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sábado, 29 de agosto de 2026

Rubem Braga (A primeira mulher do Nunes)


Hoje, pela volta do meio-dia, fui tomar um táxi naquele ponto da Praça Serzedelo Correia, em Copacabana. Quando me aproximava do ponto notei uma senhora que estava sentada em um banco, voltada para o jardim; nas extremidades do banco estavam sentados dois choferes, mas voltados em posição contraria, de frente para o restaurante da esquina. Enquanto caminhava em direção a um carro, reparei, de relance, na senhora. Era bonita e tinha ar de estrangeira; vestia-se com muita simplicidade, mas seu vestido era de um linho bom e as sandálias cor de carne me pareceram finas. De longe podia parecer amiga de um dos motoristas; de perto, apesar da simplicidade de seu vestido, sentia-se que nada tinha a ver com nenhum dos dois. Só o fato de ter sentado naquele banco já parecia indicar tratar-se de uma estrangeira, e não sei por que me veio a ideia de que era uma senhora que nunca viveu no Rio, talvez estivesse em seu primeiro dia de Rio de Janeiro, entretida em ver as árvores, o movimento da praça, as crianças que brincavam, as babás que empurravam carrinhos. Pode parecer exagero que eu tenha sentido isso tudo de relance, mas a impressão que tive é que ela tinha a pele e cabelos muito bem tratados para não ser uma senhora rica ou pelo menos de certa posição, deu-me a impressão de estar fruindo um certo prazer em estar ali, naquele ambiente popular, olhando as pessoas com um ar simpático e vagamente divertido. Foi o que me pareceu no rápido instante em que nossos olhares se encontraram.

Como o primeiro chofer da fila alegasse que preferia um passageiro para o centro, pois estava na hora de seu almoço, e os dois carros seguintes não tivessem nenhum chofer aparente, caminhei um pouco para tomar o que estava em quarto lugar. Tive a impressão de que a senhora se voltara para me olhar. Quando tomei o carro e fiquei novamente de frente para ela, e enquanto eu murmurava para o chofer o meu rumo – Ipanema – notei que ela desviava o olhar; o carro andara apenas alguns metros e, tomado de um pressentimento, eu disse ao chofer que parasse um instante. Ele obedeceu. Olhei para a senhora, mas ela havia voltado completamente a cabeça. Mandei tocar, mas enquanto o velho táxi rolava lentamente ao longo da praia eu fui possuído pela certeza súbita e insistente de que acabara de ver a primeira mulher do Nunes.

– Você precisa conhecer a primeira mulher do Nunes – me disse uma vez um amigo.

– Você precisa conhecer a primeira mulher do Nunes – me disse outra vez outro amigo.

Isso aconteceu há alguns anos, em São Paulo, durante os poucos meses em que trabalhei com o Nunes. Eu conhecera sua segunda mulher, uma morena bonitinha, suave, quieta – pois ele me convidara duas vezes a jantar em sua casa. Nunca me falara de sua primeira mulher, nem sequer de seu primeiro casamento. O Nunes era pessoa de certo destaque em sua profissão e afinal de contas um homem agradável, embora não brilhante. Notei, entretanto, que sempre que alguém me falava dele era inevitável uma referência à sua primeira mulher.

Um casal meu amigo, que costumava passar os fins de semana em uma fazenda, convidou-me certa vez a ir com eles e mais um pequeno grupo. Aceitei, mas no sábado fui obrigado a telefonar dizendo que não podia ir. Segunda-feira, o amigo que me convidara me disse:

– Foi pena você não ir. Pegamos um tempo ótimo e o grupo estava divertido. Quem perguntou muito por você foi a Marissa.

– Quem?

– A primeira mulher do Nunes.

– Mas eu não conheço …

– Sei, mas eu havia dito a ela que você ia. Ela estava muito interessada em conhecer você.

A essa altura eu já sabia várias coisas a respeito da primeira mulher do Nunes; que era linda, inteligente, muito interessante, um pouco estranha, judia italiana, rica, tinha cabelos castanho-claros e olhos verdes e uma pele maravilhosa – “parece que está sempre fresquinha, saindo do banho”, segundo a descrição que eu ouvira.

Quando dei de mim eu estava, de maneira mais ingênua, mais tola, mais veemente, apaixonado pela primeira mulher do Nunes. Devo dizer que nessa ocasião eu emergia de um caso sentimental arrasador – um caso que mais de uma vez chegou ao drama e beirou a tragédia e em que eu mesmo, provavelmente, mais de uma vez, passei os limites do ridículo. Eu vivia sentimentalmente uma hora parda, vazia, feita de tédio e remorso; a lembrança da história que passara me doía um pouco e me amargava muito. Além disso minha situação não era boa; alguns amigos achavam – e um teve a franqueza de me dizer isso, quando bêbado – que eu estava decadente em minha profissão. Outros diziam que eu estava bebendo demais. Enfim, tempos ruins, de moral baixa e ainda por cima de pouco dinheiro e pequenas dívidas mortificantes. Naturalmente eu me distraía com uma ou outra historieta de amor, mas saía de cada uma ainda mais entediado. A imagem da primeira mulher do Nunes começou a aparecer-me como a última esperança, a única estrela a brilhar na minha frente. Esse sentimento era mais ou menos inconsciente, mas tomei consciência aguda dele quando soube que ela ganhara uma bolsa esplêndida para passar seis meses nos Estados Unidos. Senti-me como que roubado, traído pelo governo norte-americano. Mas a notícia veio com um convite – para o jantar de despedida da primeira mulher do Nunes.

Isso aconteceu há quatro ou cinco anos. Mudei-me de São Paulo, fiz algumas viagens, resolvi parar mesmo no Rio – e naturalmente me aconteceram coisas. Nunca mais vi o Nunes. Aliás, nos últimos tempos de nossas relações, eu me distanciara dele por um absurdo constrangimento, o pudor pueril do que ele pudesse pensar no dia em que soubesse que entre mim e a sua primeira mulher… Na realidade nunca houve nada entre nós dois; nunca sequer nos avistamos. Uma banal gripe me impediu de ir ao jantar de despedida; depois eu soube que sua bolsa fora prorrogada, depois ouvi alguém dizer que a encontrara em Paris – enfim, a primeira mulher do Nunes ficou sendo um mito, uma estrela perdida para sempre em remotos horizontes e que jamais cheguei a avistar.

