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sábado, 29 de agosto de 2026
Professor Garcia (Poemas do Meu Cantar)
e, aos ritos do amor se entrega...
Deus põe dois braços de luz
na cruz do bem que carrega!
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Adeus!... Passado tão lindo,
encanto dos dias meus!...
Disseste-me adeus, sorrindo
e, eu triste, te disse adeus!
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A ingratidão se resume
num coração descontente,
a um velho facão sem gume
cortando os sonhos da gente!
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A mão do bem que nos rege,
mostra-nos gestos de amor,
até na mão que protege
a inocência de uma flor!
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Amor de mãe, que esplendor,
ó, que divino mister...
Deus pôs a essência do amor
no coração da mulher!
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À noite, o que me conduz,
me acompanha e me rastreia,
é o tênue raio de luz
da solidão da candeia!
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Cantas preso, canarinho
consolando a tua dor!
Eu também canto sozinho
preso às redomas do amor!
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Com remendos e arremedos,
em desmedidos desvãos;
alguns vão sujando os dedos
na sujeira de outras mãos!
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Contra o Sol, não há censura
e, ao bom pintor se assemelha,
quando pinta com ternura
a aurora, de cor vermelha!
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Daquele amor tão risonho
que moldou nosso roteiro...
Guardo o derradeiro sonho
como se fosse o primeiro!
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Depois de feita a moldura
da aquarela do arrebol,
Deus pôs gotas de ternura
na rosa rubra do sol!
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De volta à tapera antiga,
ouço uma voz que à distância,
era a mesma voz amiga
que eternizou minha infância!
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Do mar, a mais linda prenda
que a espuma branca ponteia,
é a camisola de renda
que as ondas tecem na areia!
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Feliz, não dá passos vãos
a lua, era seu caminhar,
enquanto, entrelaça as mãos
na barba branca do mar!
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Hoje, eu refiz o meu ninho
e, abri janelas e portas,
para cantar com carinho
cantigas das tardes mortas!
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Lembro, mamãe, do teu canto,
num doce e breve estribilho,
tentando enganar o pranto
do choro triste do filho!
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Meu pensamento deduz,
seguindo os teus passos certos
que, a intensidade da luz
dobra em teus braços abertos!
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Minha fronte encanecida,
já, pelo tempo, aos borralhos,
põe as auroras da vida
nos meus cabelos grisalhos!
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Não há estação perdida
para quem no amor se esmera!
Quem ama o outono da vida,
vive a eterna primavera!
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Na vida há tantas essências
e aparências desiguais,
que, eu penso que as reticências
são velhos pontos finais!
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Neste Natal, meu Senhor,
quando a vida se refaz...
Teu vinho, é o sangue do amor
teu pão, o corpo da paz!
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No aceno das horas mansas,
vejo na humilde casinha,
da infância, as ricas lembranças
da pobre mansão que eu tinha!
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O amor, em seus embaraços,
e às vezes, com seus desvãos...
Entrelaçou nossos braços
e amordaçou nossas mãos!
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O mar, de fatos e lendas
quando se zanga e se alteia,
se joga em lençóis de rendas
e espicha os braços na areia!
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O ocaso da vida, é um sonho.
Quando se alcança esse prazo,
fica um pouco mais tristonho
nosso sorriso, no ocaso!
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O poeta, em suas cantigas,
em noites calmas, dá provas
de esquecer queixas antigas,
cantando as mágoas mais novas!
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O poeta e o passarinho,
são parecidos demais:
Quanto mais longe do ninho
mais cantam tristes seus ais!
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O sino desperta o sono
da tarde que silencia,
enquanto a lua sem dono
enche a noite de poesia!
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O tempo é roda fremente
num parque de diversões,
moendo os sonhos da gente
nessa roda de ilusões!
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Peço, ó tempo, que me acudas,
faz-me entender a canção
do canto das folhas mudas,
secas, mortas pelo chão!
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Por temor da noite ingrata
e, antes que, a treva se afoite,
surge uma luz, cor de prata,
no teto negro da noite!
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Posso dizer de joelhos
ante os teus pés andarilhos,
que escuto pai, teus conselhos
aconselhando os meus filhos!
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Que ingratidão tão mesquinha,
que ausência de amor e brilho,
viver a mãe tão sozinha
ao lado do próprio filho!
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Quem contempla o amor, percebe
e, a todo instante, deduz...
Que, em tudo quanto recebe,
há uma centelha de luz!
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Quem crê na fé, na alegria,
não torna seus sonhos vãos.
Pois, cada mão que nos guia,
tem digitais de outras mãos!
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Saudade é um sonho roubado,
que de forma inconsequente...
Vive no tempo passado,
numa ilusão do presente!
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Saudade! – Velhas raízes
da solidão dos meus ais,
longe das noites felizes
dos meus antigos Natais!
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Se a cruz pesar mais, descreve
o que dela se deduz:
Que tudo quanto se deve,
Deus põe nos braços da cruz!
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Se há estradas tão dolorosas
e há cardos pelos caminhos...
Larga o caminho das rosas.
Põe teus pés sobre os espinhos!
