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domingo, 30 de agosto de 2026
Paulo Roberto de Oliveira Caruso (Buquê de Trovas)
A chave ao meu coração
só tu tens; não tenho medo.
Temos tão rica união
que eu nunca mudo o segredo!
2
As partidas de xadrez
têm decerto a sua essência.
Jogador tem sua vez;
é preciso paciência!
3
Certa vez ouvi um papo.
Um machista disse: “Eureca!
Homem não engole sapo...
Ele come perereca!”
4
Dando-se as mãos a cidade
com zeladora vigília
mostra solidariedade
virando grande família.
5
Deus construiu este mundo
com suor do seu trabalho.
Seu esforço foi profundo.
Assim nos nasceu o orvalho!
6
Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
7
Foto de bonita dama
atraiu Seu Juvenal.
Viu ser dum homem a trama
no tal mundo virtual!
8
Horas por dia eu passei
no tal mundo virtual,
até que um dia paguei
uma conta bem real!
9
João golpes praticou
no tal mundo virtual,
até que um dia encarou
um xilindró bem real!
10
Lendo sobre camisinha,
Joaquim logo gargalhou.
Em peça pequenininha
de agasalho ele pensou!
11
Menina virou rapaz
e rapaz virou menina...
Hoje muito isso se faz
não só em festa junina...
12
Meu coração suburbano
tu conheces muito bem!
Tem muito do amor humano
que preenche o teu também!
13
No ano de mil e quinhentos,
dia vinte e dois de abril,
Portugal, com ricos ventos,
arrecadou o Brasil.
14
Nosso amor é o sagrado.
O que revela união.
Ele sabe ser gerado
com paixão e compaixão.
15
O poeta Zé Mitôca
é mesmo "o cara" de Ocara!
Versos mil de sua boca
tornaram-se joia rara!
16
O político safado
faz o povo de capacho.
Da panela do coitado
raspa até o fim do tacho!
17
O silêncio é uma virtude,
disso todo mundo sabe.
Cala-te, não sendo rude,
quando falar não te cabe.
18
Para ser lugar perfeito
nossa querida cidade,
requer sempre um bom prefeito
praticando a honestidade.
19
Perguntou Seu Dorival
“o que é que a baiana tem?”
Não somente em carnaval,
rebola como ninguém!
20
Que dolorosa ironia:
a terra muito pisamos,
mas a morte chega um dia...
E sob a terra ficamos!
21
Quem diria? A sementinha
pela mamãe recebida
gera uma pessoazinha
regada a leite e querida!
22
Se mantemos o decoro,
o “eu” se doa pelo “nós”,
assim nasce o melhor coro,
parecendo uma só voz.
23
Se pregarmos a bondade,
o sagrado nós veremos:
em vez de fria cidade,
grande família teremos!
24
Teus olhos da cor da terra
são meu solo, são meu chão.
É neles dois que se encerra
minha antiga solidão!
25
Toda saudade, de fato,
traz o início dum sofrer.
Sabemos que ela num ato
vem do fim de um conviver.
26
Um enfermeiro embriagado
susto deu-me a injeção.
Meu braço foi preparado
com bafo, sem algodão.
27
Um soneto ia eu tentar,
mas a preguiça chegou.
Antes de os olhos pregar,
esta trova me sobrou.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA CARUSO (1975) é um prolífico escritor, poeta contemporâneo e jurista fluminense, amplamente conhecido nos círculos de literatura independente e academias de letras virtuais e regionais pelo seu impressionante volume de produção textual. Natural do Rio de Janeiro, continua ativo em sua produção intelectual. Conciliando a literatura com uma sólida carreira técnica e jurídica, ele atua em diferentes frentes. Trabalha como servidor público atuando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É advogado e administrador formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), além de possuir especialização voltada ao Direito do Trabalho e Processo do Trabalho.
A trajetória literária de Paulo Roberto de Oliveira Caruso é marcada por números colossais e forte presença no ambiente digital e acadêmico. Começou a escrever de forma amadora ainda na infância, mas passou a encarar a literatura com foco profissional a partir de 2008. É um dos autores mais prolíficos da internet brasileira, tendo redigido dezenas de milhares de textos ao longo de sua jornada (ultrapassando a marca de 26 mil poemas em suas contagens de catálogo). Embora escreva crônicas, contos e prosas, sua grande especialidade é a poesia estruturada. Ele domina formatos clássicos e complexos como o soneto, a trova, o haicai (ao estilo oriental), o indrisos, a glosa, além de transitar pela poesia livre. É membro e correspondente de uma vasta lista de academias de letras. Já participou de mais de 50 antologias impressas e virtuais.
Seus textos são vistos como uma forte resistência em prol da "verdadeira valorização da literatura", preservando o rigor técnico das rimas e das métricas fixas que muitas vezes se perdem na modernidade. Por publicar massivamente em blogs, sites e espalhar cartazes físicos em universidades como a UERJ e a UFF, sua escrita é vista como democrática, alcançando o leitor comum diretamente no cotidiano. A qualidade técnica de suas construções poéticas rendeu ao autor diversas medalhas, troféus, menções honrosas e títulos de comendador por associações culturais.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Biografia: Recanto das Letras, Portal CEN, Enciclopedia Itaú Cultural, Confraria Brasileira de Letras, etc.