Talvez fosse mesmo ela que estivesse pousada hoje, pelo meio-dia, na Praça Serzedelo Correia, simples, linda e tranquila. Assim era a imagem que eu fazia dela; e tive a impressão de que seu rápido olhar vagamente cordial e vagamente irônico tentava me dizer alguma coisa, talvez contivesse uma espantosa e cruel mensagem: “eu sei quem é você; eu sou Marissa, a primeira mulher do Nunes; mas nosso destino é não nos conhecermos jamais…”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
RUBEM BRAGA é considerado o maior cronista da literatura brasileira, tendo elevado a crônica jornalística ao status de alta literatura. Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 1913 e faleceu aos 76 anos, no Rio de Janeiro, em 1990, decorrência de um câncer na laringe. Embora tenha nascido no Espírito Santo, Rubem Braga foi um cidadão do mundo. Morou em Belo Horizonte e São Paulo no início da carreira. Viveu em Porto Alegre nos anos 1930 e passou uma temporada na Itália (como correspondente de guerra). Fixou residência definitiva no Rio de Janeiro, onde ficou famosa a sua cobertura em Ipanema, repleta de árvores frutíferas e passarinhos, que refletiam seu amor pela natureza. Também morou temporariamente em Santiago (Chile), Paris (França) e Rabat (Marrocos) devido a funções diplomáticas. A trajetória profissional de Rubem Braga esteve indissociavelmente ligada ao jornalismo. Formou-se em Direito em 1932, mas nunca exerceu a profissão. Trabalhou nos maiores jornais e revistas do país, incluindo Diários Associados, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Manchete. Em 1944, cobriu a Segunda Guerra Mundial na Itália como correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira (FEB). Mais tarde, exerceu cargos diplomáticos, atuando como Embaixador do Brasil em Marrocos no início da década de 1960. Em 1967, fundou a prestigiada Editora Sabiá ao lado do amigo Fernando Sabino.
Nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar de seu imenso prestígio, ele era um homem de hábitos simples e avesso a formalismos ou rituais institucionais, preferindo manter-se focado no cotidiano das redações e na vida boêmia e intelectual carioca. Diferente de seus contemporâneos, que transitavam entre romances e poesias, Rubem Braga dedicou-se quase exclusivamente à crônica. Ele estreou em livro em 1936 e, ao longo de mais de 50 anos de carreira, escreveu milhares de textos jornalísticos que depois eram reunidos em volumes independentes. Recebeu diversas honrarias ao longo da vida, com destaque para o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Crônica e Novela" no ano de 1961, pelo livro Ai de ti, Copacabana. Também recebeu o prêmio de Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato) em 1968.
Principais livros publicados: O Conde e o Passarinho (1936) – Seu livro de estreia; Morro do Isolamento (1944); Ai de ti, Copacabana (1960) – Uma de suas coletâneas mais célebres e líricas; A Traição das Elegantes (1962); O Recado do Morro (1971); O Menino e o Tuim (1986).
A importância de Rubem Braga para a literatura é monumental: ele foi o responsável por consolidar a crônica como um gênero literário genuinamente brasileiro. Antes dele, o texto de jornal era visto como algo menor, efêmero e puramente informativo. Provou que era possível fazer alta literatura a partir das coisas mais simples do dia a dia. Com um estilo marcado pela extrema simplicidade, melancolia, lirismo e uma aguçada sensibilidade poética, ele transformava o voo de um passarinho, um encontro de esquina, a chuva que caía no Rio de Janeiro ou as memórias da infância em reflexões profundas sobre a condição humana. Apelidado de "O Sabiá da Crônica", Rubem Braga abriu caminhos para que gerações de escritores brasileiros fizessem do cotidiano a sua matéria-prima literária mais nobre.

Fontes:
Revista Manchete. RJ. Outubro de 1957
Wikipedia

Paulo Leminski (Versos Diversos)


dois loucos no bairro

um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também
* * * * * * * * * * * * * * * *  

bate o vento eu movo
volta a bater de novo
a me mover eu volto
sempre em volta deste
meu amor ao vento
* * * * * * * * * * * * * * * *  

hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher linguiça
entre um triunfo e um waterloo
* * * * * * * * * * * * * * * *  

você
que a gente chama
quando gama
quando está com medo
e mágua
quando está com sede
e não tem água
você
só você
que a gente segue
até que acaba
em cheque
ou em chamas
qualquer som
qualquer um
pode ser tua voz
teu zum-zum-zum
todo susto
sob a forma
de um súbito arbusto
seixo solto
céu revolto
pode ser teu vulto
ou tua volta
* * * * * * * * * * * * * * * *  

esperas frustras
vésperas frutas
matérias brutas
quantas estrelas
custas?
* * * * * * * * * * * * * * * *  

oração de pajé

que eu seja erva raio
no coração de meus amigos
árvore força
na beira do riacho
pedra na fonte
    estrela
        na borda
             do abismo
* * * * * * * * * * * * * * * *  

dia
dai-me
a sabedoria de caetano
nunca ler jornais
a loucura de glauber
ter sempre uma cabeça cortada a mais
a fúria de décio
nunca fazer versinhos normais
* * * * * * * * * * * * * * * *  

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador
* * * * * * * * * * * * * * * *  

