Trovadores em Ordem Alfabética

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terça-feira, 15 de junho de 2021

Haroldo Lyra (Fortaleza/CE)

 1
A gaiola me resguarda
da fatal atiradeira:
do chumbo da espingarda,
da pedra da baladeira.
2
A juventude sadia
brincando cria um evento,
com lindo sorriso envia
buquê de flores ao vento.
3
Araras num voo rasante,
recolorindo a paisagem,
reflete um ditoso instante
no esplendor da plumagem.
4
A rede armada na praia,
lazer que embala o casal,
que no Ceará se espraia
ao longo do litoral.
5
A sedução dessa imagem
vem de um pseudo horizonte,
pré-confundindo a paisagem
num reflexo estonteante.
6
A sombra da juventude
na parede projetada,
contrasta com lassitude
da velhice na calçada.
7
Bailar na vida é rotina
de quem sabe ser feliz,
e nunca fecha a cortina
do baile que não tem bis.
8
Cai a chuva sobre a terra
em queda fenomenal;
quanta alegria que encerra
até banhando o casal.
9
Cenas de tempos passados,
que à saudade satisfazem,
evocam sonhos dourados
e muito a tantos aprazem.
10
Confirma-se o sofrimento
do pobre homem, coitado!...
pois desde o seu casamento
que ele vive acorrentado.
11
Comprova a fama que traz,
o casal protagonista
desse filme ora em cartaz,
intitulado turista.
12
Considero a efervescência
dessa densa multidão,
estressante consequência
da tal globalização.
13
Com sua vela enfunada
não lhe intimidam navios
e singra, afoita jangada,
os verdes mares bravios.
14
Cores de outono bizarro
que a paisagem modifica;
E a estrada tosca de barro
juncada de folhas fica.
15
Era um garoto travesso,
Um mestre na peraltice:
virava tudo ao avesso,
era o rei da macaquice.
16
Essa fumaça abismal
configura um retrocesso
atroz e paradoxal,
nas esteiras do progresso.
17
Fora a lida humanitária,
do trabalho grande amiga,
herdara dessa operária
o denodo da formiga.
18
Gosto de me divertir
 nas belas praias do Iguape,
 mas acho melhor curtir
 a serra de Maranguape.
19
Já tenho setenta e três
nessa tal melhor idade,
versando com lucidez
e muita felicidade.
20
No cais, sem vela, ancorado,
o barco sofre a lacuna,
de um capitão reformado
que abandonou velha escuna.
21
No mar da vida sonhei
com a rota certa e fiel.
Sereno, as vagas singrei
num barquinho de papel.
22
Nos acordes, uma festa,
namoro no coração;
são enlevos da seresta
nas cordas de um violão.
23
O arrojo dos alpinistas
arrepia tal qual túmulos,
mormente quando as conquistas
escalam os níveos cúmulos.
24
Oh! vento que vela enfunas.
Oh! buggy aberto ao terral,
cinzelando as alvas dunas
ornam praias de Natal.
25
Olhando a fotografia
me confunde um leve açoite:
no relógio é meio-dia
ou será que é meia-noite?
26
O luar no mar refrata
feixe de raios azuis,
realça a onda e retrata
a praia que nos seduz.
27
Ontem pujante esperança
numas linhas refratárias;
no caderno, hoje, a lembrança
das minhas trovas primárias.
28
Os sentimentos do mar
as ondas cantam na areia,
afagando o firme olhar
da solitária sereia.
29
Para o carinho colher,
 por Maranguape eu passava,
 subia a serra a rever
 a noiva que ali morava.
30
Permita entrar meu amor
pela porta da afeição,
para expulsar o torpor
que anula a sua razão.
31
Pode até conter amor,
mas a emoção será pouca:
beijos por computador!...
prefiro os de boca à boca.
32
Pra viagem convidado,
chegou depois da partida.
Convém tomar mais cuidado:
se não, perde o trem da vida.
33
Quanto mais vai apertando
tanto mais fica gostoso,
com esse aperto estreitando,
doce abraço carinhoso!...
34
Quisera que sempre houvesse
nas mãos que dominam o mundo,
a força que o amor exerce
num viver livre e fecundo.
35
Rio de curvas simétricas
emoldurando a paisagem,
cinzela as veias poéticas
da natureza selvagem
36
Tens a missão importante
num mar sereno ou escuro,
indicando ao navegante
aquele porto seguro.
37
Terra de gente importante
 que em Maranguape nasceu:
 do Chico, comediante;
 d’um Capistrano de Abreu.
38
Um carinho especial
dispensei à margarida;
essa flor que hoje é vital
no jardim da minha vida.
39
Vai disposto e sorridente,
o senil casal surfar.
Quanta alegria evidente
por se divertir no mar.