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Se for falta de agasalho,
ou porque não tenho escolha,
a escolha do meu trabalho
se agasalha em qualquer folha!
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Sei que a saudade me escolta,
mesmo triste e tão sozinho!...
Como é bom quando se volta,
mesmo velho, ao velho ninho!
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Seis horas!... E, em triste canto,
o sino em seu padecer...
Vai driblando a dor do pranto
nos dobres do entardecer!
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Sempre o mar nas horas calmas
dos sóis de suas manhãs,
liberta os grilhões das almas
presas, às ondas pagãs!
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Se o amor é cego e reclama,
reclama sem sentir dor;
quando um cego acende a chama,
é um feliz cego de amor!
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Sigo do ocaso ao sol posto,
da vida não me envergonho.
O tempo enruga o meu rosto
mas não põe ruga em meu sonho!
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Sinto que o amor se agasalha,
nos teus olhos cor de mel...
Quando a lágrima enxovalha
meu lencinho de papel!
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Tuas juras, sempre vãs,
compromissos de ninguém,
são velhas juras pagãs
ferindo o orgulho de alguém!
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Um samba, dentre os mais belos
que, a memória perpetua...
E aquele, de teus chinelos
nas pedras de minha rua!
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Vejo que teus velhos braços
mantém a mesma medida,
com que mediste os meus passos
na primavera da vida!
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PROFESSOR GARCIA (nome artístico de Francisco Garcia de Araújo) é um dos maiores expoentes da cultura potiguar, destacando-se como poeta, trovador, escritor e compositor profundamente ligado a Caicó e à região do Seridó. Sua trajetória une a educação formal à preservação das tradições líricas e da literatura de cordel no Nordeste. Nasceu na Fazenda Acari, no município de Malta (PB), em 1946. Mudou-se para Caicó (RN), em julho de 1959, acompanhado de seu tio, o também poeta José Lucas de Barros. Desde então, fincou raízes na cidade e adotou o Seridó como seu lar definitivo. Graduou-se em Letras (Português e Inglês) e em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de possuir pós-graduação em Teologia e Éticas Especiais. Como educador, lecionou as disciplinas de Português, Francês, Inglês e Espanhol. Atuou profissionalmente como bancário. No setor público, exerceu forte representação política em Caicó, onde foi Vereador e Secretário Municipal.
Dedica-se ativamente à divulgação da poesia lírica e da trova, apresentando o programa semanal "Momentos Com Nossos Poetas" na Rádio A Voz do Seridó (100 FM). Presidente do Clube dos Trovadores do Seridó (CTS); Sócio-efetivo da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte (ATRN); Delegado e membro ativo da União Brasileira de Trovadores (UBT), Seção de Natal/RN e Caicó/RN; Membro efetivo da Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL), acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (PR). Alguns livros Publicados: Trovas que Sonhei Cantar (1974); Cantigas do Meu Cantar (2017).
Ao longo de sua carreira literária na cultura popular e no movimento trovadoresco brasileiro, obteve diversas classificações e menções honrosas em concursos nacionais de trovas promovidos pelas seções da UBT. O Professor Garcia desempenha um papel fundamental como guardião da identidade e da memória do Sertão do Seridó. A sua relevância reside na manutenção viva do Trovadorismo — uma vertente literária clássica e poética focada em composições rimadas de quatro versos de sete sílabas poéticas (redondilha maior). Ao liderar o Clube de Trovadores regional e utilizar os meios de comunicação de massa para espalhar a poesia nordestina, ele conecta a erudição da sua formação acadêmica com a pureza da cultura de raiz. Ele eleva a produção poética do interior do Rio Grande do Norte ao cenário nacional, garantindo que o lirismo sertanejo continue influenciando novas gerações de escritores.
Fontes:
Professor Garcia. Poemas do meu cantar. Natal/RN: Trairy, 2020. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras; Portal CEN; Severo Garcia; Universidade Estatual do Rio Grande do Norte (tese).
Monteiro Lobato (Toque outra)
— Mas eu não sei...
— Não faz mal, toque assim mesmo, não se faça de rogada. Aquela valsinha...
A pálida menina geme novos luxinhos faceiros, torce os pingentes da almofada e por fim levanta-se, toda dengues, a desculpar-se.
— Vou errar tudo, não tenho estudado há muitos dias, estou esquecida...
— Não faz mal, toque!...
Sinhazinha senta-se ao piano, folheia a maçaroca de músicas e preguiçosamente abre diante de si uma valsa de Aurélio Cavalcanti. E toca: blem, blem, belelém...
A sala então, que só por aquilo esperava, afunda na conversa. O barulho do piano, abafando o tom geral da palestra, dá azo à delícia dos duos, em que cada um pega de cochicho com quem mais o atende. As matronas, donas de casa, caem no assunto dileto — os criados!
— Ai, os criados! Que gente, prima! Que pestes! Não fazem “isto” sem uma pessoa estar em cima; se vão a compras, roubam no troco... E não se lhes diga uma palavrinha! Pedem a conta e dizem desaforos, os demônios...
As meninas rodeiam o moço, que impa como um galo e desdobra o farnel da banalidade tão cara às mulheres; todas ouvem-no atentas, bebem-lhe os ditos, riem das suas pilhérias, acham-no “levado”.