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
* * * * * * * * * * * * * * * *  

como um coto caro ao roto
incrédulo tiago
toco as chagas
que me chegam
do passado
mutilado

toco o nada
aquele nada que não para
aquele agora nada
que tinha
a minha
cara

nada não
que nada nenhum
declara tamanha danação
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O poeta, escritor e intelectual PAULO LEMINSKI FILHO foi uma das mentes mais inovadoras, irreverentes e originais do cenário cultural brasileiro do século XX. Nasceu em Curitiba/PR, em 1944, filho de um militar de origem polonesa e de uma mãe de ascendência afro-brasileira. Faleceu precocemente aos 44 anos, também em Curitiba em 1989, decorrência de complicações de uma cirrose hepática. Passou a maior parte da sua vida em Curitiba. Aos 12 anos, mudou-se temporariamente para São Paulo/SP para estudar no Mosteiro de São Bento. Entre 1969 e 1970, residiu brevemente no Rio de Janeiro, retornando logo depois à capital paranaense, onde sua casa no bairro Cruz do Pilarzinho tornou-se um famoso ponto de encontro de artistas.
Leminski foi o que ele mesmo chamava de um "polivivente". Atuou intensamente como professor de história e redação em cursinhos pré-vestibulares, jornalista, crítico literário e tradutor (dominava e traduzia cerca de sete idiomas, incluindo latim, japonês e grego). Além disso, trabalhou com grande destaque no mercado publicitário como diretor de criação e redator e na música como compositor, firmando parcerias com nomes como Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Moraes Moreira. Fiel ao seu espírito vanguardista, boêmio e contestador, Leminski nunca pertenceu formalmente a nenhuma academia de letras tradicional em vida, pois sua postura artística rejeitava o formalismo e as instituições tradicionais da literatura. O reconhecimento dessas instituições veio de forma póstuma através de homenagens e estudos sobre seu legado.
Sua estreia literária formal aconteceu em 1964 na revista Invenção, dirigida pelos poetas concretistas de São Paulo (os irmãos Haroldo e Augusto de Campos). Leminski mesclou o rigor estético da Poesia Concreta, a velocidade do texto publicitário, a síntese milenar do haicai japonês e a rebeldia da Geração Mimeógrafo (poesia marginal). Ganhou notoriedade em premiações populares de poesia de vanguarda no início de sua trajetória. O grande triunfo de premiação literária de sua obra ocorreu postumamente, quando a antologia Toda Poesia conquistou o prestigiado Prêmio Jabuti em 2014, além de figurar de forma inédita para um livro de poesia no topo dos mais vendidos do país. 
Principais livros publicados: Catatau (1975) – Romance experimental e sua obra em prosa mais famosa; Caprichos e Relaxos (1983) – Coletânea poética que consolidou sua voz no país; Distraídos Venceremos (1987) – Último livro de poesia publicado em vida; Agora é que são elas (1984) – Romance; Toda Poesia (2013) – Coletânea póstuma que transformou sua obra em um fenômeno pop.
A relevância de Paulo Leminski para a literatura reside na sua capacidade única de democratizar a poesia sem esvaziá-la de profundidade intelectual. Ele derrubou as barreiras entre a alta cultura erudita e a cultura pop de massa. Ao unir o rigor formal ao humor corrente, ao trocadilho cotidiano e ao lirismo afiado, ele retirou a poesia do ambiente acadêmico rígido e a levou para as ruas, as canções e os cartazes de publicidade. Leminski provou que a poesia poderia ser concisa, ágil, sutil e, acima de tudo, intensamente viva. Seu impacto permanece pulsante, servindo como uma das maiores influências para as novas gerações de escritores e poetas contemporâneos no Brasil.

Fontes:
Paulo Leminski. Distraídos venceremos. Publicado em 1987.
Biografia = Wikipedia, Estadão, Ebiografia, Almanaque O Voo da Gralha Azul, Sesc PR, Bem Paraná, Brasil Escola, Mundo Educação, etc.

Contos e Lendas do Mundo (O Pássaro Dourado)


Era uma vez, há muito tempo, num reino distante, havia um rei que tinha um pomar muito belo nos fundos de seu castelo. Nesse pomar havia uma árvore que produzia maçãs de ouro muito deliciosas. Quando as maçãs amadureciam eram contadas uma a uma. Certo dia o rei notou que faltava uma maçã e então deu ordem para que todas as noites alguém ficasse vigiando a macieira.

Esse rei tinha três filhos, príncipes herdeiros, e então enviou o maior deles, ao cair da noite, a vigiar o pomar e a árvore; porém, antes da meia-noite o jovem não se conteve de sono e adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que faltava uma maçã. Na noite seguinte o rei enviou o filho do meio a vigiar o pomar. E da mesma forma este não teve melhor sorte que seu irmão mais velho. Adormeceu antes mesmo da meia-noite e, quando despertou na manhã seguinte, notou que faltava uma maçã na árvore.

Terceira noite. Chegou a vez do menor, do caçulinha cuidar do pomar. O rei, porém, não botava muita fé no menorzinho e achava que aconteceria o mesmo com ele, e que não teria melhor sorte que seus irmãos mais velhos, motivo pelo qual não queria deixá-lo ir. O jovem, porém, pediu, implorou e insistiu tanto que o seu pai acabou consentindo. Então o caçula postou-se debaixo da árvore, ficou alerta, em vigília, e não deixou que o sono o vencesse. Ficou de olhos bem abertos e vigiando a macieira.  

À meia-noite, como era noite enluarada, ele ouviu um grande barulho no ar e viu um grande pássaro voar ao redor da árvore - suas penas eram de ouro puro e brilhavam sob a luz do luar. O pássaro pousou na macieira e bicou uma maçã. Ao fazer isso o príncipe caçula pegou o estilingue e atirou-lhe uma pedra. O pássaro voou com a maçã no bico mas, atingido na cauda, deixou cair uma pena dourada.

Na manhã seguinte o caçula levantou-se, pegou a pena e levou-a ao rei, e contou-lhe o que vira durante a noite. O rei então reuniu os sábios do seu reino e todos foram unânimes em dizer que uma pena de ouro daquelas era raríssima, mais cara que todo o seu reino. Então o rei lhes disse:

"Se uma pena assim é tão valiosa, então de nada me adianta ter apenas uma pena dourada. Eu quero o pássaro todo, vivo."

No dia seguinte o pai chamou o filho mais velho e enviou-o em busca da ave. Ladino, pôs-se a caminho em busca do pássaro de ouro, acreditando que logo o acharia. Mal havia andado alguns quilômetros quando, ao entrar em uma floresta, viu uma raposinha à beira do caminho.

Preparou a espingarda e mirou. A pobre raposinha suplicou:

"Por favor, não me mate. Eu vou lhe dar um bom conselho: Você está em busca do pássaro dourado, não é mesmo?  Pois bem, hoje à tarde, antes mesmo do por do sol, você irá chegar a uma aldeiazinha. Logo na entrada, na primeira rua dessa aldeiazinha você verá duas pensões - uma diante da outra. Uma delas estará toda iluminada e com música alta. Lá só tem folia e algazarra. Não entre nessa não. Vá à outra, do outro lado da rua, mesmo que ela tenha um aspecto horrível – mas essa é boa."

