Trovadores em Ordem Alfabética

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sexta-feira, 15 de março de 2019

José Maria Machado de Araújo (1922 - 2004)


A água jorrando em cascatas
pelos penhascos da serra,
é o sangue puro das matas
enchendo as veias da terra!

A cruz que às costas tu levas
pesa mais que a minha cruz:
é que eu ponho luz nas trevas
e tu, pões trevas na luz.

Ama, sê bom, e terás
horas tranquilas e calmas...
O amor é um sol que desfaz
a neblina que há nas almas!...

Angústia é a pressão feroz
daquela tristeza ingente,
que é bem maior do que nós
e teima em caber na gente...

Ante as sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
mas os maus passos que dei.

Ao candidatar-se a Alice,
a modelo, o secretário
deu-lhe uma tanguinha e disse:
- Preencha este formulário...

Ao dentista, todo dia,
vai a noiva do Ventura...
E o noivo nem desconfia
que ela usa dentadura...

Ao pôr-lhe a esmola no prato
pergunto ao surdo, baixinho:
- És mesmo surdo de fato?
E ele: - Surdinho, surdinho!...

Ao vê-la, cheia de encantos
nos braços de outro, não nego,
os meus ciúmes são tantos,
que preferia ser cego!

Após longa caminhada
meus pés, sangrando em ferida,
deixaram no pó da estrada
as reticências da vida...

Aprende, filho, a viver
com amor, paz e alegria,
e eu te juro que hás de ter
mais de um hoje em cada dia.

As crianças ao falar
inventam frases tão belas,
que a gente fica a pensar
que é Deus que fala por elas.

A trova com boa rima
Mas sem um bom pensamento
Lembra uma linda menina
Com cabecinha de vento.

Bendigo o trabalhador
que, sem febre de ambição,
constrói domínios de amor
num pedacinho de chão!

Cite a terceira pessoa
do verbo amar, por favor.
E a voz do aluno ressoa:
- O ciúme, professor!

Com treze pontos que fez
na loteca, o Zé Gambá
já pronuncia, em Francês:
Niterói - "Niteruá"!

Coração, nunca te iludas,
pode ser falso o teu pranto:
há muito santo que é judas...
e muito judas que é santo...

De meu coração cativo
que é fonte de amor imenso,
nascem mágoas - porque vivo;
nascem culpas - porque penso!...

Demitiram o Waldir
da chefia da seção,
por esquecer-se de rir
da piada do patrão!

Deus deposita a ventura
nas almas puras e mansas:
há domínios de ternura
no coração das crianças!

Disse: "Que trova bonita!"
Mas tu não ouviste bem
e logo indagaste aflita:
"Quem é que é bonita, quem?"

Dizes serem diferentes
nossos ciúmes, - convenho:
-Tu sabes por quem os sentes,
eu não sei de quem os tenho!

Dos grandes não tenhas medo
se a razão não te faltar:
olha que um simples rochedo
tem domínio sobre o mar.

Ela é boa e não se poupa...
Vive a limpar, sem mãos frouxas:
de dia – trouxas de roupa,
de noite – roupa de trouxas!...

Ela é tudo em minha vida!
Seu nome... seu nome... Bem,
quem ama mulher proibida
não diz o nome a ninguém!

"Ela voltará, descansa",
a esperança me dizia...
E eu não via que a esperança
por piedade me mentia...

Em cada abismo em que afundo,
eu sempre planto um jardim
para achá-lo mais fecundo
quem cair depois de mim...

Em conflitos e bonanças
nossos destinos se traçam:
nós somos duas crianças
que brigam, depois se abraçam!

Em meu peito amargurado
tantos conflitos abrigo
que, às vezes, fico arrasado
de tanto brigar comigo!...

Em te negar a ternura
que eu tinha e nunca te dei,
quantos anos de ventura
à minha vida roubei!...

Entre a tua e a minha idade,
filho meu, quanta distância! ...
- És a infância da saudade,
sou a saudade da infância. . .

Esses olhos que possuis,
cheios de encanto e calor,
são dois convites azuis
para uma festa de amor!

Estuda, criança, aprende,
te educa enquanto puderes,
que o teu futuro depende
da educação que tiveres!

É tão forte e tão perfeito
o teu olhar, doce e mudo,
que ao infiltrar-se em meu peito
toma o domínio de tudo...