Luiz Otávio (Aspectos da Trova Humorística)

 
1 - A MALÍCIA:

Embora o conceito de malícia seja variável de pessoa para pessoa, há certo tipo de malícia que choca, de imediato, a quem a ouve. Assim, o leitor de alguma sensibilidade e cultura saberá distinguir a malícia fina, daquela que traz humorismo grosseiro.

A malícia, em nossa opinião, mesmo tendendo para o plano sexual, quando bem dosada, sutil, é perfeitamente aceitável em Trova.

Vejamos, por exemplo, esta trova de A. Bobela Mota, trovador português, em que há malícia com fundo sexual e que, entretanto, é plenamente aceitável:

Graças a certo percalço,
encontraste, enfim, marido…
Como vês, um passo em falso
nem sempre é um passo perdido…

Ou esta outra de Antônio Carlos Teixeira Pinto:

Minha sogra é mesmo o fim,
eu digo e sinto vergonha:
dúvida tanto de mim,
que acredita na cegonha…

De resto, até mesmo em trovas líricas, pode aparecer o erotismo explorado de maneira sutil e inteligente, emprestando força poética à mensagem, sem chocar a sensibilidade do ouvinte ou leitor.

2- A CRÍTICA, A SÁTIRA, A IRREVERÊNCIA

É inconveniente a trova que, de modo intencional, ofende, genericamente, um grupo, uma instituição, uma classe… Todavia, consideramos que é perfeitamente válida, aquela que toma, individualmente, um elemento pertencente a uma determinada profissão ou grupo, para desse indivíduo, assim isolado, fazer motivo de humor.

Como exemplo, citaremos a conhecida trova de Antônio Salles, que satiriza, ao mesmo tempo, um militar e um médico, sem que, com esta sátira, ofenda a classe médica ou militar:

Eis um médico fardado
- que perfeito matador!-
quem escapar do soldado,
não escapa do doutor…

Excepcionalmente, pode-se aceitar a trova, mesmo quando faz crítica a uma classe, porém sem premeditação de ofensa, isto é, com intenção, apenas, de fazer graça.

Tomemos, para exemplo, a Trova de Elton Carvalho que, por coincidência, é militar:

A mulher do militar
deve pagar mais imposto,
só pelo fato de usar
sempre um marido… com…posto…

Ora, ainda que seja uma graça extensiva a toda uma classe – a mulher do militar – não há absolutamente, ofensa ou crítica, mas tão somente, o humorismo ingênuo de um trocadilho.

3- EMPREGO DE NOMES PRÓPRIOS

Os nomes próprios vêm sendo usados, sem discriminação, em vários gêneros literários. Na prosa, Machado dá nomes adequados, para dar maior ênfase àquilo que escreviam. O sofrimento ou o riso, não raro se estampavam no nome que era dado ao personagem, principalmente o riso, pois Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e outros, escolhiam os temas humorísticos que facilitam enormemente a escolha do nome, vamos dizer, engraçado. Na poesia desde os clássicos, quantas vezes os nomes inventados ou verdadeiros passaram a ficar indissoluvelmente ligados aos autores. Quem não se recorda de Marília de Dirceu, de Laura de Petrarca, de Beatriz de Dante? Na música popular, vemos uma infinidade de nomes que se tornaram celebres, através de valsas, polcas, canções, no passado,e, em outros gêneros musicais, no presente. Branca, Gilca, Maria, Neusa, Nanci, Amélia, Dora, Aurora, Marina, e, bem recentemente, Carolina, Luciana, Ana Maria, Isabela, etc… etc… São alguns dos nomes focalizados pela música popular. Nos anúncios de rádio e da televisão, anúncios muitas vezes estudados por equipes compostas de elementos formados em faculdades de comunicação, quantas vezes, o nome próprio aparece para facilitar a memorização daquilo que se pretende anunciar. Então aí os Apolônios, Jeremias, os Sugismundos…