E o príncipe pensou consigo:

"Só se eu fosse muito bobo pra seguir um conselho dessa raposa tola...”

E assim pensando, apertou o gatilho da espingarda mas errou o alvo e não acertou a raposinha que esticou a cauda e os pelos e correu para dentro da floresta. Então o príncipe continuou seu caminho. Ao cair da tarde, chegou a uma aldeiazinha onde havia duas pensões, uma em frente da outra.  Numa delas, só música, festa, folia e bagunça e, na outra, silêncio e um aspecto não muito agradável aos olhos.

E pensou consigo:

"Eu seria um tolo se eu me hospedasse naquela espelunca feia que mais parece uma favela e cemitério...”

E assim dizendo, entrou na casa onde imperava a bagunça e a folia. E viveu a vida comendo e bebendo, dançando e gastando tudo.  Esqueceu-se do pássaro, do seu pai e de tudo de bom que havia aprendido.

Como o tempo se passou e o filho mais velho não retornava, o pai enviou o filho do meio. Este se pôs a caminho em busca do pássaro dourado.  E, da mesma forma como acontecera com o seu irmão mais velho, encontrou a raposinha à beira do caminho, a qual deu-lhe conselhos. Porém ele não a ouviu. Chegando àquela aldeiazinha viu, pela janela da casa de folia, seu irmão bebendo e dançando. E lá dentro só algazarra. Seu irmão o chamou. Ele entrou e também levou a vida só no bem-bom.

Passou-se o tempo e, como nenhum dos dois irmãos retornava, o caçula quis partir em busca do pássaro de ouro, porém seu pai não botava fé nele e não queria deixá-lo partir. Então o rei, seu pai, falou-lhe:

"É inútil. Se seus irmãos não encontraram o pássaro dourado, você não terá melhor sorte... Você é muito pequeno... “

E tanto insistiu, e implorou o caçula, que o rei acabou consentindo na sua partida.

No caminho, logo na entrada da floresta, o príncipe-caçula encontrou a raposinha a qual disse-lhe que se não a matasse ela lhe daria bons conselhos. O caçula gostava de animais e adorou a raposinha, e disse-lhe:

"Fique tranquila, raposinha bonitinha, eu não vou causar-lhe mal algum... Eu não vou matar você não..."

E a raposinha disse-lhe:

"Meu nome é Sabedoria. Seguindo meus conselhos você não irá se arrepender... E para que você chegue mais depressa, suba às minhas costas."

Nem bem o jovem havia subido às costas da raposinha esta correu como um raio, passando sobre paus e pedras, até que chegaram àquela cidadezinha. O jovem príncipe desceu e, sem olhar para os lados, seguiu o bom conselho da raposinha. Pernoitou na casa feia, porém sossegada e limpa por dentro, e adormeceu tranquilamente.

Na manhã seguinte, ao prosseguir seu caminho, deparou-se novamente com a raposinha à beira do caminho, a qual lhe disse:

"Eu quero continuar lhe ajudando, aconselhando e dizendo o que você deve fazer. Vá sempre em frente, direto e reto, sem olhar para os lados, até que você irá chegar a um castelo diante do qual há um batalhão de soldados, deitados. Mas não se preocupe, pois todos eles estão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre no castelo e vá até o último quarto. Dentro desse quarto você irá encontrar o pássaro dourado dentro de uma gaiola velha, de madeira, pendurada na parede. Ao lado dessa gaiola de madeira estará uma outra gaiola, de ouro maciço, porém vazia; tome cuidado! Não pegue o pássaro de ouro e o coloque na gaiola dourada. Se você fizer isso algo de mal irá lhe acontecer...."

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta correu tanto que até o vento zunia e assobiava.

Chegando ao castelo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. O príncipe foi até o quarto onde o pássaro dourado estava dentro de uma gaiola de madeira. Notou que, ao lado, pendurado na parede, havia uma gaiola de ouro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada.... Já pensaram ! Eu levar um pássaro de ouro em uma simples gaiola de madeira e deixar aqui uma gaiola de ouro...??? Brincadeira, né???... . “

Assim pensando, abriu a gaiola de ouro e colocou o pássaro dourado nela.

No mesmo instante o pássaro dourado começou a piar e a grasnar muito forte e alto acordando todos os guardas do castelo, e fugiu da gaiola. Os guardas do castelo entraram correndo no quarto, prenderam o príncipe caçula e o lançaram na cadeia.

Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte.  Porém, o rei daquele castelo disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse o cavalo de ouro e de crina branca, o qual era mais veloz que o vento e, ainda por cima, poderia ganhar de presente o pássaro e a gaiola de ouro.

Triste e desconsolado o príncipe pôs-se a caminho. Mas, onde encontrar o cavalo de ouro?  Pensando nisso ele viu sua amiga raposinha, à beira do caminho, a qual lhe disse:

"Viu só? Eu não lhe falei? Você não seguiu meus conselhos... Tudo isso lhe aconteceu porque você não deu ouvidos aos meus conselhos... Mas, coragem. Você terá outra chance. Eu vou lhe mostrar como conseguir o cavalo dourado. Você deve seguir direto e reto esse caminho, sem olhar para os lados nem para trás, até que você irá chegar a um castelo onde encontrará o cavalo dourado em um estábulo. Diante do estábulo você verá, deitados, muitos guardas, mas não se preocupe, pois eles estarão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre na estrebaria, pegue o cavalo e parta a galope. Mas, cuidado! Coloque sobre ele a sela feita de madeira e couro e não a feita de ouro que estará pendurado ao lado, senão algo de ruim irá lhe acontecer”.

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.  Chegando ao estábulo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Foi até onde o cavalo de ouro estava, com uma sela de madeira e couro.  Pendurada, ao lado, havia uma sela de ouro puro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada.... Já pensaram ! Eu levar um cavalo bonito e alazão como esse com uma simples sela de madeira e couro velho?... E deixar aqui uma sela novinha de ouro?   Brincadeira, né ?...”