Eu, com outra? - Que maldade!
E tu crês nessa tolice?
- Não houve nem a metade
do que o ciúme te disse!...

É uma loura de lascar
minha secretária, a Elisa.
Só não sabe trabalhar,
mas eu pergunto: e precisa?

Eu sempre soube enfrentar
os conflitos mais violentos:
um velho lobo do mar
não foge à fúria dos ventos!

"Eu sou, sim!"  Ela jurou...
E o rapaz casou com ela.
Não era o que ele pensou,
mas era o signo dela...

Eu tenho amor, tu pureza,
não temas um lar modesto:
a nossa fé põe a mesa
e Deus há de por-lhe o resto...

Feita a macumba, sisudo,
disse-me o velho orixá:
- Oxalá vai lhe dar tudo...
E eu respondi: - Oxalá!...

Finjo ter ciúme agora,
para matar a saudade
daqueles tempos de outrora
em que o tinha de verdade.

Fizemos, na vida ingrata,
do nosso amor um tesouro:
os filhos nos deram prata!
Os netos nos deram ouro!

Há, na vida, uma verdade
que é cumprida com rigor:
- Só se encontra com a saudade
quem teve encontros de amor.

Há nos pais tamanhos brilhos
de meiguices e de afetos,
que alforriados dos filhos,
tornam-se escravos dos netos!

Hoje, na mansão mais alta
do Céu, sem falta de nada,
o artista lamenta a falta
que tem feito à garotada!...

Já fui jovem, mas não pude
tal ventura perceber,
porque a minha juventude
passou por mim sem eu ver!

Lentamente cai a tarde...
E o medo da solidão
vai fazendo com que eu guarde
as tardes no coração.

Louvo os heróis e heroínas
que cruzam o mar da vida
por entre espessas neblinas
e encontram, sempre, saída!

Mesmo eu não sabendo de nada
Digo aos crentes e aos ateus:
a eternidade é a estrada
com o tamanho de Deus!

Mesmo morta, mãe querida,
a tua luz me alumia,
pois, não morre quem na vida
foi sempre uma estrela guia.

Minhas mãos cheias de amor,
plantam amor pelas ruas...
E mais não plantam, Senhor,
porque só me deste duas!...

Na ânsia de te encontrar
eu dominei mil fracassos,
e não pude dominar
meu coração em pedaços!...

Não a ofendi, "seu" Juiz!
Só disse àquela malvada
o que um motorista diz
quando leva uma fechada!...

Não busquem na vida o "além",
que a busca será perdida,
pois Deus não conta a ninguém
o que existe além da vida.

Não condenes, por favor,
estes ciúmes, meu bem:
- Já viste alguém sem amor
sentir ciúmes de alguém?

Não condenes, por favor,
os meus ciúmes, Maria.
Olha que os cegos de amor
também precisam de guia!

Não deixo, cheio de mágoa,
a esperança me faltar:
eu sei que sou poça d'água
mas tenho sonhos de mar.

Não foste a minha metade,
pois jamais me deste um "sim",
mas fizeste que a saudade
fosse a metade de mim!...

Não tive escola, é verdade,
na minha infância sofrida,
mas com força de vontade
cursei a escola da Vida.

Não tive, por ambição,
o mundo bom que eu queria,
e Deus deu-me um coração
onde esse mundo cabia!

Nascemos irmãos comuns...
Mas, a ambição e os engodos
puseram nas mãos de alguns
o mundo que era de todos!

Nasceu de um simples afeto
o mundo do nosso amor:
o sonho, - foi o arquiteto
e o desejo, - o construtor!

Na trilha do meu destino,
agora quase no fim,
ainda encontro um menino
brincando dentro de mim...

Na vidraça uma pedrada...
Corro à rua... e a raiva passa
ante a criança culpada:
- já quebrei tanta vidraça!...

Nosso amor, em desacerto,
e de mágoas tão coberto,
hoje não tem mais conserto
nem acerto que dê certo!...

Nosso outono é tão bonito
que ao sonho abrimos as portas,
e um amor quase infinito
põe vida nas folhas mortas.

Nunca ambiciones a fama
se não sabes merecê-la...
Quem sobe em cordas de lama
jamais chega a ser estrela.

