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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Argentina de Mello e Silva (Jardim de Trovas) 5


A fé é um fruto tão doce
que se Deus não existira,
se só mentira Ele fosse
seria o mundo mentira!
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A honra não é vaidade
nem mera conveniência.
É a nossa dignidade
num drama de consciência.
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Alma sedenta que peca
sem nada ao céu implorar,
é água turva que seca
e nem chega, nunca, ao mar.
= = = = = = = = = = =

Aos moços já não importa
a nossa compreensão,
que da sua à nossa porta
há léguas de solidão.
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A renúncia é a droga exata
para um amor que tortura.
Ela é o remédio que mata,
ela é o veneno que cura.
= = = = = = = = = = =

Duas palavras no fundo
têm sempre o mesmo endereço;
se o amor é a vida do mundo
é o ódio o amor pelo avesso.
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Esperar o amor é triste.
Viver sem ele é sofrer.
Mas a dor maior que existe
é achá-lo e depois perder!
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Esperei-te tanto, tanto
felicidade — e nem vi
que o tempo passava, e enquanto
te esperava — envelheci!
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Há um abismo intransponível
entre a ambição desmedida,
e a medida do possível
na limitação da vida.
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Mistér na vida se faz
que a paz se anteponha à guerra.
Se o mundo tivesse paz
o céu seria na terra.
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Na grande metamorfose
dos atuais tempos seus,
o homem é uma simbiose;
serve ao diabo e ama a Deus!
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Na morte o sábio sorri
sorvendo a gota de fel;
deixando aos outros, de si,
a taça cheia de mel!
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Não herdei ouro ou brasão,
nem ambiciono jamais
a não ser a tradição
de vossa honra, meus Pais !
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Nesta existência fugace,
águas do rio em descida
em cada folha que nasce
há uma vitória da vida.
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Ninguém foge, por mais forte,
de uma angústia dolorida,
ou pelo pavor da morte
ou medo da própria vida!
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O homem sofisma e erra
chamando a outro de "cão".
O cão não fomenta guerra
nem mata por ambição.
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Olho a luz do sol e o mar,
vejo a flor no chão nascer.
Que mais podes, Deus, me dar
pela glória de viver?
= = = = = = = = = = =

Ó tu, rosa presumida,
que te alteias, ouve bem:
– A raiz vive escondida
e é dela que a flor provém!
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Por feliz eu tenho alguém,
que sem ter maior cuidado,
nunca invejando ninguém
por ninguém foi invejado!
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Por mais que o mundo te aclame
e glórias te oferte a esmo...
Não há ninguém que te ame
mais, no mundo, que tu mesmo!
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Quando a vida enfim se embebe
de uma paz bem merecida,
é que a gente se apercebe
que já está no fim da vida.
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Quando a vida me é pesada
e o céu um manto tristonho,
da triste angústia do nada
eu faço o tudo de um sonho
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Quando me acode à lembrança
a morte no seu segredo,
eu faço como a criança
que canta pra não ter medo.
= = = = = = = = = = =

Quantas verdades o sábio,
— sendo sábio, não alcança.
E as põe Deus à flor do lábio
de uma inocente criança!
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Se a velhice é um desencanto
uma angústia, uma saudade...
por que se deplora tanto
quem morre na mocidade?
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Se razão não tens contigo
teu inimigo te diz;
que o coração de um amigo
é sempre o pior juiz!
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Trovas de amor eu não faço;
não sei fazê-las, não sei.
O amor é o mundo que abraço,
é a vida a quem tudo eu dei!

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Apollo Taborda França (A Trova e O Trovador)

A TROVA


A minha TROVA é silente,
toda de luz e calor...
Ponho na rima meu poente,
meu universo de amor!
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A TROVA boa, sentida,
fluindo com emoção...
é como a prece florida
que brota do coração!
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A TROVA etérea, maviosa,
Desperta suave emoção...
Quando fluente e ardorosa,
Fala-nos ao coração!
= = = = = = = = = = =

A TROVA, graça divina,
de inspiração é repleta…
Surge da verve mais fina
e valoriza o poeta!
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A TROVA, graça suprema,
sintetiza e muito ensina...
Tem a luz de pura gema,
nos envolve e nos fascina!
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A TROVA não morre nunca,
retempera a humanidade...
e vence a tristeza adunca,
alegrando a mocidade!
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A TROVA que tem valor,
é muito simples, singela...
e diz um mundo de amor,
com tintas de uma aquarela!
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Cinco letras... Viva a TROVA!
Quatro linhas... de verdade;
Poesia se renova
e ganha longevidade!
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De TROVAS uma revoada,
pra alegrar o nosso ambiente…
O verso é muito, é nada,
mas, deixa-nos bem contente!
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Para fazer boa TROVA,
verso puro que se integra,
cuide a rima, como prova,
e respeite bem a regra!
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Poesia?... Salve a TROVA,
Quatro versos de estatura.
O poeta põe á prova,
com o denodo e cultura!
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Quem falou que a TROVA é dura,
sem valor, um tanto azeda?...
Pois que certa ela perdura,
se consagra de vereda!
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Quem tem estro e tem cultura
e se inclina à poesia,
vai na TROVA com lisura,
cheio de graça e estesia!
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Recrudesce a bela TROVA,
para a glória da Cultura;
Poesia põe à prova
o bom senso, em miniatura!
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Sempre no pequeno frasco
é que está a grande essência…
e a TROVA traz no casco,
o rigor dessa exigência!
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Sete sílabas por cima
e ideia sempre nova,
com cadência e boa rima,
numa quadra... bela TROVA!
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TROVA tem aura dileta,
enebria o pensamento.
É magia do poeta,
arroubo do seu talento!
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TROVA tem sabedoria,
é tão fértil como a terra…
Bons conceitos ela cria,
pelas verdades que encerra!
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Uma TROVA de cadência,
conteúdo e expressão.
Precisa de inteligência
e muita reflexão!
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Uma TROVA pra ser boa,
expressiva, universal…
na mensagem que apregoa
mostra cultura e moral!
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Uma TROVA... um belo tema,
pra dizer o que se quer;
sendo um poeta da gema,
inspira-se... na mulher!
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Você tem tristeza n'alma?
Esqueça! Não se apoquente...
Tente a TROVA, que ela acalma,
retempera a nossa mente!
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O TROVADOR