Mário Quintana em Prosa e Verso * 1 *
Não existe no mundo tanta gente como o número de ordem que me deram no cartão de identidade, que não vou te mostrar porque não poderias lê-lo antes de o ter dividido da direita para a esquerda em grupos de três, para depois o pronunciares cuidadosamente da esquerda para a direita. Sei que o mesmo acontece contigo, mas que te importa, que nos importa isso — antes que um dia nos identifiquem a ferro em brasa, como fazem os estancieiros com o seu gado amado?
Esse número, de quintilhões ou quatrilhões, não me lembro mais, me faz recordar que venho desde o princípio do mundo, lá do fundo das cavernas, depois de pintar nas suas paredes, com uma habilidade hoje perdida, aqueles animais que vejo nos álbuns, milagre de movimento e síntese. Agora sou analítico, expresso-me em símbolos abstratos e preciso da colaboração do leitor para que ele “veja” as minhas imagens escritas.
Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!
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A BELA E O DRAGÃO
As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLÍ, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...
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AH! ESSAS PRECAUÇÕES...
Para desespero de seus parentes, o velho rei Mitridates, como todo mundo sabe, conseguiu tornar-se imune a todos os venenos... até que um bom tijolaço na cabeça liquidou o assunto.
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APARIÇÃO
Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: a lua! - a lua ensanguentada e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.
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EPÍLOGO
Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.
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ESTUFA
Que imaginação depravada têm as orquídeas! A sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas formas, combinações incríveis, como quem procura uma volúpia nova, um sexo novo...
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HISTÓRIA URBANA
Dona Glorinha lê o convite de enterro de João, cujo sobrenome não declaro aqui, para evitar essas divertidas e constrangedoras explicações e declarações de nome igual, mera coincidência etc. Dona Glorinha conhecera João “no seu tempo” de ambos e depois nunca mais o tinha visto — pois constitui um dos mistérios labirínticos das cidades grandes isso de conhecidos e namorados se perderem definitivamente de vista. Dona Glorinha, pensando isto mesmo com outras palavras, vai ao velório de João, encaminha-se direto a ele, ergue-lhe o lenço da face, exclama: “Mas como ele está bem conservado!”
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INFERNO
Em suave andadura de sonho, sob uma infinita série de arco-íris celestiais, anjos me conduziam num palanquim dourado, entre um curioso povo de profetas e virgens, que formavam alas para me ver passar. Mas eu me debruçava inquieto a uma e outra janela: faltava-lhe alguma coisa. Faltava... Faltavam os meus desafetos. Eu só queria era ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me vissem passar, tirado por anjos num palanquim de ouro!
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O ESPIÃO
Bem o conheço. Num espelho de bar, numa vitrina ao acaso do footing, em qualquer vidraça por aí, trocamos às vezes um súbito e inquietante olhar. Não, isto não pode continuar assim. Que tens tu de espionar-me? Que me censuras, fantasma? Que tens a ver com os meus bares, com os meus cigarros, com os meus delírios ambulatórios, com tudo o que não faço na vida!?
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TRÁGICO ACIDENTE DE LEITURA
Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda... O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!
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MÁRIO DE MIRANDA QUINTANA foi um dos poetas mais queridos e traduzidos da literatura brasileira. Conhecido por sua simplicidade, ironia sutil e sensibilidade para as pequenas coisas do cotidiano, ele transformou o comum em poesia mágica. Nasceu em 1906, em Alegrete/RS, e faleceu em 1994 (aos 87 anos), em Porto Alegre/RS. Embora tenha nascido em Alegrete e estudado temporariamente em Curitiba, ele passou a maior parte de sua vida em Porto Alegre. Morou grande parte de sua vida adulta em hotéis, sendo o mais famoso deles o Hotel Majestic, no centro da capital gaúcha (espaço que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana). Trabalhou como jornalista, tradutor e funcionário público. Passou por jornais importantes como O Estado do Rio Grande e o Correio do Povo, onde manteve por décadas a famosa coluna "Caderno H". Como tradutor renomado, verteu para o português obras de grandes autores mundiais como Marcel Proust, Virginia Woolf, Voltaire e Graham Greene.
Estreou oficialmente na literatura em 1940 com a publicação de A Rua dos Cataventos, uma coletânea de sonetos que foi muito bem recebida pela crítica. Ele nunca se casou e não teve filhos, dedicando sua vida quase que inteiramente às palavras e à observação poética do mundo. Quintana tentou por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas não foi eleito em nenhuma delas. Ao ser convidado a se candidatar uma quarta vez com a promessa de unanimidade, ele recusou, imortalizando o episódio com o famoso "Poeminho do Contra" ("Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!"). Ele fez parte, no entanto, da Academia Rio-Grandense de Letras. Obteve Prêmio Fernando Chinaglia (1966) pelo livro Antologia Poética ; Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano (1980); Prêmio Machado de Assis (1980), concedido pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Sua vasta produção literária incluiu poesia, prosa poética e literatura infantojuvenil. Entre suas principais obras destacam-se: A Rua dos Cataventos (1940); Canções (1946); Sapato Florido (1948); Caderno H (1973); Apontamentos de História de Galpão (1976); A Vaca e o Hipogrifo (1977); Esconderijos do Tempo (1980); Baú de Espantos (1986); Preparativos de Viagem (1987).
