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sábado, 6 de agosto de 2022

Argentina de Mello e Silva (O Bom Humor nas Trovas)


A criança encanta, enleva,
mas, com seu ar inocente
quando a gente crê que a leva
ela está levando a gente!

A mulher fala a verdade
(sem hesitação nem briga)
se lhe perguntam a idade,
não a sua… mas, da amiga!

A mulher tinha a mania
de achar coisas no abandono,
até que encontrou um dia
um apartamento sem dono.

À pintura antiga e eterna
hoje chamam de caduca.
Mas quem gosta da moderna
deve ser “lelé da cuca”.

“Aqui jaz na lousa fria
o José João da Espinhela”
(Foi ao encontro de Maria
e encontrou o marido dela).

Briga tanto o Zé Noronha
com a esposa – que o filhinho,
por vingança da cegonha
sai a cara do vizinho.

Casa a Maria do Céu…
e que grande trapalhada…
porque segurando o véu
segue toda a filharada!

Coleantes, envolventes,
há mulheres perigosas.
Mas, também, como as serpentes
nem todas são venenosas.

Com seu destino sofrido
nunca a mulher colabora:
chora por não ter marido
e quando tem… também chora!

Curitiba é uma risonha
cidade de muito brio,
porque o amigo da vergonha
é aqui chamado: Frio!

Diz a mulher ao marido
(velho, bem intencionado)
“daqui a meses, querido
vai nasceu teu enteado”.

Era Amélia. Ele quisera
ter mulher assim somente,
até saber que ela era
a Amélia de muita gente.

É triste lembrar (se é!)
e à nossa vaidade ataca:
que o homem foi chimpanzé
e a mulher já foi macaca…

Falam tanto mal de sogra,
muitas vezes sem razão;
pois no paraíso a cobra
não era sogra de Adão.

Hoje a moda, com jeitinho,
tapa apenas de relance.
Se despenca o tal trapinho?
“honi soit qui mal y pense”! *

Homem velho, ainda matreiro,
por qualquer mulher se engraça.
Mas é só cão perdigueiro:
corre atrás, não come a caça.

Mesmo que ele seja “um pão”
quando se torna marido,
ela tem indigestão:
como enjoa o pão dormido!

Moça moderna, a Clarisse,
com seu ar desinibido,
quanto mais cresce em burrice
mais encurta seu vestido.

“Não tem profundeza a trova”
disse alguém – profunda asneira!
Se há muita poesia nova
mais rasa do que peneira!

No enterro de seu Pessoa
há um aviso aos ignotos:
“ Favor não trazer coroa,
só ramos cheios de brotos”.

Nua, a Godiva, coitada!
Causou surpresa incomum;
ver hoje mulher pelada
não causa “suspense” algum.

O casamento é um remanso
início de um doce lar,
onde ele vai pra descanso
e ela pra trabalhar!

O homem pensa, sofisma,
cria problemas, dá murro.
O burro, calmo, nem cisma,
qual é, dos dois, o mais burro?

Paquerador o Andrada
na moto ele tanto ronda,
que até a Maria Quadrada
já está ficando redonda.

Qualquer dia Dona Lua
diz ao ianque que a aporrinha:
“ Fica, bicho, lá na tua
que eu também estou na minha”.

Quem tem mulher monumento
e vizinho por ali…
lembre o antigo testamento:
mate primeiro o Davi.

Se o julgamento ao alheio
se estampasse na fachada,
o mundo estaria cheio
de muita cara quebrada.

– Seu Delegado examine
o que da luta sobrou;
– Qual foi o móvel do crime?
– Isso o morto não falou.

Tanta pílula espalhada…
tanta gente sem-vergonha…
que uma lei foi promulgada
dando férias à cegonha.

Treze pontos, bem contados,
na esportiva, que alegria!
Mas, depois, mil afilhados,
quem deles me livraria?

Vai a Paris, por capricho,
e volta esnobando a dona:
“ Fui ao Louvre. Quanto bicho!
Mas não era “lisa a mona”.
_________________________
Nota:
* Honi soit qui mal y pense é uma expressão em francês que significa Envergonhe-se quem nisto vê malícia, muito usada em meios cultos. Também é o lema da Ordem da Jarreteira, comenda britânica criada pelo rei Eduardo III de Inglaterra, no tempo das Cruzadas. E um dos lemas do Reino Unido, estando estampado em sua bandeira.

Diz a lenda que, em 1347, durante um baile, a Condessa de Salisbury, amante do mesmo Eduardo III, perdeu a sua liga, azul. O Rei mais que depressa recolocou-a, sob o olhar e sorrisos (cúmplice) dos nobres. O Rei grita então (em francês, que era a língua oficial da corte inglesa) "Messieurs, honni soit qui mal y pense! Ceux qui rient en ce moment seront un jour très honorés d'en porter une semblable, car ce ruban sera mis en tel honneur que les railleurs eux-mêmes le rechercheront avec empressement." (Maldito seja quem pense mal disto! Os que riem nesta hora ficarão um dia honradíssimos por usar uma igual, porque esta liga será posta em tal destaque que mesmo os trocistas a procurarão com avidez).

No dia seguinte cria a ordem da Jarreteira, tendo como símbolo uma liga azul sobre fundo dourado, que ainda hoje é a mais prestigiosa ordem do Reino Unido, tendo somente 25 membros e cujo Grão Mestre é o monarca da Inglaterra. (wikipedia)

__________________________
Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Argentina de Mello e Silva (Jardim de Trovas) 7


A criança encanta, enleva,
mas, com seu ar inocente
quando a gente crê que a leva
ela está levando a gente!
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A mulher tinha a mania
de achar coisas no abandono,
até que encontrou um dia
um apartamento sem dono.
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À pintura antiga e eterna
hoje chamam de caduca.
Mas quem gosta da moderna
deve ser "lelé da cuca".
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"Aqui jaz na lousa fria
o José João da Espinhela"
(Foi ao encontro de Maria
e encontrou o marido dela).
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Briga tanto o Zé Noronha
com a esposa –  que o filhinho,
por vingança da cegonha
sai a cara do vizinho.
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Casa a Maria do Céu...
e que grande trapalhada
porque segurando o véu
segue toda a filharada!
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Coleantes, envolventes,
há mulheres perigosas.
Mas, também, como as serpentes
nem todas são venenosas.
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Com seu destino sofrido
nunca a mulher colabora:
– chora por não ter marido
e quando tem... também chora!
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Curitiba é uma risonha
cidade de muito brio,
porque o amigo da vergonha
é aqui chamado: Frio!
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Diz a mulher ao marido
(velho bem intencionado)
"daqui a meses, querido,
vai nascer teu enteado".
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Era Amélia. Ele quisera
ter mulher assim somente,
até saber que ela era
a Amélia de muita gente.
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É triste lembrar (se é!)
e à nossa vaidade ataca;
que o homem foi chimpanzé
e a mulher já foi macaca...
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Hoje a moda, com jeitinho,
tapa apenas de relance.
Se despenca o tal trapinho,
"honni soit qui mal y pense"!
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Esta expressão francesa significa: «Maldito seja quem pensa mal a esse respeito!»
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Homem velho, ainda matreiro,
por qualquer mulher se engraça,
mas é só cão perdigueiro;
corre atrás, não come a caça.
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Mesmo que ele seja "um pão"
quando se torna marido
ela tem indigestão:
como enjoa o pão dormido!
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"Não tem profundeza a trova"
disse alguém - profunda asneira.
Se há muita poesia nova
mais rasa do que peneira!
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No enterro de seu Pessoa
há um aviso aos ignotos:
"Favor não trazer coroa,
só ramos cheio de brotos"
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Nua, a Godiva, coitada!
causou surpresa incomum;
ver hoje mulher pelada
não causa "suspense" algum.
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O casamento é um remanso
início de um doce lar,
onde ele vai pra descanso
e ela vai pra trabalhar !
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O homem pensa, sofisma.
Cria problemas, dá murro.
O burro, calmo, nem cisma,
qual é, dos dois, o mais burro?
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Paquerador o Andrada,
na moto ele tanto ronda,
que até a Maria Quadrada
já está ficando redonda.
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Qualquer dia Dona Lua
diz ao ianque que a aporrinha:
"Fica, bicho, lá na tua
que eu também estou na minha".
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Quem tem mulher monumento
e vizinho por ali...
lembre o antigo testamento:
mate primeiro o Davi.
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Se o julgamento ao alheio
se estampasse na fachada,
o mundo estaria cheio
de muita cara quebrada.
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– Seu Delegado examine
o que da luta sobrou.
– Qual foi o móvel do crime?
– Isso o morto não falou.
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Tanta "pílula" espalhada...
tanta gente sem-vergonha...
que uma lei foi promulgada
dando férias à cegonha.
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Treze pontos, bem contados,
na esportiva, que alegria!
Mas, depois, mil afilhados,
quem deles me livraria?
= = = = = = = = = = =