Eu sinto as trovas nas veias,
meu sangue todo alvoroço...
Verso me envolve nas teias.
meu coração é de moço!
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Por trovador eu me esmero,
no rito de bem compor...
Nas minhas trovas sou mero,
puro instrumento do amor!
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Ser trovador, uma graça,
é bênção que cai do céu...
Nas rimas ele bem traça,
de sua glória o troféu!
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Sou trovador e entendo
a rima, em forma de flor...
e tal qual um reverendo,
só rezo trovas de amor.
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Sou trovador sem remendo,
O verso meu é de cor...
Vou com assombro dizendo
as minhas trovas de amor!
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Sou trovador, tenho senso
da importância da poesia...
Encerra tudo o que penso,
realidade e fantasia!
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Sou trovador venturoso,
amo a vida por demais...
Da infância lembro meu gozo.
Da juventude meus ais!
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Sou trovador venturoso,
conheço desse fulgor...
Trovar de modo charmoso
sobre a mulher, com sabor!
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Trovador que demais ama,
passa momentos terríveis...
Trova loucuras na cama
e sonha coisas incríveis!
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Trovo porque me dou bem,
no ritmo, rima e cesura...
Meus versos como requiém,
rebrilham lá pela altura!

Fonte:
Apollo Taborda França. Trovas maravilhosas.
Curitiba/PR: O Formigueiro, 1986.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Argentina de Mello e Silva (Jardim de Trovas) 4


Amor! Relíquia tão rara,
ao relógio se aparenta:
com pouca corda ele para,
com muita corda... arrebenta!
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Aprende, amigo, a fingir
com quem não te sabe amar.
Não faças ninguém sorrir
com a dor que te faz chorar.
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Democrata ou social
— qualquer um que os povos tomem,
sempre o regime ideal
é o valor real do homem!
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É mais pobre do que o pobre
que disso tem sentimento,
o rico quando "descobre",
que o é por merecimento.
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Eu me sinto alienada
dos bens que a vida contém.
O tudo no mundo é nada,
e o nada é tudo também!
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Folha que segue a torrente
à sorte desconhecida.. .
É assim a vida da gente
e há tanto orgulho na vida!
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Há muita verdade omissa
na justiça que anda aí.
Em nome dessa justiça
quanta injustiça eu já vi!
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Hoje que o mundo é um deserto
de moral, de paz, de fé...
a gente procura o certo
mas já nem sabe o que é!
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Liberdade ! Os que propalam
o teu valor que constrói,
são os mesmos que se calam
quando a força te destrói.
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Mais ostentas teu orgulho
mais de ti eu tenho dó.
És como um dourado embrulho
por dentro cheio de pó.
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Menina feia, chorosa,
alegra teu coração.
Nem sempre a mais linda rosa
foi o mais lindo botão.
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Na hecatombe da montanha
tem o mundo o seu retrato;
tanto grito, tanta sanha,
"e a montanha expele um rato".
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Não esqueça um só segundo
de honrar a vida que tem.
Só o viver neste mundo
não enaltece ninguém!
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Neste mundo quem quiser
ter amor — precisa amar!
Mas o amor como Deus quer,
quem, no mundo, pode dar ?
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No mundo não esqueçamos
que os bens encontrados cá,
bem pouco tempo os guardamos:
a vida empresta — não dá !
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O homem — esse vagabundo
que é um gigante e um pigmeu,
busca mundos, e o seu mundo
ele jamais entendeu!
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Os males que não se espera
sorrateiros advêm.
E a gente se desespera
por outros que nunca vêm !
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Ostente com sobriedade
o muito que você tem.
Que também é caridade
não humilhar a ninguém.
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Para que o homem pudesse
sublimar sua alma nua,
foi mister que Deus lhe desse
a mesma Cruz que foi Sua !
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Para ser grande, serena,
um bom conselho segui;
fui me fazendo pequena,
quanto menor — mais cresci!
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Seja sempre enaltecida
a caridade de quem,
tendo bem pouco na vida,
divide o pouco que tem.
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Se na reta do teu mundo
qualquer nuvem te ameaça...
não recues um segundo:
para... olha... escuta e.. passa!
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Sofrimentos todos têm.
A paz nem sempre se alcança.
Mas, nunca se viu ninguém
vivendo sem esperança!
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Uma caridade há
que de vaidade se embebe.
Exalta àquele que dá,
humilha quem a recebe.

