Trovadores em Ordem Alfabética

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domingo, 24 de agosto de 2025

Maria Helena Calazans Machado Duarte (São Paulo/SP)

1
A educação é candeia,
faz da treva o amanhecer,
nas campinas que semeia
vê-se o futuro nascer.
2
A sogra morre aos noventa,
deixa ao genro uma bolada.
Trancafiado ele comenta:
– “Só grana falsificada”.
3
A tenista, uma vedete,
deu no parto um trabalhão;
foi um sufoco a raquete
que o nenê tinha na mão!
4
– Babá é gente também?
- Claro, meu filho, por quê?
- É que o papai diz: “Meu bem,
de que planeta é você??!!”
5
Comete um atroz pecado
o tempo, em seu transcorrer,
roubando o instante sonhado
que acabamos de viver.
6
Com imprevistos sem conta,
 segue-se a estrada escolhida.
 Certeza é um lápis sem ponta
 que tenta escrever a vida.
 7
Consegue a paz verdadeira
 quem, ao levar sua cruz,
 transforma os nós da madeira
 em claros fachos de luz.
8
De Deus o céu nós roubamos
e é de Deus a nossa voz,
quando, em silêncio, deixamos
que o amor discurse por nós.
9
Diz a boca à dentadura:
“Fique firme, ande na linha,
não me faça a diabrura
de dar uma escapadinha!”
10
“Do peitoril da sacada
ele pulou, coitadinho,”
diz a viúva transtornada,
“só dei um empurrãozinho!!”
11
Em trambiques pela rua
não consegue mais lembrar
se a mulher é mesmo sua
ou se acabou de trocar.
12
Esperança é um passarinho
que, mesmo em desigualdade,
mantém o calor do ninho
na fúria da tempestade.
13
“Fiz três bolos, tirei um,
quanto sobra, garotada?
Os guris: - nenhum, nenhum,
bolo aqui não sobra nada!
14
Fogo em casa, que sujeira,
e o dono, um bêbado, enérgico:
– “Bombeiro, largue a mangueira.
Água não, que eu sou alérgico!”
15
Funcionário em treinamento
contra incêndio, ao zelador:
– “Pus fogo num pavimento.
Só me esqueci do extintor!”
16
Ganha o pobre num transplante
o cérebro de um barão.
Voltando a si, já garante:
“Pago à vista ou no cartão.”
17
Gota de sonho e magia,
sopro de um anjo... tão leve...
orvalho, suave poesia,
que a noite, inspirada, escreve.
18
"Mas que preguiça'' e, no escuro,
o pau-d'água, chave à mão,
espera, encostado ao muro,
que ali passe o seu portão!
19
- Mas, “seu” guarda, por favor,
ao apito obedeci.
Culpado é o muro, senhor,
que não deu ré... e eu bati!!!
20
Mostra bem mais que coragem
 quem, na fonte do poder,
 não sorve a doce vantagem,
 prefere o amargo dever.
21
Na vida, a grande virtude
não é correr na jornada,
mas, sem pressa e em plenitude,
completar a caminhada.
22
O outono chegou de manso
e em teu rosto, bem fininhos,
pôs traços que não me canso
de apagar com meus carinhos.
23
Passado... viva candeia,
embora há muito afastado;
um livro que se folheia,
que não se guarda fechado.
24
Põe luz em tua jornada,
pois o que importa na vida
não é o tamanho da estrada,
mas como foi percorrida.
25
Quando o dia, enfim, se acalma
e uma ausência faz sofrer,
abro os braços de minha alma
para a saudade acolher.
26
Se dramas a chuva escreve,
sem piedade, todo dia,
a garoa, renda leve,
veste a terra de poesia.
27
Sem brinquedo, a sós na rua,
pede a criança, baixinho:
– "Senhor Deus, me empresta a lua
para brincar um pouquinho".
28
Se o fracasso te magoa,
guarda a coragem e avança,
que o brilho vem da pessoa,
não das honras que se alcança.
29
Se um adeus é dor tamanha,
estilhaça o coração,
regresso é um imã que apanha
cada pedaço no chão...
30
Sob a teia da garoa,
fiandeira sem igual,
teu amor, vagando à toa,
fez um ninho em meu beiral.
31
Só na cultura repousa
o progresso da nação:
– ela é o giz, e o povo, a lousa
que recebe a informação.
32
Sou garota e quero espaço,
meu sonho é um nonagenário
com safena e marcapasso
e um belo saldo bancário!!!
33
Vencedor é quem no mundo
ao falso brilho diz “não”
e após um labor fecundo,
ergue um brinde à retidão.
34
Vendo o assalto começar
lembra o genro, gentilmente,
com vontade de ajudar:
– “Leve a sogra de presente!”

