 2016.
Arthur de Azevedo (Uma Embaixada)
Minervino ouviu um toque de campainha, levantou-se do canapé, atirou para o lado o livro que estava lendo, e foi abrir a porta ao seu amigo Salema.
- Entra. Estava ansioso.
- Vim, mal recebi o teu bilhete. Que deseja de mim?
- Um grande serviço!
- Oh, diabo! Trata-se de algum duelo?
- Trata-se simplesmente de amor. Senta-te. Sentaram-se ambos.
Eram dois rapagões de vinte e cinco anos, oficiais da mesma Secretaria do Estado; dois colegas, dois companheiros, dois amigos, entre os quais nunca houvera a menor divergência de opinião ou sentimentos. Estimavam-se muito, estimavam-se deveras.
- Mandei-te chamar - continuou Minervino - porque aqui podemos falar mais à vontade; lá em tua casa seriamos interrompidos por teus sobrinhos. Ter-me-ia guardado para amanhã, na Secretaria, se não se tratasse de uma coisa inadiável. Há de ser hoje por força!
- Estou às tuas ordens.
– Bom. Lembras-te de um dia ter te falado de uma viúva bonita, minha vizinha, por quem andava muito apaixonado?
- Sim, lembro-me. Um namoro...
- Namoro que se converteu em amor, amor que se transformou em paixão!
- Quê! Tu estás apaixonado?!...
- Apaixonadíssimo... E é preciso acabar com isto!
- De que modo?
- Casando-me; és tu que hás de pedi-la!
- Eu?!...
- Sim, meu amigo. Bens sabes como sou tímido... Apenas me atrevo a fixá-la durante alguns momentos, quando chego à janela, ou a cumprimentá-la, quando entro ou saio. Se eu mesmo fosse falar-lhe, era capaz de não articular três palavras. Lembras-te daquela ocasião em que fui pedir ao ministro que me nomeasse para a vaga do Florêncio? Pus-me a tremer diante dele, e a muito custo consegui expor o que desejava. E quando o ministro me disse: - Vá descansado, hei de fazer justiça - eu respondi-lhe: - Vossa excelência, se me nomear, não chove no molhado! - Ora, se sou assim com os ministros, que fará com as viúvas.
- Mas tu a conheces?
- Estou perfeitamente informado: é uma senhora digna e respeitável, viúva do Senhor Perkins, negociante americano. Mora ali defronte, no número 37. Peço-te que a procures imediatamente e lhe faças o pedido da minha parte. És tão desembaraçado como eu sou tímido; estou certo que serás bem sucedido. Dize-lhe de mim o melhor que puderes dizer; advoga a minha causa com a tua eloquência habitual, e a gratidão do teu amigo será eterna.
- Mas que diabo! - observou Salema. - Isto não é sangria desatada! Por que há de ser hoje e não outro dia? Não vim preparado!
- Não pode deixar de ser hoje. A viúva Perkins vai amanhã para a fazenda da irmã, perto de Vassouras, e eu não queria que partisse sem deixar lavrada a minha sentença.
- Mas, se lhe não falas, como sabes que ela vai partir?
- Ah! Como todos os namorados, tenho a minha polícia... Mas vai, vai, não te demores; ela está em casa e está sozinha; mora com um irmão empregado no comércio, mas o irmão saiu... Deve estar também em casa a dama de companhia, uma americana velha, que naturalmente não aparecerá na sala, nem estorvará a conversa.
E Minervino empurrava Salema para a porta, repetindo sempre:
- Vai! Vai! Não te demores!
Salema, saiu, atravessou a rua, e entrou em casa da viúva Perkins.
No corredor pôs-se a pensar na esquisitice da embaixada que o amigo lhe confiara.
- Que diabo! - refletiu ele. - Não sei quem é esta senhora; vou falar-lhe pela primeira vez... Não seria mais natural que o Minervino procurasse alguém que a conhecesse e o apresentasse?... Mas, ora adeus!... Eles namoram-se; é de esperar que o embaixador seja recebido de braços abertos.