O domínio mais profundo
deste mundo é o coração,
pois é maior do que o mundo
e cabe dentro da mão!...

O meu sonho mais bonito
é, de um dia, conquistar
esse domínio infinito
que há dentro de seu olhar!...

Os que devastam as matas
por prazer de devastar,
vão chorar quando as Cascatas
não puderem mais chorar!

O tempo é ladrão perfeito
mas a saudade o enganou,
escondendo no meu peito
o que o tempo me roubou...

Parece imenso, e é restrito
o saber que o Homem cultua:
quer conquistar o infinito
e, apenas, pousou na Lua.

Pelas sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
culpo os maus passos que dei.

Perdoar, mesmo ofendido,
às vezes não custa nada:
cada conflito contido
é uma vitória alcançada.

Pesada cruz suportamos:
-de ciúmes os dois sofremos!
Por isso é que nos amamos
e nunca nos entendemos...

Pode o homem ser tacanho,
pode ser grande e perfeito,
que o seu mundo é do tamanho
do mundo que tem no peito.

Por crer em Deus e querer
voltar ao céu de onde vim,
eu comecei a fazer
outro céu dentro de mim!

Por ambição desmedida
muitos homens conheci,
que, sendo donos da vida,
não foram donos de si...

Por favor, doutor Gamboa,
dê-me um remédio bem quente:
marido de mulher boa
não pode ficar doente...

Por oito lustros inteiros,
nossos acertos, Maria,
foram como o dos ponteiros
de um relógio, ao meio-dia...

Por querer sempre o melhor
descobri, em meu labor
que o pão ganho com suor
tem muito melhor sabor!...

Por tuas culpas, eu minto
para ninguém te ferir,
mas só Deus sabe o que sinto
quando tenho que mentir...

Quando me ponho a brincar
com os netos que Deus me deu,
no domínio do meu lar
o dominado sou eu!...

Quando o homem prender as rédeas,
decisões precipitadas,
muitas das grandes tragédias
poderão ser evitadas...

Quanto pão, quanto agasalho,
ao suor estou devendo!
Sangue branco do trabalho
em minha pele escorrendo!...

Quem vive de alma iludida,
entre conflitos, não sente
que a gente não muda a vida,
a vida é que muda a gente!

Que o jardineiro da paz
nunca se dê por vencido...
Feliz aquele que faz
da vida um jardim florido.

Que tudo quanto a Deus peço
caiba no meu coração:
pois, o desejo em excesso
não é desejo, é ambição!

Que vontade de chorar
sinto na alma, certos dias
em que abro as mãos para dar...
mas encontro as mãos vazias!...

Quis ir além do que sou
e, apenas, colhi fracassos...
Meu limite ultrapassou
o tamanho dos meus braços!...

- Sabes quem morreu?  O Piassa.
E o amigo: - É brincadeira!
- Se é brincadeira, é sem graça,
o enterro foi quarta-feira!...

Se a estrada em que me confino
pelo destino é traçada,
sei que não mudo o destino,
mas posso mudar de estrada!

Sei que existes, sei que és linda,
sei que é doce o teu olhar...
Só não sei quem és ainda,
mas eu hei de te encontrar!...

Sejam grandes ou pequenas,
eu sinto muito mais medo
das culpas que têm, apenas,
o tamanho de um segredo...

Sempre desculpo e tolero
teu ciúme pertinaz.
Não vale o bem que te quero,
todo o mal que ele me faz.

Sem teu amor que é meu mundo,
a vida não faz sentido:
é como andar num mar fundo,
dentro de um barco, perdido.

Sendo a vida vela acesa
dos ventos maus te acautela,
que o destino, de surpresa,
apaga a chama da vela.

Sendo o amor um grande bem,
traz o mal que nos invade:
quem mais ama, menos tem
domínio sobre a saudade...

Seria a vida mais doce,
para os meus sonhos sem fim,
se o mundo, em que eu giro, fosse
o mundo que gira em mim.

Seria o mundo perfeito,
sem ódio, sem ambição,
se as mãos que batem no peito
batessem no coração!...

Se um domínio deslumbrante
vejo da serra mais alta,
vejo, também, mais distante
a terra que aos pés me falta...

Se vês em mim algum brilho,
também podes ser assim
pois foi a escola, meu filho
que fez um homem de mim.