Vai a Paris, por capricho,
e volta esnobando a dona:
"Fui ao Louvre. Quanto bicho!
Mas não era "lisa a mona".

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Argentina de Mello e Silva (Jardim de Trovas) 6

 


A ignorância é um profundo
flagelo que o mundo vê.
Livros, livros, pede o mundo.
Feliz o homem que lê!
= = = = = = = = = = =

Amor! Palavra eloquente
que hoje soa e persiste
na boca de tanta gente
que nem sabe se ele existe!
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A mulher fala a verdade
(sem hesitação nem briga)
se lhe perguntam a idade,
não a sua... mas, da amiga.
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Andei cega nos caminhos
de perdidos ideais.
Cantei como os passarinhos
que cegos — cantam demais!
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É quando a angústia me enlaça
numa dor que nada explica,
que sinto a vida que passa,
e vejo a noite que fica.
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Eu não te amo, coqueiro!
Nem o mar nada me diz.
Vivo à sombra do pinheiro:
sou serrana e sou feliz!
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Eu quero viver contente...
pinheiros em meu caminho...
E na morte, suavemente
dormir num caixão de pinho.
= = = = = = = = = = =

"Eu vi minha Mãe rezando"
é a trova que mais encanta.
Quer sorrindo, quer chorando,
toda Mãe é sempre santa!
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Falam tanto mal de sogra
muitas vezes sem razão;
pois no paraíso a cobra
não era sogra de Adão.
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Foi à sombra de um pinheiro
naquela tarde feliz,
que li teu verso primeiro,
e leste as trovas que fiz!
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Meu amor por ti não arde
nas falsas chamas do amor,
É como a brisa da tarde
depois de um grande calor.
= = = = = = = = = = =

Moça moderna, a Clarisse,
com seu ar desinibido,
quanto mais cresce em burrice
mais encurta seu vestido.
= = = = = = = = = = =

Monstro sagrado, jucundo,
por quem o mundo suspira:
Seu nome é "glória do mundo"
seu apelido é; mentira !
= = = = = = = = = = =

Na aridez do teu caminho
por mais íngreme e adverso,
trilhas sempre um pedacinho
da grandeza do universo.
= = = = = = = = = = =

Na existência transitória
entre doçura e amargor,
a vida é um ato de glória,
viver é um ato de Amor!
= = = = = = = = = = =

Na humildade de uma vida
sem resquício algum de glória,
talvez esteja escondida
a mais sublime vitória.
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Não compre a glória que passa,
nem dê riqueza ao ladrão.
Leia livros e, de graça,
terá a glória em sua mão!
= = = = = = = = = = =

Não sei de quadro mais lindo
que mais desperte emoção,
que uma criança sorrindo
c' um livro aberto na mão.
= = = = = = = = = = =

Na paisagem sempre nova
de magia e de beleza,
cada pinheiro é uma trova
no Livro da Natureza.
= = = = = = = = = = =

Nunca procures a calma
em algo longe de ti;
busca-a, antes, em tua alma.
Ela deve estar ali...
= = = = = = = = = = =

Os desencontros da vida...
os sofrimentos, o adeus,
às vezes são a partida
de nosso encontro com Deus!
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Pinheiro que cedo eu vi
no doce embalo da infância,
jamais entre mim e ti
a vida ponha distância.
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Quem não viu o sol surgindo
entre os pinheiros na serra,
não viu o quadro mais lindo
que a mão de Deus pôs na terra.
= = = = = = = = = = =

Se a vida a gente levasse
em prolongado prazer,
talvez o homem inventasse
um modo para sofrer...

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. 
Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

sábado, 7 de maio de 2022

Filemon Martins (Escadas de Trovas) II

FELICIDADE


NO TOPO:
"Felicidade não é
Despejada como o vinho,
Vem de dentro, como a fé,
Pondo flores no caminho..."

Carlos Ribeiro Rocha
Ipupiara/BA, 1923 – 2011, Salvador/BA


SUBINDO:

"Pondo flores no caminho"
o Amor presente se faz
e mesmo estando sozinho
planta a semente da Paz.

"Vem de dentro, como a fé"

em silêncio, ela aparece,
é preciso estar de pé
que a bondade vem, floresce.

"Despejada como o vinho"
a Verdade humildemente
traz a Luz e de mansinho
ilumina a nossa mente.

"Felicidade não é"
impossível a ninguém,
é tão simples, pode até
ser a prática do Bem.
= = = = = = = = = = = = =

MÃE    

NO TOPO:
Minha mãe - como eu quisera
do meu amor dar-te prova,
e o meu carinho - pudera
enviar-te numa Trova.
Filemon F. Martins
São Paulo/SP


SUBINDO:

Enviar-te numa Trova
toda esta minha paixão,
pois meu amor se renova
quando beijo tua mão.

E o meu carinho - pudera
dar-te sempre de presente,
qual eterna primavera
que faz a vida contente.

Do meu amor dar-te prova
nesta profunda saudade,
pois hoje na vida nova
já tens luz, felicidade!

Minha mãe - como eu quisera
falar-te do meu amor
Tua ausência é longa espera
que aumenta mais minha dor
= = = = = = = = = = = = =

SAUDADE

NO TOPO:
A distância é que nos mata
porque vem logo a saudade;
saudade - presença ingrata
de antiga felicidade.

Filemon F. Martins
São Paulo/SP


SUBINDO:
De antiga felicidade

que o tempo tentou levar,
meu coração tem vontade
de outra vez recomeçar.
    
Saudade - presença ingrata
que no coração perdura,
minha imagem não retrata
0 meu viver de amargura.

Porque vem logo a saudade
morar em meu peito agora?
Antes que tudo se acabe
quero ver a luz da aurora.