Mário Quintana ocupa um lugar único na literatura brasileira por sua capacidade de democratizar a poesia sem perder a profundidade. Ele rompeu com o formalismo rígido e aproximou o leitor de temas universais — como a morte, o tempo, a infância e o amor — usando uma linguagem fluida, bem-humorada e despretensiosa. Sua importância reside em ter humanizado a figura do poeta; ele provou que o lirismo não precisa ser erudito ou inacessível para ser genial. Quintana transformou a melancolia em beleza e a rotina urbana em arte, consolidando-se como o "poeta das coisas simples" e uma das vozes mais autênticas e atemporais da cultura nacional.
Fontes:
Mário Quintana. A Vaca e o Hipogrifo. Publicado originalmente em 1977.
Mario Quintana. Sapato florido. Publicado originalmente em 1948.
Biografia = Wikipedia, etc.
Sammis Reachers (Jaú “Liquid-Paper”)
Certa feita, enquanto o hoje também motorista Nildo era ainda manobreiro na mesma Fortaleza, lá chegou Jaú, à noite, recolhendo o carro após sua última viagem. Sempre tranquilo e conversador, naquele dia Jaú estacionou o veículo no meio do pátio e saiu apressado. Assim que ele desceu do veículo, um dos manobradores logo assumiu o volante, pois aquele carro estava na escala para ser lavado (a cada noite eram lavados alguns veículos). Enquanto ele manobrava o carro para posicioná-lo no lavador, Nildo observava e ajudava, de fora do veículo, na manobra.
Porém, logo que os primeiros jatos de água bateram na lataria do ônibus, Nildo notou algo estranho: como num passe de mágica, uma extensa linha começou a surgir na lateral do veículo, em sua parte branca (naquela época os veículos da empresa eram bicolores; branco e marrom). Mas aquela linha não estava ali, Nildo tinha certeza. Ao se aproximar, mesmo molhando-se, nosso amigo percebeu que se tratava na verdade de um enorme arranhão, e que em algumas partes quase rasgara a lataria.
Se você já foi manobreiro, sabe que em muitas empresas o veículo deve ser observado quando retorna à garagem, para verificar se há alguma avaria; caso exista, o motorista é notificado e em geral deve pagar pelo prejuízo. Por outro lado, se o motorista coloca o carro na garagem e ninguém nota nada na hora, depois fica difícil arrumar alguém para assumir a culpa; o motorista pode alegar que não foi ele, que foi o parceiro do outro turno, que já estava assim, ou pior: que a avaria fora feita pelos manobradores, pelo que eles então deveriam pagar.
Isso tudo passou rápido pela cabeça de Nildo, ao perceber aquela enorme linha surgir milagrosamente no veículo. Havia um tipo de tinta sobre o arranhado, mas a tal "tinta" não aguentou a água! Ao olhar lá para a frente, Nildo ainda pôde divisar o velho Jaú, passo apressado, saindo da garagem.
Nosso amigo não perdeu tempo: disparando como um Usain Bolt, Nildo conseguiu alcançar Jaú, a quem segurou pelo braço.
- Peraí, malandro! Tem alguma coisa errada lá no seu carro! Tá com uma enorme avaria lá na lateral! E tinha um tipo de tinta fresca cobrindo!
– Avaria? Tá doido? - tentou desconversar Jaú.
Nisso um dos chefes, que observava a situação, se aproximou e encostou Jaú na parede:
- Como é, seu Jaú? O carro está arranhado e tinha tinta sobre ele?
Jaú tentou se desvencilhar da acusação e gaguejava dando desculpas, nitidamente nervoso, quando o chefe o cortou:
- Olha, você está gaguejando muito, e nem quero saber o que houve: é melhor o senhor admitir agora e pagar o pequeno prejuízo numa boa, uma merreca, do que tomar uma justa causa no dia de amanhã. Vai tomar uma justa causa, hein! Você que sabe. E aí, o que você fez afinal?
Pego de calças arriadas, não teve jeito. O pilantra do Jaú confessou:
- Sabe o que é, chefia... Eu levei uma fechada de um parceiro da (empresa de ônibus) Pendotiba, um barbeiro do #$%&*@, e acabei arranhando a lateral numa caçamba de entulho. Poxa, esse mês eu estou durinho, e pago duas pensões... Aí eu comprei um vidrinho de Toque Mágico, sabe, esses Liquid Paper que usam no colégio, e pintei o arranhado...
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SAMMIS REACHERS é o pseudônimo literário de Sammis Reachers Cristence Silva, uma expressiva voz da literatura independente fluminense. Notabilizou-se no cenário nacional não apenas como um prolífico poeta e ficcionista, mas principalmente por sua intensa atuação como editor e um dos maiores organizadores de antologias literárias do país no século XXI.
Nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1978. Apesar do nascimento em Niterói, cresceu, vive e reside desde sempre no município de São Gonçalo/RJ. O cotidiano, a periferia e a identidade gonçalense são as principais raízes geográficas de sua escrita. Além da forte vocação para as letras, ele atua profissionalmente como professor de Geografia na rede de ensino. Ele costuma brincar dizendo que escreve "no tempo que lhe resta – ou vice-versa". Atua fortemente no universo editorial independente por meio de plataformas de auto-publicação (como a UICLAP) e selos alternativos, ajudando a viabilizar fisicamente e digitalmente obras de novos autores.
Sammis iniciou sua trajetória literária no final da década de 1990, estreando com versos fortemente vinculados à sua vivência regional. No decorrer de mais de duas décadas de produção ininterrupta, ele construiu um vasto catálogo de títulos individuais. Paralelamente, o autor se consolidou no cenário nacional por uma impressionante atuação como antologista. Ele já idealizou e organizou mais de 50 antologias e coletâneas literárias temáticas (muitas de distribuição gratuita em formato digital), reunindo milhares de poemas e contos de centenas de autores marginais, cristãos e independentes de todas as regiões do Brasil. Focado no mercado literário periférico, alternativo e na internet, Sammis Reachers não integra o quadro de membros efetivos das Academias de Letras tradicionais de grande porte (como a ABL), mas se destaca ocupando uma cadeira na Confraria Brasileira de Letras, no Paraná. Sua atuação se dá de maneira descentralizada, dialogando diretamente com coletivos de escritores, jornais culturais locais (como o Jornal Daki e Editora Apologia Brasil) e plataformas de escrita. No Concurso Nacional de Divinópolis (2023) teve sua excelência literária reconhecida nacionalmente ao conquistar o 3º lugar no Concurso Nacional de Literatura, promovido pela Câmara de Vereadores de Divinópolis, em Minas Gerais.
Seu catálogo expandiu-se e conta com mais de doze livros de poesia, cinco volumes de contos/crônicas e incursões pelo romance histórico/ficcional.
Poesia: São Gonçalo de Todos os Santos (1999); Uma Abertura na Noite (2006); A Blindagem Azul (2007); Poemas da Guerra de Inverno (2012); Deus Amanhecer (2013); Pulsátil – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014); Grãnadas (2015); Cartas e retornos (2021).
Prosa: A Ordem Luterana da Cruz Combatente (Romance); 2000 Citações Missionárias (Pesquisa e Compilação); Poesia em 1000 Citações (Compilação Reflexiva); Renato Cascão e Sammy Maluco - uma dupla do balacobaco (histórias sobre a infância dele); Rodorisos (histórias hilárias sobre os motoristas rodoviários da época que ele era motorista).
Organizou as antologias poéticas: Segunda Guerra Mundial - Uma Antologia Poética; Breve Antologia da Poesia Cristã, Poemas sobre Sua Majestade, o livro, etc.
A grande relevância de Sammis Reachers para a literatura brasileira contemporânea reside no seu papel de democratizador do fazer literário e articulador de pontes culturais. Em um país onde o mercado editorial tradicional é altamente centralizado e restrito a poucos nomes, ele utiliza a internet e as antologias cooperativas para retirar do anonimato centenas de novos talentos que não teriam recursos para publicar sozinhos.
Como escritor, sua obra poética transita com competência entre o lirismo cotidiano, a temática histórico-militar e a literatura de inspiração cristã-protestante, descentralizando a narrativa dos grandes eixos urbanos e provando que a periferia do estado do Rio de Janeiro abriga uma produção estética erudita, consciente e de alto impacto social.
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Fontes:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Amazon, Recanto das Letras, UICLAP, Apologia Brasil, Jornal Daki, Confraria Brasileira de Letras.
Estante de Livros ("O Calor das Coisas", de Nélida Piñon) Conto: O Revólver da Paixão
Narrado em 1ª pessoa. Uso constante do modo imperativo.
Espaço
A alma de uma mulher, com sentimentos apaixonados e contraditórios.
Personagens
Narradora – mulher apaixonada e o homem que a deixou. Personagem relata em uma carta seu amor doentio – dominadora. Ela lhe pede que volte e reconhece que não é capaz de controlar seu ciúme.
O conto trata de uma carta em que uma mulher comunica seus sentimentos, ora ameaçadores, ora ternos, contraditórios sempre. Desculpa-se, faz exigências para de novo desculpar-se, de novo exigir. Ela se comunica através da dor que sente de ter sido preterida, de ter perdido aquele a quem ainda ama e sem o qual julga não poder viver.
Conforme o sociólogo italiano Francesco Alberoni (1986), “o enamoramento é um processo no qual a outra pessoa, aquela que encontramos e que nos correspondeu, se nos impõe como o objeto pleno do desejo”, e é esse processo que ocorre com a protagonista do conto “O revólver da paixão”, que é obcecada pelo homem que a abandona. Ainda conforme Alberoni, “a relação de enamoramento é um processo, um achar e perder. A pessoa amada é, ao mesmo tempo, constante e precária, única e diversa, ser empírico e ser ideal”.