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

sábado, 17 de julho de 2021

Cônego Benedito Vieira Telles


 1
A esperança também gera
o mal que a saudade tem,
quando a gente vive à espera
do sonho que nunca vem.
2
Amigo, qual tenra planta,
tem de ser bem cultivado.
Se outro valor se levanta,
você pode ser trocado...
3
A neve nos pinheirais,
nestas paragens do Sul,
forma brincos de cristais
na terra da gralha azul.
4
À sua mesa haja o pão,
partilhe-o com quem não tem.
Reparta-o com o irmão,
que não o falte a ninguém.
5
Às vezes, no entardecer,
prateia a lua as ramagens.
Velha árvore a fenecer...
Com ela, as frescas aragens!
6
A trova, menor poesia,
síntese da inspiração.
São sete pés de maestria,
que medram no coração!
7
A trova não envelhece,
assim é toda a poesia.
É perene como a prece,
imortal a cada dia!
8
A vida é dura, renhida,
porém tem muita poesia.
Faço parte da torcida
da esperança a cada dia.
9
Cidade do coração,
tens meio milhão de amores,
tu és a ‘Cidade Canção’,
Maringá, urbe das flores!
10
Coração de mãe é grande,
infinito como o amor.
Sua ternura se expande
como o perfume da flor!
11
Em vez de bombas, canhões,
fome, miséria, orfandade,
que se unam os corações
na paz da fraternidade!
12
Frondosa árvore, bendita,
que antepassados plantaram.
Árvore alegre, bonita,
de ti saudades ficaram!
13
Há festa no céu, na Terra,
foi a maior deste Mundo,
nos mares, rios e serras...
Natal, mistério profundo!
14
O domingo é do Senhor,
dia pascal do cristão.
Vamos ao altar do Amor
enriquecer-nos do irmão.
15
O homem foi feito perfeito,
à semelhança de Deus;
às vezes, fico sem jeito
de não ser igual aos meus.
16
Ontem falara às estrelas,
e sussurros seus ouvia.
Foi difícil entendê-las!...
Novo dia em cantoria.
17
Ouvir e ver as estrelas,
sonhara, enfim, o profeta.
Se Bilac falou com elas,
vale a pena ser poeta!
18
O vento farfalha a copa,
da árvore, folhas e flores,
e a ave o ninho envelopa
para abrigar seus amores.
19
Pode entrar. A casa é sua,
sempre me traz alegria.
Ao sair, esta é a rua...
se puder, volte. Bom dia!
20
Por que não curtir saudade,
que é parte do nosso ser?
– Saudade não tem idade,
fica em nosso entardecer.
21
Pra que possa haver perdão,
estenda a mão o ofensor
ao ofendido – e do irmão
cure a dor com muito amor.
22
Quanto mais a idade avança,
no longo tempo a correr,
eu tenho mais esperança
e mais prazer em viver...
23
Quisera ter coisas novas
escritas, mas tudo em vão.
Só encontrei algumas trovas
no escrínio do coração.
24
Quisera ter tantas vidas
pra levar a Paz e o Bem.
Lancei sementes nas lidas...
agradeço a Deus. Amém!
25
Receba, de coração,
o que posso repartir:
à mesa, um pouco de pão,
e a alegria de sorrir.
26
Rústico curral bovino,
maternidade do Amor.
– No corpo de um Deus-Menino,
nasceu-nos o Salvador.
27
Sai o hábil semeador
e lança a boa semente.
Chamado pelo Senhor,
planta-a na alma da gente.
28
Senhor, neste amanhecer,
louvo a tua criação:
da aurora ao entardecer,
eu te encontro em meu irmão.
29
Sigo minha trajetória
pelos caminhos, cantando.
No coração, trago a história
desde que O segui, sonhando.
30
Traz-me a árvore lembrança
dos verdes anos, agora.
Como foi bom ser criança,
com meus sonhos desde a aurora.
31
Tudo o que é criado passa,
porque tudo é contingente.
Deus sempre, com sua graça,
renova a vida da gente.
32
Uma prece eleve a Deus,
com fé peça hoje a cura
para alguém junto dos seus
e cure essa criatura.
==============================
Cônego Benedito Vieira Telles nasceu no Distrito de Campo Místico, hoje, cidade e comarca de Bueno Brandão/ MG, em 1928. Filho de pais católicos praticantes, Luiz Vieira Telles e Maria da Conceição Telles. Eram doze irmãos. Aos domingos, íam à Missa na Matriz de São Bom Jesus da Pedra Fria, igreja em que foi batizado, crismado, fez Primeira Comunhão. Nesta matriz rezou a Primeira Missa solene, em 1960, em Ação de Graças pelo chamado ao sacerdócio.
 
Em 1945, entrou no Seminário dos padres da Congregação Salesiana, em Lorena – SP. Concluídos os estudos de Filosofia e Teologia no Seminário Maior São José, Rio de Janeiro – DF, foi ordenado sacerdote por dom Jaime Luiz Coelho, em 1960, na primeira catedral de madeira, cujo bispo de Maringá ordenava-lhe o primeiro padre da diocese.

Foi nomeado vigário coadjutor da catedral, Secretário do Bispado, Chanceler da Cúria Diocesana. Implantou pastorais na catedral: catequese paroquial e nas escolas, Obras das Vocações Sacerdotais, cujas vocações floriram. Ia mensalmente às capelas dos distritos de Maringá, zonas rurais, para dar-lhes assistência espiritual. Fundou o Movimento Familiar Cristão e outros. Foi nomeado Cura da Catedral de Maringá. Pároco por quase nove anos. Foi transferido para a paróquia de Inajá. Depois, pároco em Guairaçá, Atalaia, comunidades desta arquidiocese. Exerceu o magistério de Direito na Universidade Estadual de Maringá até a aposentadoria e Unicesumar.

Colaborou na Folha do Norte do Paraná, imprensa diocesana e outras obras, que constam em Livros Tombos das paroquiais que administrou.


Fontes:
Trovas obtidas nos Boletins de Trovas "Trovia", de A. A. de Assis.
Biografia adaptada obtida da Arquidiocese de Maringá, em 2016.
http://arquidiocesedemaringa.org.br/noticias/695/60-anos-da-arquidiocese-de-maringa-conheca-a-historia-do-conego-benedito-vieira-telles

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Luiz Damo (As Faces da Trova) - 2 -


A flor, quando desabrocha,
quase deixa de ser flor,
pra se transformar em tocha
aspergindo aroma e cor.
= = = = = = = = = = =

A morte exige passagem
para à vida subtrair
o colorido da imagem
e a esperança do porvir.
= = = = = = = = = = =

A vida pede socorro
nas estradas da existência,
contra a falta de decoro
e excesso de prepotência.
= = = = = = = = = = =

De volta para o passado
movido pela saudade,
vemos o homem, apressado,
perder sua identidade.
= = = = = = = = = = =

Dos bons momentos vividos
raramente alguém esquece,
dos maus e dos mais doídos
qualquer alma se entristece.
= = = = = = = = = = =

Entre o anil do firmamento,
aonde o sol, fulgente, impera,
da nudez do chão cinzento
brota a vida e prolifera.
= = = = = = = = = = =

Frente à tumba do passado
prostrado chora o descrente,
por ver sendo sepultado
um pouco do seu presente.
= = = = = = = = = = =

Hoje, o ser humano investe,
na aparência, com excesso,
como se o que come e veste
fossem fontes de sucesso.
= = = = = = = = = = =

Não permita que a vaidade
se sobreponha à virtude,
ambas crescem com a idade
mas conflitam amiúde.
= = = = = = = = = = =

Não te iludas com as flores
que encontrares nos caminhos,
por trás das vistosas cores
podem esconder espinhos.
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Na vida tens dois caminhos,
num deles deves optar
e o que tem menos espinhos
escolhe pra caminhar.
= = = = = = = = = = =

No altar onde há tradição,
cultivá-la, pode ser,
muito mais que obrigação
um santo e nobre dever.
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Numa taça de água fria
não deprecia quem dá,
mas refresca de alegria
alguém que com sede está.
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Nunca faças de um fracasso
do sucesso, a sepultura,
porque o teu próximo passo
pode ser o da ventura.
= = = = = = = = = = =