Assim pensando, rechaçou a sela velha e colocou a de ouro no alazão. No mesmo instante o cavalo começou a relinchar tão alto e forte que acordou todos os guardas do castelo, os quais vieram e prenderam-no levando-o diante do rei.

Depois o jovem príncipe foi posto na cadeia.

Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte. O rei daquele castelo, porém, disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse a princesa que morava no castelo de ouro. Se trouxesse a princesa poderia levar de presente o cavalo e a sela de ouro.

Muito triste e com o coração angustiado o jovem pôs-se a caminho em busca do castelo de ouro e da princesa que nele morava. Por sorte ele logo encontrou no caminho a fiel raposinha, que lhe disse:

"Eu deveria abandoná-lo à sua própria sorte, mas eu tenho pena de você e quero ajudá-lo mais uma vez. Siga esse caminho direto e reto, sem olhar para os lados nem para trás. Ao entardecer você irá chegar a um castelo dourado. Ao soar meia-noite, quando tudo estiver em silêncio, a princesa sairá para nadar na piscina. Então, assim que ela entrar na piscina, mergulhe também e beije-a. Então ela irá seguir você. Porém não a deixe despedir-se e beijar os pais, porque se você deixá-la fazer isso, algo muito ruim irá lhe acontecer."

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

Quando o príncipe chegou ao castelo dourado encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Esperou dar meia-noite e, quando tudo estava calmo e silencioso a jovem e bela princesa foi até a piscina, entrou, e logo a seguir o príncipe mergulhou e deu-lhe um beijo. Ela disse-lhe então que havia gostado dele, que o amava, e que gostaria de ir embora com ele, porém, antes teria que despedir-se de seus pais. Ele, lembrando-se dos conselhos da raposinha, disse que não. Mas ela tanto chorou e implorou e beijou-lhe tanto que ele acabou consentindo que ela se despedisse dos pais.

Logo que a jovem princesa entrou no quarto de seus pais, que estavam dormindo, beijou-os, e estes despertaram. Acordaram também todos que estavam dormindo no castelo. Houve uma gritaria e o jovem foi preso e colocado na cadeia.

 Na manhã seguinte o rei daquele castelo disse-lhe:

"Sua vida está por um fio, mas você poderá salvá-la se conseguir retirar esta montanha que está diante do meu castelo, montanha difícil de ser transposta e que me impede de ver o outro lado do meu reino. Mas veja bem, você tem que fazer isso no prazo de oito dias. Faça isso e você terá a mão de minha filha em casamento."

E o príncipe começou a cavar, a retirar terras, paus e pedras da base  da montanha que ficava diante do castelo. E trabalhou, e trabalhou e, no sétimo dia não havia feito muitos progressos, tinha retirado pouca terra. Cansado e exausto, caiu, desanimado e desesperançado, chorou.

Ao entardecer do sétimo dia apareceu novamente a raposinha sua fiel amiga e disse-lhe:

"Você não merece que eu o ajude pois foi desobediente e não seguiu meus conselhos. Última chance. Deite-se e durma ali na grama que eu vou fazer esse serviço em seu lugar”

E começou a cavar.

Na manhã do oitavo dia, quando o rei acordou e olhou pela janela, a montanha havia desaparecido. Por seu turno, feliz da vida, o jovem príncipe correu ao castelo e disse ao rei que agora este teria de cumprir a palavra e a promessa e dar-lhe a mão da princesa em casamento. Então, alegres e felizes, partiram ambos, príncipe e princesa, em uma carruagem muito bonita, puxada por seis cavalos brancos.

Não demorou muito, a raposinha apareceu-lhe no caminho e falou:

- "O melhor você já conseguiu, mas acontece que o cavalo dourado  também é da princesa do castelo de ouro..."

- "Mas como eu poderei pegá-lo?” - perguntou o príncipe.

- “Eu vou lhe explicar. Primeiramente você apresenta ao rei daquele castelo a princesa que ele lhe pediu. Então haverá uma grande alegria naquele castelo e irão lhe dar o cavalo dourado com a sela dourada. Despeça-se de todos no castelo, um por um, e deixe de despedir-se da princesa por último. E, quando você for abraçar a princesa, agarre-a, coloque-a no cavalo e parta a galope dali, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo dourado é mais rápido que o vento."

E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela e a princesa, partiu a galope. No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

"Agora irei ajudá-lo a conseguir o pássaro dourado. Quando você se aproximar do castelo onde o pássaro dourado vive, apeie do cavalo dourado e o conduza até o interior do castelo. Ao virem o cavalo dourado, haverá grande alegria naquele castelo e então irão lhe trazer o pássaro dourado na gaiola dourada. Quando você estiver com o pássaro e a gaiola na mão, monte no cavalo, pegue a princesa e parta dali a galope, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo corre mais rápido que o vento."

E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a princesa, o príncipe partiu a galope.

No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

"Então, como você já conseguiu tudo que queria, agora é hora de você me recompensar pela ajuda que lhe prestei.”

"O que você quer em troca ? “ Perguntou o príncipe.

"Quando entrarmos na floresta, mate-me; decepe-me a cabeça e as patas.”

E o príncipe disse:

"Mas isso seria uma ingratidão de minha parte... Isso eu não farei.”

A raposinha falou:

"Então eu não poderei mais continuar do seu lado. Se você não fizer isso eu vou lhe abandonar; antes, porém, vou lhe dar mais um conselho: Não compre corpo de enforcado ou espancado e nem sente-se à beira de poço."

Após falar isso a raposinha entrou na floresta.

Então o jovem príncipe, pensou:

"Mas que bicho estranho essa raposinha... Tem cada mania estranha… Quem iria comprar carne enforcada? E também nunca me passou pela cabeça e nem tenho vontade alguma de sentar-me à borda de algum poço...."

E assim pensando, ao lado da jovem princesa, cavalgando, continuou em direção ao castelo de seu pai. No caminho teve que passar por aquela cidadezinha na qual haviam ficado na bagunça seus dois irmãos mais velhos. Havia ali um tumulto e barulheira infernais.

