Trovadores em Ordem Alfabética

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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Giselda de Medeiros Albuquerque (Fortaleza/CE)

1
Aprendi, na tua ausência,
uma lição ponderada:
– que a espera, com paciência,
torna mais breve a chegada.
2
As trovas são diamantes
que certo ourives, um dia,
com suas mãos operantes,
cravou no anel da poesia.
3
Cem anos da abolição
e o negro sofre a desgraça
de acorrentar-se à prisão
do preconceito da raça!
4
Chove a cântaros... e o frio
cai sobre tudo, por fim...
E, enchendo este meu vazio,
chovem saudades em mim...
5
É carnaval… e em meu peito
qual um sagaz folião,
brinca o meu sonho desfeito
nas alas da solidão…
6
É o mais belo panorama
e de Deus o melhor verso
o sol ressurgindo em chama,
banhando de ouro o universo.
7
Essas rugas que há no rosto,
mostrando a idade inclemente,
são rumos onde o desgosto
caminha, pisando a gente.
8
Esse gemido tristonho
das ondas, sempre a chorar,
é a voz queixosa de um sonho
preso nas conchas do mar!
9
Felicidade... momentos
de emoções transcendentais,
que se vão na asa dos ventos
e não voltam nunca mais!
10
Lançada a sorte! Em verdade,
eu parti... Mares medonhos!...
E, no Porto da Saudade,
fui ancorar com meus sonhos…
11
Leu tanto amor… e, no entanto,
sozinha, a cigana, à morte,
convive com o desencanto
de não ler a própria sorte!…
12
Não deixes preto o teu céu...
Vê que as grandes tempestades
espalham sombras ao léu,
mas vêm, depois, claridades.
13
Nesta existência sofrida, 
triste certeza me invade: 
– o sonho ardendo na vida, 
e a vida a arder na saudade.
14
O teu adeus, mesmo em sonho,
me aniquila de tal sorte
que, estando viva, suponho
estar nos braços da morte!
15
Por te amar tão loucamente,
fui-me tornando um palhaço,
fazendo rir tanta gente
às custas do meu fracasso.
16
Por um momento de sonho,
que dure uma eternidade,
darei tudo e não me oponho
a viver só da saudade.
17
Ri, palhaço, que o teu riso
vai à dor dar acolhida,
transformando em paraíso
teu picadeiro da vida.
18
Se a noite vem, com azedume,
vestindo de preto o céu,
que sejas tu, vagalume,
e espalhes luz a granel.
19
Sê como o mar, grandioso,
cujo esplendor estonteia,
mas, humilde e generoso,
vem bordar rendas na areia!
20
Se vires um tom de escuro
na trilha dos rumos teus,
não temas, e vai seguro,
que é a sombra da mão de Deus.
21
Sublime, aquele momento
em que o poeta, risonho,
põe asas no pensamento
e voa, buscando o sonho.
22
Tenta esconder o teu pranto,
às frustrações, ao desgosto,
pois não há maior encanto
que mostrar a paz no rosto.
23
Teu olhar, por sorte, às águas,
sombra nenhuma deixou,
no entanto deixou-me mágoas
nesta sombra que hoje eu sou!
24
Teus olhos, ardentes círios,
meus dias tornam risonhos,
e tuas mãos, brancos lírios,
vão modelando meus sonhos.
25
Vasculhando meu passado,
encontrei nele, tristonho,
teu retrato empoeirado
na gaveta do meu sonho.
26
Vencendo todo o cansaço,
decerto gargalharei,
pois hoje sou um palhaço
dos sonhos que não sonhei.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Alcy Ribeiro Souto Maior (Rio de Janeiro/RJ, 1920 - 2006)

1
A casa ainda é aquela...
ainda é o mesmo portão... 
na sala, a mesma aquarela
junto à mesma solidão!
2
Ao velho diz o brotinho:
"Quero fugir com você”.
Indaga o pobre velhinho:
"Fugir? Mas ... Fugir pra quê?"
3
Bates a porta ao chegar
e essa agressão não me importa.