Na própria trova lírica ou filosófica, quantas premiadas em concursos, ou consagradas pelo gosto popular, trazem nomes próprios!

Exemplo:

 Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia:
Dentro da casa a saudade,
E na saudade, - Maria!

Esta trova, de Anis Murad, é uma das muitas que poderíamos citar e que foi classificada em 1º lugar, nos II Jogos Florais de Nova Friburgo. E quantas mais, não só em Nova Friburgo. Como em outras cidades, têm aparecido, principalmente, com o nome de Maria, quase um símbolo dos trovadores…

Há, além dos argumentos acima, outros que poderemos lembrar, em favor do aproveitamento de nomes próprios na trova humorística, tais como:

a- O nome próprio, em alguns casos, dá mais autenticidade ao assunto;

b- Há nomes próprios que, por si sós, pelo grotesco que apresentam, trazem mais humor à trova;

c- Em alguns casos, a trova gira, essencialmente, em torno do nome próprio usado;

d- Se encontramos, muitas vezes, trovas de rimas forçadas – humorísticas ou não – por que não usar o nome próprio que, além de facilitar a rima, pode trazer mais graça e fluência à trova?

Portanto, em nosso entender, é perfeitamente válido o uso de nomes próprios nas trovas, principalmente, humorísticas.

4 - USO DE GÍRIA

No capítulo da gíria, cabem as mesmas considerações que fizemos com relação aos nomes impróprios. Tanto na poesia humorística, como na prosa e, principalmente, no teatro, a gíria está presente. Não esqueçamos, também, que a gíria de hoje, amanhã poderá estar incorporada ao vernáculo. Assim tem acontecido em várias épocas, no processo evolutivo das línguas.

Chega-nos, agora, através do rádio, a notícia que o DNER do Ceará, numa experiência inusitada, está, em alguns lugares, substituindo as clássicas advertências de "cuidado", "devagar", por outras, bem modernas, onde a gíria é o principal ingrediente: "manera aí, bicho!" ou  "vá em marcha de paquera", etc…

Portanto, achamos perfeitamente natural o uso da gíria em trova humorística, por sua característica eminentemente popular.

5- PORNOGRAFIA

Muito embora o teatro moderno venha usando, ostensiva e abusivamente, a pornografia, quer parecer-nos que quase tudo isto é feito com fins comerciais ou sensacionalistas. Devemos, ainda, considerar que ao Teatro, comparecem aqueles que, com conhecimento de causa, estão dispostos a ver de perto tudo aquilo. Devemos frisar ainda que, muitas vezes, a censura faz imposições, limita a entrada a pessoas de determinadas idades. Isto acontece, também, em livros do mesmo estilo, em que se exige sejam os mesmos colocados em envelopes lacrados, com etiquetas proibitivas de venda a menores, Tal porém, não acontece com a trova pornográfica que, se declamada em público ou colocada em livro, poderá surpreender, desagradavelmente, o ouvinte ou o leitor. 

Embora nos itens anteriores, tenhamos demonstrado nossa compreensão quanto ao uso da malícia, irreverência, do emprego de nomes próprios, da gíria, achamos que a trova nada lucraria com o uso de palavras obscenas, ainda que veladas.

6 - ANEDOTAS

Embora seja aceitável a publicação em livros, jornais, revistas, etc, as trovas humorísticas calcadas em anedotas, julgamos que, em concursos e jogos florais, há outros aspectos importantes a considerar, além da graça, como seja a criatividade, a originalidade, enfim. Nessa ordem de ideias, é desaconselhável a classificação de trovas com aproveitamento de anedotas.