Luiz Otávio [Gilson de Castro] (Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1977, Santos/SP)

1
Abandonada, esquecida,
sem amor, sem ter ninguém,
vai rolando, até que a vida
não a queira mais também...
2
Acabam-se os meus cansaços
e os dias são mais vividos,
se a música dos teus passos
vem tocar nos meus ouvidos.
3
A estrela d'alva cintila.
pássaros deixam seus ninhos...
E a madrugada, tranquila,
toma conta dos caminhos...
4
Amarga insatisfação
que só desejo nos dá
de ter o que não se tem,
de estar onde não se está...
5
Amor - sentimento forte!
Palavra odiada e querida...
Se é causa de tanta morte,
é a própria razão da Vida!...
6
Ao partir para a outra vida,
aquilo que mais receio,
é deixar nessa partida,
tanta coisa pelo meio ...
7
Ao raiar da madrugada
eu vi o sol desenhar
uma lagoa dourada
na superfície do mar.
8
A sonata do teu beijo
eu toco toda de cor
e, de olhos fechados, vejo
um mundo muito melhor...
9
Às vezes o mar bravio
dá-nos lição engenhosa:
afunda um grande navio,
deixa boiar uma rosa!
10
Às vezes, tenho pensado
que a nostalgia é, somente,
desejo de que o Passado
seja, de novo, Presente...
11
A terra oferece à gente
o exemplo da gratidão:
trata-a bem... dá-lhe a semente...
que os frutos logo virão...
12
A Trova definitiva,
ideal do Trovador,
por mais que eu padeça e viva
eu jamais hei de compor…
13
Bondade!... Bem pouca gente
quer imitar as raízes,
que luta, secretamente,
fazendo as rosas felizes!
14
Brinquedo de porcelana
na mão de criança arteira...
Assim é a ventura humana,
tão frágil... tão passageira...
15
Busquei definir a vida,
não encontrei solução,
pois cada vida vivida
tem uma definição...
16
Como Colombo, singrando
esta vida - incerto mar,
vivo no mundo esperando
um Novo Mundo encontrar...
17
Contradição singular
que angustia o meu viver:
a ventura de te achar
e o medo de te perder.
18
Depois de tão longa ausência,
pelo mundo andando ao léu,
voltando à minha querência
parecia entrar no céu...
19
Desconfio que a saudade
não gosta de ti, meu bem:
quando tu vens, ela vai...
quando tu vais, ela vem!
20
Dizes que és pobre e eu, coitado,
inveja tenho de ti:
-tens tua mãe ao teu lado
e a minha, eu nem conheci!...
21
Duas vidas todos temos,
muitas vezes sem saber:
a vida que nós vivemos
e a que sonhamos viver.
22
Dura menos que um suspiro
ou como a folha que cai…
Mas quando penetra na alma,
a Trova fica… Não sai…
23
 Ele cai... não retrocede!...
Continua... até sozinho...
que a fibra também se mede
pelas quedas no caminho...
24
Enfrentando tantas provas,
ao desenrolar dos anos,
vou tirando da alma Trovas,
e enchendo-a de desenganos…
25
Estas Trovas foram sonhos
que um trovador já sonhou…
São uns farrapos tristonhos
de um grande amor que passou…
26
Este doce e grande amor,
esta saudade indiscreta,
fizeram de um trovador
o mais tristonho poeta…
27
Este lar, humilde e pobre,
tem mais ventura e alegria
que muito palácio nobre,
sem amor, sem harmonia!
28
Estrela do céu que eu fito,
se ela agora te fitar,
fala do amor infinito
que eu lhe mando neste olhar ...
29
É um prazer bem diferente
e de sabor sempre novo,
ouvir a trova da gente
andar na boca do povo!…
30
Eu... você... as confidências...
O amor que, intenso, cresceu...
- O resto são reticências
que a própria Vida escreveu...
31
Fogem as frases que invento...
Friburgo, eu me calo agora...
- Nunca se exalta a contento
aquilo que mais se adora!
32
Há trovas, ricas, sonoras,
tem brilho, cintilação…
Lembram “foguetes de lágrimas”
nas noites de São João…
33
Houve uma bronca bacana
quando viram, certo dia,
que o noivo da Sebastiana
era o esposo da Luzia...
34
Lá no horizonte o barquinho,
mansamente, a velejar,
parece que de mansinho
sobe o céu... e deixa o mar...
35
Lar vazio... o "nada" em tudo...
a vida sem mais porquê...
- E na sala, o piano mudo,
como fala de você!...
36
Longe de ti, triste eu passo,
se vivo mesmo, nem sei…
E, cada trova que faço