- Eu prefiro acreditar
que o vento é que bate a porta.
4
Com ciúme, enfurecida,
deu nele tanta pancada,
que a amizade colorida
anda um pouco desbotada...
5
Com uma telefonista
casou-se um pobre coitado.
Agora, por mais que insista,
só dá “ramal ocupado”...
6
Da infância e de seus folguedos,
relembro instantes diletos,
quando sou, entre brinquedos,
brinquedo na mão dos netos!
7
De esperanças luminosas
vê se enfeita a tua mágoa:
- em meio às plagas rochosas
quase sempre há um veio d'água.
8
Deixei restos de carinho
sob insensatos protestos
e agora, triste e sozinho,
ando em busca desses restos ...
9
Depois que me abandonaste,
só te desejo um castigo:
que a insônia que me deixaste,
passe uma noite contigo!
10
Eis-me, de novo, defronte
das malhas de tua rede,
a beber da mesma fonte
que não matou minha sede...
11
Este amor traz-me ventura
num conflito que alucina:
Faz com que eu, mulher madura,
tenha sonhos de menina...
12
Fiz uma trova tão linda
para a flor que ele me deu...
Eu conservo a flor ainda
mas a trova ele esqueceu...
13
Foram risadas de estrondo
quando o pobre Waldemar
quis envelope redondo
para a "Carta Circular"...
14
Janela fechando e abrindo,
batendo a todo momento,
parece estar aplaudindo
a dança infernal do vento!
15
Mais triste que um céu cinzento,
mais cruel que a própria dor,
é aquele amor de momento,
sem mais momentos de amor!
16
Meu coração chora a perda
de momentos sedutores,
por ter sido um zero à esquerda
na soma de teus amores.
17
Muitos, fugindo aos fracassos,
têm, nas ingênuas conquistas,
o destino dos palhaços
imitando trapezistas...
18
Na humildade do meu ninho,
com teu amor que me enleia,
meu jantar de pão e vinho
tem ares de Santa Ceia!
19
Na liberdade pensando,
exulto com alegria,
vendo um pássaro cantando
e uma gaiola vazia.
20
Na minha doce ilusão,
ser uma trova eu queria,
aquela que tua mão
sem tremer assinaria.
21
Não há maior desengano
ferindo nosso saber,
do que ouvir um ser humano
revelar: “Eu não sei ler”.
22
Não há nada que esmoreça
o brasileiro animado:
- tá levando na cabeça
mas, polegar levantado!...
23
Na igreja, menina arteira,
- não é coisa que se enquadre -
mas... quase que vira freira, 
ao saber quem era o padre...
24
Na paixão em que me abraso
tanto sol tem minha estrada,
que eu não troco o meu ocaso
pela mais linda alvorada!
25
Na prece tenho as respostas
da fé que perdura em mim:
tal como a cruz, não tem costas!
Tal como Deus, não tem fim!
26
Nos teus olhos rasos d’água,
sem ser pintor, eu pintei
uma aquarela de mágoa
com as mágoas que te dei.
27
Num capricho alucinado,
em vindoura encarnação,
eu quero ser o pecado,
se tu fores meu perdão!
28
O calor da mocidade
e os riscos da meninice
deixam brasas de saudade
sob as cinzas da velhice.
29
O pecado nos perdeu
e eu paguei logo depois.
Por que o castigo é só meu,
se a culpa foi de nós dois?
30
Os dilemas venceremos
com firmeza em nossos passos:
- remador que perde os remos
faz remos dos próprios braços...
31
Que idade tens? E eu, risonho,
respondo, sem me abalar:
- Eu tenho a idade que o sonho
permite um sonho sonhar!
32
Se acaso, um dia, escutares
na tua porta um lamento,
é o pranto dos meus pesares
gemendo na voz do vento.
33
Se em vez do bem que fizeste,
todo mal me houvesses dado,
- pela filha que me deste,
estarias perdoado!
34
Só hoje, de alma cansada,
sei minhas preces de cor:
é no fim da caminhada
que a gente reza melhor!