Sofro um castigo pesado
e não quero que se abrande,
pois não fui injustiçado:
minha culpa é que foi grande!

Sonho de alma prevenida,
pois sei que, o sonho é quimera,
e em cada esquina da vida
uma surpresa me espera.

Também sou irmão, na dor,
da velha fonte entre abrolhos.
Quem tem ciúmes de amor,
tem duas fontes nos olhos.

Tendo a precaução por base,
a reticência é uma queixa
que a gente deixa na frase
quando a censura não deixa...

Tenho ciúme profundo
de todo mundo, porque
tenho medo que esse mundo
roube o meu mundo - você!

Tenho culpas e, realmente
muitas delas me consomem.
Cometo-as porque sou gente,
confesso-as porque sou homem.

Tive-a por mãe, que ventura
chamava-se Margarida.
E foi ela a flor mais pura
do jardim da minha vida.

Trovadores, meus irmãos,
vamos viver de mãos dadas.
Onde há correntes de mãos
não há mãos acorrentadas!

Tu dizes que eu sou perfeito
e eu nunca fui o que pensas:
nas alcovas do meu peito
se escondem culpas imensas!

Um reino em seu ventre cabe
e ela o governa sozinha ...
Só quem é mãe é que sabe
quanto custa ser rainha !...

Vejo, em conflitos amargos,
que a causa do meu revés,
foi subir em passos largos
sem ver onde punha os pés.

Vencendo fragas ingratas,
desde a montanha a cantar...
É que a água das cascatas
também tem sonhos de mar!...

Vive o pobre do Vicente
entre o pecado e a virtude,
a esposa muito doente
e a vizinha... que saúde!

Vivi a infância sem mágoa
de não ter Papai Noel:
eu tinha uma poça d'água
e um barquinho de papel...

sábado, 9 de março de 2019

Lavínio Gomes de Almeida (???? - 2009)

A densa treva a cobrir
a montanha do calvário
faz a gente concluir:
- Sombra é uma luz ao contrário.

Ah, Santos! Com que egoísmo
tomas o meu coração!
Teu solo é meu catecismo;
Teu amor, minha oração...

Carnaval!... Tantas folias...
Pagodes doidos de insano!
Cai a máscara três dias
da face que a usou um ano!...

Conceitos, no livro breve
da vida, em página vaga,
vem nosso sonhos, e os escreve;
chega o destino, e, os apaga...

Cruz nas velas, cruz nas luzes
deste céu, brilhante joia...
Mas, por que Deus, tantas cruzes
nas montanhas de Pistóia?

Da História, no vasto trilho,
deixando impressos meus passos,
bem quisera ser teu filho
e erguer-te, Santos, no braço!

Da ternura faço o tema,
das desditas, minha prosa...
De cada dor, um poema,
de cada espinho, uma rosa!

Descalços pelo gramado,
teus pés mansamente vão...
Pões, no pisar, tanto agrado
que eu tenho inveja do chão...

De tudo o que for deleite,
Deus, só deixou, para mim,
a candeia sem azeite,
da vida que chega ao mim...

Deus fez Eva num segundo,
Mas teve um choque, parou!
O seu barro vagabundo
era tão mau que rachou.

Deus que deu ao mar as águas
e às matas deu as graúnas,
pôs, em minh’alma, mais mágoas
que grãos de areia nas dunas...

Durante as longas esperas
de reabrir-se o mosteiro,
a teimosia da heras
já cobre um mural inteiro...

Enquanto choro os fracassos
que a vida me tem imposto,
o tempo imprime seus passos
sobre as rugas do meu rosto!

Envolvido em meus lençóis,
ouço a chuva sobre as hortas
solfejando si bemóis
na clave das horas mortas!

Ergue-te, povo oprimido,
toma tua decisão!
Querem manter-te entretido,
mesmo sem circo e sem pão!

Evolando após a infância,
a juventude é fumaça
tão fugaz, como a fragrância
de um bom perfume que passa...

Faz tanto frio lá fora,
não te vás, detém teus passos!
Eu quero despir-te agora
para vestir-te de abraços...

Já tendo a morte defronte,
nem da vida teve pena:
para não gastar com ponte
quis “pinguela” de safena...

Mais aumentas meu desejo
se colocas, sem ressábios,
a nota “sol” do teu beijo
sobre a flauta dos meus lábios.