O presente nos revela,
uma vida, igual façanha,
mais a imagem que foi dela
e aquela da sua entranha.
= = = = = = = = = = =

O presente planejado
não se assusta do futuro,
povo que não tem passado
imerge em porvir escuro.
= = = = = = = = = = =

Ouvindo o choro do vento
minha alma se contorcia,
não via, mas seu lamento,
era igual ao que eu sentia.
= = = = = = = = = = =

Pelas frinchas da janela
aonde refulge a manhã,
a estrela numa olhadela
entra em forma de espiã.
= = = = = = = = = = =

Pode haver alguém que diga
com toda a sinceridade,
na maldade, quem se liga,
não terá a felicidade.
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Que jamais o ser humano,
venha um dia ser lesado,
por vingança ou por engano
muito menos desprezado.
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Que tem vida após a morte,
diz a fé, ela existe, sim!
Quem na vida tem um norte
não deve temer o fim.
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Se a pedra o caminho veda
e até lhe faz sucumbir,
por que não fazer da queda
um degrau para subir?
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Se à regra tens a exceção
e adotá-la, até te alegra,
não faças dela uma ação,
nem da exceção tua regra.
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Sempre, à noite, quando deito,
sonho em poder despertar,
com o arquétipo refeito
no entusiasmo de lutar.
= = = = = = = = = = =

Sempre que nuvens espessas
sob o firmamento abundam,
fazem jorrar às avessas
águas que as terras fecundam,
= = = = = = = = = = =

Se nos jardins se acastelam
flores que exalam perfumes,
juntas brindam, mas revelam,
nos espinhos, seus ciúmes.
= = = = = = = = = = =

Sonhamos que o bem retorne
a nós sempre que o perdemos,
colhemos frutos, conforme,
as plantações que fizemos.
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Tem muita gente que faz
de um simples ventilador
um tornado forte e audaz
com poder destruidor...
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Tudo na vida são fases
com diferentes matizes,
algumas mais eficazes
e outras bem menos felizes.
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Tudo passa nesta vida,
se não fosse, perde a graça!
Quando a paz lhe for tolhida,
cresce a dor que nunca passa.

Fonte:
Luiz Damo. As faces da trova. Caxias do Sul/RS: Ed. Do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Luiz Damo (As Faces da Trova) - 1 -

A amizade é joia rara,
nem sempre tem sido assim,
para quem nunca zelara
só resta chorar seu fim.
= = = = = = = = = = =

À força que o vento tem
tudo agita, treme ou cai.
Ninguém sabe donde vem
tampouco para aonde vai.
= = = = = = = = = = =

Antigamente, à partilha,
mais valor era agregado,
o amor que unia a família
hoje, está quase apagado.
= = = = = = = = = = =

À paz, caminhas sorrindo,
sempre buscando a igualdade,
enquanto vais, Deus vem vindo,
pra abraçar a humanidade.
= = = = = = = = = = =

Basta uma oportunidade
para o talento aflorar,
misto de audácia e vontade
faz o sonhador vibrar.
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Cada passo dado à frente
não tenha dois pra voltar,
melhor andar lentamente
que correr e não chegar.
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Com a noite não se iluda,
se nela a luz não permeia,
à noite a lua não muda
a não ser, de nova à cheia.
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Desce a noite e cobre a tarde
espalhando a nostalgia,
igual a um braseiro que arde
na última brasa do dia.
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Deus mantenha sempre unido
todo o grupo familiar,
filhos, esposa e marido,
num aconchegante lar.
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Do silêncio mais profundo
que alguém deseja provar,
seja o silencioso mundo
do seu ser a questionar.
= = = = = = = = = = =

Dos projetos mais serenos
que acalentas em teu ser,
sejam grandes ou pequenos
são frutos do teu viver.
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Em constantes mutações
o mundo, hoje, se apresenta,
fruto das "revoluções",
ou das pedras que ele enfrenta.
= = = = = = = = = = =

Frente à flor despetalada
o beija-flor nem lastima,
Diz: – Volto noutra florada,
pra buscar matéria prima.
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Lá, na torre, o sino toca,
pra oração da Ave Maria,
frente à noite nos coloca
no final de mais um dia.
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Mesmo que a morte cessasse
de o medo, no homem crescer,
fá-lo advir desde que nasce,
se estendendo até morrer.
= = = = = = = = = = =
 
Não basta olhar-se de frente
movidos pela emoção,
olhe o casal, firmemente,
sempre à mesma direção.
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Não deixe as trevas crescerem
em tamanho e intensidade,
tampouco, a vida envolverem,
no lençol da obscuridade.
= = = = = = = = = = =

No tilintar do badalo
o estrondo quase estremece,
cresce à medida que o estalo
retumba e depois fenece.
= = = = = = = = = = =

Num campo todo florido
vejo mais que o seu fulgor,
sinto o mundo renascido
e um futuro promissor.
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Nunca falte o pão na mesa
nem a vontade de obtê-lo,
tendo a fonte à natureza
quem o obtém possa comê-lo.
= = = = = = = = = = =

Nunca seja acomodado.
nem desafie o perigo,
pois, caminhando ao seu lado,
pode estar um inimigo.
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O elevador sobe e desce
sem a menor distinção.
Pede que ele te obedece
sem reclamar da missão.
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O filho nunca envelhece
face os seus diletos pais,
sempre um bebê lhes parece,
quando envelhece, jamais.
= = = = = = = = = = =

Os mais sublimes valores
sempre deves cultivar,
para não colher horrores
nas lavouras do teu lar.
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O sol, com seus raios fartos,
brilhando de dia, atua,
o homem pra dormir, tem quartos,
diferentes dos da lua.
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Quem não come o que apetece
come mal ou passa fome,
não comendo o ser padece
e o corpo assim se consome.
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Saudade, fruta colhida,
nos pomares do passado,
seu sabor, espelha a vida,
refletida ao nosso lado.
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Saudade, se torna o fruto,
quase nunca adocicado,
guardado em estado bruto
no celeiro do passado.
= = = = = = = = = = =

Se a dor se tornar aguda
difícil de suportar,
peça a Deus a Sua ajuda
para o dilema enfrentar.
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Teimosia e intransigência,
o embrião da petulância,
semelhantes pela essência,
berço eterno da arrogância.
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Verdes lençóis estendidos
na forma de parreirais,
fonte de vinhos, servidos,
em nobres cerimoniais.