Perguntando sobre o que estava acontecendo, soube que dois rapazes seriam enforcados. Ao se aproximar mais, viu que eram seus dois irmãos que estavam sendo espancados e iriam ser enforcados porque haviam cometido muitos crimes naquele vilarejo e contraído muitas dívidas. Então ele perguntou ao carrasco se podia resgatá-los e libertá-los, ao que o carrasco respondeu:

"Pagando bem, que mal tem… "

O príncipe deu-lhes uma pena de ouro e seus irmãos foram libertados; ambos subiram em uma carruagem e se puseram em marcha rumo ao castelo do velho rei e pai.

Chegaram novamente à floresta onde haviam visto a raposinha pela primeira vez. Os irmãos mais velhos viram um poço e, como estavam com sede, disseram:

"Pare a carruagem, deixe-nos descansar um pouco aqui à beira desse poço e beber água... "

O jovem príncipe, bobinho, consentiu. Conversa vai, conversa vem, sentou-se à beira do poço e esqueceu-se dos conselhos da raposinha. Os seus dois irmãos então empurraram-no para dentro do poço, pegaram a jovem princesa, o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a gaiola e partiram pra casa, em direção ao castelo. Lá chegando, disseram ao velho rei e pai:

"Pai, não trouxemos somente o pássaro dourado, mas também a gaiola dourada, o cavalo dourado, a sela dourada e a princesa do castelo de ouro."

E a alegria naquele castelo foi imensa. Muita festa.  

O cavalo, porém, não queria comer, o pássaro não queria cantar e a jovem princesa ficava sentada a um canto, triste e chorando.

Entrementes, ao cair no poço, o jovem príncipe não morrera. Por sorte o poço estava seco e ele caíra sobre um lodo macio, sem se machucar, porém não conseguia subir porque o poço era muito fundo. Gritando e pedindo por socorro, a raposinha, sua fiel amiga, não o abandonara, veio em seu socorro, estirou-lhe a cauda e retirou-o do fundo do poço e disse-lhe para não se esquecer dos seus conselhos, acrescentando:

"Eu não posso abandoná-lo, eu tenho que mostrar toda a verdade."

Após dizer-lhe essas palavras a raposinha disse-lhe que o levaria até o castelo de seu pai. Abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

A caminho do castelo a Sabedoria lhe dizia:  

"Você não está totalmente livre do perigo - seus irmãos não estão seguros de que você tenha morrido, por isso enviaram bandidos a lhe procurar pela floresta para então dar cabo de sua vida. Portanto, não se deixe notar.”

Então o príncipe encontrou um mendigo pelo caminho, vestido com farrapos, e com ele trocou as roupas, motivo pelo qual, ao chegar ao castelo de seu pai não foi reconhecido. Só que, lá dentro do castelo, nesse exato momento, o pássaro dourado começou a cantar, o cavalo começou a comer e a bela princesa parou de chorar. Notando a mudança repentina, o rei perguntou:

“O que significa isso???”

E a jovem princesa respondeu:

"Eu não sei... Eu estava tão triste e depressiva e de repente fiquei alegre... É como se meu verdadeiro noivo estivesse por perto... “

Apesar de os dois irmãos malvados terem-na ameaçado de morte, caso contasse ao rei a verdade, ela relatou ao rei o que de fato havia acontecido e o modo como os dois irmãos mais velhos procederam com o caçula.

O rei chamou e reuniu todas as pessoas de seu reino e, dentre elas estava o jovem príncipe em trajes de mendigo. A jovem princesa logo o reconheceu, beijou-o, lançou-se ao seu pescoço e o abraçou. Os irmãos malvados foram julgados e expulsos do reino. O jovem príncipe casou-se com a bela princesa e herdou todo o reino e os tesouros.

Mas, o que aconteceu com a raposinha?  

Certa vez, estando o príncipe e a princesa passeando pela floresta depararam-se com a raposinha, a qual lhe disse:

"Agora você está feliz e possui tudo que desejava. A minha sorte, porém ainda não está completa e está em suas mãos resolver meu problema."

E tanto ela insistiu que o jovem príncipe decepou-lhe as patinhas e a cabeça. Logo a seguir a raposinha transformou-se em um belo e forte rapaz. Para surpresa de todos, esse jovem era ninguém mais que o irmão da jovem princesa e que havia sido enfeitiçado por uma bruxa malvada e transformado em raposinha. Desfeito o encanto, voltaram para o castelo e viveram felizes para sempre. O príncipe, a bela princesa e a Sabedoria.

Fonte:
Blog da Professora Telma Régia Soares Bezerra = Contar e Encantar.
https://eixodoleitorcrateus.blogspot.com/2017/10/o-passaro-dourado.html 

Antônio Torres (Bodas e pêsames...)


Há duas situações sociais capazes de inspirar terror: a situação do noivo e a de representante da família de um defunto, logo depois da missa de sétimo dia. Um noivo, só por si, já é uma figura vagamente ridícula, pela maneira por que é pretendente: solicitando “a mão da noiva” por intermédio de terceiros; fazendo-lhe uma primeira visita, toda cheia de timidez e comoção, fiscalizado pelos pais ou pelos irmãos pequenos durante o tempo em que ele está na sala, no jardim, ou no alpendre com a prometida. Junte-se a esta carga de ridículo íntimo a sobrecarga das pompas mundanas de um casamento entre nós, e teremos a medida mais ou menos exata do constrangimento moral de um noivo, se ele é homem de sensibilidade. Eu não sei realmente como um homem não estoura de vexame, quando se mete com a noiva num landau enfeitado de flores de laranjeira e puxado por parelhas de cavalões brutais, de patas pintadas de branco e cheios de guizos e chocalhos e xiquexiques que fazem barulho de feira e recordam os palhaços que, no interior, saem à rua anunciando espetáculo no circo equestre. Casos desses justificam o suicídio...

Outra situação desesperadora é a de pessoas que convidam os amigos para ouvirem missa de sétimo dia por alma dos mortos queridos. Quer aqui no Rio, quer no interior, manda a etiqueta que, depois da missa, todos os convidados se aproximem das “pessoas da família” e as abracem. Começa, então, para cavalheiros e senhoras da família do defunto, um suplício de que não cogitou a Inquisição; abrir mecanicamente os braços, receber entre eles quem quer que se aproxime, apertar um pouco essa pessoa e dar-lhe nas costas as três palmadinhas do estilo, murmurando: “Muito obrigado”! Está bem visto que esses abraços nada significam de parte a parte, quanto à sinceridade; porque, em consciência, é impossível que quinhentas pessoas, sete dias depois da morte de um cidadão, de quem não são parentes, ainda estejam comovidas...