um beijo que não te dei…
37
Louvo a Deus por me ter dado
a sorte de trovador,
pois o mal quando é cantado,
diminui o seu rigor…
38
Mediunidade esquisita
de duração muito breve:
– a Trova – é o povo quem dita,
o trovador… só escreve…
39
Meus sentimentos diversos
prendo em poemas tão pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos ...
40
Não desejo nem capela
nem mármore em minha cova…
Apenas escrevam nela
pequenina e humilde Trova…
41
Não digo não: “minha” Trova
quando faço um verso novo:
– não é minha e nem é nova
quando cai na alma do povo…
42
Nem sempre nós conseguimos
traduzir as nossas dores…
Quantas trovas ficam mortas
nas almas dos trovadores…
43
Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto!...
44
Nesta trova pequenina,
quero deixar o sabor,
do beijo que ainda há pouco
eu roubei do meu amor…
45
"O Diabo que tudo logra
- dizem, num tom zombeteiro -
sem coragem de ter sogra
resolveu ficar solteiro...
46
Ó mãe querida – perdoa ! ´
o que sonhaste, não sou ...
- Tua semente era boa !
a terra é que não prestou !
47
Ó trovas — simples quadrinhas
que têm sempre um quê de novo...
— Como podem quatro linhas
trazer toda alma de um povo?!
48
Ó vento que tudo pegas,
que arrancas flores e palmas,
por que também não carregas
as dores de nossas almas?!...
49
Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem.
50
“Pequena” – dizem zangados,
muitas vezes com desdém.
Jamais saberão, coitados,
que grandeza a trova tem!
51
Por estar em solidão
tu de mim não tenhas dó.
Com Trovas no coração,
eu nunca me sinto só!
52
Quando a Trova é mesmo boa,
é sempre assim que acontece:
– o dono fica esquecido,
mas a Trova não se esquece…
53
Quem vive pela saudade,
por longos anos ou meses,
possui a felicidade
de reviver várias vezes.
54
Que sina, que padecer
foi a Sorte aos cegos dar:
— Não ter olhos para ver
e tê-los para chorar...
55
Retrato de tua sorte
podes nisto contemplar:
todo rio, por mais forte,
encontra a morte no mar...
56
Saudade – brisa tristonha…
e o meu coração magoado
desprende Trovas… e sonha…
é um rosal despetalado…
57
Se a saudade fosse fonte
de lágrimas de cristal,
há muito havia uma ponte
do Brasil a Portugal.
58
Se é de amor tua ferida,
não busques remédio, — cala!
— O Tempo, aliado à Vida,
lentamente há de curá-la...
59
Sou devoto, sou um crente!
Não zombes, não rias não…
Trago um rosário de Trovas
no fundo do coração…
60
Tão pequenina... parece
humilde e distante estrela...
porém, como a Trova cresce
quando alguém sabe entende-la!
61
Tirem-me tudo o que tenho
neguem-me todo o valor!
Numa glória só me empenho:
– a de humilde trovador!
62
Toda noite ao me deitar
(por certo você reprova),
eu me esqueço de rezar
e fico fazendo trova.
63
Toda trova herdou o espírito
navegante português…
Nasce…foge… corre o mundo
e abandona quem a fez…
64
Toma cuidado, poeta
com teu sentir mais profundo;
a trova é muito discreta:
– conta tudo a todo mundo…
65
Trovador, grande que seja,
tem esta mágoa a esconder:
a trova que mais deseja
jamais consegue escrever ...
66
Tuas vaidades suplanta!
Não fiques nada a invejar!
- Imita o pássaro e canta
pelo prazer de cantar!
67
Tudo nos une: o amor,
o gênio igual, a constância,
até mesmo a própria dor...
— Só nos separa a Distância...
68
Uma das mais belas cenas
eu lamento não ter visto:
as ondas do mar, serenas,
ao sentir os pés de Cristo...
69
Uma trova pequenina,
tão modesta, tão sem glória,
bem pouca gente imagina,
que também tem sua história.
70
Um trovador veterano
concorre e zomba: - é "barbada"!
Depois de entrar pelo cano,
bronqueia: foi marmelada!...
71
Unamos os corações,
as almas, as próprias vidas,
e, desse modo, as Nações
ficarão também unidas!
72
Vendo inquieto o "costureiro",
tendo a barba bem cerrada,
diz de chacota, o barbeiro:
"chegou a vez da barbada..."
73
Vivia dando risada
e hoje é uma triste figura,
pois um dia a gargalhada
fez pular a dentadura.