Fonte:
Luiz Damo. As faces da trova. Caxias do Sul/RS: Ed. Do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

domingo, 11 de julho de 2021

Argentina de Mello e Silva (Canteiro de Trovas) 1


Amor! RelÍquia tão rara,
ao relógio se aparenta:
com pouca corda ele para,
com muita corda... arrebenta!
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Aprende, amigo, a fingir
com quem não te sabe amar.
Não faças ninguém sorrir
com a dor que te faz chorar.
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Democrata ou social
— qualquer um que os povos tomem,
sempre o regime ideal
é o valor real do homem!
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É mais pobre do que o pobre
que disso tem sentimento,
o rico quando "descobre",
que o é por merecimento.
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Eu me sinto alienada
dos bens que a vida contém.
O tudo no mundo é nada,
e o nada é tudo também!
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Folha que segue a torrente
à sorte desconhecida.. .
É assim a vida da gente
e há tanto orgulho na vida!
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Há muita verdade omissa
na justiça que anda aí.
Em nome dessa justiça
quanta injustiça eu já vi!
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Hoje que o mundo é um deserto
de moral, de paz, de fé...
a gente procura o certo
mas já nem sabe o que é!
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Liberdade ! Os que propalam
o teu valor que constrói,
são os mesmos que se calam
quando a força te destrói.
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Mais ostentas teu orgulho
mais de ti eu tenho dó.
És como um dourado embrulho
por dentro cheio de pó.
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Menina feia, chorosa,
alegra teu coração.
Nem sempre a mais linda rosa
foi o mais lindo botão.
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Na hecatombe da montanha
tem o mundo o seu retrato;
tanto grito, tanta sanha,
"e a montanha expele um rato".
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Não esqueça um só segundo
de honrar a vida que tem.
Só o viver neste mundo
não enaltece ninguém!
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Neste mundo quem quiser
ter amor — precisa amar!
Mas o amor como Deus quer,
quem, no mundo, pode dar ?
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No mundo não esqueçamos
que os bens encontrados cá,
bem pouco tempo os guardamos:
a vida empresta — não dá !
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O homem — esse vagabundo
que é um gigante e um pigmeu,
busca mundos, e o seu mundo
ele jamais entendeu!
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Os males que não se espera
sorrateiros advêm.
E a gente se desespera
por outros que nunca vêm !
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Ostente com sobriedade
o muito que você tem.
Que também é caridade
não humilhar a ninguém.
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Para que o homem pudesse
sublimar sua alma nua,
foi mister que Deus lhe desse
a mesma Cruz que foi Sua !
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Para ser grande, serena,
um bom conselho segui;
fui me fazendo pequena,
quanto menor — mais cresci!
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Seja sempre enaltecida
a caridade de quem,
tendo bem pouco na vida,
divide o pouco que tem.
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Se na reta do teu mundo
qualquer nuvem te ameaça...
não recues um segundo:
para... olha... escuta e.. passa!
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Sofrimentos todos têm.
A paz nem sempre se alcança.
Mas, nunca se viu ninguém
vivendo sem esperança!
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Uma caridade há
que de vaidade se embebe.
Exalta àquele que dá,
humilha quem a recebe.

Fonte:
Argentina de Mello e Silva. Trovas dispersas. Curitiba/PR: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1984.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Oficina de Trovas do Assis

 Trova é isto: uma sequência de 28 sons, ou seja, 28 notas musicais, formando um poema composto de quatro redondilhas maiores.

Entende-se por redondilha maior o verso setissílabo, provavelmente o mais antigo modo, ou pelo menos o modo mais natural de transformar palavras em música. Uma escala musical completa: dó-ré-mi-fá-sol-lá-si...

A redondilha está na boca e no ouvido do povo, em todas as línguas, desde que o homem e a mulher aprenderam a emitir sons vocais.

Está nos ditados populares:

- Quem tem boca vai a Roma.

- Filho de peixe é peixinho.

- Quem nasceu pra lagartixa / nunca chega a crocodilo.

- Agua mole em pedra dura / tanto bate até que fura...

 
Está nas cantigas de roda:

- Oh ciranda, cirandinha / vamos todos cirandar...

- Meu limão, meu limoeiro, / meu pé de jacarandá...

 
Está na declamação das crianças:

- Batatinha quando nasce / se esparrama pelo chão... / Batatinha quando cresce / vira um baita batatão...

 
Está na música popular de modo geral:

~ Toda vez que eu viajava / pela estrada de Ouro Fino...

- Fica comigo esta noite / e não te arrependerás...

Está na linguagem bíblica:

- Deus criou o céu e a terra / e viu que tudo era bom.

- Pai nosso que estás no céu / santificado é o teu nome...

Técnica

Aqui não cabe um estudo pormenorizado sobre técnicas de versificação. Vale, entretanto, lembrar que a trova, como as demais modalidades de poesia, tem normas a serem obedecidas. O trovador necessita, sobretudo, estar atento às questões da rima e da métrica.

 RIMA

 A rima, segundo as normas atuais, como já vimos, deve ser dupla, isto é, devem ser rimados o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto (abab). Em trova não há, porém, grande exigência quanto ao fato de a rima ser rica ou pobre, no sentido tradicional de que rica seria a rima entre palavras de diferentes categorias gramaticais: verbo com substantivo, adjetivo com advérbio etc. Isso não tem sido levado muito a sério atualmente. Mais importante é o trovador estar atento para evitar certos cochilos que, estes sim, enfraquecem o verso. Por exemplo:

 rimas com palavra derivadas: ver / rever; agir / reagir; tempo / contratempo.

 rimas imperfeitas, assim chamadas por haver diferença no timbre das vogais tônicas:

ideia / areia; sacode /pôde; melhor /favor.

rimas regionais: há, por exemplo, quem pronuncie /friu/, /riu/, num único som, rimando com "viu", em vez de /fri-o/, /ri-o/, em dois sons, como recomenda o Decálogo de metrificação adotado pela UBT.

rimas homófonas, em que a vogal tônica seja a mesma - e com o mesmo timbre – nos quatro versos (sem que haja sons internos fortemente contrastantes), como nestes exemplos inventados:

 Moda nova quando nasce
já se espalha pela praia;
porém logo ela desfaz-se
se outra moda entra na raia.
 