A distância é que nos mata
e o castigo tem sabor:
- quanto mais forte a chibata,
mais aumenta o nosso amor.
= = = = = = = = = = = = =

SERTÃO

NO TOPO:
"No Sertão é tanta paz
Que eu chego a ouvir, da soleira,
O esforço que o vento faz
Tentando abrira porteira".

José Ouverney
Pindamonhangaba/SP

SUBINDO:

"Tentando abrir a porteira"
que prende meus velhos sonhos,
ouço a saudade matreira
falando em dias risonhos.

"O esforço que o vento faz"
farfalhando no telhado
dá-me a sensação de paz
que ficou !á no passado.

"Que eu chego a ouvir, da soleira,"
uma canção de ternura
que a brisa sopra, ligeira,
tangendo a doce ventura,

"No Sertão é tanta paz"
e a vida para, intrigante,
que o coração é capaz
de sorrir, mesmo distante.
= = = = = = = = = = = = =

SONHO

NO TOPO:
"Naquele dia, tristonho,
Pousaste os olhos nos meus:
- Vivi na tarde do sonho,
Morri na noite do adeus!"

Maria Thereza Cavalheiro
São Paulo/SP , 1929 – 2018

SUBINDO:

"Morri na noite do adeus"
quando de casa, saíste,
meu sofrimento só Deus
sabe que ainda persiste.

"Vivi na tarde do sonho"
quando entraste em minha vida,
tornei-me um homem risonho,
mas, chorei na despedida.

"Pousaste os olhos nos meus"
dando-me luz e esperança,
quase fui um semideus
e sorri como criança.

"Naquele dia, tristonho"
como doeu, ao saber,
que foste embora, suponho,
por deixar de me querer.

Fonte:
Filemon F. Martins. Sonetos & Trovas. RJ: Câmara Brasileira de Jovens Escritores, 2014. 
Livro enviado pelo autor.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

José Maria Moreira Cardoso (Recife/PE, 1887 - 1909)


Contemplando as suas águas
a saudade vem-me então,
Capibaribe de mágoas
dentro do meu coração.
= = = = = = = = = = =

De tanto amar-te, Maria,
já não comporto este amor.
Tão grande é minha alegria
que eu invejo os que têm dor!...
= = = = = = = = = = =

De verme tu me chamaste
por eu ter-te contemplado.
Tu mesma me desculpaste,
inda te fico obrigado...

E ante o insulto fico inerte,
pois se olhei-te, assim de rastros,
é que o verme pra ser verme
precisa olhar para os astros.
= = = = = = = = = = =

Do amor a fera agonia
obriga a quem tem amor,
a ver na dor - alegria -
e a ver n'alegria dor.
= = = = = = = = = = =

Do que amantes hão contado
não se duvides porque
olhares de namorado
veem coisas que ninguém vê.
= = = = = = = = = = =

Lua, pandeiro de prata,
gemendo às mãos do infinito,
seja, ao fim da serenata,
pra ti meu último grito.
= = = = = = = = = = =

Maria, foge aos luares,
que em noites de lua cheia,
desata a lua os pesares
quando no espaço passeia.
= = = = = = = = = = =

Não sei, tão grande parece
a tristeza que padeço,
se a tristeza me entristece
ou se à tristeza entristeço! ...
= = = = = = = = = = =

Não tendo sal, a comida
não presta a qualquer pessoa;
precisa ter sal a vida,
pra que a vida seja boa.
= = = = = = = = = = =

No coração, disse um santo,
origens a mágoa tem.
Se vem da mágoa o teu pranto,
tua mágoa donde vem?
= = = = = = = = = = =

O céu é fita azulada;
e a lua, que em cismas fito,
é medalha pendurada
no pescoço do infinito.
= = = = = = = = = = =

O pesar tem tal voragem
que o prazer não tem valor,
não sendo mais que a passagem
de uma dor para outra dor.
= = = = = = = = = = =

O rio Capibaribe,
que é rio do meu país,
quando aos luares se exibe
sempre me faz infeliz.
= = = = = = = = = = =

Os corações namorados
devem a lua evitar:
são tanto mais desgraçados
quando mais lindo o luar!
= = = = = = = = = = =

Por mais que tentes, senhora,
tirar-me sempre a esperança,
mais a paixão me devora
e mais tormentos me lança.

Pois este amor que me inspira
é cova, mal comparando,
que tanto mais se lhe tira
tanto maior vai ficando.
= = = = = = = = = = =

Pra minha tristeza crua,
busco amparo em que me açoite,
tomando banhos de lua
dentro do tanque da noite.
= = = = = = = = = = =

Quando tu choras, me espanto
e os meus olhos se enchem d'água!
Vem a magoa de teu pranto,
não vem teu pranto da mágoa.
= = = = = = = = = = =

Que calor em teus olhares!...
Em teus lábios, que vulcão!...
Porém, para meus pesares,
que gelo em teu coração!...
= = = = = = = = = = =

Quem espera não é santo,
pois eu tanto te esperei
que assim, de esperar-te tanto,
desesperado fiquei.
= = = = = = = = = = =

Que no amor tudo se negue
pois se uma alma amorosa
pode ver a dor, alegre,
e a ventura, dolorosa.
= = = = = = = = = = =

Se o nosso pranto é salgado,
nosso pranto não faz mal,
quem nunca tiver chorado
não presta, pois não tem sal.
= = = = = = = = = = =

Tenho sofrido bastante...
Porém, quando penso em ti,
da dor me vejo distante.
Nem me lembro que sofri.

Fonte:
Adelmar Tavares et al. Descantes. Recife/PE: Tipografia da Imprensa Oficial. 1a. edição publicada em 1907.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Jessé Nascimento (Analecto de Trovas)

A formiga na labuta
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.
= = = = = = = = = = =

Caminhos, jardins e praças,
flores, cores - que beleza!
Deus derrama suas graças
dando graça à natureza!
= = = = = = = = = = =

Chora o coração sentindo
tristeza, nunca revolta;
os amigos vão partindo
numa viagem sem volta.
= = = = = = = = = = =

Com meus sonhos mais singelos
embalados na esperança
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
= = = = = = = = = = =

Corres tanto, mocidade,
és pela vida levada.
Amanhã serás saudade,
serás velhice, mais nada...
= = = = = = = = = = =

Dos outros não dependamos,
mas cada um erga a voz;
a paz que tanto almejamos
começa dentro de nós.
= = = = = = = = = = =

Leu "Campanha do Agasalho",
quando por ali passou;
o espertalhão ou paspalho
em vez de deixar, pegou.
= = = = = = = = = = =

Lindo olhar, belo sorriso,
rosto de tal perfeição,
sugere o traço preciso
do Senhor da criação.
= = = = = = = = = = =

Na dureza da porfia
para moldar minha história,
Deus me abençoa e me guia
para chegar à vitória.
= = = = = = = = = = =

Na padaria, o cliente:
- O pão está bem "quentinho?"
Com sorriso, a atendente;
- Veja como está "fresquinho".
= = = = = = = = = = =

Navegando nas poesias,
nas ondas da inspiração,
iço as velas de alegrias
deixo o rumo ao coração.
= = = = = = = = = = =

No sonho e imaginação,
vou compondo cada verso;
partindo do coração,
viajo pelo universo.
= = = = = = = = = = =

Num cenário colorido,
cheio de encanto e alegria,
a vida tem mais sentido:
a primavera extasia!
= = = = = = = = = = =

O genro sempre é quem dança,
a minha sogra é um porre;
o nome dela é "Esperança"
que é a última que morre.
= = = = = = = = = = =