35
Só mesmo como piada
"pão dormido" não engorda,
pois na primeira dentada
é claro que o pão acorda!
36
Sou tímida, na verdade,
e você já percebeu .
Porém ... beije-me à vontade
porque a tímida sou eu...
37
Tão carinhosa ela é,
que, num amor desmedido,
chega a fazer cafuné
na peruca do marido.
38
Tua ausência, na verdade,
não traduz nenhum castigo:
vou me abraçando à saudade
até me encontrar contigo.
39
Tu partes com tal freqüência
que, embora em meio às promessas,
persiste um sabor de ausência
toda vez que tu regressas.
40
Vai, coração, vai teimoso,
vai por aí a bater
por um outro, mentiroso,
que finge por ti bater.
41
Vens... não vens... e nessa espera,
o meu pranto vai deixando,
no mal que me desespera,
o bem de estar te esperando!
42
Vi, na magia de um bumbo,
enquanto ele ressoava,
os soldadinhos de chumbo
de um quartel que eu comandava...

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Ana Maria Guerrize Gouveia (Santos/SP)

1
Cantando até mais que o vento
sem desafios fatais...
Inspiração é o momento
que em silêncio canta mais!!!
2
Como se fosse a corrente
que quebrou sem ter firmeza,
assim, é a vida da gente...
se vivida na incerteza!!!
3
Como se fosse um lampejo...
fazendo a Terra girar,
nas mãos, a Esperança eu vejo...
o que elas podem nos dar!
4
Deus - escreve em linhas tortas...
As nossas vidas por certo -
sem jamais, fechar as portas...
Quando o amor está por perto!!!
5
Equilibre em linha reta
firmemente o seu viver...
levando a vida correta...
em tudo o que pode ser!
6
Eu sou como o cais vazio...
Um porto de despedida,
o corroído navio...
sem chegada... nem partida!
7
Felicidade é contida
na vida de quem releva
e indica seguir a vida...
a vida que a gente leva!!!
8
Hoje, a saudade me mata...
por sentir, que estou carente.
Lembrando o amor que retrata...
o meu lar de antigamente!!!
9
Jamais, um homem fraqueja ...
na escada que leva ao sol;
por mais cinzento que seja...
o seu dia no arrebol!!
10
Lembrando o Astro Rei Pelé...
que do coração não sai.
revivo a bola no pé...
num sonho meu... que se esvai...!!!
11
Na Bandeira do Brasil...
vejo um outro despertar,
refletindo a cor de anil...
que acredito .. ser do mar!!!
12
Na imagem doce e serena...
da represa Cantareira,
vejo o quanto ela armazena...
para chegar à torneira!!!
13
Não fosse cartão postal,
mataria minha sede...
vivendo um amor igual
defronte ao mar numa rede!
14
Na vida de um Trovador...
florindo sonhos diversos,
a Trova é um Jardim de Amor...
Num trevo de quatro versos!!!
15
Nenhuma noiva rejeita
um noivo quando é calado,
porque sabe que ele aceita,
se casar acorrentado!!!
16
Nos detalhes dos retratos,
eu sinto viver a espera...
lembrando coisas e fatos
da saudade que acelera...!
17
Num jardim – Abrindo as flores...
Deus fez surgir, majestosa,
a alma dos Trovadores,
quando foi abrir a rosa!!!
18
Pense em ser grande na vida...
Com decisão e firmeza -
enfrentando a dura lida...
nas lutas - na fortaleza!!!
19
Plantando com Esperança
as sementes no viver
é ter na vida a confiança
feito árvores ao nascer.
20
Por que? Tanto preconceito...
nessa eterna e dura lida,
se Deus, fez o amor perfeito
e deixou nas mãos da vida!
21
Proclamando uma amizade -
entre as flores da lembrança...
Quão bela é a felicidade -
no coração da criança !!!
22
Qual São Francisco - fez plano...
o Papa, também os faz
mostrando ser Franciscano,
com alma e o Pombo da Paz!!!
23
Quando o trem devagarzinho...
traz as lembranças de alguém -
as flores - cantam baixinho
e eu aqui... canto também!!!