Acontece porém, que as comissões julgadoras poderão não conhecer as anedotas aproveitadas pelas trovas, o que torna interessante, portanto, o apelo que, ultimamente, os organizadores de concursos vêm fazendo, durante a classificação preliminar, no sentido de que, concorrentes ou leitores cooperem com as comissões, indicando as trovas que apresentem ideias já conhecidas (como anedotas), desde que, devidamente comprovadas, a fim de serem eliminadas do concurso.

7 - USO DO "PRA"

Julgamos essa "síncope" perfeitamente aceitável, principalmente nas trovas humorísticas, por ser expressão essencialmente popular.


Comissão de estudos: Luiz Otávio, Carlos Guimarães, Elton Carvalho, Joubert de Araújo Silva, Maria Nascimento Santos, P. de Petrus, Colbert Rangel Coelho.

domingo, 13 de junho de 2021

Maurício Norberto Friedrich (1945 - 2020)

 

 A alva bruma que enverdece
os campos das pradarias
me faz dizer velha prece,
no entardecer dos meus dias!

Almejem sempre a vitória,
em todos empreendimentos,
que ficarão na memória,
pelos seus merecimentos.

A lua no céu passeia
num chão coberto de estrela,
deixa o sol, que tanto anseia
louco de amor, para vê-la.

Amar-te, pra mim, foi vício,
doença que não tem cura;
e este foi grande suplício
que me levou à loucura.

Amor é doce tormento!
Amor é vício sem cura!
É o amor um linimento
entre a razão e a loucura!

Amor, palavra tão doce
que nos enche de prazer;
é, às vezes, como se fosse
dor, a nos fazer sofrer!

A nora desesperada,
ao ver a sogra na porta.
lendo a receita trocada,
pôs formicida na torta.

Ansioso, meu coração,
vive, sempre, nesta espera:
de uma nova floração
da dourada primavera.

Ao chegar o meu outono,
sensato, hoje sou bombeiro:
quando jovem, perdi sono
por querer fazer braseiro!

Ao idoso, honra e venera,
a sua sabedoria;
na velhice, que te espera,
terás tu, a primazia...

Ao Novo Tempo a vitória,
neste concurso de paz:
pois, já bem merece a glória
quem pela trova assim faz.

Ao ter fé em Nosso Senhor,
levo a vida em linha reta,
pois, com fé, esperança e amor,
minha vida se completa.

Ao ver a Lua Bailando,
com tanto brilho e esplendor,
eu já me ponho rezando:
- Obrigado, meu Senhor!

Aposentou-se o freguês…
e a pobre esposa reclama
que, banho, é só um por mês,
mas, sem tirar o pijama!

Árido, feito um deserto,
meu coração sofredor
anseia, disto estou certo,
ser fértil com teu amor!

As flores todas são belas,
mesmo as que nascem em abrolhos,
mas, as mais lindas, dentre elas,
são as que vêm nossos olhos.

As folhas mortas que, ao vento,
bailam e caem ao chão,
me evocam, por um momento,
os ventos de uma paixão!

As marcas do teu batom
deixadas no meu cristal,
têm sabor e têm o tom
de um grande amor, no final...

As marcas que a tua ausência,
deixou em meu coração,
são as marcas da pungência
da nossa separação.

As trovas de um trovador
são belas, ricas em rimas
pois são feitas com amor,
verdadeiras obras primas!

A trova que é dita ao vento
tal qual o vento é fugaz;
existe, por um momento...
...e o próprio vento a desfaz!

A vida, às vezes, malvada,
traiçoeira, inconsequente;
nos tira a pessoa amada
e não tem pena da gente.

Bailando sempre a procura
do néctar de belas flores,
o beija-flor, com ternura
não se importa com as cores.

Beber da fonte hipocrátlca
para o médico é um dever,
é a fórmula democrática
da medicina exercer!

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.

Bela musa, encantadora!
Igual eu nunca vi;
meiga e doce inspiradora;
foste tu que eu escolhi!