Por mais que as regras morais
moldem o bom cidadão,
dia a dia os imorais
na vida melhor se dão.
= = = = = = = = = = =

Pra acreditar foi um custo;
na primeira gravidez,
levou um tremendo susto:
foram cinco de uma vez!
= = = = = = = = = = =

Quando a razão não alcança
por mais que pareça incrível,
ter fé é ter esperança,
ter fé é crer no impossível.
= = = = = = = = = = =

Quantas vezes nós choramos
por tantas coisas banais...
Mas, jamais nos esqueçamos:
há outros que sofrem mais.
= = = = = = = = = = =

Que a humanidade resista
ao mal que, sagaz, avança
eu sou poeta otimista:
ainda existe esperança!
= = = = = = = = = = =

Se a tua cruz é pesada
e vives só de lamento,
hás de encontrar pela estrada
outros com mais sofrimento.
= = = = = = = = = = =

Senhor Deus, misericórdia!
Neste conturbado mundo,
nos corações põe concórdia,
mais perdão e amor profundo.
= = = = = = = = = = =

Semelhante a um quartel
tem sido assim minha casa;
minha mulher, coronel
e eu sempre patente rasa.
= = = = = = = = = = =

Tenho ciúme e desgosto
quando, à noite, leve brisa
afaga o teu meigo rosto
e os teus cabelos alisa.
= = = = = = = = = = =

Teu cego e amargo ciúme
que me desgosta e alucina
tem sido o cortante gume
que ao amor leva a ruína.
= = = = = = = = = = =

Teu olhar, quanta ternura!
Tuas mãos, quanto carinho!
Teu amor, oh, que ventura
pôs a vida em meu caminho.

Fonte:
Autores diversos da UBT-Angra dos Reis. Sementes poéticas. SP: Daya Ed., 2021.
Livro enviado por Jessé Nascimento.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Alvitres do Prof. Renato Alves – 7 –

51.
0 uso inteligente do Discurso Direto, isto é, de um DIÁLOGO em que se reproduzem as frases exatamente como foram ditas, é um excelente recurso para valorizar a agilidade da comunicação e aumentar o efeito humorístico nas trovas desta modalidade.

Vejamos, nas trovas abaixo, premiadas em Nova Friburgo, como este recurso foi extremamente positivo para o resultado final obtido, ou seja, fazer rir.

- Me empresta cem? - Nem por alto!
- Vinte! - Eu já disse: Não tem!
- PASSE A GRANA: isto é um assalto!
- OK, eu te empresto os cem!

José Ouverney

Ao chegar à grande estreia:
— A senha para ingressar?!
— Não faço a menor ideia!
— Isso mesmo, pode entrar!

Renata Paccola


52.
O ACHADO é aquele "algo diferente", aquela ideia inusitada, aquele recurso linguístico especial que faz com que a trova valha a pena ter sido escrita. 0 ACHADO pode estar, por exemplo, num jogo de palavras, numa abordagem criativa do tema, na forma de colocar as ideias, fugindo do lugar comum

Nesta primorosa trova do mestre Izo Goldman a beleza do achado está na inteligente manipulação das variantes semânticas do vocábulo "pena", formando um jogo de palavras bem interessante.

Que pena que as minhas penas
não te causem pena alguma,
e, sem pena, eu seja apenas,
entre as penas... só mais uma!

Izo Goldman

53.
A finalidade precípua da trova de humor é fazer rir. No entanto, seu conteúdo deve ser trabalhado com o mesmo esmero que dedicamos a qualquer outra modalidade. Assim, um trabalho meticuloso na sintaxe das frases, coloca a trova humorística em pé de igualdade com líricas ou filosóficas.

Reparem como, na construção do 2° verso desta primorosa trova, o emprego da palavra "Amor" como vocativo (entre vírgulas) possibilitou, na flexão verbal de 2a. pessoa, uma rima rica para "primas", ficando também destacado o excelente achado humorístico: "vigia da fechadura", no 3o. verso.

Uma outra curiosidade na construção desta trova é que ela começa liricamente nos dois primeiros versos, mudando o tom para o desfecho humorístico a partir do 3o. verso.

Eu era, na infância dura
Quando, Amor, tudo sublimas,
vigia da fechadura
do quarto das minhas primas.

Sérgio Fonseca


54.
0 que distingue um texto literário de um texto meramente informativo é que o texto literário privilegia o uso da linguagem figurada e imagens cuja finalidade é criar emoção e beleza estética. Nos dois casos as palavras são as mesmas disponíveis no vocabulário comum da língua, mas o seu emprego no texto literário deve ser assim: diferente, inusitado, metafórico.

Uma trova, para ser literária, precisa conter algo novo, criado pela sensibilidade do trovador a partir da imaginação ou da observação da realidade.

Reparem na trova abaixo, como o ruído ritmado de um trem em movimento e o desenho simétrico dos dormentes (como as teclas de um piano) na ferrovia geraram uma belíssima imagem, constituindo um verdadeiro achado poético.

Tu chegavas... e eu ouvia
o trem, em tons comoventes,
tocar canções de alegria
no teclado dos dormentes...

Marina Bruna

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Maria Helena Ururahy Campos da Fonseca (Caderno de Trovas)

 

A brisa o perfume espalha
na planície em Goytacazes.
Esse odor de cana e palha
és tu, saudade, quem trazes.
= = = = = = = = = = =
A esperança que norteia
a vida sempre a girar
é a força que semeia
coragem pra caminhar...
= = = = = = = = = = =
Anoitecer da jornada,
quando desponta o cansaço,
eu me sinto renovada
no calor do teu abraço.
= = = = = = = = = = =
Antes de morrer na Cruz,
Jesus Cristo, nosso irmão,
mistério de fé e luz,
partilhou conosco o pão.
= = = = = = = = = = =
Ao cair da tarde fria,
e quando a luz já se evade
eu tenho por companhia
os suspiros da saudade...
= = = = = = = = = = =
As luzes do alvorecer,
em matiz resplandecente,
apagam-se ao entardecer,
levando os sonhos da gente...
= = = = = = = = = = =
Com retalhos de lembrança
eu costurei, sem maldade,
meus amores de criança
com suspiros de saudade...
= = = = = = = = = = =
Em uma gaiola encanta,
lindo pássaro a cantar!
Sem liberdade ele canta,
porque não sabe chorar...
= = = = = = = = = = =
E procurando ensinar,
a minha vida passei,
pra no final constatar;
aprendi mais que ensinei.
= = = = = = = = = = =
Estrela, eterna magia,
que traz à mente esquecida
lampejo que contagia
a saudade adormecida.
= = = = = = = = = = =
Eu relembro a mocidade
sem perjúrio e sem revolta,
mas como dói a saudade
do tempo que não mais volta…
= = = = = = = = = = =
Menina, que beijo doce!
Gostoso, vadio, arisco.
Teu beijo é como se fosse
saborear um chuvisco.
= = = = = = = = = = =
Meu peito pulsa saudade,
sem chance, mas sem revolta,
relembrando a mocidade
que já se foi... não tem volta.
= = = = = = = = = = =
Meu sorriso de beleza
com o tempo se apagou,
desgaste da natureza,
até meu espelho embaçou.
= = = = = = = = = = =
Na solidão do meu leito,
quando a esperança se evade,
eu pranteio o amor desfeito,
triste missão da saudade.
= = = = = = = = = = =
Niterói doce lembrança
que nem o tempo destrói.
Volto ao tempo de criança...
E como a saudade dói!
= = = = = = = = = = =
Na trilha da vida, as flores
encontradas nos caminhos,
às vezes, trazem sabores,
às vezes, trazem espinhos.
= = = = = = = = = = =
O abraço por gentileza
é bom até, quando dado,
mas bom mesmo, com certeza,
o abraço do ser amado!
= = = = = = = = = = =
O ciúme é sal da vida,
não sofra à toa, por favor,
quem não o sofre, querida,
é porque não tem amor.
= = = = = = = = = = =
O recado tão sonhado
que você tanto esperou
ficou sempre resguardado;
o correio não entregou.
= = = = = = = = = = =
Privado da liberdade
lindo pássaro cantador,
na gaiola, de saudade,
canta triste a sua dor…
= = = = = = = = = = =
Quando a bruma surge morna
e anuncia o fim do dia,
a saudade então se torna
a mais triste companhia.
= = = = = = = = = = =
Quando a vida já findando,
vai levando a nossa história,
o passado vai lembrando
que o viver é uma vitória.
= = = = = = = = = = =
Rosa flor, beleza ingrata,
nuance, perfume, cor!
Teu espinho que maltrata
mistura beleza e dor.
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Tão longe, triste soava
aquele som cristalino...
Era a saudade, chorava,
nas cordas do violino.
= = = = = = = = = = =
Um dia a nossa amizade
em amor se transformou:
amor sublime, verdade,
que o tempo nunca apagou...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

