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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Leon Eliachar (Aulas práticas para alunos teóricos)


A humanidade divide o seu tempo em duas partes: guerra e paz. Durante a paz, vive discutindo a guerra e durante a guerra vive implorando a paz.

A  guerra foi inventada por um sujeito que morreu na guerra. A paz ainda não foi inventada.

Há vários tipos de guerra: a guerra fria, a guerra quente,  a guerra morna, a guerra requentada e a guerra propriamente dita: dessa  ninguém escapa, porque todo mundo é convocado antes mesmo de começar a guerra.

Antigamente, a guerra era feita a pé: quando os soldados chegavam no país inimigo a guerra já tinha acabado. Hoje, a guerra é mais ligeira: basta apertar um botão que ela começa e acaba ao mesmo tempo - e quando acaba não se encontra nem o botão.

Durante a paz, os homens se preparam para a guerra, construindo tanques, aviões, submarinos, foguetes, táxis e ônibus elétricos.

Quem foge da guerra se chama desertor, quem fica se chama herói. O desertor foge da guerra pra não morrer nas mãos do inimigo, mas acaba morrendo nas mãos do amigo: é fuzilado. O fuzilamento é um processo de matar o sujeito que escapa da guerra - ao invés de morrer distraído, morre prevenido.

Antes de ir pra guerra, os médicos submetem os soldados a um exame físico completo: quem tiver boa saúde, pode ir e morrer tranquilo. Quando o homem se matricula na guerra, recebe um uniforme: quando entra na guerra, pinta o uniforme todinho pra ninguém ver que ele está de uniforme.

Existem guerras famosas: a de 14, porque sobraram catorze; a dos Cem Anos, que quando acabou só tinha velhinho, e a de 39 - que todo mundo pensa que acabou.

Antigamente, se fazia a guerra com baioneta calada, mas isso foi no tempo do cinema mudo. Hoje, a baioneta não só fala mas também canta - como se pode ver nos musicais de Hollywood.

Muitos combatentes são considerados malucos porque voltam pra casa com psicose de guerra, mas os psiquiatras não se preocupam a mínima com a psicose de paz - que é muito pior. E por incrível que pareça, o soldado mais conhecido da guerra é o soldado desconhecido.
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    Leonit Eliachar, imortalizado na literatura brasileira simplesmente como Leon Eliachar, foi um dos mais brilhantes escritores, cronistas e jornalistas de humor do Brasil. Autodenominado brincando como um "cairoca", ele marcou época na imprensa nacional com um estilo inovador, visual e repleto de nonsense. Nasceu na cidade do Cairo/ Egito em 1922. Teve um fim trágico e prematuro aos 64 anos. Foi assassinado no Rio de Janeiro em de 1987, vítima de uma emboscada armada por motivos passionais, crime encomendado por um fazendeiro paranaense.
Mudou-se com a família para o Brasil com apenas 10 meses de idade. Fixou residência e viveu praticamente toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Apesar de ser profundamente brasileiro em sua escrita, consta que ele nunca se naturalizou oficialmente. Leon iniciou na imprensa muito jovem, aos 16 anos. Atuou como jornalista, colunista, crítico de cinema, produtor de rádio e roteirista de televisão. Ele trabalhou nos principais veículos de comunicação de massa do país nas décadas de 1950 a 1980. Escreveu para revistas de grande circulação como O Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, Fon-Fon e Pif-Paf. Marcou época no histórico jornal Última Hora, onde assinava a página humorística "Penúltima Hora", que trazia o subtítulo satírico: "um jornal feito na véspera". Foi roteirista e autor de programas humorísticos nas grandes redes nacionais, incluindo as TVs Tupi, Excelsior, Rio, Globo e SBT, além das rádios Tupi e Mayrink Veiga.
Sua trajetória na literatura foi marcada por crônicas rápidas, aforismos, microcontos e, principalmente, pelo humor gráfico. Ele revolucionou o formato de seus livros ao misturar texto com diagramações inusitadas, colagens, fotografias e ilustrações. Devido ao seu perfil voltado ao jornalismo popular, à crônica de humor e ao rádio, não pertenceu às academias tradicionais de letras. Seu verdadeiro reduto intelectual eram as redações cariocas e a boemia literária, ao lado de grandes nomes do humor brasileiro. Atualmente, seu legado acadêmico está preservado no arquivo pessoal doado à Fundação Casa de Rui Barbosa. Recebeu a Palma de Ouro (1956): O maior reconhecimento de sua carreira ocorreu na Europa, onde venceu o primeiro prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo, em Bordighera, Itália. Ele foi premiado por uma genial definição de humor. Publicou cinco volumes autorais marcantes e uma importante antologia em parceria: O Homem ao Quadrado (1960); O Homem ao Cubo (1963); A Mulher em Flagrante (1965); O Homem ao Zero (1967); 10 em Humor (1968): Livro antológico escrito em conjunto com a nata do humor nacional: Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Fortuna, etc.; O Homem ao Meio (1979)
A importância de Leon Eliachar reside em seu papel como pioneiro do modernismo gráfico no humor literário brasileiro. Ele antecipou conceitos de design e linguagem visual que hoje são comuns na literatura contemporânea. Eliachar tirou o humor do formato puramente textual da crônica clássica e o transformou em uma experiência visual, brincando com formas geométricas, tipografia e montagens fotográficas irreverentes. Ao lado de gênios como Millôr Fernandes e Stanislaw Ponte Preta, ele usou a sátira inteligente e o nonsense para fazer a sociedade olhar no espelho. Suas piadas rápidas e "sacadas" ácidas expunham as contradições do cotidiano, da política, do sexo e da economia sem a necessidade de discursos longos. Sua obra provou que o humor gráfico e a crônica curta possuem altíssimo valor literário e sociológico.

Fontes:
Leon Eliachar. O homem ao zero. Publicado em 1967.
Biografia = TV Saudades; Wikipedia, Recanto das Letras, Museu da TV, Casa Rui Barbosa, etc.

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