Titinha diz, sorvendo-o com os olhos:
— Este seu Raul é mesmo da pele!
Num desvão da janela cochicha-se um namoro; a das Dores conta à do Carmo que não gosta mais do Luisinho por umas certas coisas que viu no último baile. Do Carmo comenta, sentenciosa:
— Os homens! Os homens!...
Duas em outro canto riem perdidamente, em casquinadas argentinas. Nisto Sinhazinha acaba a valsa. A sala dá pela coisa, interrompe a tagarelice e pede mais:
— Muito bem, Sinhazinha, muito bem! Toque outra!...
Sinhazinha ataca uma scottish.
A sala retoma os temas interrompidos.
— Mas... como eu ia contando...
Impossível negar as vantagens sociais da música.
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JOSÉ BENTO RENATO MONTEIRO LOBATO (ao longo da infância, alterou seu nome para José Bento Monteiro Lobato para poder usar uma bengala de seu falecido pai que continha as iniciais "JBML" gravadas). foi um dos mais influentes, polêmicos e visionários intelectuais do Brasil. Ele revolucionou o mercado editorial do país e consagrou-se universalmente como o pai da literatura infantil brasileira. Nasceu em Taubaté/SP em 1882. e faleceu aos 66 anos, na cidade de São Paulo/SP, em 1948, vítima de um derrame. Cresceu em Taubaté. Estudou e morou na capital de São Paulo durante a faculdade. Viveu no interior paulista em Areias (como promotor) e depois na fazenda Buquira (em Tremembé). Na maturidade, fixou residência na cidade de São Paulo. Também morou no exterior como adido comercial em Nova Iorque/EUA entre 1927 e 1931, e passou um curto período de exílio voluntário em Buenos Aires/Argentina nos anos 1940.
Lobato foi um homem hiperativo, multifacetado e de perfil empreendedor. Formou-se em Direito e atuou como promotor público. Foi também fazendeiro, jornalista, crítico de arte e empresário. Teve papel histórico e pioneiro na campanha nacionalista pelo petróleo brasileiro ("O petróleo é nosso") e fundou indústrias de perfuração de poços. Na área gráfica, revolucionou o mercado nacional ao criar as primeiras grandes editoras do país (como a Monteiro Lobato & Cia. e a Companhia Editora Nacional), permitindo que livros passassem a ser fabricados e amplamente distribuídos no Brasil, e não mais importados da Europa. Nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele tentou candidatar-se nas décadas de 1920 (desistindo em uma ocasião e perdendo em outra). Em 1944, a instituição tentou indicá-lo, mas Lobato recusou formalmente devido a divergências políticas e ao seu desprezo por formalidades acadêmicas, preferindo manter-se independente das instituições tradicionais.
Sua literatura divide-se nitidamente em duas frentes: a produção adulta (filiada ao Pré-Modernismo, com forte denúncia social e nacionalismo) e a produção voltada para as crianças, que inaugurou uma nova era no país. Em vida, não recebeu grandes premiações institucionais oficiais, pois sua postura combativa e suas críticas ácidas à cultura acadêmica o afastavam de tais círculos. No entanto, sua maior recompensa foi o sucesso comercial absoluto (seus livros foram os primeiros best-sellers do Brasil). Hoje, seu nome batiza a maior honraria da literatura infantojuvenil brasileira outorgada pela Biblioteca Nacional: o Prêmio Monteiro Lobato. O dia do seu nascimento (18 de abril) foi instituído por lei como o Dia Nacional do Livro Infantil.
Principais livros publicados:
Para Adultos: Urupês (1918 — livro de contos onde criou o famoso personagem Jeca Tatu, o caipira abandonado pelo Estado); Cidades Mortas (1919); O Presidente Negro (1926 — seu único romance de ficção científica); e ensaios como O Escândalo do Petróleo (1936).
Para Crianças (Série Sítio do Picapau Amarelo): Reinações de Narizinho (1931); Caçadas de Pedrinho (1933); Emília no País da Gramática (1934); O Picapau Amarelo (1939); e A Chave do Tamanho (1942).
A relevância de Monteiro Lobato é gigantesca e, ao mesmo tempo, alvo de intensos debates contemporâneos. Por um lado, ele fundou a literatura infantil no Brasil. Antes dele, os livros para crianças eram meras traduções de fábulas europeias com tom excessivamente moralista e punitivo. Lobato trouxe o folclore nacional (como o Saci), misturou a mitologia grega, a ciência e a geografia em narrativas profundamente lúdicas, dando voz e autonomia às crianças através de personagens irreverentes como a boneca Emília. Ele alfabetizou e moldou o hábito de leitura de gerações de brasileiros. Por outro lado, estudos literários contemporâneos apontam e criticam de forma severa a presença de conteúdos de cunho racista e preconceitos de época em suas obras adultas e em trechos de seus livros infantis (notadamente na forma como a personagem Tia Nastácia é descrita ou tratada em certas passagens). Mesmo diante de suas contradições históricas, Lobato permanece como um pilar fundamental da cultura brasileira: um homem que tirou o livro da exclusividade das elites, criou a indústria editorial do país e ensinou o Brasil a ler a partir de sua própria realidade.