24
Revivo o amor que eu te dei
nesta foto com surpresa
amor, mais rico que um rei...
qual me fizeste princesa!!!
25
Se a poesia nasce em mim,
assim, como nasce a planta...
Presumo ter um jardim,
na minha alma quando canta…
26
Se a Primavera abre as flores
pelo jardim do Universo,
é na alma dos trovadores
que se abre um amor ao verso!
27
Se eu pudesse ser o mar...
e você o meu barquinho,
eu teria o céu a olhar...
nosso encontro de carinho!
28
Sendo a trova um doce encanto,
eu me tornei trovador
e em quatro versos eu canto...
os sonhos vivos do amor!
29
Sendo Deus - a minha ponte,
percorro a vida e acredito
na Luz do Seu horizonte -
por todo o Espaço Bendito!!!
30
Sentindo o timbre que adestra,
todos os momentos meus...
Vejo que a vida é uma orquestra
regida nas mãos de Deus!
31
Se o sonho foi esquecido
na qualidade de vida...
Jamais, o tempo é perdido
quando a ilusão é vivida!!!
32
Se o sucesso da vitória
unicamente é vencer...
A atitude é a maior glória
que a Pátria precisa ter !
33
Sobre o verde da paisagem
e o azul das penas mais raras,
jamais se perdem na viagem...
quando aninham-se as araras!!!

domingo, 22 de junho de 2025

Luna Fernandes (Rio de Janeiro/RJ)

1
A glória, após a partida,
não nos traz paz nem conforto:
quero ser mortal... com vida!
E não imortal... e morto!
2
As outras brincam de roda…
E a olhar a brincadeira
a menina se acomoda
sobre as rodas da cadeira…
3
Ciúmes - já disse alguém -
vivem no fundo da gente.
Ninguém diz que tem, mas tem;
ninguém quer sentir, mas sente.
4
É a nossa vida, em resumo,
uma estrada em que se passa,
da qual só se traça o rumo...
O limite, é Deus quem traça.
5
Embora eu lute e me agite
nesse afã, pelo pão-nosso...
eu sei que existe um limite
entre o que eu quero e o que eu posso...
6
Em meu brinquedo, entretido,
a brincar de esconde-esconde,
eu fui ficando escondido
não sei de quem, nem sei onde.
7
Eu e a vida estamos quites
pois, se de modo severo,
a vida me impõe limites,
eu, quase sempre os supero...
8
Fogosa, a "gata", no leito,
já fez tudo o que sabia...
E o velho, "do mesmo jeito",
comenta: "Que teimosia!'...
9
Há de ter sonhos pequenos
todo aquele que acredite
que, nos limites terrenos,
a vida tem seu limite.
10
Jurei não te procurar...
jurei, mas quebrei a jura...
quem ama pode jurar
não procurar, mas... procura.
11
Meu coração, tem cuidado.
No amor, não te precipites
pois, o amor é ilimitado
mas tu tens os teus limites...
12
Na calma insossa da praça
o ancião mede a distância
que vai dos dias que passa
aos dias da sua infância.
13
Não me queixo se, de dores,
minha vida hoje é repleta,
pois sofrer plantando flores
é destino de poeta...
14
Não somos dois, - asseguro -
somos metades... E assim,
ao procurar-te, eu procuro
outra metade de mim...
15
Nessa procura incessante,
sem ter achado o que eu quis,
achei, na vida, o bastante
para achar que sou feliz!...
16
Nos domínios de Afrodite
ninguém fica ileso a nada...
Pois, neles não há limite
que algum amor não invada...
17
O carrilhão, com sonoras
e compassadas batidas,
marca o limite das horas...
Marca o limite das vidas...
18
Para não ter frustrações
de insucessos e fracassos,
eu limito as ambições
ao limite dos meus passos...
19
Por mais que estude e medite
sobre os mistérios do Além,
verá que existe um limite
que ninguém passa... Ninguém!
20
Por mais que julguem bisonhos
teus sonhos, nunca os evites
e nem limites teus sonhos...
que os sonhos não têm limites.