Alguns minutos depois, Salema achava-se na sala da viúva Perkins, uma sala mobiliada sem luxo, mas com um certo gosto, cheia de quadros e outros objetos de arte. Na parede, por cima do divã de repes, o retrato de um homem novo ainda, muito louro, barbado, de olhos azuis, lânguidos e tristes. Provavelmente o americano defunto.
Salema esperou uns dez minutos.
Quando a viúva Perkins entrou na sala, ele agarrou-se a um móvel para não cair; paralisaram-se os movimentos, e não pôde reter uma exclamação de surpresa.
Era ela! Ela!... A misteriosa mulher que encontrara, havia muitos meses, num bonde das Laranjeiras, e meigamente lhe sorrira, e o impressionara tanto, e desaparecera, deixando-lhe no coração um sentimento indizível, que nunca soubera classificar direito.
Durante muitos dias e muitas noites a imagem daquela mulher perseguiu-o obstinadamente, e ele debalde procurou tornar a vê-la nos bondes, na rua do Ouvidor, nos teatros, nos bailes, nos passeios, nas festas. Debalde!...
- Oh! - disse a viúva, estendendo-lhe a mão muito naturalmente, como se fizesse a um velho amigo. - Era o senhor?
- Conhece-me? - balbuciou Salema.
- Ora essa! Que mulher poderia esquecer-se de um homem a quem sorriu? Quando aquele dia nos encontramos no bonde das Laranjeiras, já eu o conhecia. Tinha-o visto uma noite no teatro e, não sei por quê... por simpatia, creio... perguntei quem o senhor era, não me lembro a quem... Lembra-me que o puseram nas nuvens. Porque nunca mais tornei a vê-lo?
Diante do desembaraço da viúva Perkins, Salema sentiu-se ainda mais tímido que Minervino - mas cobrou ânimo, e respondeu:
- Não foi porque não a procurasse por toda a parte...
- Não sabia onde eu morava?
- Não, supus que nas Laranjeiras. Vi-a entrar naquele sobrado... e debalde passei por lá um milhão de vezes, na esperança de tornar a vê-la.
- Era impossível; aquela é a casa de minha irmã; só abre quando ela vem da fazenda. O sobrado está fechado há oito meses. Mas sente-se... aqui... mais perto de mim... Sente-se, e diga o motivo da sua visita.
De repente, e só então, Salema lembrou-se do Minervino.
- O motivo de minha visita é muito delicado; eu...
- Fale! Diga sem rebuço o que deseja! Seja franco! Imite-me!... Não vê como sou desembaraçada? Fui educada por meu marido...
E apontou para o retrato.
- Era americano; educou-me à americana. Não há, creia, não há educação como esta para salvaguardar uma senhora. Vamos fale!...
- Minha senhora, eu sou...
Ela interrompeu:
- É o Senhor Nuno Salema, órfão, solteiro, empregado público, literato nas horas vagas, que vem pedir a minha mão em casamento.
Ela estendeu-lhe a mão, que ele apertou.
- É sua! Sou a viúva Perkins, honesta como a mais honesta, senhora das suas ações, e quase rica. Não tenho filho nem outros parentes por meu marido, e uma irmã fazendeira, igualmente viúva. Não percamos tempo!
Salema quis dizer alguma coisa, ela não o deixou falar.
- Amanhã parto para a fazenda da minha irmã. Venha comigo, à americana, para lhe ser apresentado.
Nisto entrou na sala, vindo da rua, apressado, o irmão da viúva Perkins, um moço de vinte anos, muito correto, muito bem trajado.
- Mano, apresento-lhe o Senhor Nuno Salema, meu noivo.
O rapaz inclinou-se, apertou fortemente a mão do futuro cunhado, e disse:
- All rigth!...
Depois inclinou-se de novo e saiu da sala, sempre apressado.
- Mas, minha senhora - tartamudeou o noivo muito confundido - imagine que o meu colega Minervino, que mora ali defronte...