Fontes:
Monteiro Lobato. Cidades mortas. publicado em 1919.
Biografia = Wikipedia, Catálogo das Artes, Educa Mais Brasil, Clube do Português, Enciclopedia Britannica, Ebiografia, Editora Unesp, Brasil Escola, Almanaque O Voo da Gralha Azul, Enciclopedia Itau Cultural, Academia Brasileira de Letras, etc,
Estante de Livros (“Beowulf”)
Beowulf é um poema épico anônimo escrito em inglês antigo (anglo-saxão), com 3.182 versos aliterativos. A data exata de composição é incerta, mas o consenso acadêmico atual situa sua criação entre meados do século VII e o início do século XI, sendo o século VIII a data mais aceita pelos estudiosos.
- Ações narradas: passam-se na primeira metade do século VI, na Escandinávia (atual Dinamarca e Suécia).
- Manuscrito sobrevivente: único exemplar preservado, o Códice Nowell (ou Cotton MS Vitellius A XV), datado de cerca do ano 1000 d.C., durante o reinado de Æthelred, o Desprevenido.
- Primeira edição impressa: só veio a público em 1815, pelo islandês Grímur Jónsson Thorkelin.
- Autoria: desconhecida; provavelmente composto por um ou mais poetas cristãos em ambiente monástico ou cortesão, que reelaboraram tradições orais germânicas pré-cristãs .
Resumo
O poema conta a história de Beowulf, um guerreiro dos gautas (povo da atual Suécia), que viaja à Dinamarca para ajudar o rei Hrothgar, cujo grande salão, Heorot, é aterrorizado pelo monstro Grendel. Beowulf derrota Grendel com as próprias mãos, arrancando-lhe o braço. Em vingança, a mãe de Grendel ataca o salão; Beowulf a segue até sua toca subaquática e a mata com uma espada mágica.
Após esses triunfos, Beowulf volta à Geácia, torna-se rei e governa com sabedoria por cinquenta anos. Já idoso, enfrenta um dragão que devastava seu reino por causa de um roubo de tesouro. Na luta final, Beowulf mata o dragão, mas recebe um ferimento mortal. Morre heroicamente, assistido apenas pelo fiel vassalo Wiglaf, e seu povo o consagra com um funeral de fogo em um monte funerário, lamentando sua perda e temendo o futuro sem seu protetor.
Descrição Detalhada da História
PARTE I — A Juventude de Beowulf
1. O flagelo de Heorot
O rei dinamarquês Hrothgar construíra Heorot, um magnífico salão onde seus guerreiros se reuniam para beber, receber presentes e ouvir cantos. Por doze anos, porém, o monstro Grendel, descendente de Caim, atacava o salão todas as noites, matando e devorando os guerreiros adormecidos. Ninguém conseguia detê-lo, e o salão ficava abandonado ao cair da noite.
2. A chegada de Beowulf
Ao saber da aflição de Hrothgar, Beowulf, jovem guerreiro dos gautas, reúne catorze homens e navega até a Dinamarca para oferecer ajuda. Ao chegar, é recebido com desconfiança por alguns, mas Beowulf se apresenta com confiança, declarando que enfrentará Grendel sem armas, pois o monstro também não as usa. Hrothgar aceita a oferta, embora temeroso.
3. A luta contra Grendel
Na noite seguinte, Grendel surge debrestado e ataca Heorot. Beowulf, fingindo dormir, o aguarda. Quando o monstro o agarra, Beowulf o segura com uma força sobre-humana. A luta é brutal: o salão treme, as paredes estremecem. No confronto, Beowulf arranca o braço e o ombro de Grendel com as próprias mãos. Ferido, o monstro foge para seu pântano, onde morre. Ao amanhecer, os dinamarqueses celebram a vitória, e o braço de Grendel é pendurado no teto de Heorot como troféu.
4. A vingança da mãe de Grendel
A alegria dura pouco. Na noite seguinte, a mãe de Grendel, também um monstro, surge em Heorot para vingar o filho. Ela mata Æschere, o conselheiro favorito de Hrothgar, e foge levando o braço do filho. Beowulf acompanha Hrothgar até o pântano, onde vê a cabeça de Æschere à margem. Mergulha nas águas turvas e desce até a toca subaquática da criatura. Lá, a mãe de Grendel o ataca, e Beowulf quase sucumbe. No entanto, ele encontra uma espada mágica feita por gigantes, que jazia no fundo da caverna. Com ela, decapita o monstro. No fundo da toca, encontra também o corpo de Grendel e corta-lhe a cabeça como prova. A espada derrete ao tocar o sangue do monstro, restando apenas o punhal. Beowulf regressa à superfície com a cabeça de Grendel e o punhal da espada.
5. A volta à Geácia
Beowulf entrega os troféus a Hrothgar, que o cobre de presentes e o elogia como o maior dos heróis. Beowulf navega de volta à terra dos gautas, onde relata suas façanhas ao rei Hygelac, que o recompensa com terras e um espada magnífica.