Bem-vindos, oh Trovadores,
aos nossos Jogos Florais.
A vós, grandes vencedores,
as láureas dos Pinhais.

Carrego, dentro do peito,
a cicatriz de uma dor
que jamais me dá o direito,
de reaver teu amor!

Casamento - ação esperta!
Isto já está definido,
onde uma parte está certa
e a outra é sempre o marido!

Combater, do fumo o vício
para o médico é um mister:
exaltar seu malefício
como a ética requer!

Combater com veemência
o triste vício do fumo,
sem dó e sem clemência,
pra saúde andar no rumo!

Com grande amor e trabalho,
carinho e dedicação,
do meu amor eu me valho,
pra fisgar teu coração!

Como é bonito o Direito,
quando se julga uma ação
e, ao exercê-lo, perfeito,
sempre o que impera é a razão.

Como pode uma criança,
ser vítima de agressão,
se tem, cheio de esperança,
o inocente coração?

Como são belas as serras
do Estado do Paraná!
Que têm cobertas as terras
das cores do manacá!

Completa felicidade
é, por certo, uma utopia;
pois quem já sentiu saudade,
já sofreu melancolia.

Compondo versos eu sonho,
que trovador, inda, serei
e, nos versos, que componho
no teu nome já pensei!

Contigo sinto que a vida
tem sentido e fulgor,
pois teus carinhos, querida,
dão esteio ao meu amor!

Cuida, ao contar um segredo,
em quem tu vais confiar:
é a liberdade, bem cedo,
que, ao certo, vais entregar...

Curitiba doce encanto
da terra dos pinheirais
é nela que vivo e canto
meu amor e meus ais.

Curitiba! Ó Curitiba!
Onde estão teus pinheirais,
que te davam tanta vida,
e, hoje, não os vejo mais?

Curitiba, Terra amada,
me albergaste o coração;
a minha alma apaixonada
tem por ti grande paixão!

Da cultura és um celeiro,
Curitiba dos Pinhais;
com teu Jeito hospitaleiro
hoje albergas os florais.

Dando fim às duras penas,
nossa princesa c'oa mão,
com dois artigos, apenas,
aboliu a escravidão...

Daquele beijo roubado,
em pausa de tua festa,
sinto o gosto adocicado,
o bom sabor que me resta.

Das felizes madrugadas,
sozinho, curto a saudade...
– Que alegria, nas noitadas,
dos tempos da mocidade!

Das folhas, vendo o cair,
pressinto o chegar do inverno
e o coração, a invadir,
saudade... do lar paterno,

Da singeleza nos vem
mensagem de amor e de paz;
é a mensagem de Belém
que um anjo de Deus nos traz!

De areia, fiz um castelo,
nas dunas, em vastidão,
e o vento, sem ter rasteio,
soprou...pôs tudo no chão.

Decidido e corajoso,
à tua porta eu bati,
foi o susto mais gostoso
que eu já pude dar em ti.

Dentre as coisas que cultivo,
para evitar vida obscura,
o saber é o incentivo
que aumenta minha cultura.

Dentre tantas namoradas,
que já tive em minha vida
e de todas as jornadas,
foste tu a escolhida!

Descrente, sou eu, de tudo...
muito mais sou de sereia
mas, é no verão, contudo,
que vejo tanta na areia!

Desde o dia em que partiste,
triste está meu coraçao:
este pobre não resiste
a dor da separação.

Desta vida, na escalada,
cada degrau tem a altura,
muito bem delimitada
no tamanho da cultura.

Distante de ti, amor,
noites insones, eu passo
fazendo a Deus um clamor:
pra ver-te, um dia, em meu braço!

Do amor, divino expressar,
a encantadora seresta
faz da janela um altar,
de apaixonados, em festa.

Do pai seguiu a carreira,
com amor, dedicação:
Tinha a semente certeira
plantada em seu coração!

Do sol em raios envolta
vi-te passar tão ditosa,
com puros gestos, tão solta,
tendo a beleza da rosa.

Dos corações, sempre em festa,
o amor, divino expressar...
faz com que cada seresta
torne a janela um altar!