De acordo com Roland Barthes (2003), a carta de amor é ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (carregada da vontade de significar o desejo). Esse “conto-carta”, que se encaixa nessa descrição de Barthes, começa da seguinte forma: “Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa”.
Percebe-se, que ela está ressentida e não aceita o término do relacionamento, não aceita que o homem viva longe de sua presença, de seu amor. Para pedir perdão e se queixar, ela se reporta diretamente ao sujeito amado – talvez por isso a escolha, por parte de Nélida, do gênero carta, que permite a genuína expressão em primeira pessoa, a expressão da voz do sujeito enamorado, que nesse caso é a mulher.
Ao afirmar que se perdeu nas palavras que o homem lhe disse, a narradora também atribui a ele a responsabilidade por seu estado: ela não apenas se enamorou, sozinha, mas foi conquistada; e por isso o amado é, para a mulher, covarde e culpável, por despertar seu amor e abandoná-la. Nesse conto, no qual o amor cortês também se deixa entrever, é a mulher quem assume o papel de vassalo no relacionamento: é quem se submete ao objeto amado, quem está sedenta de (mais) dependência . Assim, a narradora-personagem de “O revólver da paixão” sente medo de perder o homem a quem ama. Isso seria, para ela, a morte:
“A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte. Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame”.
Os sentimentos da protagonista em relação ao amado são, como podemos perceber, paradoxais, tendo em vista que ela o ama ao mesmo tempo em que o odeia e sente raiva dele, deseja sua morte ao mesmo tempo em que tem medo de perder seu amor, além de afirmar que não quer vê-lo, enquanto anseia por sua presença. Esses sentimentos paradoxais são próprios do desejo e do sentimento amorosos, que nos impelem a idealizar o outro e a querê-lo mais que tudo, mesmo sabendo que ele é humano e falho, como nós. Por mais que nos decepcionemos com o ser amado, o amor e o prazer de amar nos levam a ansiar por ele, a perdoar e esquecer os erros e ofensas cometidas contra nós, contanto que essa pessoa esteja disposta a continuar conosco e retribuir o que sentimos por ela. Por isso a narradora pede que o homem volte:
“Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós”
Logo, perto ou longe do ser amado, o sujeito amoroso nunca está completamente satisfeito ou pleno. Ainda assim, a narradora-personagem continua a pedir o retorno do homem:
“Volte, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. [...] Amanhã te escreverei, de novo capitulo ante o meu amor.”
Ela admite, então, que cede, transige ante seu amor, pois não tem forças para lutar contra esse sentimento. Como esse amor é mais forte do que ela, não há nada que possa fazer para apagá-lo ou mitigá-lo, por isso a narradora-personagem para de escrever, para que possa apenas sentir o amor, em toda a sua intensidade. Talvez o que ela ame, de fato, não seja o homem, mas o sentimento que ele causa nela, que faz com que se sinta viva, uma vez que o amor pode ser também uma expressão da vida, um modo de sentir e estar no mundo.
Fontes:
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013 in http://www.cliqueapostilas.com.br/
– Joyce Glenda Barros Amorim. Amor, Poder e Violência em Contos de Nélida Piñon. Dissertação de Mestrado. 88 p. Belo Horizonte: UFMG, 2015. (excertos)
Renato Benvindo Frata (Estrelas Pisadas)
Acordou pisando estrelas, estendeu a mão direita no peito apertando o coração descompassado, abriu o sorriso motivado pelo sonho cortado ao meio, respirou fundo com os olhos semicerrados e instintivamente fez um pensamento positivo. O dedão da mão esquerda se enfiou entre o indicador e o pai-de-todos construindo uma figa. O dia prometia. Cobriu melhor Pedrinho que dormia, correu para a pequena sala e com um toco de lápis anotou as dezenas.
Era dia de mega-sena e sonho sonhado em que números que rolavam ao seu encontro era mais que um sinal positivo.
- É hoje que a onça perde as pintas! - Disse ao encostar o joelho no chão diante de Mãe Aparecida. Botou a marmita em banho-maria, terminou de se arrumar e conferiu as horas: cinco e dois. 52!
Pensou e anotou os números. Logo correria a se juntar no ponto dos cortadores de cana, e ouvir a tagarelice das companheiras, as piadas porcas dos homens; sentir o vento gelado cortar-lhe o rosto e o carinho do sereno de fim de noite a lamber seus cabelos formando neles cristais de cobre. Mas seria o dia da redenção: o sonho fora real por demais, diferente de todos os sonhos.
- Vou ganhar na mega! E como primeira coisa comprarei a caixa de lápis de 72 cores para Pedrinho... ~ Prometeu no momento em que o remorso calou na consciência e a fez engolir saliva engrossada com fel por não ter dado ao filho todos os materiais da lista da escola; e acabou com uma caixa de 12 cores no pacote.
Os olhos tristes do menino disseram tudo, mas o que fazer se a grana curta mal dava para o armazém e a farmácia? Fuçou na bolsa, catou a única nota de R$ 2,00, enrolada, tomou o facão e, com farnel às costas fechou a porta. Entregaria o dinheiro ao motorista que era encarregado das apostas do pessoal.
