Certa feita, enquanto o hoje também motorista Nildo era ainda manobreiro na mesma Fortaleza, lá chegou Jaú, à noite, recolhendo o carro após sua última viagem. Sempre tranquilo e conversador, naquele dia Jaú estacionou o veículo no meio do pátio e saiu apressado. Assim que ele desceu do veículo, um dos manobradores logo assumiu o volante, pois aquele carro estava na escala para ser lavado (a cada noite eram lavados alguns veículos). Enquanto ele manobrava o carro para posicioná-lo no lavador, Nildo observava e ajudava, de fora do veículo, na manobra.
Porém, logo que os primeiros jatos de água bateram na lataria do ônibus, Nildo notou algo estranho: como num passe de mágica, uma extensa linha começou a surgir na lateral do veículo, em sua parte branca (naquela época os veículos da empresa eram bicolores; branco e marrom). Mas aquela linha não estava ali, Nildo tinha certeza. Ao se aproximar, mesmo molhando-se, nosso amigo percebeu que se tratava na verdade de um enorme arranhão, e que em algumas partes quase rasgara a lataria.
Se você já foi manobreiro, sabe que em muitas empresas o veículo deve ser observado quando retorna à garagem, para verificar se há alguma avaria; caso exista, o motorista é notificado e em geral deve pagar pelo prejuízo. Por outro lado, se o motorista coloca o carro na garagem e ninguém nota nada na hora, depois fica difícil arrumar alguém para assumir a culpa; o motorista pode alegar que não foi ele, que foi o parceiro do outro turno, que já estava assim, ou pior: que a avaria fora feita pelos manobradores, pelo que eles então deveriam pagar.
Isso tudo passou rápido pela cabeça de Nildo, ao perceber aquela enorme linha surgir milagrosamente no veículo. Havia um tipo de tinta sobre o arranhado, mas a tal "tinta" não aguentou a água! Ao olhar lá para a frente, Nildo ainda pôde divisar o velho Jaú, passo apressado, saindo da garagem.
Nosso amigo não perdeu tempo: disparando como um Usain Bolt, Nildo conseguiu alcançar Jaú, a quem segurou pelo braço.
- Peraí, malandro! Tem alguma coisa errada lá no seu carro! Tá com uma enorme avaria lá na lateral! E tinha um tipo de tinta fresca cobrindo!
– Avaria? Tá doido? - tentou desconversar Jaú.
Nisso um dos chefes, que observava a situação, se aproximou e encostou Jaú na parede:
- Como é, seu Jaú? O carro está arranhado e tinha tinta sobre ele?
Jaú tentou se desvencilhar da acusação e gaguejava dando desculpas, nitidamente nervoso, quando o chefe o cortou:
- Olha, você está gaguejando muito, e nem quero saber o que houve: é melhor o senhor admitir agora e pagar o pequeno prejuízo numa boa, uma merreca, do que tomar uma justa causa no dia de amanhã. Vai tomar uma justa causa, hein! Você que sabe. E aí, o que você fez afinal?
Pego de calças arriadas, não teve jeito. O pilantra do Jaú confessou:
- Sabe o que é, chefia... Eu levei uma fechada de um parceiro da (empresa de ônibus) Pendotiba, um barbeiro do #$%&*@, e acabei arranhando a lateral numa caçamba de entulho. Poxa, esse mês eu estou durinho, e pago duas pensões... Aí eu comprei um vidrinho de Toque Mágico, sabe, esses Liquid Paper que usam no colégio, e pintei o arranhado...
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SAMMIS REACHERS é o pseudônimo literário de Sammis Reachers Cristence Silva, uma expressiva voz da literatura independente fluminense. Notabilizou-se no cenário nacional não apenas como um prolífico poeta e ficcionista, mas principalmente por sua intensa atuação como editor e um dos maiores organizadores de antologias literárias do país no século XXI.
Nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1978. Apesar do nascimento em Niterói, cresceu, vive e reside desde sempre no município de São Gonçalo/RJ. O cotidiano, a periferia e a identidade gonçalense são as principais raízes geográficas de sua escrita. Além da forte vocação para as letras, ele atua profissionalmente como professor de Geografia na rede de ensino. Ele costuma brincar dizendo que escreve "no tempo que lhe resta – ou vice-versa". Atua fortemente no universo editorial independente por meio de plataformas de auto-publicação (como a UICLAP) e selos alternativos, ajudando a viabilizar fisicamente e digitalmente obras de novos autores.
Sammis iniciou sua trajetória literária no final da década de 1990, estreando com versos fortemente vinculados à sua vivência regional. No decorrer de mais de duas décadas de produção ininterrupta, ele construiu um vasto catálogo de títulos individuais. Paralelamente, o autor se consolidou no cenário nacional por uma impressionante atuação como antologista. Ele já idealizou e organizou mais de 50 antologias e coletâneas literárias temáticas (muitas de distribuição gratuita em formato digital), reunindo milhares de poemas e contos de centenas de autores marginais, cristãos e independentes de todas as regiões do Brasil. Focado no mercado literário periférico, alternativo e na internet, Sammis Reachers não integra o quadro de membros efetivos das Academias de Letras tradicionais de grande porte (como a ABL), mas se destaca ocupando uma cadeira na Confraria Brasileira de Letras, no Paraná. Sua atuação se dá de maneira descentralizada, dialogando diretamente com coletivos de escritores, jornais culturais locais (como o Jornal Daki e Editora Apologia Brasil) e plataformas de escrita. No Concurso Nacional de Divinópolis (2023) teve sua excelência literária reconhecida nacionalmente ao conquistar o 3º lugar no Concurso Nacional de Literatura, promovido pela Câmara de Vereadores de Divinópolis, em Minas Gerais.
Seu catálogo expandiu-se e conta com mais de doze livros de poesia, cinco volumes de contos/crônicas e incursões pelo romance histórico/ficcional.
Poesia: São Gonçalo de Todos os Santos (1999); Uma Abertura na Noite (2006); A Blindagem Azul (2007); Poemas da Guerra de Inverno (2012); Deus Amanhecer (2013); Pulsátil – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014); Grãnadas (2015); Cartas e retornos (2021).
Prosa: A Ordem Luterana da Cruz Combatente (Romance); 2000 Citações Missionárias (Pesquisa e Compilação); Poesia em 1000 Citações (Compilação Reflexiva); Renato Cascão e Sammy Maluco - uma dupla do balacobaco (histórias sobre a infância dele); Rodorisos (histórias hilárias sobre os motoristas rodoviários da época que ele era motorista).
Organizou as antologias poéticas: Segunda Guerra Mundial - Uma Antologia Poética; Breve Antologia da Poesia Cristã, Poemas sobre Sua Majestade, o livro, etc.
A grande relevância de Sammis Reachers para a literatura brasileira contemporânea reside no seu papel de democratizador do fazer literário e articulador de pontes culturais. Em um país onde o mercado editorial tradicional é altamente centralizado e restrito a poucos nomes, ele utiliza a internet e as antologias cooperativas para retirar do anonimato centenas de novos talentos que não teriam recursos para publicar sozinhos.
Como escritor, sua obra poética transita com competência entre o lirismo cotidiano, a temática histórico-militar e a literatura de inspiração cristã-protestante, descentralizando a narrativa dos grandes eixos urbanos e provando que a periferia do estado do Rio de Janeiro abriga uma produção estética erudita, consciente e de alto impacto social.
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Fontes:
Ron Letta (Sammis Reachers). Rodorisos: histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários.
São Gonçalo: Ed. do Autor, 2021. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Amazon, Recanto das Letras, UICLAP, Apologia Brasil, Jornal Daki, Confraria Brasileira de Letras.

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