Meu sonho bom, tu me bastas,
mas, perto do amargo fim,
se por acaso te afastas,
morre um pedaço de mim!

Meus sentimentos ressalto,
ouvindo do céu conselhos:
sinto-me muito mais alto
quando fico de joelhos.

Na estrada sem estações
do tempo, que, insano, corre,
o amor, cheio de emoções,
nasce... cresce... e depois morre...

Na estrada sem estações,
onde jamais há demoras,
minutos são os vagões
do “trem-sem-volta” das horas.

Na inquietação que se aguça,
carrego na alma dorida
a grande montanha-russa
do sobe-e-desce da vida.

Nas fantasias douradas
da minha imaginação,
fui herói, fiz cavalgadas
sem tirar os pés do chão.

Neste silêncio, as demoras,
em noite escura, sem fim,
eu sinto aceno de auroras,
se acaso estás junto a mim.

No curso de minha vida
foi a tua aparição
a comédia mais fingida
de um Carnaval de ilusão.

No seu viver temerário,
que a nenhum lugar conduz,
quem passa por um calvário
leva vestígios da Cruz!...

Num ato de bom agouro,
se o véu da história descerro,
vislumbro uma pena de ouro
quebrando grilhões de ferro...

Pobre menino vadio,
triste pária pequenino,
és um grande desafio,
sem infância, sem destino...

Presente! Tens frágil glória...
És barco a vagar no escuro!
Fração de tempo, irrisória,
entre o passado e o futuro...

Qual vaqueiro de esperanças,
aboio, com emoção,
a manda das lembranças
nos pastos do coração.

Sei que todo salafrário
que deixa o credor às tontas,
detesta sempre o rosário,
que é feito também de contas.

Sempre só e abandonado
nos teus momentos de ausência,
eu sou segundo parado
no mostrador da existência...

Sofredor sempre se esquiva
de mostrar a dor por fora...
Quando a lágrima é furtiva,
maior é a dor de quem chora...

Sonhando novas auroras,
no meu viver sem ninguém,
me embala a dança das horas
pelo amanhã que não vem...

Vai findar-se a mocidade!
Com ela os sonhos se vão...
Fico noivo da saudade
e viúvo da ilusão...

Veleiro que ao vendo avanças,
a demandar outras plagas,
tu vais cheio de esperanças
sobre a esperança das vagas!

Velhas cartas... meu degredo...
Com pranto as pude escrever.
Há no seu bojo um segredo
que o mundo não vai saber!

Vi, morando em teu rosto,
ao buscar sinais de amor,
pantomimas de mau gosto,
comédia escondendo a dor...

Voltei... a rua, em verdade,
em quase nada mudou...
Mas tinha agora a saudade,
que em cada esquina brotou...

sábado, 2 de março de 2019

Luci Barbijan


A beleza do poente
quando o Sol vai descansar,
se iguala, quando presente,
ao amor: “Luzes no Olhar”.

A dor que o coração sente,
ao partir um ser querido,
só deixa na nossa mente:
”Rastos de um amor partido”.

Ah! Quanto deleite e amor
tua carta me trazia
Cada palavra, uma flor;
cada frase... poesia.

A Lua sonha acordada
desejando o alvorecer.
Pelo Sol quer ser amada
no encontro, do amanhecer.

Amigo boleia a perna,
e apeia desse malhado.
Com minha amizade eterna,
dou-te um abraço apertado.

Ao gaúcho altaneiro
”que lutou por liberdade”.
Meu abraço verdadeiro,
chegue até na eternidade.

Ao partilhar bons momentos
qualquer coração se aquece.
Na união de pensamentos,
a tristeza, a gente esquece.

Ao ver a moça bonita,
desmanchou-se, bem de leve.
Não pelas formas da dita...
era boneco de neve.

A saudade me esporeia,
fere fundo o coração.
Meu pensar se desnorteia,
tão longe do meu rincão.

Boas lembranças eu trago
na bagagem desta vida.
Uma delas, sem embargo:
“o abraço” da mãe querida.

Canjica e broas de milho,
pro prazer da garotada.
Mais rosquinhas de polvilho..
E uma festa está formada .

Do fósforo da ilusão
deixei apagar a chama.
Sem qualquer outro senão,
Me afastei da tua cama.