Maria Helena Ururahy Campos da Fonseca, acadêmica fundadora do Ateneu Angrense de Letras e Artes e da Delegacia da UBT/Angra dos Reis, onde continua participando ativamente.

Presidiu o Ateneu Angrense de Letras e de Artes por dezessete mandatos (dois anos cada), alternadamente. Pertence, ainda, a outras instituições culturais. Integrou o Conselho de Cultura de Angra dos Reis de 1978 a 1991. Em 2007, retornou ao Conselho de Cultura, representando a setorial de Literatura.

Professora efetiva do Estado do Rio de Janeiro e do Município do Rio de Janeiro na área de Língua e Literatura Portuguesa. Exerceu o Magistério durante 47 anos. Durante a trajetória profissional dedicada ao Magistério, participou de cursos de especialização nas áreas pedagógica, linguística, literária e cultural.

Aposentada, participou do Curso de Extensão Cultural da Mulher, no Clube Militar do Rio de Janeiro, interrompido pela pandemia. Reside em Angra dos Reis.


Fonte:
Autores diversos da UBT-Angra dos Reis. Sementes poéticas. SP: Daya Ed., 2021.
Livro enviado por Jessé Nascimento.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Cláudio de Capua (1945 - 2021)

 

 A derrota não me importa,
cumpro com o meu dever.
Do destino forço a porta,
sempre luto pra valer.
- - - - - -
Ah! Se eu tivesse saber,
se fosse poeta, escritor...
do poente ao alvorecer,
terias versos de amor...
- - - - - -
Ah! Você não vem! Não volta...
Eu, na saudade tropeço,
em noite que me revolta,
esperando o seu regresso.
- - - - - –
A métrica pondo à prova,
quatro versos eu componho
ao fazer mais uma trova
com tinta, papel e sonho!
- - - - - –
Ante a hora da partida,
nossa tensão se agiganta
e a despedida é contida
na voz presa na garganta.
- - - - - –
Ante ao talento me ajoelho…
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
(uma homenagem a Carolina Ramos)
- - - - - –
Ao ensinar Filosofia,
Sócrates, de vida sã,
ao fundar a Academia
fundou um novo amanhã.
- - - - - -
Ao faltar sua presença,
por amar muito você
a saudade cresce intensa
e dói, como não sei quê!
- - - - - –
Avisto do alto da serra
a pujança do sertão
e sinto orgulho da terra
que mora em meu coração!
- - - - - –
Busco a mulher, a beleza,
em meus delírios risonhos
trovador da natureza,
vou navegando em meus sonhos.
- - - - - -
Camafeu, nobreza pura,
seu retrato de perfil
tem no adorno da moldura,
clássico tom juvenil.
- - - - - -
Certo bispo ouve uma “história”
de um padre chamado Hilário
e grava, assim, na memória
um bom “Conto do Vigário”
- - - - - –
Chora a dor dos pinheirais,
no céu a estrela cadente,
são lágrimas siderais,
ante o machado inclemente.
- - - - - –
Com mensagem sempre nova,
transpondo mágoas e dor,
pelos caminhos da trova
planto sementes de amor.
- - - - - -
Da luz quero a beleza,
da lagoa quero o encanto,
das aves delicadeza,
de você, o acalanto.
- - - - - -
De “mau jeito” o Zé Baleia,
pescador de sorte estranha,
noivou com uma sereia,
casou com uma piranha..
- - - - - –
De união a nos dar prova,
cultivando novas flores,
cada dia cresce a trova
no canto dos trovadores!
- - - - - -
Do seu lar fazendo um templo,
menino, velho ou rapaz,
faz da vida um belo exemplo
quem trabalha pela paz!
- - - - - –
Em noite alta... madrugada,
contemplo a lua contrito
- Barca de prata aportada
nos segredos do infinito.
- - - - - -
É neste “Canto que eu Canto”
belezas que a vida tem
que ao meu mundo dão encanto
e tanto me fazem bem!
- - - - - –
Essa vida se resume
para o poeta, trovador
em essência de perfume
quando faz versos de amor.
- - - - - -
És meu aroma, ventura...
E nem sei bem mais o quê!
Só esse perfume em mim dura,
é porque o extrato é você.
- - - - - -
Esta foto é mais um fato,
que nos traz para o presente,
através deste retrato,
lembranças de antigamente.
- - - - - –
Êta... que coisa mais louca,
quero ter explicação:
Por que boca na boca
acelera o coração?!
- - - - - –
Eu cansei de minha andança,
fui banhar meus pés no mar
e voltei a ser criança,
Santos agora é meu lar...
- - - - - –
Eu faço uma descoberta,
sempre que vejo você,
é meu peito porta aberta
eu nem sei bem o porquê.
- - - - - –
Eu fico muito feliz,
quando escrevo a letra V
escrita, a lápis ou a giz,
pois o V... lembra você!
- - - - - -
Eu que te dei muitos beijos,
te fiz até suspirar,
agora sinto desejos
dos beijos que faltou dar!
- - - - - –
Há muitos dias de dor
e bem poucos de alegria:
se a vida não tem amor,
pode ser noite o meu dia.
- - - - - –
Imensidões veneráveis,
que me fazem navegar,
céu e mar, inseparáveis,
na linha do meu olhar.
- - - - - –
Jovem... tenha fé na terra,
seja valente e viril,
suba monte, desça serra,
não desista do Brasil!
- - - - - –
Lembrando minha lembrança,
vou escrevendo meus versos,
buscando alguma esperança
dentro dos meus Universos.
- - - - - -
Maldosa como ninguém,
boa figura na igreja,
acrescenta sempre "Amém"
quando aos outros mal deseja…
- - - - - –
Na angústia das mais estranhas,
estão chorando as cascatas:
são murmúrios das montanhas
refletindo a dor das matas.
- - - - - –
Na lágrima do meu verso,
nesta madrugada calma,
ao contemplar o universo
a brisa me embala a alma.
- - - - - -
Não te sintas ultrajada,
quando te olho tanto... o intuito
é provar que és muito amada
e que eu te desejo muito!
- - - - - -
Naquela ponta de galho,
com luz pura e fulgurante,
uma gotinha de orvalho,
brilha mais que um diamante!
- - - - - –
Nasci em dia abençoado
no charmoso oito de março
da mulher enamorado
meu orgulho não disfarço.
- - - - - -
Natal! E nessa Babel,
em que ninguém mais se entende,
onde está Papai Noel,
se brinquedo só se vende?!
- - - - - -
Nesta ilha tão formosa,
prisioneiro de ti vivo.
E que vida venturosa...
vivo em teus braços cativo!
- - - - - -
Nesta noite prateada
minha sombra, junto à tua,
vai trilhando a mesma estrada,
tendo por cúmplice a lua.
- - - - - –
Nestas trovas nosso aceno,
ao leitor desta revista,
e um ano bem mais sereno,
e muito mais otimista.
- - - - - -
No céu, estrelas e brumas,
alvo luar envolvente.
No mar...reprises de espumas
a embalar sonhos da gente...
- - - - - -
No dia a dia... na lida,
eu sustento a minha fé
na caminhada da vida,
mantenho o ideal de pé.
- - - - - -
Num momento...num segundo...
sob a luz... desse sorriso,
vivo bem longe do mundo,
bem perto do paraíso.
- - - - - -
O delegado Pereira…
Êta Pereira bacana,
- É de pouca brincadeira,
não dá pêra, só da “cana”!…
- - - - - –
O garçom ganha gorjeta,
o político propina.
Nesta terra de mutreta,
só tem ave de rapina.
- - - - - -
O joão-de-barro é um exemplo.
pode não saber gorjear,
Com tão pouco faz um templo,
ao erguer seu próprio lar.
- - - - - –
Olha! A noite é uma criança,
diz o refrão popular -
que sacode e balança
presa às tranças do luar.
- - - - - –
Palhaços de profissão?
Ah, Como é bom, fazem bem.
O triste é ter coração
e ser palhaço de alguém!