Dos teus carinhos, distante,
na insônia de cada noite,
fico a pensar, num instante,
esta distância é um açoite.

É indizível a tristeza,
dum sabiá na gaiola;
cabisbaixo e sem beleza
nem à amada, cantarola!

É Natal! Que cante o sino
para ao mundo anunciar
a vinda do Deus Menino
que hoje veio nos salvar!

É nobre de coração,
o médico pediatra:
dá amor, carinho e afeição,
à toda criança que trata!

É tão atroz a distância
a nos separar, amor,
que só a saudade, em constância
ameniza a minha dor.

É tão linda esta menina!
Linda? Parece boneca...
Mas, se namora na esquina,
logo vira uma sapeca.

É uma escultura, bem-feita,
de uma costela qualquer:
criada por Deus, perfeita,
que lhe deu nome...: mulher!

É verdadeira a amizade,
quando nunca se destrói,
com tempo vira irmandade
e faz do amigo um herói!

Hoje sou um moribundo
nas cinzas do teu amor
e não vejo, neste mundo,
remédio para esta dor!

Insone, em noites frias
e em permanente vigília
de mamãe com as ave-marias
recomendava a família.

Irradiantes de alegria!
façamos trovas de amor,
para louvar, no seu dia,
o poeta Trovador!

Já inventaram um remédio,
de um certo tom azulado,
que tira moço do tédio
e deixa velho… assanhado!

Já no ocaso desta vida,
com tanta conta a ajustar,
peço a Deus, seja abatida
a despesa.. por te amar!

Lembranças da mocidade
são um espelho em que a gente
só vê, com tanta saudade,
o passado... no presente!

Lembro de ti, com saudade,
nos tempos que longe vão;
tu eras felicidade,
dentro do meu coração!

Lindos traços, no teu rosto,
que harmonizam a beleza,
me fazem exclamar com gosto:
-Tu és, sim, minha princesa!

Meu amor da mocidade
foi efêmera ilusão:
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.

Meu coração é um deserto
por falta do teu amor,
se me ofertares, por certo,
virará, um jardim de flor!

Minha herança não tem ouro,
um conselho é o meu legado:
– Meu filho, mais que um tesouro,
vale um homem muito honrado!

Minha paixão foi loucura
por amar-te tanto assim;
hoje estou nesta tortura:
- Por que tu foges de mim?

Pobre é a nação sem cultura,
sem heróis e sem memória,
cujo povo não procura
resgatar a sua história!

Poesia, versos de amor
nascidos no coração;
versos em que o rimador
exprime a sua paixão.

Poeta! Sou trovador!
Que todos possam saber:
faço trovas por amor,
faço trovas por prazer.

Regressaste!.... Que alegria!
E a saudade se desfez!
Hoje minha alma irradia
felicidade outra vez!

Restou tão grande a distância,
que nos separa no amor,
que já não dou importância,
se minha vida se for.

Saibam todos que o trabalho,
ao bom homem enobrece,
mas, quem não pega no malho,
seu espírito empobrece!

Salve, ó verão de mil cores,
ao despertar o manacá
que cobre, todas, de flores
as serras do Paraná!

São Francisco, nas veredas,
feito um pobre vagabundo,
despido de suas sedas,
encheu, de amor, este mundo!

Saudade... dor da lembrança
de alguém que distante está;
é o sentir de uma esperança
de que esse alguém voltará!

Saudade é uma dor silente
que nos ataca e vem mansinha;
entra no coração da gente,
toma posse e ali se aninha!

Saudade, saudade e meia,
é o que sinto de você;
meu coração serpenteia,
- só você é que não vê!

Saudade! Triste amargor!
Dolorosa e tão pungente,
a nos causar tanta dor;
só a entende quem a sente!

Se encontro, ao voltar pra casa,
as tuas mãos carinhosas,
o meu amor já se abrasa,
com teu perfume de rosas.

Segue, meu filho, na estrada,
os trilhos da retidão:
sê firme em cada pisada
que as honras te seguirão!

Sigo, na vida, o caminho
penoso, porém, correto,
que aprendi, desde meu ninho,
com meu pai severo e reto.