21
Quando os meus sonhos, escassos,
se despedaçam, tristonho,
eu vou juntando os pedaços
e deles faço outro sonho…
22
Se partires, algum dia,
não me acenes e nem chores...
Que cada aceno faria
minhas tristezas maiores…
23
Talvez porque eu cante tanto
o mesmo amor, há quem diga
que essas cantigas que eu canto
são sempre a mesma cantiga...
24
Tem calma, velhice, aguarda!
Não venhas me ver ainda!...
Que não receies ser tarda,
porque nem tarda és bem vinda...
25
Um beijo de despedida...
Depois o aceno... E depois,
nós dois, o resto da vida,
com saudades de nós dois…
26
Vejo enfim, com desencanto,
que tive sonhos de rei...
Fui à procura de tanto!...
E foi tão pouco que achei!

sábado, 21 de junho de 2025

Wilma Mello Cavalheiro (Pelotas/RS)

1
A festa estava prontinha,
mas tudo às vezes malogra;
pra surpresa da noivinha,
o noivo fugiu com a sogra!
2
"A luz purifica o escuro":
revela a casta Tereza;
e quando o "momento" é impuro,
faz tudo de luz acesa.
3
A minha infância distante
se reflete no meu filho,
por isso, no meu semblante,
o entardecer tem mais brilho.
4
A moça chora num brado
e o padre diz, em voz lenta:
- Pra lavar tanto pecado,
só um tanque de água benta!
5
Anoitece... a paz perdura
no aconchego do galpão;
galopa solta a ternura
em volta do chimarrão.
6
Ante a indecisa galinha,
diz o galo, convincente:
- Não troca o velho, joinha,
por um frango incompetente.
7
Brinquedos da minha infância
que foram meu universo,
hoje, rompendo distância,
são saudades do meu verso.
8
- Chega de versos, de prosa,
diz a garota ao noivinho,
pois tem coisa mais gostosa
pra se fazer no escurinho!
9
Chuta, menina, com jeito,
teu jogo é alegre... peralta.
Depois, apara no peito
porque peito não te falta!
10
Depois do vento ferino,
que me arrancou dos teus braços,
o barco do meu destino
navega roto... em pedaços…
11
Do teu palco iluminado,
ris de mim, sem ter ideia,
do quanto eu sofro calado
na penumbra da plateia.
12
Dulcifico meu sorriso,
louca euforia me invade,
quando chegas, sem aviso,
rompendo o nó da saudade.
13
Ela diz em tom brejeiro:
- Cumpro bem o meu papel.
Quero o amor do marinheiro
e o soldo do coronel.
14
Enfrento o vento malvado,
molhado de chuva e frio,
pois para estar ao teu lado
venço qualquer desafio.
15
Entre dúvidas e medos,
que a distância ocasionou,
fechada, dança em meus dedos
a carta que hoje chegou.
16
Esquece esta vida andeja,
vem tomar um chimarrão,
é cedo, a manhã boceja,
na longa esteira do chão!
17
Esqueço lei, preconceito,
e algum tabu superado,
só para ter o direito
de amanhecer ao teu lado.
18
Esqueço os dias tristonhos,
vou à luta, sem tardança;
ao porto azul dos meus sonhos
regressa a nau da esperança.
19
Esta saudade que é tua
dança no meu pensamento,
como a chuva lá na rua
sob a regência do vento.
20
Este sol fraco, inconstante,
trará luzes de outros sóis,
para amanhã, mais radiante,
te acordar nos meus lençóis.
21
Eu acredito e confesso
que a mais cruel das partidas
é a partida sem regresso,
para o rumo de outras vidas.
22
Feito de fugas e medo,
de regressos e partidas,
nosso amor, mesmo em segredo,
dá mais vida às nossas vidas.
23
Foi preciso muito brio,
quase a coragem faltou,
para enfrentar o vazio
que a tua ausência deixou.
24
Há sempre um rastro de luz
protegendo a caminhada
de quem abriga e conduz
a infância desamparada.
