Diz que certa vez o duque de Windsor, em Paris, foi visitar a exposição que lá fazia Portinari e se interessou por comprar um quadro:
― O senhor não terá alguma pintura de flores?
E Candinho, botando o seu olho azul e irônico no ex-rei:
― Não senhor. Só tenho miséria.
*
Assim me sinto hoje em dia. Queria escrever uma história gentil, contando a adaptação de uma família pau-de-arara que deixou as asperezas da catinga nativa pelas grandezas de São Paulo. Mas não saem flores, só sai miséria.
Começa o caso com o embarque de trem no Quixadá, em procura do Crato, ponto final da linha de ônibus para São Paulo.
Mas passemos por alto essa viagem de quatrocentos e tantos quilômetros no trem superlotado, atrasado, descarrilado; a chegada ao Crato já tarde da noite, a procura de pensão, as crianças chorando, as trouxas perdidas, nem uma porta aberta onde se comprasse uma bolacha.
Passemos, ah passemos ainda mais por alto a viagem de ônibus, três mil e quatrocentos quilômetros através da Transnordestina e depois a Rio-Bahia e depois a Via Dutra. Tudo são dores e enjoo, calor e poeira, sacolejos e esperas de dias quando há um prego, sempre no maior desconforto, sem falar na saudade e no medo da mudança, que isso já nem são desconfortos, são metafísicas. E a gente queria contar uma história gentil.
Depois vem a chegada em São Paulo.
Foi Ribamar, o irmão, que numa loucura de generosidade mandou chamar a tribo toda, incluindo a mãe viúva, os irmãos casados, a mana solteira e os dois sobrinhos órfãos. Pagou as passagens, mas não os pôde esperar na estação. O ônibus não tem hora de chegada, quando muito tem um dia, e isso não contando os pregos. Felizmente o Ribamar teve a ideia de mandar em carta o número do telefone de um botequim de onde o poderiam chamar por favor na obra em que trabalhava.
Mas aí veio o problema de falar no telefone, coisa que ninguém da família sabia. E de onde telefonar? O Eliseu, o mais velho e mais expedito, teve a ideia de perguntar a um passante se ele sabia onde é que ficava aquele telefone. O paulista aí gozou a besteira do baiano, e o Eliseu foi se danando, porque para começo de conversa ele não é baiano, nunca teve parente baiano e até não gosta muito de baiano. Mas o paulista depois de gozar um pouco, mostrou a sua boa vontade e deu o telefonema, chamando o Ribamar. Que mandou a família esperar com paciência na rodoviária, enquanto ele tomava condução e os alcançava. Se acomodaram mal e mal pelos bancos da estação e ficaram esperando. Horas, horas. Cansados, com fome. E o frio? Frio aliás já vinha ocupando lugar importante na vida deles, penetrando os uniformes de brim dos homens, os vestidos delgados das mulheres, desde que haviam começado a escalar as altitudes de Minas Gerais. E agora ali na cidade, enquanto uma garoa fina começava a penetrar o ar escuro, o frio passava pelos panos de algodão como luz pelo vidro, furava a pele e ia morder os ossos.
Afinal apareceu o Ribamar ― de óculos escuros, blusão de couro, quem visse dizia que era um aviador. Falando animado, mas sentia-se que estava um pouco tonto com aquele povaréu todo que lhe caía assim às costas, nove pessoas!
Como é que ia botar tudo no quartinho de aluguel que arranjara numa favela improvisada pros lados da Cantareira, por nome a Nova Bahia?
Aliás, segundo explicava um carioca lá residente, o povo só chama aquilo de favela é por ignorância. Porque favela, em linguagem do Rio, quer dizer morro, paisagem, arquitetura de passarinho e não aqueles barracos sujos entre a lama e o alagadiço. Favela é berço de samba, que o carioca dizia. Mas o pessoal deu para chamar favela a tudo que é acampamento de pobre e depois do diário da Carolina ficou por favela mesmo e pronto. Ninguém pode com literatura.
A tia da namorada do Ribamar arranjara-lhe um cartão de matrícula para a família na seção de empregos das Obras Sociais de São Jorge.
Mas caridade particular, quando é feita em escala muito larga, vira igual coisa de governo: se burocratiza. As moças da Obra têm muita boa vontade, fazem as cartas de recomendação solicitando emprego às firmas, mas não vão saber se as cartas são atendidas, não é mesmo?
Seria impossível acompanhar cada pobre. Ver se o bilhete é recebido. Se o hospital tem leito vago. Se há vaga de emprego.
Organiza-se uma imensa máquina para trabalhar pelo amor de Deus ― mas parece que Deus não gosta de máquinas. Ademais, os caminhos de Deus são tão difíceis. Quem faz o gesto já acha que fez muito. E acaba ficando tudo na formalidade da apresentação — depois se entrega a Deus. E parece que até Deus se cansa.
Fica o coitado andando de Pilatos a Herodes, com o cartãozinho da Obra. Quando os homens do emprego desenganam logo, ainda bem, mas quando ficam cozinhando com pouco fogo ― venha amanhã, venha depois, só passadas cinco horas, amanhã não que é sábado, segunda também não, pensando bem só na terça... E o pobre tomando condução pra lá e pra cá, e gastando sapato, e paciência, e esperança... Ai, só quem sente sabe.