Sim, nas cores do arrebol,
Deus, o mais perfeito esteta,
sob a luz do pôr do sol,
dá inspiração ao poeta..

Singrando mares incertos,
marujo, audaz, varonil
achou montes, recobertos
com flores: Eis o Brasil.

Sinta o perfume das flores
nas serras do Paraná,
tem árvores de mil cores:
– primaveras ou manacá.

Teu charme, encanto e beleza
dão aos poetas um tema,
ó encantada Fortaleza,
linda Terra de Iracema!

Teu conselho, pai querido,
de retidão e de amor,
faz-me, hoje, já envelhecido,
mais entender seu valor!

Teve um infarto, na cama,
a noiva, que é tão frajola,
ao ver que, em vez do pijama,
o noivo pôs camisola!

Tico-Tico seresteiro
que vives, sempre, a cantar,
põe teu ninho em meu terreiro;
vem comigo avizinhar!

Vai, meu filho! Não tropeces
nas pedras do teu caminho:
a Deus, faze tuas preces
e não seguirás sozinho!

Vejo uma gota de orvalho
pairando sobre uma rosa:
de Deus, é mais um trabalho
para tomá-la formosa.

Vendo-a sentada no ninho
ditosa mamãe beija-flor,
vejo que há muito carinho
neste seu gesto de amor.

Vi beleza… colhi flores
nesta vida, em seus caminhos,
mas às vezes senti dores
causados por seus espinhos!


Fonte:
Luiz Hélio Friedrich. Maurício Norberto Friedrich. Família Friedrich em Trovas. Curitiba/PR: Centro de Letras do Paraná, 2018.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Lairton Trovão de Andrade (PR)