25
Hoje, no ocaso da vida,
tem sabor de eternidade
esta ternura incontida
que floriu na mocidade.
26
Meu chimarrão, tu retratas
meu pampa com perfeição:
por dentro, o verde das matas,
por fora, a cor do meu chão.
27
Minha alma se fortalece,
levo melhor minha cruz,
quando através de uma prece
acho o caminho da luz.
28
“Minuano”, teus intentos
comprovam, em forte estampa,
que és o corsário dos ventos
na imensidão do meu pampa.
29
Na bomba, o beijo deixado,
na entrega, o tremor da mão,
e o meu amor, tão guardado
se traiu no chimarrão!
30
Na lareira um fogo brando
e, entre doses de licor,
nossos corpos desenhando
todas as formas de amor.
31
Não há lei irrevogável,
se amparada na razão;
toda sentença é mutável,
se a luz rasga a escuridão.
32
Não precisa o trovador
ir à lua, ver estrelas,
na noite, em rimas de amor,
ele é capaz de entendê-las.
33
Nesta noite rosicler
a lua, tão feminina,
tem o charme da mulher
e a pureza da menina.
34
O barco da minha infância
cruzou mares... velejou...
chorou saudades... distância...
mas nunca mais regressou.
35
O destino arma ciladas
que só coragem e a fé,
conseguirão, se irmanadas,
manter-nos vivos, de pé.
36
Outrora, a paz benfazeja,
noites de amor sob a lua,
hoje, na noite viceja
o crime, solto, na rua.
37
Peço ao sol, em oração,
e à lua, em seu branco véu,
que não falte um chimarrão
na grande estância do céu!
38
Por tantos textos errados,
somos hoje, sem favor,
dois atores fracassados
no grande palco do amor.
39
Quando a paixão se agiganta,
tão feiticeira e felina,
cala-se a voz na garganta
e só o prazer nos domina.
40
Quando em serena cadência,
na dança que o amor requer,
desnudo sem resistência
meus anseios de mulher.
41
Quando minha alma mentiu,
ao jurar que te esqueceu,
o meu orgulho aplaudiu
a grande atriz que fui eu.
42
Quanto tempo posto fora,
numa procura sem jeito,
sem ver as luzes da aurora,
porque era noite em meu peito.
43
- Que fazias no escurinho,
junto àquele rapagão?
- Não penses mal, papaizinho,
fazia meditação!
44
Quero o torpor, a leveza,
que o licor me propicia,
para acalmar a tristeza
da minha vida vazia.
45
Regressa... tudo te espera...
os teus discos, teu licor,
e uma doce primavera
desfeita em beijos de amor.
46
Roda, criança querida,
teu carrinho... teu pião...
Enquanto a roda da vida
não levar tua ilusão…
47
São brinquedos fulgurantes,
que brilham soltos...ao léu...
as estrelas cintilantes
que a lua joga no céu.
48
Se a Lei Divina se encerra
na paz, no amor, no perdão,
por que rolam pela terra
crianças que não têm pão?
49
Se é feitiço ou se é magia,
não sei, nem quero saber,
só sei que virou mania
este amor que é o meu viver.
50
Sem coragem, dividida,
entre a paixão e a razão,
minha alma é folha caída,
num vendaval de emoção.
51
Sem guerrilha... sem debate...
rola o manto da cobiça,
quando a espada do combate
verga-se à Lei da Justiça!
52
Sem temor e sem ressábios
hoje enfrento o mar fremente,
para no cais dos teus lábios
aportar meu beijo ardente.
53
Se queres manter-te em pé,
ter mais luz em tua andança,
acende o incenso da fé
no castiçal da esperança.
54
Se sofro não perco a calma,
a fé meus passos conduz;
a força que guardo na alma
se renova e acende a luz.
55
Se te esqueceste do texto,
se foste péssimo ator,
não busques nenhum pretexto
para os teus erros no amor.