Tenho uma rede e uma esteira
no meu rancho de sapê;
e uma roseira faceira
que plantei para você...
 
Fiz que fiz, fiz que não fiz,
fiz do jeito que farias.
Se o que fiz te faz feliz,
faço assim todos os dias!

  MÉTRICA

(Estudo com base no Decálogo de Metrificação de Luiz Otávio, adotado pela UBT) 
 

1) As sílabas são contadas até a última tônica do verso.

Poderá a força etrica 
de um sábio computador 
ensinar contagem trica 
mas não faz um trovador...
 
- relâmpagos e trovões 
- esta vida é passageira 
- o canto alegre dos ssaros 
 

2) As pontuações não impedem as junções de sílabas.

Pensa em calma! Evita errar, 
injusto é se nos reprovas, 
pois não queremos mudar 
o modo de fazer trovas.
 
 - Moça que sonha, escondida,
- Que pena... ela foi-se embora
- Vou dizer-te: avida é bela

3) Não se deve aumentar uma sílaba métrica nos encontros consonantais disjuntos. Ou seja: deve-se evitar suarabactí (não pronunciar "letra muda").

Podes sempre acreditar, 
ter a pura con / vic / ção 
de que não vou te obrigar 
a ter a minha opinião...

 (Na contagem métrica, pronuncie "convição”, não "con/vi/qui/ção”)

 - Danço no rit / mo do samba ("rimo”não "rí / ti / mo") 
- Que muda o as / pec / to das coisas ("aspeto”  não "as /pé / qui / to")
- Subs/ tantivos e ad/jetivos (“sus”, não "su/bis... ; a/je”, não a/di/je...") 
 

4) Uma vogal fraca faz junção com a vogal fraca ou forte inicial da palavra seguinte.

Podes crer, és muito injusto 
e estás íonge da verdade; 
pois na trova a todo custo 
defendo aespontaneidade...
 
- "Onde canta osabiá" 
- "num ranchinho àbeira-chão" 
- e é bom que estejas presente

Observação - Aceitam-se exceções a esta regra no sentido de evitar a formação de sons duros e desagradáveis. Exemplo: "cuja ventura / única consiste" (venturúnica)

 
5) Uma vogal forte pode, ou não, fazer junção com vogal fraca da palavra seguinte, no entanto, jamais deve juntar-se com vogal forte.
 
É u/ ma história bem correta,
porquanto o ensino é preciso,
e no entanto só poeta
quer ser gênio de improviso...
 
 - No Para / aspessoas
 - No Para / ná as / pessoas
 - No Para / pessoas

 Observação - Nos casos em que se prefira a junção "forte + fraca", deve-se ter sempre o cuidado de evitar sons desagradáveis ("mais que tu/ardo") ou formar novas palavras ("via” ao invés de "vi a...").

  
6) Pode haver a junção de três vogais numa sílaba métrica.

§ 1° - Não deve haver mais de uma vogal forte.

§2" - No caso em que a vogal forte não esteja colocada entre as vogais fracas e sim em 1" e 3° lugar, para que seja correta a junção as duas vogais fracas devem juntar-se por crase ou por elisão, e não por sinalefa (ditongação). Assim, estará certo: "é / a am/ bição que nos prende"; (ou) "é a am/ bição que nos maltrata". Mas não podemos unir as três vogais de "e a / ín / tima palavra derradeira".

Es / taé u/ ma regra indiscreta,
convenções mal-amparadas:
induzem muito poeta
a convicções enraizadas.
 
- Ela / e eu/ juntos no cinema
- Ho / je eu/ dis / se a al/ guns amigos
- Coloquei- / lhe o a / nel no dedo
 
7) - As junções com vogais fracas são aceitas nos ditongos crescentes  (/ e eu /), mas são repelidas nos ditongos decrescentes ("Eu sou / aque no mundo anda perdida").
Para medir nossos versos,
se o ou / vido fosse o juiz,
em nossos metros diversos
ninguém poria o nariz...
 
- Devi / do àau/ sência dos noivos
- A inteligên / cia in / fantil
- Os belos montes / da Eu/ ro / pa
 
8) Nos encontros vocálicos ascendentes (formados por vogais ou semivogais átonas seguidas de vogais ou semivogais tônicas), a ditongação (sinerese) é de uso facultativo:
 
ci / ú/ me, ciú/ me;
vi / a / gem, via/ gem;
cri / an/ ça, crian/ ça;
po / e / ta, poe/ ta).
 
Na trova, soneto ou poe/ ma,
em toda parte do mundo,
se a forma for o dilema
su / a / al / maé sempre o fundo!
 

Observação 1 - Há nesse grupo alguns encontros vocálicos que não aceitam a ditongação:

Sa / a / ra, fe / é/ ri / co, a / é/ reo, pa / ra / í/ so, ra / í/ zes,   ba / ú, sa / ú/ va etc.

 
9) - Nos encontros vocálicos descendentes (formados por vogais ou semivogais tônicas seguidas de vogais ou semivogais átonas) não se aceita a ditongação (tu / a, su / a, lu / a, gui / a, fri / o, ri /o, pa / vi / o, sa / di / o etc.

§único - Em algumas regiões do Brasil é usada a ditongação nesses encontros vocálicos, com base na fonética local. No entanto, não será aceita na metrificação, em benefício da uniformidade, uma vez que na maioria dos estados é feita a separação dessas vogais.

As dúvidas são pequenas
não sejas tão pessimista,
dá-me a tu / aajuda, apenas,
e será bela a conquista.
 
10) Recomenda-se evitar formas reduzidas, que, por estarem em desuso, possam ferir a sensibilidade dos leitores e dos ouvintes (mui, inda, co'a etc.),
 
Observação 1 - A junção de "com" com palavras iniciadas por vogais tônicas não é recomendável ("com / es/ ta", não "com es/ta).
 
Observação 2 - A forma "pra" tem sido aceita com naturalidade, especialmente em trovas humorísticas.
 

OBSERVE:

Fi /ca / co / mi /go es/ ta / noi / te

e / não / te a/ rre /pen / de / rás...

Lá / fo / ra o/ fri / o é um / a / çoi / te,

ca / lor / a /qui / tu / te / rás.

Adelino Moreira

 

Eu / nas / ci / na / que / la / se / rra,

num / ran / chi / nhoà/ bei / ra- / chão,

to / do / chei / o / de / bu / ra /co,

on / de a / lu / a / faz / cla / rão...