Em todo castigo humano
o que, pra mim, tem valor,
é aquele que “mostra o engano”,
e não o que “causa dor”.

Foi um sono agitado,
resquício de um pesadelo,
quando na cama deitado,
sonhou ser um cogumelo.

Frente ao verdadeiro amor
a nossa vida floresce
No desabrochar da flor,
o empedernido enternece

GAIA: Terra, Mãe Divina.
cujo seio é guarida.
“In Natura” nos ensina
que amando-a, amamos a vida.

Graças vos damos Senhor
por nos livrar da “desdita”.
Pela Lua, Sol e Amor...
Por esta terra bendita.

Lá no bule o café cheira;
Na xícara, a fumegar.
E nós, ao pé da lareira,
no inverno, a nos esquentar.

Lá no fim das trevas - LUZ
dissipando a escuridão.
É a esperança que conduz
quem doa seu coração.

Limiar da própria vida
último sopro em ação.
voz sussurrante, sentida,
pediu e deu-lhe perdão.

Lindo carro, cor de breu,
veloz como um avião.
Sem motor e sem pneu
voa na imaginação.

Lua trigueira, no céu,
quis com Verão se casar.
Ela, esqueceu-se do véu...
Ele, esqueceu-se do altar.

Na corrida pela vida,
muitos amores passei
Mas, entre todos, querida
do teu, não me separei.

Na dança da nossa vida,
o tempo logo se esvai. 
E envoltos na própria lida,
o hoje não passa de um ai.

Na mente do trovador
as ideias vão e vem.
"No meu coração a dor.
Amei quem não me quis bem".

Na xícara, café quente;
no prato, um naco de pão.
Venha logo minha gente
saborear seu quinhão.

No âmago da minha vida
não entra nenhum vilão.
Nele apenas a batida
suave do coração.

No coxim da terra deito
para poder descansar.
No acalento deste leito
contigo quero sonhar.

No fim das trevas, a luz
dissipando a escuridão.
Esperança que conduz
no caminho da emoção.

No jardim da minha vida
roseiras mil, vou plantar.
No caixão, na despedida,
só uma rosa vou levar.

No pago, noite serena;
na roda, um bom chimarrão.
Um causo, uma cantilena
e a cuia de mão em mão.

Nos deitamos conversando...
e a madrugada chegou.
Toda a manhã, nos amando,
minha amada engravidou.

”Nunca te há de faltar nada”...
O velho lhe prometeu
Na hora mais esperada.
”soldado” nem se mexeu.

O brilho daquele olhar...
“Eta” menina sapeca!
Não querendo se casar,
fez do garoto - peteca.

O pecado do coveiro
foi não prestar atenção
nas joias que o relojoeiro
levou junto, no caixão.

Os amores descartáveis?
Cá na terra, não no céu!
Desses amores passáveis,
não se salva nem o véu.

Pensamentos do escritor
provoca muita emoção.
Mas precisa do leitor
para haver transformação.

Poeta da lua, sigo
na noite, luz prateada.
Sozinho, qual um mendigo,
esmolando o amor da amada.

Por meter o seu nariz
onde não fora chamado,
o rapaz, frente ao juiz,
acabou sendo julgado.

Quisera poder, um dia,
beijar-te com muito ardor.
Mesmo que na fantasia:
“retrato de um grande amor”.

Se com a caneta traço
pensamentos, no papel,
com minhas mãos eu abraço
um bom vinho MOSCATEL.

Sob o vidro espedaçado,
um retrato encontrei.
Tão antigo, amarelado,
infância que atrás deixei.

Suave, nascem da fonte
correm rumo ao seu destino,
Perdendo-se no horizonte
vão águas, em desatino.

Tuas tranças, menina,
quero de leve puxar.
És tão linda, feminina,
queres comigo casar?

Um bom livro sempre traz
conhecimento e prazer.
Nesta vida é mais capaz
quem escreve e sabe ler.

Velha tapera ruindo,
solitária: "Desamor".
Um pássaro construindo
novo ninho: "Muito amor".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Lourice Conceição Saliba


Água que desce a montanha
leva o rio a se formar...
E afluentes arrebanha
para desaguar no mar!

Crianças em algazarra
aguardam a avó querida;
e a mais esperta é que agarra
a boneca preferida...