A viúva aproximou-se da janela. Minervino estava na dele, defronte, e, assim que a viu deu um pulo para trás e sumiu-se.
- Ah! Aquele moço?... Coitado! Não posso deixar de sorrir quando olho para ele... É tão ridículo com o seu namoro à brasileira!...
- Mas... ele... tinha-me encarregado de pedi-la em casamento, e eu entrei aqui sem saber quem vinha encontrar...
- Deveras?! - exclamou a viúva Perkins.
E ei-la acometida de um ataque de riso:
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...
E deixou-se cair no divã:
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...
Salema aproximou-se da viúva, tomou-lhe as mãozinhas, beijou-as, e perguntou:
- Que hei de dizer ao meu amigo?
Ela ficou muito séria, e respondeu:
- Diga-lhe que quem tem boca não manda soprar.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
ARTHUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO (conhecido universalmente como Arthur de Azevedo) foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas, poetas e contistas do Brasil. Irmão do célebre romancista Aluísio de Azevedo, ele se consagrou como a figura central e mais popular do teatro brasileiro na transição do século XIX para o XX, sendo o grande mestre do Teatro de Revista e da comédia de costumes. Nasceu em 1855, em São Luís/MA, e faleceu aos 53 anos, em 1908, no Rio de Janeiro. Passou a infância e a juventude no Maranhão. Em 1873, aos 18 anos, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro (então capital do Império), onde residiu e produziu intensamente até o fim da vida. Em São Luís, trabalhou no comércio e como amanuense (copista) na Secretaria de Governo. No Rio de Janeiro, ingressou como funcionário público no Ministério da Agricultura. Deixou o funcionalismo para viver exclusivamente de sua produção escrita. Foi um jornalista incansável, tendo fundado e dirigido publicações marcantes como A República e O Diário de Notícias. Colaborou também com O Paiz, Gazeta de Notícias e A Estação. Usava suas colunas diárias para analisar espetáculos, traduzir peças estrangeiras e defender apaixonadamente a profissionalização e a valorização dos artistas nacionais.
Escreveu cerca de 4.000 crônicas, centenas de contos, poesias líricas e satíricas, e mais de 100 peças teatrais (entre comédias, dramas, operetas e revistas). Teve papel crucial na fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Foi membro fundador e ocupou a Cadeira nº 29, escolhendo como patrono o também dramaturgo Martins Pena. Em sua época, os maiores prêmios eram o estrondoso sucesso de bilheteria nos teatros e o reconhecimento crítico nos jornais. Arthur de Azevedo era o autor mais encenado e aplaudido do país, considerado uma verdadeira unanimidade popular.
Devido à sua enorme produção para os palcos e jornais, muitas de suas obras foram reunidas em volumes ao longo do tempo ou publicadas como folhetos de cordel e libretos teatrais:
A Capital Federal (1897) — Sua obra-prima, uma comédia hilária sobre as transformações urbanas do Rio de Janeiro; O Mambembe (1904) — Uma belíssima e cômica homenagem à vida das companhias de teatro itinerantes; O Badejo (1886). Contos Efêmeros (1897); Contos Cariocas (1928, publicação póstuma); Carapuças (1878) — Poesias satíricas; Sonetos (1876).
A relevância de Arthur de Azevedo para a cultura brasileira é inestimável porque ele moldou a identidade do teatro brasileiro. Ao lado de Martins Pena, tirou os palcos da dependência cega de melodramas franceses, criando uma dramaturgia autenticamente brasileira, focada no cotidiano, na fala e nos tipos humanos do Rio de Janeiro. Elevou o gênero da "revista de ano" (espetáculos musicais que satirizavam os acontecimentos do ano anterior) a um patamar de alta qualidade literária e humor refinado, influenciando toda a comédia musical brasileira do século XX. Dedicou as últimas décadas de sua vida a uma intensa campanha jornalística para que a capital federal construísse um grande teatro público. Infelizmente, faleceu poucos meses antes da inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (em 1909), que hoje abriga um busto em sua homenagem.
Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos Vários.
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