1
A água fina da chuva
rega a terra ressequida,
produz trigo, mel e uva,
– traz ressurreição à vida.
2
A água na terra é vida,
que faz germinar sementes,
que mata a fome dorida
e traz abundância às gentes.
3
A flor de maracujá
lembra a coroa de espinho;
e o sangue de cor grená
lava do mundo o caminho.
4
Ao contrário da mentira,
é reta a sinceridade;
aquela desperta a ira,
esta, a credibilidade.
5
A primavera das flores,
com borboletas azuis,
inspira tantos amores
e alegra tristes pauis.
6
Aquele pequeno beijo,
outrora despretensioso,
despertou forte desejo
de mais um sonho gostoso.
7
A saudade é o sentimento
que dói no íntimo da gente;
lembra o bom contentamento
que não mais está presente.
8
As horas todas do mundo
pertencem ao joão-preguiça;
dá vida em ser vagabundo,
- nem por viver tem cobiça.
9
Asqueroso é o avarento
que, de si, nada consome;
à família é rabugento,
por dinheiro, unha de fome.
10
A sublime qualidade
de verdadeira grandeza
encontra-se na humildade
com as honras da nobreza.
11
Cada cor numa ocasião!
Por isso é que, volta e meia,
o anseio do coração
faz mais bonita a cor feia.
12
Com seu instinto de fome,
no casório está o glutão;
guloso, tudo consome
e cobre de ossos meu chão.
13
Desde o começo da história,
sempre o lar foi respeitado;
é uma norma obrigatória
ver nele templo sagrado.
14
Dinheiro e felicidade
são coisas que nos convém;
sem ele a calamidade
nos leva cedo pro além.
15
Educação, chave de ouro,
fonte de sublimação.
Na verdade, é um tesouro
de infinda realização!
16
Faço trovas noite e dia,
minto à imaginação...
Vivo, então, minha alegria
na magia da ilusão.
17
Feliz de quem, nesta vida,
só virtudes praticar;
há de ter força renhida,
quando o inverno lhe tocar.
18
Há coisa que não te explico
na desditosa paixão:
Com quem me quer eu não fico,
com quem quero me diz “não”.
19
Há rosa de muito espinho
que nos dá prazer e graça.
Há rosa que, sem carinho,
apenas nos traz desgraça.
20
Há um tal político aí
que diz: “Vocês são fregueses”!
E mente mais que o saci,
pois, já mentiu cem mil vezes!
21
Importante é o instrumento
para se agir na arte em vista;
melhor, porém, é o talento,
pois é o coração do artista.
22
Meiga mãe, diva senhora,
teu amor é, num segundo,
mais que tudo que se aflora
na eternidade do mundo.
23
Minha cara, dá-me a mão,
é por ti que vivo e morro!
Dá-me afeto, sim, do cão,
Não, porém, de um “cão cachorro”
24
Mulher é anjo da guarda,
seiva de vida na terra;
em tudo, sempre vanguarda,
pomba de paz e...de guerra.
25
Naqueles tempos de antanho,
ninguém era assim tão homem:
Havia pavor tamanho
das noites de lobisomem.
26
Na trova – mau aprendiz,
na bola – perna de pau,
na foice – quebra os quadris,
mas toca bem berimbau!
27
Neste frio que assola tudo,
cobertor é todo em vão.
O que me aquece, contudo,
é o seu próprio coração.
28
Neste mundo, sentir-se útil,
sobrepor a adversidade,
não dar ouvidos ao fútil,
já é ter felicidade.
29
Neste mundo, tudo passa
contra nosso próprio gosto.
Tudo se torna fumaça
dizem as rugas do rosto.
30
No campo da eternidade,
os tempos não passarão:
só há imortalidade
aos vivos que lá irão.
31
No mar bravio desta vida,
sem rumo pra navegar,
rezo à minha Mãe Querida,
que é minha Estrela-do-Mar.
32
No planeta dos contrários,
rola pedra – rola o mal.
E dizem os salafrários
que tudo isso é natural.
33
Nos horários de verão,
os galos em trapalhada,
sem saberem que horas são,
cantam sempre em hora errada.
34
O amigo certo procura
na conduta a retidão.
Mesmo em grande desventura,
a outrem estende a mão.
35
O apego pelo sertão,
da gente lá do Nordeste,
é verdadeira paixão,
pois cria “cabra da peste”
36
O plagiário é caricato
que no mundo se repete;
é escritor com mão de gato
e pintor que pinta o sete.
37
O protetor curupira,
na lenda que inda nos resta,
quer enlaçar com embira,
criminosos da floresta.
38
O silêncio e a solidão
possuem valores tantos;
neles, longe da paixão,
já nasceram grandes santos.
39
O tal velhaco, ao comprar,
é labioso em sua história;
mas, depois, não quer pegar,
diz até não ter memória.
40
Quanto tempo tem passado
sem saber do meu amor.
Não me dá nenhum recado,
a curtir eu vivo a dor.
41
Quão exímia pensadora
é a coruja que se cala.
É tão nobre esta doutora,
que besteira nunca fala.
42
Que coisa descomunal
aquele curvo nariz
que, ao assoar, é um temporal...
- e escorrer qual chafariz
 43
Quem reza, nos diz o santo,
tem eterno bom viver,
mas quem não reza, no entanto,
pode o futuro perder.
44
Quem vive na ociosidade
não trabalha bem a mente.
Com muita facilidade,
surge um vício permanente.
45
Saudade dos lábios teus
eu tenho neste momento,
quando, juntinho aos meus,
trazias-me abrasamento.
46
Se brasileiro eu não fosse,
seria, então, estrangeiro;
daria o mundo mais doce
só para ser brasileiro.
47
Se eu conhecesse o futuro,
sofrendo assim por amar-te,
se fosse um passo seguro,
juro que iria buscar-te.
48
Sejas um “cão” de amizade,
que ao amigo dês socorro!
Não haja em ti falsidade,
jamais sejas “cão cachorro”!
49
Teu olhar é meu poema
que estou sempre a recitar;
eu fiz dele lindo tema
que me faz sorrir e amar.
50
Todo vício capital
é doença quase sem cura.
Quem se entrega a este mal
lança a vida em sepultura.
51
Tudo é magia e beleza
aos olhos puros do amor;
só o amor traz a certeza
do sentido de uma flor.

Versos Esparsos * 2 *