No fim foram vendo que só podiam contar com eles mesmos, e como eram nove, não incluindo o Ribamar, era afinal bastante gente.
Quem primeiro se empregou foi mesmo o Eliseu. Numa construção. Imagine quem toda a vida foi vaqueiro, no costume de não carregar nem o próprio corpo, pois só andava montado, virar servente de pedreiro, com o mestre a toda hora gritando pela massa, e o pobre de chouto com a lata na cabeça. Já estava de moleira baixa de tanto carregar peso.
E ainda se dava por feliz porque sendo ele o primeiro a se empregar, foi a bem dizer também o único. Os outros ainda estão na mão. A Zuila se colocou de aprendiz num salão de manicure, mas sem salário. O Francisquinho está pensando em sentar praça para ter caderneta de serviço militar. Os pequenos precisam é de escola. A velha, quando arranja o quê, cozinha. E tudo comendo, vestindo, andando, gastando calçado e condução. E tirando de onde?
O Ribamar que o diga — já vendeu o blusão de couro, os óculos, e empenhou o relógio.
Ai, São Paulo é muito bom, mas cidade grande é fogo. E o Ceará tão longe! E ainda por cima ser tratado de baiano.
*
Desculpem. Mas eu não disse que só tinha miséria?
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RACHEL DE QUEIROZ foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira, consagrada como a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e um dos principais nomes da segunda fase do Modernismo (Geração de 30). Nascida em Fortaleza/CE, em 1910. Pelo lado materno, era descendente da estirpe de José de Alencar. Faleceu aos 92 anos, no Rio de Janeiro em 2003, vítima de um enfarte enquanto dormia em sua rede. Passou a primeira infância na Fazenda Junco, em Quixadá/CE. Em 1917, para fugir dos impactos da histórica seca de 1915, migrou com a família para o Rio de Janeiro e, logo em seguida, para Belém/PA. Retornou a Fortaleza em 1919. Na idade adulta, dividiu sua vida por décadas entre o apartamento no Rio de Janeiro, onde trabalhava e a sua amada fazenda "Não Me Deixes", em Quixadá, seu refúgio sertanejo no Ceará. Diplomou-se professora de história aos 15 anos. Contudo, destacou-se massivamente como jornalista e cronista, escrevendo por mais de 30 anos para a revista O Cruzeiro e para jornais como O Povo e Diário de Notícias. Atuou intensamente como tradutora, vertendo mais de 40 obras de autores clássicos (como Jane Austen e Dostoiévski) para o português. Teve também uma importante atuação política na juventude, ligada ao Partido Comunista (do qual se afastou posteriormente), e chegou a ser cotada para o cargo de Ministra da Educação.
Fez história em 1977 ao ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição (Cadeira nº 5). Também foi membra da Academia Cearense de Letras. Sua estreia na literatura ocorreu de forma meteórica em 1930, aos 20 anos de idade, com o romance O Quinze. O livro causou grande impacto nacional pela maturidade com que uma jovem mulher tratava a tragédia social e humana da seca nordestina. Recebeu o Prêmio Graça Aranha por O Quinze (1931). Ao longo da carreira, foi agraciada com o Prêmio Jabuti (1970) e o Prêmio Juca Pato (1993). Em 1993, quebrou mais um tabu ao ser a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o reconhecimento literário mais importante da língua portuguesa.
Principais livros publicados: O Quinze (1930) – Romance de estreia e marco do regionalismo modernista; João Miguel (1932) – Romance focado na realidade carcerária do sertão; Caminho de Pedras (1937) – Obra de forte teor político e social; As Três Marias (1939) – Livro que discute a condição feminina urbana; O Galo de Ouro (1950) – Romance publicado inicialmente em folhetim; Memorial de Maria Moura (1992) – Épico sobre o cangaço e sua última grande obra-prima, adaptada com enorme sucesso como minissérie de TV; Lampião (1953) – Peça de teatro de grande sucesso.
A relevância de Rachel de Queiroz é imensurável sob dois aspectos fundamentais: artístico e social. No plano artístico, ela ajudou a redefinir o romance regionalista brasileiro, despindo o sertão de qualquer romantismo idealizado. Sua prosa era firme, enxuta, realista e de uma sensibilidade cortante, focada nas dores da desigualdade, do patriarcado e da miséria. No plano social, Rachel foi uma pioneira absoluta na emancipação e ocupação de espaços pelas mulheres no ecossistema intelectual do país. Em uma época na qual o meio literário era dominado quase que exclusivamente por homens, ela impôs sua voz e abriu as portas da Academia Brasileira de Letras para as escritoras que viriam depois. Sua escrita deu voz aos esquecidos do sertão e fixou para sempre o ponto de vista feminino na história literária nacional.
Fontes:
O Cruzeiro. RJ: 16 jun 1962
Biografia = Brasil Escola, Português, Educa Mais Brasil, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, E-biografia, etc.

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