- - - - - –
Poeta de sonhos diversos,
vivo momentos tristonhos,
mas, ao escrever meus versos,
entro no mundo dos sonhos.
- - - - - –
Quando cantava o sertão,
nossa Inezita Barroso
encantava o coração
cantando num tom gostoso.
- - - - - -
Quando o amor se tem por lema,
numa trova que se lê,
mais belo fica esse tema,
se a trovadora é você.
- - - - - -
Quando o rei sol estorrica,
tortura, com seu clarão,
mais forte é aquele que fica
e dá valor ao seu chão!
- - - - - –
Quando tão bela, ela passa,
elegante, indiferente,
sua graça é uma desgraça,
tira a paz de muita gente.
- - - - - –
Querendo muito ganhá-la,
vivo para bem-querê-la...
No seu desejo de amá-la
sentindo o prazer de vê-la.
- - - - - -
Reflexo do nosso mundo
meus olhos, de tons instáveis,
guardam amor lá no fundo
de momentos memoráveis.
- - - - - –
República portuguesa,
ao ler a história descubro:
foi grande a tua proeza!
E viva "Cinco de Outubro!”
- - - - - -
Sempre alerta mocidade,
em permanente vigília,
defenda a brasilidade,
ame a Deus, Pátria e Família.
- - - - - –
Sempre feliz, a pulsar,
meu coração é um celeiro,
tem muito amor para doar,
nele cabe o mundo inteiro.
- - - - - –
Servidor da tributária,
bem “Severo”, sem igual,
ergue a saia à secretária,
por ser, de “rendas”, fiscal.
- - - - - –
Sobrevoando terras... mares...
Vinte e três de outubro - França!
Santos Dumont vence os ares
e une povos em aliança.
- - - - - -
Só por descuido é que a Helena
acabou por se casar…
Pois, pensou que Cibalena
fosse a pílula… Que azar!
- - - - - –
Só tem sorte, verdadeira,
o que vence frustrações,
e rompe a própria fronteira
em busca de soluções.
- - - - - –
Sou poeta e trovador,
a inspiração me transporta
às nuvens e, com amor,
nas nuvens minha alma aporta.
- - - - - –
Surpresa está na investida
de cada dobra de esquina,
na caminhada da vida
o destino nos ensina.
- - - - - –
Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.
- - - - - –
Voando entre nuvem...montanha...
sou Poeta e Aviador!
Minha ambição é tamanha,
navego em busca do amor!
- - - - - -
Você, mulher escolhida,
da rosa tem o perfume
e, no palco desta vida,
é minha musa, meu lume.
- - - - - –
Vou plantar, da frente ao fundo,
um belo quintal em flor,
o maior jardim do mundo,
pra perfumar nosso amor.

Fontes:
Revista Santos Arte e Cultura
Cláudio de Cápua. Retalhos de Imprensa. São Paulo: EditorAção, 2020.
http://www.de-capua.com/publicacoes.html (desativado)
Carolina Ramos (coord. e redação) A Trova: Raízes e florescimento - UBT. Santos: 3D Estúdio Editoração Gráfica, 2013.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Argentina de Mello e Silva (Jardim de Trovas) 5


A fé é um fruto tão doce
que se Deus não existira,
se só mentira Ele fosse
seria o mundo mentira!
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A honra não é vaidade
nem mera conveniência.
É a nossa dignidade
num drama de consciência.
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Alma sedenta que peca
sem nada ao céu implorar,
é água turva que seca
e nem chega, nunca, ao mar.
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Aos moços já não importa
a nossa compreensão,
que da sua à nossa porta
há léguas de solidão.
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A renúncia é a droga exata
para um amor que tortura.
Ela é o remédio que mata,
ela é o veneno que cura.
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Duas palavras no fundo
têm sempre o mesmo endereço;
se o amor é a vida do mundo
é o ódio o amor pelo avesso.
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Esperar o amor é triste.
Viver sem ele é sofrer.
Mas a dor maior que existe
é achá-lo e depois perder!
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Esperei-te tanto, tanto
felicidade — e nem vi
que o tempo passava, e enquanto
te esperava — envelheci!
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Há um abismo intransponível
entre a ambição desmedida,
e a medida do possível
na limitação da vida.
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Mistér na vida se faz
que a paz se anteponha à guerra.
Se o mundo tivesse paz
o céu seria na terra.
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Na grande metamorfose
dos atuais tempos seus,
o homem é uma simbiose;
serve ao diabo e ama a Deus!
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Na morte o sábio sorri
sorvendo a gota de fel;
deixando aos outros, de si,
a taça cheia de mel!
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Não herdei ouro ou brasão,
nem ambiciono jamais
a não ser a tradição
de vossa honra, meus Pais !
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Nesta existência fugace,
águas do rio em descida
em cada folha que nasce
há uma vitória da vida.
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Ninguém foge, por mais forte,
de uma angústia dolorida,
ou pelo pavor da morte
ou medo da própria vida!
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O homem sofisma e erra
chamando a outro de "cão".
O cão não fomenta guerra
nem mata por ambição.
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Olho a luz do sol e o mar,
vejo a flor no chão nascer.
Que mais podes, Deus, me dar
pela glória de viver?
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Ó tu, rosa presumida,
que te alteias, ouve bem:
– A raiz vive escondida
e é dela que a flor provém!
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Por feliz eu tenho alguém,
que sem ter maior cuidado,
nunca invejando ninguém
por ninguém foi invejado!
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Por mais que o mundo te aclame
e glórias te oferte a esmo...
Não há ninguém que te ame
mais, no mundo, que tu mesmo!
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Quando a vida enfim se embebe
de uma paz bem merecida,
é que a gente se apercebe
que já está no fim da vida.
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Quando a vida me é pesada
e o céu um manto tristonho,
da triste angústia do nada
eu faço o tudo de um sonho
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Quando me acode à lembrança
a morte no seu segredo,
eu faço como a criança
que canta pra não ter medo.
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Quantas verdades o sábio,
— sendo sábio, não alcança.
E as põe Deus à flor do lábio
de uma inocente criança!
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Se a velhice é um desencanto
uma angústia, uma saudade...
por que se deplora tanto
quem morre na mocidade?
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Se razão não tens contigo
teu inimigo te diz;
que o coração de um amigo
é sempre o pior juiz!
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Trovas de amor eu não faço;
não sei fazê-las, não sei.
O amor é o mundo que abraço,
é a vida a quem tudo eu dei!