PARTE II — A Velhice e a Morte de Beowulf
6. O reinado e o despertar do dragão
Hygelac morre em batalha, e Beowulf, após um período como regente, torna-se rei dos gautas. Governa com justiça e bravura por cinquenta anos, mantendo seu povo em paz. Até que um escravo, fugindo de seu senhor, encontra uma caverna cheia de tesouros guardada por um dragão que cuspia fogo. O escravo rouba uma taça de ouro para apaziguar seu dono e foge. Ao descobrir o roubo, o dragão se enfurece e, todas as noites, voa sobre o reino de Beowulf, queimando aldeias e destruindo tudo com seu hálito ígneo.
7. A luta final
Já idoso, mas ainda destemido, Beowulf decide enfrentar o dragão sozinho, como fizera outrora. Levanta um escudo de ferro e empunha uma espada. Com onze vassalos e o escravo guia, vai até a caverna. Ao ver o dragão, os vassalos, tomados de pavor, fogem para a floresta, exceto Wiglaf, jovem parente de Beowulf, que lembra os favores recebidos e decide ajudar o senhor.
A luta é terrível: o dragão ataca com fogo e dentes. A espada de Beowulf falha, e o monstro o morde no pescoço, causando um ferimento mortal. Wiglaf intervém, ferindo o dragão no ventre. Beowulf, reunindo suas últimas forças, saca um punhal e crava-o no coração do monstro, matando-o. A vitória é consumada, mas Beowulf está condenado.
8. A morte e o funeral
Beowulf, sentindo a morte chegar, pede a Wiglaf que traga o tesouro do dragão para que possa contemplá-lo. Ao ver a riqueza, agradece a Deus e diz a Wiglaf que não é filho, mas que o adota como sucessor. Ordena que se construa um monte funerário alto à beira-mar, para que os navegantes o vejam e lembrem de seu nome. Com isso, o herói expira.
Os vassalos covardes regressam e são repreendidos por Wiglaf. O povo lamenta profundamente a morte do rei. Construem uma pira funerária, colocam o corpo de Beowulf sobre ela e a incendeiam. Depois, erguem um monte alto sobre as cinzas, encerrando nele o tesouro e o nome de Beowulf. Doze guerreiros cavalgam ao redor do monte, cantando os feitos do herói e lamentando sua partida. O poema termina com um lamento: os gautas choram a perda do melhor dos reis, o mais amável e generoso, o mais ávido de glória e o mais protetor de seu povo.
Temas Centrais
Heroísmo
Beowulf encarna o ideal guerreiro: coragem, força e lealdade, disposto a arriscar tudo pelo povo
Bem vs. Mal
Os monstros representam o caos e o mal; Beowulf, a ordem e a virtude
Morte
A morte é inevitável; o herói busca a glória póstuma como única forma de imortalidade
Fidelidade e Traição
Wiglaf simboliza a lealdade ideal; os vassalos fugitivos, a vergonha da covardia
Cristianismo e Paganismo
O poema mescla valores germânicos pagãos com uma moldura cristã (Deus como protetor, Grendel como descendente de Caim)
Conclusão
Beowulf é a obra-prima da literatura anglo-saxônica e o mais antigo épico vernáculo europeu preservado. Em sua estrutura tripartite — juventude (Grendel), maturidade (mãe de Grendel) e velhice (dragão), — traça um percurso que vai da força bruta à sabedoria e, finalmente, ao sacrifício supremo. É um poema sobre a glória, a morte e a memória: o herói morre, mas seu nome perdura, erguido em pedra e canto, enquanto seu povo, em luto, encara um futuro sem o protetor que os salvara três vezes.
Fonte:
A. I. Dola.
Fernando Sabino (Ocasiões de ficar calado)
— Meu marido morreu há dois anos, o senhor não sabia?
Cumprida a primeira parte da gafe, saio impávido para a segunda:
— Que coisa terrível, eu não sabia! Me desculpe, mas andei viajando...
E não tendo mais o que dizer, repito para o cavalheiro que a acompanha:
— Terrível, não acha?
Mas ele não pensa assim:
— Não acho não: sou o atual marido dela.
A consciência de que a gafe em geral se compõe de duas partes distintas. Ficar sempre na primeira, jamais tentar consertar. Ao contrário da Loteria Federal, não insista, desista! Eis o que eu, empedernido praticante, tenho a aconselhar aos meus companheiros de infortúnio. A gafe é vertiginosa e se faz anteceder de uma espécie de aviso, antecipa-se na sensação de que caminhamos no ar, como num desenho animado:
— Como foi bom encontrar você! Eu já estava achando esta festa chatíssima. Vamos embora daqui?
— Não posso, sou a dona da casa.
Ou esta outra, mais comum ainda:
— Com aquela mulher ali eu não dormia nem de graça.
— Aquela mulher ali é a minha esposa.
Se o infeliz acrescentar que neste caso dormia sim, não estará apenas caindo de quatro: estará se precipitando no abismo da mais imperdoável inconveniência, que vem a ser a repetição literal de uma velha anedota.