Angelino de Oliveira

 

Se / re / nô, / eu / ca / io, eu/ ca / io;

se /re /nô, / dei / xa / ca / ir...

se / re / nô / da / ma / dru / ga / da

não / dei / xou / meu / bem /dor / mir...

Antônio Almeida

 

Es / ta / vaà/ to / a / na / vi / da,

o / meu / a / mor / me / cha / mou

pra / ver / a / ban / da / pa / ssar

can / tan /do / coi / sas / de a / mor...

Chico Buarque de Holanda

 

Pe / guei / um / I / ta /no / Nor / te

pra / vim / pro / Ri / o / mo / rá...

A / deus, / meu / pai, / mi / nha / mãe;

a / deus, / Be / lém / do / Pa / rá!

Dorival Caymi

 

Pre / pa / re o / seu / co / ra / ção

pras / coi / sas / que eu / vou / contar.

Eu / ve / nho / lá / do / ser / tão,

e / po / sso / não / lhe a / gra / dar...

Geraldo Vandré

 

Na a / la / me / da / da / poe/ si / a,

cho / ra / ri / mas / o / lu / ar...

Ma / dru / ga / da... e A / na / Ma / ri / a

so / nha / so / nhos / cor / do / mar...

Juca Chaves

 

Es / te é/ o e / xem / plo / que / da / mos

aos / jo / vens / re / cém- / ca / sa / dos:

queé/ me / lhor / se / bri / gar / jun / tos

do / que / cho / rar / se / pa / ra / dos...

Lupicínio Rodrigues

 

Quan / do es/ tou / nos / bra / ços / teus,

sin / to o/ mun / do / bo / ce / jar...

Quan /do es/ tás / nos / bra / ços / meus,

sin / to a / vi / da / des / can /sar!

Luiz Vieira

 

O / no / sso a/ mor / tra / du / zi / a

fe / li / ci / da / de, a /fei / ção,

su / pre / ma / gló / ria / que um / di / a

ti / ve ao / al / can / ce / da / mão.

Mário Rossi

 

Mui / ta / gen / te / cai / à/ to / a,

ou / tros / ca / em/ com /  Ra / zão...

A / sau / da / de é u / ma / ga / roa

ca / in / do / no / co / ra / ção.

Roberto Martins

 

O / lho o / sol / fin / dan /do / len / to,

só / nho o / so / nho / de um / a / dul / to:

mi / nha / voz / na / voz / do / ven / to

in / do em / bus / ca / do / teu / vul / to...

Sérgio Bittencourt

 

Eis / a / qui/es/ te / sam / bi / nha

fei /to / de u / ma / no / ta / só...

Ou / tras / no / tas / vão / en / trar,

mas / a / ba / se é/ u / ma / só...

Tom Jobim

 

Um / ve / lho / cal / ção / de / ba / nho,

o / di / a / pra / va / di / ar...

Um / mar / que / não / tem / ta / ma / nho

e um / ar / co– / í/ ris / no / ar.

Vinícius de Moraes

 
Fonte:
Apostila da Oficina de Trova ministrada pelo trovador na Feira Literária Internacional de Maringá (FLIM)

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Maria Thereza Cavalheiro: O Bom Trovar (IV - O que evitar)

 

Embora alguns autores entendam que o enjambement possa dar realce a certas palavras, somos de opinião que deve ser evitado na trova.

Enjambement é quando palavras que pertencem ao grupo tônico de um verso, à sua unidade, passam para o verso seguinte, onde completam o sentido, muitas vezes com prejuízo para o valor da rima.

Ex:
Seguimos pela estrada
da vida, com nossas mãos
unidas; etc.

Versos sibilantes, com muito s e z, podem ser desagradáveis:

Fez-se mais triste depois.
Sentiu-se assim mais sincero.
Sem sentido se exaspera.

Evite-se a colisão, que é o encontro de sons iguais ou semelhantes também com efeito acústico reprovável:

Pois esse se separou.Foi um dardo do destino.

Sons duros seguidos devem ser evitados:

Foi ele que quis o amor.
Quer quanto vale um tesouro.
Ninguém tem amor à dor.

No último exemplo houve também um cacófato:

morador.

É bom ler em voz alta nossas trovas, para detectar possíveis cacófatos, que é quando do encontro de sons em uma frase resultam palavras ridículas, estranhas ou simples efeito desagradável ao ouvido.

Na humorística, às vezes o cacófato é usado de propósito, para um efeito que leve à hilaridade.

Eis alguns cacófatos corriqueiros:

em festa - infesta;
mas não - asnão;
só com - soco;
se enterra - sem terra;
vez passada - vespa assada;
ela tinha - é latinha;
em versos - inversos;
uma mão - um mamão;
por causa - porca;
da nação - danação;
mas que - masque;
compus - com pus;
amor tem - a morte em;
tu me amaste - tu mamaste;
alma minha - maminha.

Quanto ao uso de nomes próprios na trova, embora comum, somos de opinião que deve ser evitado, mesmo na quadra humorística. Só se justifica em trovas de homenagem. Fazemos exceção para o nome Maria, quando designa mulher, e sem ter sentido pejorativo.

Como no exemplo:

Por duas Marias erra
meu viver de déu em déu:
- a que me perde, na terra,
- a que me salva, no céu.
J. G. DE ARAÚJO JORGE

Na trova, devem ser evitados certos recursos para dar ao verso o número de sílabas, as chamadas cavilhas, que são palavras de apoio para completar a frase melódica, tais como:

meu bem, querida, meu amigo, meu rapaz, eu suponho, todos sabem, todos dizem, creia, acredito, veja bem.

Na maioria das vezes, essas expressões nada acrescentam à trova. Mas pode ocorrer também de serem bem empregadas, como no exemplo seguinte:

Quando à festa vens, querida,
em minha casa modesta,
a festa ganha mais vida
e a vida ganha mais festa!
ANTÔNIO ZOPPI

Evite-se, também, o estrangeirismo - uso de palavras e construções estranhas à nossa língua.

Cuidado com o eco - fonemas que se repetem no verso sem nenhum intento específico de valorização da trova.

Atenção especial com os erros de gramática.

Solecismo é, em sentido lato, toda e qualquer infração cometida contra a língua pátria. É muita pena quando uma bela trova apresenta lapso gramatical. O poeta deve dominar os seus meios de expressão.