Desde muito cedo canta,
e salta de galho em galho,
assim ele sempre encanta,
não tendo nenhum trabalho...
(R: passarinho)

Dias felizes, ligeiro
o tempo as horas marcou...
e aquele amor verdadeiro
foi morrendo e se acabou!

Fagueira, no seu prateado,
surge a lua no esplendor...
E embala o enamorado
pela emoção e o amor!

Já vou indo pela estrada
de chapéu, mala na mão,
caminhando acompanhada
de minha grande emoção!

Malandro toca pandeiro,
gira, gira no gingado,
e a mulata por inteiro,
se perde no rebolado.

Num casulo bem fechado,
por dias permaneceu,
e em voo desabalado,
numa árvore apareceu.
(R: borboleta)

O homem que é tão imprudente
polui o rio sem temor;
com o lixo, inconsequente,
suja a água ao seu dispor...

Olhando a taças de vinho,
lembrei do tempo passado,
quando feliz no meu ninho
festejamos... Meu amado!

Ontem, vagem fechadinha,
hoje aberta e debulhada;
pode ser bem salgadinha,
ou, doce pra namorada.
(R: amendoim)

Quem sou? Já sou bem antigo,
transmitindo o meu saber,
em minhas folhas abrigo,
tudo que é bom conhecer...
(R: livro)

São ondas que não acabam,
trazem murmúrio gostoso,
nesse rolar também lavam,
tristezas de desditoso...

Sempre fui um beijoqueiro
e voando de flor em flor,
passo a vida por inteiro
a enaltecer meu amor!
(R: beija-flor)

Sob um céu azul brilhante,
surge um ipê amarelo;
o seu florido ofuscante
torna este dia tão belo!

Tira o sossego do sono,
zunido perturbador.
Como ser humano aciono,
um veneno destruidor.
(R: pernilongo)

Trova, trova, o trovador,
leva poesia e alegria,
canta os sonhos e o amor
e nos enche de magia.

Vamos gente brasileira,
precisamos com urgência,
levantar nossa bandeira
de honradez e de decência!

Vivo num buraco escuro,
tenho peludo inimigo,
medroso corro no muro,
fugindo desse perigo.
(R: rato)

Voando feliz, saltitante,
sigo só assim pela vida,
bem curta de caminhante
nesse voo enlouquecida.
(R: borboleta)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Célia Aparecida Marques da Silva


1
A chácara já tem nome
que é bastante sugestivo,
de pássaro, não de um homem: 
QUERO-QUERO, tão festivo! 
2
A foto desse mural
foi por mim fotografada.
Não pensei que fosse a tal
da pose tão comentada. 
3
Almejo a Universidade
mais do que tudo na vida,
e só será realidade
quando eu lutar sem medida.
4
Ao passar por essa rua
o que me chama atenção,
é um ipê roxo que atua
tocando meu coração. 
5
Declamar uma poesia
é melhor ao som da lira,
seja em qualquer melodia...
eis um som que sempre inspira. 
6
Esporte: vida e energia,
mente sã em corpo são.
Quem se mexe todo dia
pode viver um tempão.
7
Foi só depois de um colapso
que tomei tal decisão,
pois se eu não fosse relapso,
não faria confusão.
8
Na areia daquela praia
encontrei um diamante...
Me distraí com uma raia
e o perdi no mesmo instante.
9
Na feira de artesanato
sempre se encontra de tudo...
Um simples pano de prato,
também tapete felpudo.
10
Não há palavra que exprima
toda a minha reflexão
para compor minha rima
e a trova pôr em ação!
11
Não se aproveite de mim
se deitando em meu colinho.
É bem melhor achar, sim,
um travesseiro fofinho. 
12
No concurso de marchinhas
votei naquela que diz:
- Não fique nunca sozinha,
vá na praça da matriz.
13
No dia da formatura,
arranjei uma namorada.
Pensei só numa aventura,
mas entrei numa enrascada. 
14
No restaurante pedi
um suco de carambola,
mas depois me arrependi, 
porque minha língua enrola. 
15
O capricho do desenho
feito por este rapaz,
mostra todo seu empenho
e do quanto ele é capaz. 
16
Oh, meus alunos queridos,
a razão do meu viver.
Vamos todos, bem unidos,
conhecer sempre o Saber! 
17
Todo samba na avenida
é tudo que tem de bom,
mas se o “samba” for na vida,
não é visto com bom som.
18
Quantas sílabas se têm
na palavra caridade?
Quatro... mas também contém
uma infinita bondade. 
19
Quer gerenciar o tempo?
Programe-se todo dia...
Ele passa como o vento,
por qualquer e toda via. 
20
Ser autor de um grande livro
é meu sonho de consumo.
Por isso que não me privo
de escrever e nunca sumo!
21
Vou praticar um esporte
para ter vida saudável.
Precisa ser do meu porte,
também bastante agradável.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Argemira Fernandes Marcondes