Pedrinho acordaria com o despertador e iria sozinho para a escola; e só o veria de novo na boca da noite quando estaria quem sabe, a pintar as tarefas escolares com 12 cores ao invés de 72. Menino bom, sem maldade no pensar e no agir. O filho que toda mãe gostaria ter.
- O que faria com o prêmio? - Pensava nos solavancos da condução. - Uma casa linda com uma amoreira na janela de onde pudesse dali catar frutas sem ter que ir ao quintal. E uma tonelada de lápis de cor ao Pedrinho para compensar a caixa de 72 que não pôde dar. Melhor, compraria lápis às crianças da cidade, para que não sentissem a vergonha que o filho passara ao ser repreendido por se apresentar com o material escolar incompleto.
- Liga não, filho, - teria dito - dia haverá em que um arco-íris pousará nas mãos e te trará um pote de ouro - e limpou as lágrimas do rosto.
- Só queria os lápis, mãe. - respondera Pedrinho.
Deu de ombros para a lembrança e: - se sonho vale, que se vá o último tostão para conseguir o intento - e o barulho do ônibus abafou sua doideira.
Imaginou-se num quarto lindo, de paredes forradas com papel colorido e um lustre pendente sobre a cama.
Sonho simples como ela.
Lembrou-se dos buracos do zinco que o barraco real carregava desde sempre; e da luz do poste lá fora, quarada da lâmpada de mercúrio, injetada na escuridão do aposento lançando estrelas pelo chão. - Pisava nelas.
Sorriu enviesado entre a certeza do resultado de logo mais e a realidade do aconchego pobre, mas seguro.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (CBL). O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.
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Fontes:
Renato Benvindo Frata. Azaringo e o caga-fogo. Paranavaí/PR: Paranavaí Ed. Gráfica, 2014. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Paraná, Confraria Brasileira de Letras e UCPPARANA.EDU
Silmar Bohrer (Jardim de Versos)
Nas horas mais doces do teu viver
quando o interior está em bonança,
procura ao recôndito então volver,
fazendo contigo mesmo uma aliança.
Dentro do ser encontrarás solução
para criar teu mundo sem arremedo,
penetra nos escaninhos do coração,
dentro de ti mesmo está o segredo.
O divino silêncio torna soberana
essa crisálida que aciona silente
o âmago da tua consciência humana.
Nos teus vagares foventes e a sós
procura ouvir essa musa aliciante
que fala no esconso de todos nós.
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CANETA NOVA
Eis que surge um versinho
para inaugurar nova caneta,
verso pobrete do esteta
recebido com carinho.
O verso pobrete do esteta
tem sido o meu diapasão,
os dias vêm, os dias vão,
vou tentando cobrir a meta.
Os dias vão, os dias vêm,
no versejar itinerante
estou vivendo como ninguém,
Caneta nova entre os dedos
é realmente contagiante,
tecemos versos sem arremedos.
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CANTILENAS
Na rude sina de escrever
não tenho o brilho de versejar,
sem o estro como me atrever
a alguma rima iluminar.
Lendo Confúcio e os sonetos
de Bilac reverberando,
nos parnasianos, nos analetos
a rabiscar vou bem lutando.
São cantigas mãos-atadas,
sem vigor e sem brilho, dezenas
de estrofes versalhadas,
São carmas sem nenhum matiz,
tantos versos cantilenas
e garatujas do bardo aprendiz.
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MENSAGEM
Amados versos que faço nesta hora
todo satisfeito a relembrar o dia
que encarnei no íntimo essa magia
e o sentimento que me ocupa agora.
Não esqueço do seu gracioso olhar
eivando o amor a nossas primícias,
a voz ternura e as maçãs puníceas
são detalhes que não pude olvidar.
Meus olhos leram no seu doce olhar
a mensagem sublime do nosso porvir,
e embevecido, sem poder falar,
Imerso na candura do seu esplendor,
abri o véu da alvorada e vi surgir
a manhã radiosa do nosso amor.
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POETA
Ser poeta! Que esplêndida alegria
sentir a doçura das coisas amenas
para semeá-las nos mádidos poemas
que são versos nossos de cada dia.
Ser poeta! Que estranha felicidade
cantar da vida as mais rudes penas,
liças. misérias, queixumes... dezenas
que abundam neste antro de maldade.
Ser poeta! Que insólita dualidade
determinar nas rimas com harmonia
os quadros diversos da humanidade.
Ser poeta! Qual arauto que anuncia
entre os males da vida e da bondade
um mundo eivado pela divina Poesia.
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PRISIONEIRO
Em nosso mundo cheio de aguilhões
onde os seres aspiram a liberdade,
e com toda força em seus corações
lutam por ela, lutam com ansiedade,
Em nosso mundo eivado de reclamos
onde muitos vivem com a incerteza
de horas felizes e sem desenganos,
embora encontrem neles sua defesa,
Em nosso mundo nocivo que molesta
os corações humanos com embaraços
estoicos aos anelos em cada gesta,
Eu quero ser mesmo um prisioneiro
que goza na peia dos teus abraços
as delícias do nosso amor fagueiro.
