segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Carlos Drummond de Andrade (Trem de Contos) 1


NOVO DICIONÁRIO

Qual não foi o pasmo de Matias ao abrir em casa o dicionário de português que comprara para o filho colegial, e verificar que ele era todo feito de palavras cruzadas.

— O garoto não vai estudar palavras cruzadas, vai estudar português — explicou ao balconista da livraria, pedindo a troca do volume.

— O dicionário está certo — respondeu-lhe o rapaz.

— Como está certo, se não começa pela letra A e termina pela letra Z, a exemplo de todos os dicionários de português desde que a língua existe?

— Estou vendo que o senhor não acompanhou a evolução do português. Com as últimas aquisições da ciência linguística e as recentes pesquisas lexiológicas, e mais o uso literário da língua, o português é hoje considerado jogo de palavras cruzadas. Cruzadíssimas.

— Hem? Não estou entendendo.

— Não precisa entender, desde que o senhor tenha habilidade para decifrar palavras cruzadas. Mestres universitários da maior categoria assim resolveram, e os editores lançaram dicionários de acordo com os novos moldes. Procure ler os tratados e revistas de lexicologia, os estudos sobre linguagem, os ensaios de crítica literária, as dissertações universitárias. Tudo palavras cruzadas. Seu filho ainda não tem a nova gramática cruzacional? É indispensável. E muito cuidado no cruzamento das ruas. As placas também vão cruzar.
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O AMOR DAS FORMIGAS

— O amor das formigas, você já observou o amor das formigas? — perguntou Otávio a Isadora.

– Não, Isadora nunca observara o amor das formigas.

— Nem eu — confessou Otávio. — Aliás, nunca ninguém observou o amor das formigas — sentenciou.

— Mas os entomologistas… — ponderou Isadora.

— Os entomologistas pensam que observaram — retrucou Otávio —, mas as formigas são muito discretas. Não são como os homens e as mulheres, que amam em público.

A conversa continuava nessa trilha de formiga, em zigue-zague, quando a formiga apareceu na ponta da toalha de mesa e foi subindo.

Outra formiga veio em seguida. As duas caminharam às tontas, depois juntaram as cabecinhas num movimento elétrico, e se afastaram, cada uma para o seu lado.

— Você acha que elas se amaram? — perguntou Isadora. — De modo algum — respondeu Otávio. — Trocaram sinais de serviço, apenas. E daí, querida, ninguém ama com a cabeça, é exatamente o contrário: cabeça atrapalha.

— Pois eu acho o contrário do contrário — disse Isadora. — As formigas podem ser mais evoluídas do que nós, e amar acima do coração, de um modo perfeito.

Mas a conversa não conduziu a nada, e os dois tomaram chá.
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.

Fontes:
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Publicado em 1981
Biografia = Wikipedia, Carlosdrummond.com.br, e-biografia, Brasil Escola, Rio Memórias, Academia Brasileira de Letras, etc.

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