De maneira que essa etiqueta inquisitorial e ridícula só produz um efeito: ajuntar um tormento físico ao suplício moral da família. Eis por que compreendi perfeitamente a atitude de certa família de boa sociedade, que, convidando, há tempos, as suas relações para uma missa de sétimo dia, declarou nos convites que dispensava o abraço do costume; bastando que cada um dos assistentes deixasse o seu nome num livro adrede colocado à porta da igreja. Eis o que devia ser geralmente adotado; uma vez que o abraço é apenas a prova de que F. fez ato de presença, substitua-se o abraço pela assinatura num livro. Lucra a família, que se livra de uma tortura, e lucram os assistentes, que, depois de assinarem o nome no tal Registro de Pêsames, podem fugir tranquilamente à maçada de uma missa fúnebre.... Podemos ficar certos de uma coisa: é que, se se invertessem os papéis, quero dizer, se fôssemos nós que estivéssemos na cova, e se o defunto, que aliás não seria defunto, fosse à nossa missa de sétimo dia, faria o mesmo, isto é, assinava o nome na lista e fugia pela porta da sacristia...
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ANTÔNIO DOS SANTOS TORRES nasceu em Diamantina/MG, em 1885, e faleceu em Hamburgo/Alemanha, em 1934. Cursou Seminário, ordenando-se padre em 1908. No Seminário foi professor de português, latim, geografia, música e catecismo. Foi colaborador de alguns jornais como “A Estrela Polar”, “Pão de Santo Antônio”, “Voz de Diamantina”, “A Idea Nova” e “Diamantina”. Em 1911, depois de atritos provocados por artigos que escreveu, colocando-se contra a catequese de índios por sacerdotes estrangeiros, abandona a batina. Passa, então, a colaborar ativamente na imprensa carioca (O País, Correio da Manhã, Gazeta de Notícias, Revista ABC e A Notícia) e paulista (A Gazeta), tornando-se um dos mais veementes polemistas da imprensa brasileira. Também atuou na carreira diplomática, servindo como cônsul em Londres, Berlim e Hamburgo.
Como polemista, seus alvos principais eram a colônia portuguesa, o jornalista Paulo Barreto, o poeta Hermes Fontes, entre outros. Em As razões da Inconfidência (1925), descreveu o quadro da exploração a que os portugueses submeteram o Brasil. Seus livros de maior sucesso foram: Verdades indiscretas (1920), Pasquinadas cariocas (1921), Prós e contras (1922), As razões da Inconfidência (1925), etc.
Apesar de não ter participado do Modernismo, contribuiu para desmoralizar os parnasianos e passadistas. Segundo Alfredo Bosi, "foi temperamento virulento e polêmico, de fundo moralista, no mais amplo sentido da palavra: daí sua prosa de historiador e de cronista, que persegue, no fato diário, as contradições e fragilidades da sociedade carioca da época".

Fontes:
Antônio Torres. Uma antologia. RJ: Topbooks, 2002.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Izo Goldman (Trovas Humorísticas)


A cozinha da maloca
é tão baixinha e apertada,
que, na panela, a pipoca,
não pula... fica sentada!!!
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A mini saia amarela
da professora, eu bendigo...
pois, em frente à mesa dela
é que eu fiquei de castigo!...
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A mulher do carvoeiro
diz que o marido é uma... "graça".
pois faz fogo o dia inteiro
mas, de noite, é só fumaça…
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A noiva esconde a... "cintura"...
com as dobras do vestido;
e, na igreja, alguém murmura:
– Casório... pré concebido...
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A noiva, por ironia,
na mala só vai levar
a camisola-do-dia,
que à noite... nem vai usar...
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Ao galo meio inibido,
diz a pata sem recato:
–  Não tenha medo, querido,
meu marido é mesmo um... pato!!!
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Ao ver um vulto suspeito,
o ciumento não poupa:
dá dois tiros bem no peito
do espelho do guarda-roupa…
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Cara cheia... Perna bamba,
ele mesmo se conforta,
olha a rua e diz: – "Caramba!"
Nunca vi rua mais torta!..."
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"Casamento... – alguém já disse –
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa a criançada..."
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"Causa mortis" de um otário:
alergia ou resfriado.
Espirrou dentro do armário,
e o marido estava armado!
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Da vaidade ela se exime,
é gorda mas não se importa.
Em vez de fazer regime,
mandou aumentar a porta!
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Diz a vaga-lume ordeira
ao vaga-lume estouvado:
– Não me sentes na cadeira
que me queimas o estofado!...
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Diz ela, sem esperança:
– Toda noite eu armo o... "bote",
mas, quando tento a... "cobrança",
meu marido... dá o calote!
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Diz o Zezinho, zangado,
do zero que recebeu:
– Não acho que escreva errado,
se escrevo, o "pobrema" é meu!...
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É tão magro que de frente,
parece que está de lado,
e de lado, simplesmente,
nem pode ser avistado...
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Explicava, minha amiga,
os muitos filhos que tem:
– "De dia o marido briga,
de noite... fica de bem..."
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Ficou rico o Zé Maria
na seca do Juazeiro,
vendendo "fotografia
de chuva"... por "dois cruzeiro"…
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Foi bem no peito a pedrada!!!
E o Manoel não gostou!!!
Vira pra trás, voz zangada,
e pergunta: "Quem jogou?...”
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Grita o ajudante "fiel"
ao pintor, lá na calçada:
– Se segura no pincel
que eu vou precisar da escada!
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Minha sogra está doente,
e o diabo apavorado!
Se ela morre de repente,
ele está desempregado!...
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Na briga que o meu cabelo
e a careca estão travando,
lamento ter dizê-lo,
a careca está ganhando...
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Não melindre os portugueses!
Conte as piadas assim:
– Era uma vez dois chineses...
Manoel e Joaquim...
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No paraquedas, fechado,
uma etiqueta dizia:
– "Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia..."
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No seu discurso que cansa,
o candidato ao Congresso
me lembra que "a inguinorança"
é que "astravanca o pogresso"...
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O genro, com voz macia,
chama a sogra de... "Charada..."
Pensando: – Quem sabe um dia,
alguém "mata" a desgraçada!…
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O pai da moça, que é mau,
chega em casa e acaba o "baile"...
É que o Zé, "cara-de-pau",
tava namorando em... "braile"!!!
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O parafuso anda cheio,
pois tem o corpo enrolado,
cabeça partida ao meio
e vive sendo apertado...
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Pergunta o padre ao noivinho:
– "É de espontânea vontade?"
e ele respondeu baixinho:
– "Não senhor... necessidade!..."
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Pergunta o pai bigodudo,
com a voz meio engasgada:
– Quem foi que pôs cola-tudo
no pote da marmelada?…
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"Pratos rápidos", dizia,
lá no boteco o cartaz;
e quando o prato saía,
o freguês corria atrás!!!
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Pulando do nono andar,
o otimista diz a alguém
que, no quarto, o vê passar:
– Até agora... tudo bem!!!
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Quando abraço mulher feia
que não seja minha amiga,
ou estou de "cara cheia"
ou separa... porque é briga…
= = = = = = = = = = = = = =  