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Apollo Taborda França (A Trova e O Trovador)

A TROVA


A minha TROVA é silente,
toda de luz e calor...
Ponho na rima meu poente,
meu universo de amor!
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A TROVA boa, sentida,
fluindo com emoção...
é como a prece florida
que brota do coração!
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A TROVA etérea, maviosa,
Desperta suave emoção...
Quando fluente e ardorosa,
Fala-nos ao coração!
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A TROVA, graça divina,
de inspiração é repleta…
Surge da verve mais fina
e valoriza o poeta!
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A TROVA, graça suprema,
sintetiza e muito ensina...
Tem a luz de pura gema,
nos envolve e nos fascina!
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A TROVA não morre nunca,
retempera a humanidade...
e vence a tristeza adunca,
alegrando a mocidade!
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A TROVA que tem valor,
é muito simples, singela...
e diz um mundo de amor,
com tintas de uma aquarela!
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Cinco letras... Viva a TROVA!
Quatro linhas... de verdade;
Poesia se renova
e ganha longevidade!
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De TROVAS uma revoada,
pra alegrar o nosso ambiente…
O verso é muito, é nada,
mas, deixa-nos bem contente!
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Para fazer boa TROVA,
verso puro que se integra,
cuide a rima, como prova,
e respeite bem a regra!
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Poesia?... Salve a TROVA,
Quatro versos de estatura.
O poeta põe á prova,
com o denodo e cultura!
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Quem falou que a TROVA é dura,
sem valor, um tanto azeda?...
Pois que certa ela perdura,
se consagra de vereda!
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Quem tem estro e tem cultura
e se inclina à poesia,
vai na TROVA com lisura,
cheio de graça e estesia!
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Recrudesce a bela TROVA,
para a glória da Cultura;
Poesia põe à prova
o bom senso, em miniatura!
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Sempre no pequeno frasco
é que está a grande essência…
e a TROVA traz no casco,
o rigor dessa exigência!
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Sete sílabas por cima
e ideia sempre nova,
com cadência e boa rima,
numa quadra... bela TROVA!
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TROVA tem aura dileta,
enebria o pensamento.
É magia do poeta,
arroubo do seu talento!
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TROVA tem sabedoria,
é tão fértil como a terra…
Bons conceitos ela cria,
pelas verdades que encerra!
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Uma TROVA de cadência,
conteúdo e expressão.
Precisa de inteligência
e muita reflexão!
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Uma TROVA pra ser boa,
expressiva, universal…
na mensagem que apregoa
mostra cultura e moral!
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Uma TROVA... um belo tema,
pra dizer o que se quer;
sendo um poeta da gema,
inspira-se... na mulher!
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Você tem tristeza n'alma?
Esqueça! Não se apoquente...
Tente a TROVA, que ela acalma,
retempera a nossa mente!
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O TROVADOR

Eu sinto as trovas nas veias,
meu sangue todo alvoroço...
Verso me envolve nas teias.
meu coração é de moço!
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Por trovador eu me esmero,
no rito de bem compor...
Nas minhas trovas sou mero,
puro instrumento do amor!
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Ser trovador, uma graça,
é bênção que cai do céu...
Nas rimas ele bem traça,
de sua glória o troféu!
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Sou trovador e entendo
a rima, em forma de flor...
e tal qual um reverendo,
só rezo trovas de amor.
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Sou trovador sem remendo,
O verso meu é de cor...
Vou com assombro dizendo
as minhas trovas de amor!
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Sou trovador, tenho senso
da importância da poesia...
Encerra tudo o que penso,
realidade e fantasia!
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Sou trovador venturoso,
amo a vida por demais...
Da infância lembro meu gozo.
Da juventude meus ais!
= = = = = = = = = = =

Sou trovador venturoso,
conheço desse fulgor...
Trovar de modo charmoso
sobre a mulher, com sabor!
= = = = = = = = = = =

Trovador que demais ama,
passa momentos terríveis...
Trova loucuras na cama
e sonha coisas incríveis!
= = = = = = = = = = =

Trovo porque me dou bem,
no ritmo, rima e cesura...
Meus versos como requiém,
rebrilham lá pela altura!

Fonte:
Apollo Taborda França. Trovas maravilhosas.
Curitiba/PR: O Formigueiro, 1986.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Argentina de Mello e Silva (Jardim de Trovas) 4


Amor! Relíquia tão rara,
ao relógio se aparenta:
com pouca corda ele para,
com muita corda... arrebenta!
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Aprende, amigo, a fingir
com quem não te sabe amar.
Não faças ninguém sorrir
com a dor que te faz chorar.
= = = = = = = = = = =

Democrata ou social
— qualquer um que os povos tomem,
sempre o regime ideal
é o valor real do homem!
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É mais pobre do que o pobre
que disso tem sentimento,
o rico quando "descobre",
que o é por merecimento.
= = = = = = = = = = =

Eu me sinto alienada
dos bens que a vida contém.
O tudo no mundo é nada,
e o nada é tudo também!
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Folha que segue a torrente
à sorte desconhecida.. .
É assim a vida da gente
e há tanto orgulho na vida!
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Há muita verdade omissa
na justiça que anda aí.
Em nome dessa justiça
quanta injustiça eu já vi!
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Hoje que o mundo é um deserto
de moral, de paz, de fé...
a gente procura o certo
mas já nem sabe o que é!
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Liberdade ! Os que propalam
o teu valor que constrói,
são os mesmos que se calam
quando a força te destrói.
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Mais ostentas teu orgulho
mais de ti eu tenho dó.
És como um dourado embrulho
por dentro cheio de pó.
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Menina feia, chorosa,
alegra teu coração.
Nem sempre a mais linda rosa
foi o mais lindo botão.
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Na hecatombe da montanha
tem o mundo o seu retrato;
tanto grito, tanta sanha,
"e a montanha expele um rato".
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Não esqueça um só segundo
de honrar a vida que tem.
Só o viver neste mundo
não enaltece ninguém!
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Neste mundo quem quiser
ter amor — precisa amar!
Mas o amor como Deus quer,
quem, no mundo, pode dar ?
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No mundo não esqueçamos
que os bens encontrados cá,
bem pouco tempo os guardamos:
a vida empresta — não dá !
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O homem — esse vagabundo
que é um gigante e um pigmeu,
busca mundos, e o seu mundo
ele jamais entendeu!
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Os males que não se espera
sorrateiros advêm.
E a gente se desespera
por outros que nunca vêm !
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Ostente com sobriedade
o muito que você tem.
Que também é caridade
não humilhar a ninguém.
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Para que o homem pudesse
sublimar sua alma nua,
foi mister que Deus lhe desse
a mesma Cruz que foi Sua !
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Para ser grande, serena,
um bom conselho segui;
fui me fazendo pequena,
quanto menor — mais cresci!
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Seja sempre enaltecida
a caridade de quem,
tendo bem pouco na vida,
divide o pouco que tem.
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Se na reta do teu mundo
qualquer nuvem te ameaça...
não recues um segundo:
para... olha... escuta e.. passa!
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Sofrimentos todos têm.
A paz nem sempre se alcança.
Mas, nunca se viu ninguém
vivendo sem esperança!
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Uma caridade há
que de vaidade se embebe.
Exalta àquele que dá,
humilha quem a recebe.