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RIQUEZAS
Tirem-me tudo na vida,
mesmo os brilhantes ouropéis,
mas me deixem na guarida
da caneta e dos papéis.
Companhias singulares
que trago na algibeira,
repositório dos pensares
que revolvo a vida inteira.
E assim neste mundo material
vou cultivando perenidades
que fazem bem ao meu astral,
Quais delícias inefáveis
os meus versos raridades
são riquezas inalienáveis.
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O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.
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Fonte:
Recanto das Letras do poeta
Biografia = Confraria Brasileira de Letras, etc.
Carolina Ramos (A Cadeira Velha)
Aquela cadeira velha, abandonada à porta do casarão, atraia-o, irresistivelmente. Jogada fora, não havia dúvida. E o que é jogado fora, não é de ninguém. E o que era de ninguém, bem que poderia vir a ser seu.
Cruzou a rua. Não em linha reta. Faltou-lhe coragem.
Andou um pouco para adiante do objeto da sua fascinação e, então, atravessou. Voltou, sem pressa, em direção à cadeira. Pisava macio, como quem não quer nada.
Parou diante dela. Namorou-a. Linda! Forro de veludo cor de ouro. Desbotado. E o que importava? Quantos dias de glória já teria tido! Tocou-a com carinho. Só tinha um braço. A cadeira, naturalmente. E para que mais? Pernas finas, torneadas com requinte. Uma delas rachada. Este, possivelmente, o estigma da condenação. Prometia um tombo de surpresa. Rico não conserta. Remediado, sim. Pobre, como ele, não despreza sobras. A cadeira tinha estirpe. Vinha, por certo, de família abastada. Tomou a acariciá-la. Experimentou-lhe o peso. Não seria difícil carregá-la. Acomodou-a sobre os ombros. Chegou a assobiar, enquanto caminhava.
Ao pé do morro, a coisa complicou-se. O peso e a ladeira podem tornar-se aliados temíveis.
Engoliu a vontade de assobiar. O suor a escorrer em bagas. Os ombros a reclamar do peso. Entrar no barraco, pela porta estreita, também não foi fácil. Venceram o jeito e a determinação.
A visão da cadeira à cabeceira da tosca mesa, compensou qualquer esforço. Desbotada, rachada, sem um braço, mas, sua! A sua cadeira. O trono de um rei! Nem ousou experimentá-la. Antes, um bom banho. Caprichou na aparência, como nunca o fizera. Só então, sentiu-se digno de ocupar tão nobre assento.
Sentou-se com extremo cuidado. Divina!
Sentiu-se um rei! Um rei sem coroa, sem súditos, mas, em pleno domínio de sua propriedade.
Lembrou-se da "coroa". Aquela "coroa" bonita, que não lhe saía da cabeça... a viúva do vizinho.
Era só: — Oi, bom dia... ou: — Oi, boa tarde...
Nunca lhe dissera nada de mais íntimo, nem mesmo quando sentia dois olhos tigrados, procurando os seus.
Gostaria de convidá-la para conhecer o barraco. Perdia a coragem, tão logo a via.
E lá estava ela, com toda a exuberante graça de mulher vívida, a acarinhar a cabeça do cachorro pulguento. Chegou a invejá-lo!
— Ei, dona, quer ver o que eu trouxe, lá de baixo?
Ela sorriu. Pela primeira vez, via o vizinho lavado, penteado e de roupa limpa. Com um misto de malícia e brejeirice, cruzou a porta do barraco.
Orgulhoso, ele mostrou-lhe a cadeira, o seu trono.
E, por toda uma noite, foi verdadeiramente um rei!
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CAROLINA RAMOS DE OLIVEIRA, popularmente conhecida no meio literário como Carolina Ramos, é a “Primeira-Dama da Trova Brasileira” ou “Princesa da Trova”. Nascida em Santos/SP, em 1924, é um dos maiores nomes da literatura de quadras rimadas (trovas) no país e completou seu centenário em 2024 mantendo-se ativa na cultura.
Carolina Ramos nasceu, cresceu e reside até hoje na cidade de Santos (SP). Sua infância foi vivida em um lar singelo na Vila dos Andradas, área que atualmente abriga a Rodoviária de Santos. Ela possui um vínculo afetivo profundo e histórico com a baixada santista. Sua formação é múltipla e abrange diversas vertentes da educação e da arte. Formou-se professora pela Escola Normal do tradicional Colégio São José, onde também estudou Secretariado. Atuou lecionando e compondo hinos para instituições educacionais e culturais. Formou-se em piano, teoria, pedagogia e história da música no Instituto Musical Santa Cecília. Estudou também folclore no Instituto Musical Carlos Gomes. Atuou como artista plástica autodidata, conquistando reconhecimento e premiações em exposições nacionais e internacionais. Além disso, realizou curso de enfermagem socorrista pela Cruz Vermelha. Serviu como administradora cultural de destaque, tendo inclusive presidido o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) entre os anos de 2001 e 2007.