São gafes tradicionais, decorrentes em geral das relações de parentesco ou dos encontros de circunstância, a que os mais insensatos como eu raramente escapam. Não há como resistir ao poder magnético dos assuntos traiçoeiros, que vão espalhando armadilhas a cada passo, e nos levam sempre a falar em corda justamente na casa do enforcado.
Se sabemos que a gafe é irreversível, por que tentamos teimosamente remendá-la, afundando-nos cada vez mais?
É que ela nem ao menos é sincera. Fôssemos autênticos e verazes na convivência, a gafe se desarmaria ao peso de sua própria legitimidade. E deixaria de ser gafe.
Foi essa, pelo menos, a solução encontrada por um amigo meu, vítima também dessa maldita sina, e que ontem me dizia ter-se conformado, passando a praticá-la deliberadamente.
— Você é parente dele? Que horror!
— Morreu? Meus parabéns.
— Não sei como você, tão simpática, pode ter um marido tão chato.
— Fui cair logo ao seu lado neste banquete, mas veja só que azar o meu.
— Aliás, pelo que eu soube, a senhora não é tão velha quanto parece.
— Não aguentei ler até o fim. Ah, foi o senhor que escreveu? E ainda tem coragem de confessar?
Com isso, ele passou a ser considerado homem do mais fino espírito — excêntrico, desconcertante, é verdade — mas de esmerada educação. Apesar de tudo, outro dia recebeu o troco que lhe era devido, funcionando desta vez como receptor de uma gafe, ao dizer a uma jovem, que está escrevendo um romance: a história de um mau-caráter.
E ela, inocentemente:
— Autobiográfico?
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.
Fontes:
Fernando Sabino. Deixa o Alfredo falar. Publicado em 1976.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.
Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa * 1 *
DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE
Ao charco mais escuso e mais imundo
chega uma hora no correr do dia
em que um raio de sol, claro e jucundo,
o visita, o alegra, o alumia;
pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
nesta contínua e intérmina agonia,
nem tenho uma hora só dessa alegria
que chega às coisas ínfimas do mundo!...
Deus meu, acaso a roda do destino
a movimentam vossas mãos leais
num aceno impulsivo e repentino,
sem que na cega turbulência a domem?!
Senhor! não é um seixo que esmagais;
olhai que é – o coração de um homem!...
* * * * * * * * * * * * * * * *
Camilo Pessanha
Coimbra, 1867 – 1926, Macau
CAMINHO (I)
Tenho sonhos cruéis: n’alma doente
sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
embebido em saudades do presente...
Saudades desta dor que em vão procuro
do peito afugentar bem rudemente,
devendo, ao desmaiar sobre o poente,
cobrir-me o coração de um véu escuro!...
Porque a dor, esta falta d’harmonia,
toda a luz desgrenhada que alumia
as almas doidamente, o céu d’agora,
sem ela o coração é quase nada:
um sol onde expirasse a madrugada,
porque é só madrugada quando chora.
* * * * * * * * * * * * * * * *
Eugênio de Castro
Coimbra, 1869 – 1944
A COROA DE ROSAS
A fim, oculto amor, de coroar-te,
de adornar tuas tranças luminosas,
uma coroa teci de brancas rosas,
e fui pelo mundo afora, a procurar-te.
Sem nunca te encontrar, crendo avistar-te
nas moças que encontrava, donairosas,
fui-as beijando e fui-lhes dando as rosas
da coroa feita com amor e arte.
Trago, de caminhar, os membros lassos,
acutilam-me os ventos e as geadas,
já não sei o que são noites serenas...
Sinto que vais chegar, ouço-te os passos,
mas ai! nas minhas mãos ensanguentadas
uma coroa de espinhos trago apenas!
* * * * * * * * * * * * * * * *
Fausto Guedes Teixeira
Lamego/Alto Douro, 1871 – 1930, ????
EU QUERO OUVIR O CORAÇÃO FALAR
Eu quero ouvir o coração falar
e não os homens a falar por ele!
Enquanto a gente fala, há de parar
no peito a vida estranha que o impele.
Independente à forma de o expressar,
o sentimento existe, e ai daquele
coração triste que se julgue dar
na cerração em que a palavra o vele.
Astro no peito, é sobre a língua chaga.
Dizer uma alegria ou um tormento
é um mar em que sempre se naufraga.
Era a essência de Deus vista e atingida!
Se é a força da vida o sentimento,
fez-se a palavra pra mentir a vida.
* * * * * * * * * * * * * * * *
José Duro
Lisboa, 1875 – 1899
DOR SUPREMA
Onde quer que ponho os olhos contristados
– costumei-me a ver o mal em toda a parte –
não encontro nada que não vá magoar-te,
ó minh’alma cega, irmã dos entrevados.
Sexta-feira santa cheia de cuidados,
livro d’Ezequiel. Vontade de chorar-te...
E não ter um pranto, um só, para lavar-te
das manchas do fel, filhas de mil pecados!...
Ai do que não chora porque se esqueceu
como há de chamar as lágrimas aos olhos
na hora amargurada em que precisa delas!
Mas é bem mais triste aquele que olha o céu
em busca de Deus, que o livre dos abrolhos,
e só acha a luz das pálidas estrelas...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Fonte:
Sergio Faraco (org.) Livro dos sonetos: 1500-1900. Porto Alegre/RS: L&PM, 2016.