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

sábado, 17 de julho de 2021

Cônego Benedito Vieira Telles


 1
A esperança também gera
o mal que a saudade tem,
quando a gente vive à espera
do sonho que nunca vem.
2
Amigo, qual tenra planta,
tem de ser bem cultivado.
Se outro valor se levanta,
você pode ser trocado...
3
A neve nos pinheirais,
nestas paragens do Sul,
forma brincos de cristais
na terra da gralha azul.
4
À sua mesa haja o pão,
partilhe-o com quem não tem.
Reparta-o com o irmão,
que não o falte a ninguém.
5
Às vezes, no entardecer,
prateia a lua as ramagens.
Velha árvore a fenecer...
Com ela, as frescas aragens!
6
A trova, menor poesia,
síntese da inspiração.
São sete pés de maestria,
que medram no coração!
7
A trova não envelhece,
assim é toda a poesia.
É perene como a prece,
imortal a cada dia!
8
A vida é dura, renhida,
porém tem muita poesia.
Faço parte da torcida
da esperança a cada dia.
9
Cidade do coração,
tens meio milhão de amores,
tu és a ‘Cidade Canção’,
Maringá, urbe das flores!
10
Coração de mãe é grande,
infinito como o amor.
Sua ternura se expande
como o perfume da flor!
11
Em vez de bombas, canhões,
fome, miséria, orfandade,
que se unam os corações
na paz da fraternidade!
12
Frondosa árvore, bendita,
que antepassados plantaram.
Árvore alegre, bonita,
de ti saudades ficaram!
13
Há festa no céu, na Terra,
foi a maior deste Mundo,
nos mares, rios e serras...
Natal, mistério profundo!
14
O domingo é do Senhor,
dia pascal do cristão.
Vamos ao altar do Amor
enriquecer-nos do irmão.
15
O homem foi feito perfeito,
à semelhança de Deus;
às vezes, fico sem jeito
de não ser igual aos meus.
16
Ontem falara às estrelas,
e sussurros seus ouvia.
Foi difícil entendê-las!...
Novo dia em cantoria.
17
Ouvir e ver as estrelas,
sonhara, enfim, o profeta.
Se Bilac falou com elas,
vale a pena ser poeta!
18
O vento farfalha a copa,
da árvore, folhas e flores,
e a ave o ninho envelopa
para abrigar seus amores.
19
Pode entrar. A casa é sua,
sempre me traz alegria.
Ao sair, esta é a rua...
se puder, volte. Bom dia!
20
Por que não curtir saudade,
que é parte do nosso ser?
– Saudade não tem idade,
fica em nosso entardecer.
21
Pra que possa haver perdão,
estenda a mão o ofensor
ao ofendido – e do irmão
cure a dor com muito amor.
22
Quanto mais a idade avança,
no longo tempo a correr,
eu tenho mais esperança
e mais prazer em viver...
23
Quisera ter coisas novas
escritas, mas tudo em vão.
Só encontrei algumas trovas
no escrínio do coração.
24
Quisera ter tantas vidas
pra levar a Paz e o Bem.
Lancei sementes nas lidas...
agradeço a Deus. Amém!
25
Receba, de coração,
o que posso repartir:
à mesa, um pouco de pão,
e a alegria de sorrir.
26
Rústico curral bovino,
maternidade do Amor.
– No corpo de um Deus-Menino,
nasceu-nos o Salvador.
27
Sai o hábil semeador
e lança a boa semente.
Chamado pelo Senhor,
planta-a na alma da gente.
28
Senhor, neste amanhecer,
louvo a tua criação:
da aurora ao entardecer,
eu te encontro em meu irmão.
29
Sigo minha trajetória
pelos caminhos, cantando.
No coração, trago a história
desde que O segui, sonhando.
30
Traz-me a árvore lembrança
dos verdes anos, agora.
Como foi bom ser criança,
com meus sonhos desde a aurora.
31
Tudo o que é criado passa,
porque tudo é contingente.
Deus sempre, com sua graça,
renova a vida da gente.
32
Uma prece eleve a Deus,
com fé peça hoje a cura
para alguém junto dos seus
e cure essa criatura.
==============================
Cônego Benedito Vieira Telles nasceu no Distrito de Campo Místico, hoje, cidade e comarca de Bueno Brandão/ MG, em 1928. Filho de pais católicos praticantes, Luiz Vieira Telles e Maria da Conceição Telles. Eram doze irmãos. Aos domingos, íam à Missa na Matriz de São Bom Jesus da Pedra Fria, igreja em que foi batizado, crismado, fez Primeira Comunhão. Nesta matriz rezou a Primeira Missa solene, em 1960, em Ação de Graças pelo chamado ao sacerdócio.
 
Em 1945, entrou no Seminário dos padres da Congregação Salesiana, em Lorena – SP. Concluídos os estudos de Filosofia e Teologia no Seminário Maior São José, Rio de Janeiro – DF, foi ordenado sacerdote por dom Jaime Luiz Coelho, em 1960, na primeira catedral de madeira, cujo bispo de Maringá ordenava-lhe o primeiro padre da diocese.

Foi nomeado vigário coadjutor da catedral, Secretário do Bispado, Chanceler da Cúria Diocesana. Implantou pastorais na catedral: catequese paroquial e nas escolas, Obras das Vocações Sacerdotais, cujas vocações floriram. Ia mensalmente às capelas dos distritos de Maringá, zonas rurais, para dar-lhes assistência espiritual. Fundou o Movimento Familiar Cristão e outros. Foi nomeado Cura da Catedral de Maringá. Pároco por quase nove anos. Foi transferido para a paróquia de Inajá. Depois, pároco em Guairaçá, Atalaia, comunidades desta arquidiocese. Exerceu o magistério de Direito na Universidade Estadual de Maringá até a aposentadoria e Unicesumar.

Colaborou na Folha do Norte do Paraná, imprensa diocesana e outras obras, que constam em Livros Tombos das paroquiais que administrou.


Fontes:
Trovas obtidas nos Boletins de Trovas "Trovia", de A. A. de Assis.
Biografia adaptada obtida da Arquidiocese de Maringá, em 2016.
http://arquidiocesedemaringa.org.br/noticias/695/60-anos-da-arquidiocese-de-maringa-conheca-a-historia-do-conego-benedito-vieira-telles

Versos Esparsos * 2 *