Quando pergunta o burrinho,
diz a mula, envergonhada:
– "Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma... burrada!..."
= = = = = = = = = = = = = =  

Sai do museu, braço dado
com sua sogra, o Sinfrônio;
e o guarda grita, alarmado:
"Tão roubando o patrimônio!"
= = = = = = = = = = = = = =  

Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito"
tinha uns mil na Academia!...
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Se ao telefone um amigo
me pede "algum" emprestado,
eu disfarço a voz e digo:
– Senhorrr ligarrr enganado!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Se a saudade fosse pão,
eu simplesmente poria
na porta do coração
esta placa:  "Padaria"!
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Tenho medo de mulher
com marido, e mesmo sem...       
– da solteira, porque quer...
– da casada, porque tem...
= = = = = = = = = = = = = =  

Todo "barbeiro" sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!...
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Tomou Viagra... Fracasso...
Foi cobrar de quem vendeu:
– E agora, como é que eu faço???
– Enterra! Que já morreu!!!
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Vai bem o namoro, até
que o pai dela chega, e então,       
o garotão dá no pé
e a moça fica... na mão…
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Vai haver muito freguês
no dia em que alguém disser:
– ”Pague duas, leve três!!!”
e, o “produto”, for... mulher...
= = = = = = = = = = =

"Vem aí um furacão!!!,
avisa a rádio, – Cuidado!!!"
E o genro, por precaução,
põe a sogra... no telhado!!!
= = = = = = = = = = =

Vendo alguém varrer o chão,
ele deita de comprido
e dá logo a explicação:
"Quero ser... doido varrido..."
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Vida de pobre é engraçada,     
ou é dura e divertida:
enquanto dança lambada,
leva “lambadas” da vida...
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IZO GOLDMAN foi um dos mais expressivos e emblemáticos nomes do movimento trovadoresco no Brasil. Considerado um verdadeiro ícone da União Brasileira de Trovadores (UBT), ele dedicou décadas de sua vida à defesa, produção e difusão da trova (poema de quatro versos heptassílabos com rimas). Nasceu em 1932, na cidade de Porto Alegre/RS, faleceu aos 80 anos, em 2013, na cidade de São Paulo/SP. Além de sua terra natal, viveu no estado do Rio de Janeiro (em [Niterói], onde descobriu a trova e, a partir de 1976, fixou residência definitiva na capital de São Paulo. Fora do meio literário, atuou por muitos anos na área corporativa e de recursos humanos, trabalhando como instrutor de dinâmicas de grupo e relações humanas. Foi justamente em um bilhete enviado a uma de suas alunas durante um desses cursos que ele compôs sua primeira trova, sem saber. 
Conheceu oficialmente a trova literária em 1972, por intermédio da trovadora Magdalena Léa, em Niterói. Ingressou na União Brasileira de Trovadores (UBT) em 1974. Ao mudar-se para a capital paulista em 1976, assumiu o desafio de reativar a Seção da UBT em São Paulo, da qual foi presidente estadual por muito tempo. Também ocupou o prestigiado cargo de Secretário da UBT Nacional. Criou o tradicional "Boletim Informativo" da UBT/SP, um periódico que editou por mais de 30 anos e que se tornou vital para conectar trovadores de todo o país.
Izo Goldman foi um dos competidores mais vitoriosos em concursos literários de trovas do país. Ao longo de sua carreira, acumulou entre cerca de 900 premiações em diversos Jogos Florais nacionais. Entre os seus títulos honoríficos de maior prestígio destacam-se: Título de "Magnífico Trovador" concedido pela UBT de Nova Friburgo (RJ); Título de "Notável Trovador" concedido pela UBT de Pouso Alegre (MG); Recebeu por duas vezes o cobiçado Prêmio "Lilinha Fernandes" concedido pela UBT de Porto Alegre.
Embora sua produção estivesse espalhada por centenas de antologias de Jogos Florais, ele organizou e publicou a sua principal obra em vida: Trovas de quem ama a Trova (Lançado originalmente entre 2007 e 2008) — Obra que sintetiza seu estilo poético lírico, filosófico e, por vezes, espirituoso. Escreveu também o Jogral em Trovas, uma composição performática que chegou a ser utilizada como aula inaugural no Curso Superior de Literatura de Bragança Paulista.
A relevância de Izo Goldman reside no fato de ter sido um dos principais batalhadores e guardiões do movimento trovadoresco brasileiro moderno. Sua contribuição vai além dos próprios versos premiados: Ao reerguer a UBT em São Paulo e fundar o informativo impresso, manteve viva a chama da poesia popular no maior centro urbano do país. Ficou conhecido por defender rigidamente a pureza técnica da trova (metrificação, rima e ritmo) com uma personalidade contundente e apaixonada. Apoiou iniciativas de renovação e inclusão da juventude na poesia, ajudando a garantir que a tradição literária das trovas continuasse viva para as próximas gerações.

Fonte:
Izo Goldman. Trovas de quem ama a trova.
Biografia = Folha de São Paulo, Recanto das Letras, Kakinet, Oceano de Letras, etc.

Versos Esparsos * 2 *