Achamos de muito mau gosto fazer pilhéria sobre infortúnios ou ridicularizar pessoas em razão de credo, raça e sexo. Infelizmente, a trova humorística presta-se muito a isso. A mulher, principalmente, é bastante visada. Faz-se piada com a sogra, a velha, a empregada, a grávida, a mulata.

Zombar de alguém em nada contribui para a melhoria do mundo, que necessita de mensagens fraternas.

Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Ed. do Autor, 2009

terça-feira, 22 de junho de 2021

Maria Thereza Cavalheiro: O Bom Trovar (III - Figuras na Trova)

 

A trova se valoriza pelo achado, pelo inusitado - algo que surpreende no momento da criação. É uma nova forma de dizer o que já foi mil vezes dito; uma ideia diferente para expressar alguma coisa comum. Pode ser um jogo de palavras, uma metáfora, uma rima original. O achado é uma descoberta.

Como elementos de valorização da trova, merecem atenção especial as figuras de estilo, recursos que dão ao verso maior colorido e fulgor.

Elas são muitas e se dividem em figuras de palavras (ou tropos), figuras de pensamento e figuras de construção.

Entre as figuras de palavras, temos
 a metáfora (e suas modalidades, como personificação, símbolo, sinestesia),
 a comparação e a metonímia.

Entre as figuras de pensamento, estão
 a antítese ou contraste,
 o paradoxo,
 o eufemismo,
 o trocadilho.

Entre as de construção temos
 a onomatopeia,
 a aliteração,
 a elipse,
 a reticência,
 a repetição.

Muitas vezes esses termos se confundem e simplificadamente são chamados de figuras, imagens ou metáforas em sentido lato.

Na metáfora, em sentido estrito, a imagem se revela por si só, de modo implícito. Sem nenhum suporte para sua expressão, o que a torna mais viva e dinâmica que na comparação. Assim:

Muitas vezes imagino,
nos meus dias desolados,
que o meu coração é um sino
dobrando sempre a Finados.
BELMIRO BRAGA

Faz contraste com o céu
o pinheiro verdejante;
é uma taça erguida ao léu
em louvor do caminhante!
MAFALDA DE SOTTI LOPES

No ocaso, em tarde sombria,
que à saudade nos conduz,
a sombra é o pranto do dia ,
chorando a ausência de luz.
FERREIRA NOBRE

Disse-me a fonte na mata,
nos ternos cânticos seus:
- O Poeta é a flauta de prata,
o Poema - o sopro de Deus!
LEONARDO HENKE

Na comparação ou símile, a imagem se revela com auxílio das palavras como, tal como, tal qual, qual, parece, e, por ser explícita, perde em geral um pouco de sua força. Eis um exemplo:

Meu coração, quando o ninas
com tuas juras de amor,
parece um templo em ruínas
todo coberto de flor!
LILINHA FERNANDES

Personificação, que também é denominada prosopopéia, animismo e animizaçâo, é a figura de linguagem em que seres inanimados ou irracionais agem como se fossem seres humanos:

Ao sol, as rosas vermelhas,
sensuais, tontas de luz,
à carícia das abelhas,
vão expondo os colos nus!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA

Símbolo é quando se toma, sistematicamente, uma coisa, de valorização universal, por outra, a exemplo de cruz, que pode simbolizar o Cristianismo, a dor, a morte; ou regaço, que pode referir-se a colo materno:

A vida é apenas um traço
com jogos de sombra e luz,
que partindo de um regaço
vai terminar numa cruz.
VERA VARGAS

Sinestesia é quando se confundem os planos sensoriais, usando-se de um sentido por outro, para um determinado efeito. Como nos versos:

Vê-se o canto da araponga.
Ouve-se a luz da manhã.
Enxerga-lhe a cor da voz.

Metonímia é quando se diz uma coisa por outra, o efeito pela causa e vice-versa:

cãs, por velhice;
primaveras, por anos;
suor, por trabalho.

É bastante comum na trova e a enriquece sobremaneira:

As cãs mostravam o tempo.
Na primavera da vida.
Suores de muitos anos.

Na antítese ou contraste, juntam-se ideias opostas pelo sentido:

Trouxe-me grande valia
a verdade que aprendi:
toda pessoa vazia
é sempre cheia de si...
DELMAR BARRÃO

No paradoxo, as ideias são contraditórias, a sugerir erro, mas podendo conter uma verdade:

Meu olhar vago relata,
numa tristeza incontida,
que o grande amor que me mata
é o mesmo que me dá vida.
LEOPOLDINA DIAS SARAIVA

Quando preso num recinto,
desejo livres espaços.
Porém, mais livre me sinto
quando preso nos teus braços.
MÁRIO BARRETO FRANÇA

O eufemismo é uma maneira de suavizar uma realidade desagradável, é quando se diz uma coisa por outra menos contundente:

Foi para o mundo estelar - faleceu.

No trocadilho, há palavras de sons semelhantes e sentido aparentemente dúbio, às vezes com o intuito de fazer graça:

Foste uma flor de papel / fazendo papel de flor.

Na elipse, um ou mais termos ficam subentendidos na frase:

Rosa é flor, também mulher.

Na reticência, há uma suspensão propositada do pensamento:

Era um amor sem controle...

Repetição é quando se usa uma expressão por mais de uma vez, para o efeito de realce:

Branca a nuvem, branca a paz.

A onomatopeia e a aliteração, termos que muitas vezes se confundem, podem trazer muita originalidade à trova.

Aliteração é a repetição de fonemas iguais ou parecidos para, através do som, sugerir uma ideia:

Onda redonda assomou.

A aliteração aproxima-se muito da onomatopeia, que, em sentido estrito, é quando um único vocábulo dá a ideia acústica:

o marulho das ondas,
o farfalhar das ramagens.

Em sentido lato, a onomatopeia refere-se a todos os processos e efeitos que levem a sugerir um determinado ruído.

Bate o vento, o vento bate.

A assibilizaçâo (sons sibilantes, excesso de s e z), que normalmente se condena, pode também servir à aliteração:

Zunem com asas de brisa.

Várias imagens podem aparecer com frequência em uma mesma trova, e seus nomes também muitas vezes se confundem.

Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Ed. do Autor, 2009

Versos Esparsos * 2 *