Rachel de Queiróz (Terra nova)
Diz que certa vez o duque de Windsor, em Paris, foi visitar a exposição que lá fazia Portinari e se interessou por comprar um quadro:
― O senhor não terá alguma pintura de flores?
E Candinho, botando o seu olho azul e irônico no ex-rei:
― Não senhor. Só tenho miséria.
*
Assim me sinto hoje em dia. Queria escrever uma história gentil, contando a adaptação de uma família pau-de-arara que deixou as asperezas da catinga nativa pelas grandezas de São Paulo. Mas não saem flores, só sai miséria.
Começa o caso com o embarque de trem no Quixadá, em procura do Crato, ponto final da linha de ônibus para São Paulo.
Mas passemos por alto essa viagem de quatrocentos e tantos quilômetros no trem superlotado, atrasado, descarrilado; a chegada ao Crato já tarde da noite, a procura de pensão, as crianças chorando, as trouxas perdidas, nem uma porta aberta onde se comprasse uma bolacha.
Passemos, ah passemos ainda mais por alto a viagem de ônibus, três mil e quatrocentos quilômetros através da Transnordestina e depois a Rio-Bahia e depois a Via Dutra. Tudo são dores e enjoo, calor e poeira, sacolejos e esperas de dias quando há um prego, sempre no maior desconforto, sem falar na saudade e no medo da mudança, que isso já nem são desconfortos, são metafísicas. E a gente queria contar uma história gentil.
Depois vem a chegada em São Paulo.
Foi Ribamar, o irmão, que numa loucura de generosidade mandou chamar a tribo toda, incluindo a mãe viúva, os irmãos casados, a mana solteira e os dois sobrinhos órfãos. Pagou as passagens, mas não os pôde esperar na estação. O ônibus não tem hora de chegada, quando muito tem um dia, e isso não contando os pregos. Felizmente o Ribamar teve a ideia de mandar em carta o número do telefone de um botequim de onde o poderiam chamar por favor na obra em que trabalhava.
Mas aí veio o problema de falar no telefone, coisa que ninguém da família sabia. E de onde telefonar? O Eliseu, o mais velho e mais expedito, teve a ideia de perguntar a um passante se ele sabia onde é que ficava aquele telefone. O paulista aí gozou a besteira do baiano, e o Eliseu foi se danando, porque para começo de conversa ele não é baiano, nunca teve parente baiano e até não gosta muito de baiano. Mas o paulista depois de gozar um pouco, mostrou a sua boa vontade e deu o telefonema, chamando o Ribamar. Que mandou a família esperar com paciência na rodoviária, enquanto ele tomava condução e os alcançava. Se acomodaram mal e mal pelos bancos da estação e ficaram esperando. Horas, horas. Cansados, com fome. E o frio? Frio aliás já vinha ocupando lugar importante na vida deles, penetrando os uniformes de brim dos homens, os vestidos delgados das mulheres, desde que haviam começado a escalar as altitudes de Minas Gerais. E agora ali na cidade, enquanto uma garoa fina começava a penetrar o ar escuro, o frio passava pelos panos de algodão como luz pelo vidro, furava a pele e ia morder os ossos.
Afinal apareceu o Ribamar ― de óculos escuros, blusão de couro, quem visse dizia que era um aviador. Falando animado, mas sentia-se que estava um pouco tonto com aquele povaréu todo que lhe caía assim às costas, nove pessoas!
Como é que ia botar tudo no quartinho de aluguel que arranjara numa favela improvisada pros lados da Cantareira, por nome a Nova Bahia?
Aliás, segundo explicava um carioca lá residente, o povo só chama aquilo de favela é por ignorância. Porque favela, em linguagem do Rio, quer dizer morro, paisagem, arquitetura de passarinho e não aqueles barracos sujos entre a lama e o alagadiço. Favela é berço de samba, que o carioca dizia. Mas o pessoal deu para chamar favela a tudo que é acampamento de pobre e depois do diário da Carolina ficou por favela mesmo e pronto. Ninguém pode com literatura.
A tia da namorada do Ribamar arranjara-lhe um cartão de matrícula para a família na seção de empregos das Obras Sociais de São Jorge.
Mas caridade particular, quando é feita em escala muito larga, vira igual coisa de governo: se burocratiza. As moças da Obra têm muita boa vontade, fazem as cartas de recomendação solicitando emprego às firmas, mas não vão saber se as cartas são atendidas, não é mesmo?
Seria impossível acompanhar cada pobre. Ver se o bilhete é recebido. Se o hospital tem leito vago. Se há vaga de emprego.
Organiza-se uma imensa máquina para trabalhar pelo amor de Deus ― mas parece que Deus não gosta de máquinas. Ademais, os caminhos de Deus são tão difíceis. Quem faz o gesto já acha que fez muito. E acaba ficando tudo na formalidade da apresentação — depois se entrega a Deus. E parece que até Deus se cansa.