1
Acordei de uma soneca, 
com uns gritos de socorro; 
era o "Ricardão", de cueca, 
correndo do meu cachorro!! 
2
A fúria da natureza, 
que pode arrastar um trem, 
nos faz sentir, com clareza, 
que somos simples ninguém... 
3
A garota desfilava, 
numa saia tão justinha, 
que na estação onde estava, 
até o trem saiu da linha...
4
Aos poucos vão se acalmando 
minha tristeza e ansiedade 
e o tempo vai transformando 
a tua ausência em saudade. 
5
Basta olhar com muito amor, 
para se ver tudo assim: 
em cada rosto uma flor 
e o mundo um grande jardim! 
6
Da juventude saudosa, 
que ficou no meu passado, 
ainda conservo a rosa 
que hoje murcha do meu lado... 
7
Elas prometem prazer, 
porém, quem crê não tem sorte; 
não vamos "pagar pra ver" 
as drogas - vírus da morte! 
8
Em ser feliz eu me empenho, 
por isso vivo a cantar 
e assim me esqueço que tenho 
mil razões para chorar. 
9
Em teus braços recupero 
a minha serenidade; 
és refúgio quando quero 
fugir da realidade. 
10
Esqueço os males da vida 
e os sacrifícios que fiz, 
quando vejo reunida 
minha família feliz ! 
11
Eu não tenho ouro nem prata, 
mas meu casebre na serra, 
cercado por verde mata, 
é meu céu aqui na Terra ! 
12
Lá no velório eu pensei: 
a morte até faz sentido; 
pelo menos me livrei 
do "mala" do meu marido!!! 
13
Levando um coice da mula, 
minha sogra se mandou! 
A mulinha nem calcula 
o galho que me quebrou... 
14
Minha cidade é de paz, 
aqui nem se pensa em guerra, 
porque lá só o bem se faz: 
Natividade da Serra ! 
15
Na política sou novo, 
porém, aprendi ligeiro: 
antes de cuidar do povo, 
vou cuidar de mim primeiro...! 
16
O homem, pelo poder, 
perde o rumo, sai da linha; 
não percebe ou não quer ver 
que para as trevas caminha. 
17
Ontem fui à uma festa, 
houve um fuzuê danado! 
Com uma bala na testa, 
regressei todo melado ! 
18
O pobre pai é vencido 
pela angústia que o consome, 
vendo o filho desnutrido, 
sem poder matar-lhe a fome. 
19
Para não se ver omissa, 
com tantos injustiçados, 
é que a estátua da Justiça 
tem os seus olhos vendados. 
20
Pode o mundo desabar, 
a treva vencer a luz, 
mas nada vai abalar 
minha fé no Bom Jesus. 
(BOM JESUS, de Tremembé) 
21
Por mais que seja pesada, 
não desprezes tua cruz, 
pois verás, no fim da estrada, 
a grande e divina luz!! 
22
Quando penso em desistir 
ao ver tantas desventuras, 
sinto Deus me conduzir 
e a fé me leva às alturas ! 
23
Queria gritar ao mundo 
as injustiças que sei, 
mas por um medo profundo, 
o silêncio é minha lei. 
24
Saio de cabeça erguida, 
depois de tua traição, 
pois encontrei a saída: 
renúncia é a solução. 
25
Santo Antonio, por favor, 
me escute só um segundo: 
quero lhe pedir o amor 
que está faltando no mundo. 
26
São tantos os erros meus, 
que de coração contrito 
me entrego nas mãos de Deus, 
ao Seu perdão infinito. 
27
Teu retrato pendurado 
na parede à minha frente, 
me faz voltar ao passado, 
sem que eu saia do presente. 

Versos Esparsos * 2 *