O despertar literário definitivo de Carolina ocorreu durante suas noites de insônia após o nascimento de sua segunda filha. Ela começou a compor versos tradicionais e, rapidamente, o seu domínio técnico da trova chamou a atenção dos grandes nomes da época. Em um episódio célebre, o lendário poeta Luiz Otávio (fundador da União Brasileira de Trovadores) apresentou-a publicamente sacramentando seu talento. Carolina Ramos é considerada uma verdadeira guardiã da trova no Brasil. Ela dedicou décadas a ensinar, divulgar e estruturar o movimento trovadoresco, aproximando a poesia clássica e popular do leitor comum e influenciando gerações de novos escritores. Ocupa cadeiras de prestígio em importantes sodalícios culturais do país, como União Brasileira de Trovadores: Presidiu a seção municipal de Santos e alcançou o topo da liderança institucional ao presidir o Conselho Nacional em 2011; Academia Santista de Letras; Academia Cristã de Letras (ACL), com sede em São Paulo; Academia Feminina de Letras; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), onde ocupa a cadeira número 46.
Acumulou incontáveis premiações nos gêneros de poesia, conto, crônica e trova ao redor do mundo. No universo da trova, recebeu as maiores honrarias possíveis do movimento nacional: Título máximo de Magnífica Trovadora nos renomados Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ), conquistado em 1973; Menção e título de Notável Trovadora concedido pelas cidades de Divinópolis e Pouso Alegre, em Minas Gerais.
Com uma vasta produção literária, a autora publicou 16 livros transitando com maestria entre a prosa e a poesia. Entre alguns de seus títulos estão: Cantigas Feitas de Sonho; Peregrinação; ‘O Príncipe da Trova — livro biográfico e afetivo no qual narra a vida, a morte e o convívio poético com Luiz Otávio, o fundador do movimento trovadoresco nacional.
Carolina Ramos é considerada uma das maiores instituições vivas da literatura popular e clássica brasileira, exercendo um papel fundamental na preservação da memória literária nacional. A sua importância para a literatura se resume em que atuou na linha de frente para que a trova, vinda da Idade Média, ganhasse temáticas modernas, urbanas e cotidianas, mantendo o gênero atraente para as novas gerações. Ao publicar obras como O Príncipe da Trova, Carolina Ramos registrou a história viva e os bastidores da era de ouro da poesia nacional. Ela documentou o legado de Luiz Otávio e de outros grandes intelectuais do século XX, servindo como uma fonte histórica essencial para pesquisadores da literatura brasileira. Em uma época em que o ambiente acadêmico e literário era predominantemente dominado por homens, Carolina Ramos conquistou os títulos máximos da poesia brasileira por mérito técnico incontestável. Ela abriu portas para que mulheres escritoras ocupassem cadeiras de prestígio nas academias de letras e assumissem cargos de liderança cultural e intelectual.
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Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras, etc.
Contos e Lendas da China (O Homem que vendia fantasmas)
Quando Sung Tingpo, de Nanyang, era ainda rapaz estava passeando certa noite quando encontrou-se com uma fantasma. Perguntou à aparição quem era e ela respondeu que era um fantasma.
- "Quem é você ?" perguntou por sua vez o fantasma.
Tingpo mentiu e respondeu - "Eu também sou um fantasma."
O fantasma então quis saber para onde ele ia e Tingpo informou - "Estou a caminho para a cidade de Wanshih."
- "Também vou para lá," afirmou a aparição.
Assim puseram-se a caminhar juntos. Após uma milha, se tanto, o fantasma disse que era estupidez estarem andando ambos quando um podia carregar o outro, por turnos.
- "Ótima ideia," achou Tingpo.
O fantasma pôs Tingpo às costas e depois de ter andado uma milha disse: - "Você é pesado demais para um fantasma. Tem certeza de que é um fantasma mesmo?"
Tingpo explicou que ainda era um fantasma novo e que, por conseguinte, ainda pesava um pouco. Tingpo, por sua vez, pôs-se a carregar o fantasma, mas esse era tão leve que tinha a impressão de não estar carregando nada. Assim foram caminhando, revezando-se, até que Tingpo perguntou ao companheiro qual era a coisa que metia mais medo aos fantasmas.
- "Os fantasmas têm um medo horrível da saliva humana", afirmou o fantasma.
Assim foram andando, andando até que chegaram a um rio. Tingpo deixou que o fantasma fosse adiante e observou que ele não fazia barulho algum ao nadar, mas quando ele entrou n’água, o fantasma ouviu o estalar na água e pediu-lhe uma explicação.
Tingpo explicou novamente - "Não se surpreenda, pois ainda sou muito novo e não estou ainda acostumado a atravessar a correnteza."
No momento em que se aproximavam da cidade, Tingpo começou a carregar o fantasma nas costas apertando-o fortemente. O fantasma pôs-se a gritar e a chorar lutando para apear-se, porém Tingpo o apertou com mais força ainda.
Ao chegar às ruas da cidade, soltou-o e o fantasma se transformou num bode. Tingpo cuspiu no animal a fim de que não pudesse transformar-se outra vez, vendeu-o por mil e quinhentos dinheiros e foi para casa.
Eis a razão do ditado de Shih Tsung: "Tingpo vendeu um fantasma por mil e quinhentos dinheiros.”
Fonte:
Contos de Encantar.