56
Seu chute ninguém olvida,
atleta bom e sarado,
por isso a “gata” o convida
pra jogar no seu gramado…
57
Tem tanta preguiça, tanta,
e modos tão indolentes,
que quando almoça, não janta,
pra não dar trabalho aos dentes.
58
Tentei fugir de mansinho,
devagar romper os laços;
desisti, qualquer caminho
sempre me leva aos teus braços.
59
Teus cílios, negra cortina,
escondem dos olhos meus,
toda a magia divina
que dança nos olhos teus.
60
Tu és, amor, a alegria,
o meu vinho, o meu licor,
ao raiar de um novo dia,
abrindo as portas do amor.
61
Voltei feliz para vê-la.
Frustração. Não me quis mais.
Somente os olhos da estrela
me viram chorar no cais.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Elbea Priscila de Souza e Silva (Piquete/SP, 1942 – 2023, Caçapava/SP)

1
A banda toca um dobrado
e a multidão se eletriza,
mas mantém o olhar colado
no “shortinho” da baliza !
2
Adeus! A sentença triste
minha vida desalinha,
e a saudade, dedo em riste,
vem dizer que a culpa é minha!
3
A distância bem que tenta
retardar minha chegada,
e parece que acrescenta
mais quilômetros na estrada...
4
A escolha do par perfeito,
farei nesta... em qualquer vida,
ao resgatar de outro peito,
minha metade perdida!
5
Agitado ou não, valente,
radiante, às vezes sombrio,
tens por meta o sonho à frente:
- Coração... teu nome é rio!
6
A Humanidade atracada
ao seu orgulho e avareza
agride o meio e degrada
sua própria natureza...
7
Alegre, meiga, estouvada,
em constante movimento,
tão inconseqüente e amada,
a brisa é a infância do vento...
8
Ao redor deles se agrupam
o mundo, risos e achaques,
porém... relógios se ocupam
apenas de tique-taques...
9
Aquela amiga, a saudade,
ah, quantas vezes descarto,
pois, cheia de intimidade,
só quer dormir no meu quarto...
10
Aquele tomate ousado
diz à alface bem amada:
- Nosso encontro está marcado
às seis... na mesma salada!
11
Às suas falas dispense
o respeito mais profundo,
que o silêncio nos pertence
mas a palavra é do mundo.
12
A tristeza, sim, me arrasa...
expulsá-la de que jeito,
se é marca de ferro em brasa,
indelével no meu peito!?
13
Bem aqui na banda esquerda
do meu peito há uma inscrição:
"Cansado de tanta perda
foi-se embora um coração".
14
Com as palavras esgrima,
me estoca e brada: Touché!...
Astúcia é a matéria-prima
da qual emergiu você!
15
Com extrema sutileza,
vertendo mel nas amarras,
a sedução faz a presa
se aprazer em suas garras.
16
De assombração tenho medo,
da morte, então, quem não tem?
Vou te contar um segredo:
quando era vivo... eu, também!
17
Dispenso festas, mantenho
com elas pouca amizade,
pois quem tem o amor que eu tenho
só pensa em privacidade...
18
Do peito tranco o portão
por sofrer e em desagravo
penduro nele a inscrição:
- Cuidado! Coração bravo!!!
19
Ela passa se sorrio,
se choro vai, nem me vê:
desconfio que este rio
tem muito a ver com você!
20
Embora dela me esquive,
a saudade, tão ladina,
tem manhas de detetive
e me espreita em cada esquina...
21
Em meu peito, sorrateira,
a saudade se detém,
fincando a sua bandeira,
já que a terra é de ninguém !
22
É o trabalho um aliado
no caminho para a luz:
encare-o como um cajado,
jamais o transforme em cruz!
23
- Esta pimenta é de cheiro?
Pergunta com azedume,
e o garçom fala ligeiro:
- Se não é... boto perfume!!!
24
– Eu era um burro, doutor,
que pesadelo medonho!
E o médico, gozador:
- Tens certeza que era um sonho?...
25
Frio, cruel e arrogante,
O mal na discórdia aposta
e o mundo beligerante
Está "como o diabo gosta".
26
Gostosa! – diz, leviano.