Hino dos Trovadores:

Nós, os trovadores,
somos senhores
de sonhos mil !
Somos donos do Universo
através de nosso verso.
E as nossas trovas
são bem a prova
 desse poder :
elas têm o dom fecundo
de agradar a todo mundo ! 

Luiz Machado Stábile (Uruguaiana/RS)

1
A causa não foi à toa
de tão grande quebradeira:
– era o “gato” da patroa
e a “gata” da cozinheira.…
2
A criança abandonada,
sem pai, sem teto, sem pão,
tem a violência estampada
no rosto e no coração.
3
A dúvida do velhinho,
quanto ao filho da mulher,
é saber se é do vizinho,
do mordomo ou do chofer…
4
A mãe, mulata de festa,
o pai, português do Minho,
e a grande surpresa é esta:
– o filho nasceu loirinho…
5
A patroa se consome
ao descobrir que a empregada
sendo Pimenta no nome,
tem a língua apimentada…
6
A surpresa foi danada
para o pai, pois disse o filho:
-Tá curta, velho, a mesada,
vê se dispara o gatilho!.
7
A tua volta, querida,
é força que me renova,
põe amor em minha vida
e euforia em minha trova.
8
Chora a viúva do Honório
que morreu envenenado;
e o "veneno", no velório,
"mata" qualquer convidado!
9
Dançamos de passos certos,
mas a dança não nos faz
corrigir passos incertos
de tantos anos atrás.
10
Diante dos outros - carinhos.
Perto de estranhos - afagos.
E surra, se estão sozinhos,
depois de dois ou três tragos!
11
Ela tem barriga d'água?
pergunta a mãe, preocupada,
e o médico, sem ter frágua:
- Mas o peixinho já nada...
12
Eu sinto que este chamego
por ti é mais do que isso;
é mais do que amor e chego
a crer que é puro feitiço.
13
Eu duvidei, na verdade,
de tudo quanto afirmaste,
mas hoje, nesta saudade,
sinto que me enfeitiçaste.
14
Fazer trova com humor,
sobre escuro... não sei, não!...
Previna-se o trovador:
- é "humor negro" - eles dirão...
15
Fazia gato e sapato
com o marido. Coitado!
Mas, uma noite, seu “gato”
miou em outro telhado!…
16
Iniciou-se muito cedo
nossa história bela e grata
e o que pareceu brinquedo,
são hoje bodas de prata.
17
Mãe e filha são Pimenta,
e o velho, que é "vermelhão",
com santa paciência aguenta
a alcunha de "Pimentão".
18
Marujo, velho marujo,
na lábia dela não vais.
Conheces o dito cujo”
e é por isso que não cais.
19
Mesmo sendo pequenina,
com ela ninguém se meta,
pois sua língua ferina
é pimenta malagueta!
20
Na dança de roda existe
uma alegria sem fim,
que acorda a criança triste
que dorme dentro de mim.
21
Ninguém mais olhava a fita,
que o namorado e a Jurema
faziam cena inaudita
no escurinho do cinema!
22
Numa tarde fria e turva,
foi dar uma fugidinha:
Aí... “derrapou na curva”
na “condução” da vizinha…
23
O fandango dos Menezes
foi tão bem organizado,
que no fim de nove meses
começa a dar resultados…
24
O marujo acostumado
às ondas jamais tonteia,
mas na terra, se ‘molhado”,
anda tonto, volta e meia.
25
O patrão, com muita sede,
procurava água gelada,
mas foi achado na rede
lá no quarto da empregada.
26
O vizinho, eletricista,
ela, dada a calafrios,
bastou-lhe um golpe de vista
pra ter choques e arrepios…
27
Prometeu tudo pra ela:
– das joias à lua até.
Casados, deu-lhe panela
e um fogão com chaminé!
28
Quando daqui tu partiste,
de modo algum me abalei;
só uma coisa me fez triste:
– a surra que não te dei!
29
Quando partes, fico em trevas
e não sei se minhas queixas
vêm dos sorrisos que levas
ou das tristezas que deixas!
30
Que importa a dança das horas
que vão céleres passar?
Importa, quando demoras,
a hora em que vais voltar.
31
Querendo afogar as mágoas
vai à pinga, vai ao bar,
mas, como vive nas águas
elas já sabem nadar…
32
Se um dia calar meu canto
e eu não puder mais lutar,
que não me falte, no entanto,
coragem para sonhar.
33
Teus olhos são, em verdade,
a minha fonte de vida:
– são dois faróis de bondade
na minha noite sofrida…
34
Todos sabem que assim é,
como eu próprio também sei:
– vive o cristão, pela fé,
muito mais que pela lei.
35
Veloz, corria na praia,
despreocupado e ao léu...
Viu uma “curva” sem saia,
e só acordou no céu…
36
“Volto em breve” – eis a promessa
de todo marujo esperto,
e como promete à beça,
não volta nunca, por certo.

Versos Esparsos * 2 *