Fica o coitado andando de Pilatos a Herodes, com o cartãozinho da Obra. Quando os homens do emprego desenganam logo, ainda bem, mas quando ficam cozinhando com pouco fogo ― venha amanhã, venha depois, só passadas cinco horas, amanhã não que é sábado, segunda também não, pensando bem só na terça... E o pobre tomando condução pra lá e pra cá, e gastando sapato, e paciência, e esperança... Ai, só quem sente sabe.
No fim foram vendo que só podiam contar com eles mesmos, e como eram nove, não incluindo o Ribamar, era afinal bastante gente.
Quem primeiro se empregou foi mesmo o Eliseu. Numa construção. Imagine quem toda a vida foi vaqueiro, no costume de não carregar nem o próprio corpo, pois só andava montado, virar servente de pedreiro, com o mestre a toda hora gritando pela massa, e o pobre de chouto com a lata na cabeça. Já estava de moleira baixa de tanto carregar peso.
E ainda se dava por feliz porque sendo ele o primeiro a se empregar, foi a bem dizer também o único. Os outros ainda estão na mão. A Zuila se colocou de aprendiz num salão de manicure, mas sem salário. O Francisquinho está pensando em sentar praça para ter caderneta de serviço militar. Os pequenos precisam é de escola. A velha, quando arranja o quê, cozinha. E tudo comendo, vestindo, andando, gastando calçado e condução. E tirando de onde?
O Ribamar que o diga — já vendeu o blusão de couro, os óculos, e empenhou o relógio.
Ai, São Paulo é muito bom, mas cidade grande é fogo. E o Ceará tão longe! E ainda por cima ser tratado de baiano.
*
Desculpem. Mas eu não disse que só tinha miséria?
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RACHEL DE QUEIROZ foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira, consagrada como a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e um dos principais nomes da segunda fase do Modernismo (Geração de 30). Nascida em Fortaleza/CE, em 1910. Pelo lado materno, era descendente da estirpe de José de Alencar. Faleceu aos 92 anos, no Rio de Janeiro em 2003, vítima de um enfarte enquanto dormia em sua rede. Passou a primeira infância na Fazenda Junco, em Quixadá/CE. Em 1917, para fugir dos impactos da histórica seca de 1915, migrou com a família para o Rio de Janeiro e, logo em seguida, para Belém/PA. Retornou a Fortaleza em 1919. Na idade adulta, dividiu sua vida por décadas entre o apartamento no Rio de Janeiro, onde trabalhava e a sua amada fazenda "Não Me Deixes", em Quixadá, seu refúgio sertanejo no Ceará. Diplomou-se professora de história aos 15 anos. Contudo, destacou-se massivamente como jornalista e cronista, escrevendo por mais de 30 anos para a revista O Cruzeiro e para jornais como O Povo e Diário de Notícias. Atuou intensamente como tradutora, vertendo mais de 40 obras de autores clássicos (como Jane Austen e Dostoiévski) para o português. Teve também uma importante atuação política na juventude, ligada ao Partido Comunista (do qual se afastou posteriormente), e chegou a ser cotada para o cargo de Ministra da Educação.
Fez história em 1977 ao ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição (Cadeira nº 5). Também foi membra da Academia Cearense de Letras. Sua estreia na literatura ocorreu de forma meteórica em 1930, aos 20 anos de idade, com o romance O Quinze. O livro causou grande impacto nacional pela maturidade com que uma jovem mulher tratava a tragédia social e humana da seca nordestina. Recebeu o Prêmio Graça Aranha por O Quinze (1931). Ao longo da carreira, foi agraciada com o Prêmio Jabuti (1970) e o Prêmio Juca Pato (1993). Em 1993, quebrou mais um tabu ao ser a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o reconhecimento literário mais importante da língua portuguesa.
Principais livros publicados: O Quinze (1930) – Romance de estreia e marco do regionalismo modernista; João Miguel (1932) – Romance focado na realidade carcerária do sertão; Caminho de Pedras (1937) – Obra de forte teor político e social; As Três Marias (1939) – Livro que discute a condição feminina urbana; O Galo de Ouro (1950) – Romance publicado inicialmente em folhetim; Memorial de Maria Moura (1992) – Épico sobre o cangaço e sua última grande obra-prima, adaptada com enorme sucesso como minissérie de TV; Lampião (1953) – Peça de teatro de grande sucesso.
A relevância de Rachel de Queiroz é imensurável sob dois aspectos fundamentais: artístico e social. No plano artístico, ela ajudou a redefinir o romance regionalista brasileiro, despindo o sertão de qualquer romantismo idealizado. Sua prosa era firme, enxuta, realista e de uma sensibilidade cortante, focada nas dores da desigualdade, do patriarcado e da miséria. No plano social, Rachel foi uma pioneira absoluta na emancipação e ocupação de espaços pelas mulheres no ecossistema intelectual do país. Em uma época na qual o meio literário era dominado quase que exclusivamente por homens, ela impôs sua voz e abriu as portas da Academia Brasileira de Letras para as escritoras que viriam depois. Sua escrita deu voz aos esquecidos do sertão e fixou para sempre o ponto de vista feminino na história literária nacional.
Fontes:
O Cruzeiro. RJ: 16 jun 1962
Biografia = Brasil Escola, Português, Educa Mais Brasil, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, E-biografia, etc.
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