- Ela é minha filha Ester…
- Perdão, é a outra, que engano!
- A outra é minha mulher.
27
- Homem que é homem dá duro,
procure um trabalho, diacho!
- Procurar até procuro,
mas, graças a Deus… não acho!
28
Já tive família e nome,
posição...luxo também,
mas, de mim fiz um pronome
indefinido: ninguém!
29
– Meu genro prêmios conquista
em nossa Feira Anual.
- Ele é grande pecuarista?
Não... um perfeito animal!
30
Minha angústia, aprisionada,
num grito agudo se solta
e um eco, só por caçoada,
traz-me esse grito de volta!
31
Minhas mágoas disciplino
com a força da oração:
tenho um médico divino
que jamais deixa o plantão!
32
Moleque feliz, sadio,
nadando em tua água fria,
acreditei, velho rio,
que eu nunca envelheceria...
33
Morre a sogra do Herculano,
e o mesmo, por prevenção,
para que não haja engano,
põe cadeado no caixão!
34
Na mais franca intimidade,
desta volúpia à mercê,
perdemos a identidade:
quem sou eu, quem é você?
35
Não me bastasse a poeirenta
e dura trilha que faço,
vem a saudade e acrescenta
mais um fardo em meu cansaço...
36
No meu Natal é rotina
deixar tudo no "capricho":
no peito faço faxina
e jogo as mágoas no lixo!
37
Nossa antiga foto presa
na moldura sem verniz
hoje é a única certeza
de que um dia eu fui feliz!
38
Numa visita diária
a um coração em carência,
a saudade solidária
tenta suprir tua ausência...
39
Num desabafo insincero,
chorando em teu ombro amigo,
digo coisas que não quero,
quero coisas que não digo…
40
Num minúsculo vestido,
samba e a galera faz festa
e Cornélio, seu marido
“dança” enquanto coça a testa!
41
O beijo da chuva fria
no chão, ressequido e ardente,
num milagre, propicia
o germinar da semente.
42
Pertenço a um tempo em que flores,       
donas de próprias linguagens,
apadrinhavam amores
com perfumadas mensagens...
43
Prantos, lamentos, gemidos...
ecos que vêm até nós...
são gritos dos excluídos
de que a dor é porta-voz!
44
Quando a natureza, insano,
degrada a seu bel-prazer,
o chamado ser humano
humano deixa de ser!
45
Quando a saudade aguilhoa
meu peito, a voz da razão
diz, baixinho: - Vai... perdoa...
Mas a altivez grita: -Não!
46
Quem criou a Natureza,
obra-prima de arte pura,
deixou que a mão da beleza
lhe forjasse a assinatura...
47
Quem da criança o labor
explora pela ganância
mistura amargo sabor
ao doce sabor da infância…
48
- Quem de astúcia é mais capaz?
Num concurso singular,
vence a mulher, Satanás
fica em segundo lugar!
49
Quem tem o regaço terno
de uma amizade sincera,
consegue sentir no inverno
ternuras de primavera…
50
Quero agarrar o presente,
mantê-lo à força, ao meu lado...
E ele se esvai... De repente,
presente já é passado!
51
Se a guerra foi declarada
e é poderoso o oponente,
faze da astúcia aliada,
que astúcia é força da mente!
52
Só tu, penumbra que invades
meu quarto, sem cerimônia,
sabes de quantas saudades
se compõe a minha insônia!
53
Tão comuns em nossa esfera
que aos tropeços se conduz,
trevas são salas de espera
onde aguardamos a luz!
54
Teu prato esfria na mesa,
olho o relógio, me apresso;
na varanda a luz acesa
espera, em vão, teu regresso...
55
Uma caixa de surpresas,
baú de contradições,
meu coração tem certezas
cercadas de indecisões
56
Vencido... todo humilhado,
meu coração se destranca
e entregando-se à saudade,
desfralda a bandeira branca!
57
Xeque-mate, sem saída,
me entrego, todo humildade,
se o tabuleiro é o da vida,
se o contendor é a saudade...

Versos Esparsos * 2 *